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ENSAIO 100: HELLBOY

  • Foto do escritor: LFMontag
    LFMontag
  • 14 de abr.
  • 10 min de leitura

Atualizado: 28 de abr.

Foto: Ayrton Cruz


Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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27/04/2026


HELLBOY


Você pode se orgulhar exatamente pelos mesmos motivos os quais tentam te envergonhar.


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To carve out dials quaintly, point by point,

Thereby to see the minutes how they run,

How many make the hour full complete;


How many hours bring about the day;

How many days will finish up the year;

How many years a mortal man may live.


- Henry VI, Part III - William Shakespeare


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Born under a bad sign

Been down since I began to crawl

If it wasn't for bad luck

You know, I wouldn't have no luck at all


- Albert King - Born Under A Bad Sign


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Uma garrafa de água é gratuita na natureza, custa um dólar em uma loja de conveniência, cinco na academia, dez em um aeroporto e até quinze em um avião.


Você não é inútil, talvez esteja apenas matando a sede dos outros no lugar errado.


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Na filosofia do Taoísmo existe a seguinte frase: Uma árvore torta vive a sua própria vida, mas uma árvore reta é transformada em madeira.


Esta frase tem origem em uma história conhecida sobre uma grande árvore retorcida que os carpinteiros ignoravam porque sua madeira era inútil para construção e, por nunca ter sido cortada, conseguiu viver toda a sua vida natural.


No pensamento taoísta, ser útil em um sentido rígido e convencional frequentemente torna a pessoa alvo de exploração, controle ou esgotamento. Em contraste, aqueles que são não convencionais, ignorados ou que não se encaixam nos padrões estreitos da sociedade conseguem preservar sua liberdade e longevidade.


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Ostranenie, traduzido como “desfamiliarização” ou “tornar estranho”, é uma técnica artística cunhada pelo formalista russo Victor Shklovsky em 1917 e consiste em apresentar objetos ou experiências comuns, familiares ou automáticos de maneira incomum, forçando o público a percebê-los de forma renovada e intensificada, em vez de simplesmente reconhecê-los de modo habitual.


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Atalho em inglês é “desire path”, uma trilha não planejada criada pelo desejo humano de sempre tomar o caminho mais curto até o destino, geralmente surgindo em campus universitário, praças ou grandes cidades, esses caminhos mostram como a vontade das pessoas pode ser mais forte do que qualquer sistema estabelecido anteriormente.



Por outro lado o termo “Sirat” em árabe significa “caminho” ou “via” e a etimologia não é totalmente consensual, a raiz está associada à ideia de “engolir” ou “absorver”, o que alguns linguistas interpretam como um "caminho que leva adiante” ou “absorve quem o percorre”.


O termo ganha peso com o alcorão no sentido de “o caminho reto” ou “o caminho correto”, representando a vida alinhada à vontade divina, ética e prática religiosa adequada.



Na teologia islâmica posterior, especialmente nos hadiths, sirat passa a designar a “As-Sirat” (Ponte do Sirat): uma ponte sobre o inferno, mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma lâmina, pela qual todos devem atravessar no Dia do Juízo, com a travessia dependendo das ações em vida — alguns passam rapidamente, outros caem, sem atalhos.


Para muitos, essa ponte é a vida na Terra.


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Noel Gallagher disse sobre o seu irmão:


- Ele é um homem com um garfo em um mundo de sopa.


Ouvi de um amigo:


- Você vive pisando em ovos, com a intenção de quebrar.


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Em 1770, durante a primeira viagem do tenente James Cook à Austrália, a tripulação registrou a palavra usada para o grande marsupial saltador que observaram como “kanguru” ou “kangooroo”.


Esse termo foi adotado da língua guugu yimithirr, referindo-se especificamente a gangurru (ou gangurru), que designava uma espécie grande de canguru de coloração cinza-escura ou preta, provavelmente o canguru-cinzento-oriental.


Consta que, quando Cook perguntou a um aborígene o nome do animal, a resposta “gangurru” significava na verdade “eu não entendo você”.


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Na psicanálise freudiana a sublimação é um mecanismo de defesa maduro, em que a energia de um impulso primitivo (geralmente sexual ou agressivo) é transformada em algo socialmente aceito ou criativo: arte, ciência, humor, espiritualidade, esporte; em vez de agir com inveja ou raiva contra alguém, a pessoa canaliza essa energia em produzir algo, superar-se, criar, escrever ou aprender.


Sublimando nos ares, o único pássaro que ousa bicar uma águia é o corvo.


O corvo pousa nas costas da águia e bica o seu pescoço. A águia não reage, nem luta contra; ela não gasta tempo ou energia com ele e em vez disso, apenas abre as asas e começa a subir mais alto nos céus: quanto mais alto o voo, mais difícil fica para o corvo respirar, e eventualmente cai por falta de oxigênio.



Mas existe um detalhe aqui.


[SOMENTE LIVRO]


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Logo no início do filme The Life of Chuck de 2024, dirigido por Mike Flanagan e baseado num conto de Stephen King, o personagem Marty está em uma ligação telefônica com a sua ex-esposa, Felícia, e ela lhe pergunta sobre o fim do universo que, ao que tudo indica, está próximo.


Ele então responde:


- I'm teaching the kids Carl Sagan right now.


You ever hear what he said about the cosmic calendar?

Uh... I don't know.

I don't think so.


Well, the universe is 15 billion years old.


And if you took all of that, all, all 15 billion years and compress them into a single calendar year, then the Big Bang happens in the first second, January 1st.


And, and today, oh, right now, we're in the final millisecond of the last minute of the last day, December 31st.


But if you go back to the start, if the, if the Big Bang happens at midnight, January 1st, then each month of this calendar is one and a quarter billion years long.


Hey, nobody told me there was math on this exam.

The universe starts January 1st, but the, uh, the Milky Way didn't form until May.


Our sun and our earth, they don't show up until mid-September.

Life appears soon after.

But not us.

No.


No, no, we don't appear for guess how long?

Again, I was told there'd be no math.


December 31st.


Last day on the calendar, and the very first human beings on Earth made their debut around 10:30 p.m. 10:30 p.m. on the last day.


And, um, every minute since then is 30,000 years.


So, 11:46 p.m., only 14 minutes ago, humanity tamed fire and now we're out of minutes, we're into seconds.


11:59 and 20 seconds, the domestication of plants and animals begin, an application for the human talent for making tools.


11:59 and 35 seconds, agricultural communities evolved into the first cities.


Our recorded history, everyone we've ever heard of, every single thing in any one of our history books... happens in the last 10 seconds.


The last 10 seconds of the last minute of the last day on the calendar.

December 31st.


So how long is it gonna go on?


I don't know, Fel.


If you're right, and you might be, that this really is the, the last times and the universe is dying, and let's just say it's a fast death, even if all of this is happening in the, the last split second, microsecond, who knows how long that'll last.


Maybe seconds, maybe eons.


Maybe all this is happening as the cosmos burps out its last breath.

Maybe it's all happening in the last single solitary heartbeat.


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Ao contrário de Xangô, Hellboy não promove justiça por ter sido destinado a isso, mas como resultado de uma luta interna.


O personagem surgiu como uma criação de Mike Mignola no início dos anos 90, inicialmente como um esboço pessoal inspirado por folclore, horror gótico e histórias pulp.


A origem do personagem é diretamente ligada ao ocultismo: ele foi invocado na Terra durante a Segunda Guerra Mundial pelo feiticeiro russo Grigori Rasputin como parte de um experimento nazista, mas acabou sendo encontrado e adotado ainda bebê pelo professor Trevor Bruttenholm, e criado como humano, educado dentro do Bureau for Paranormal Research and Defense, dedicada a investigar ameaças sobrenaturais.


Apesar de sua aparência demoníaca (pele vermelha, chifres serrados e a “Right Hand of Doom”) desenvolve uma personalidade profundamente humana, marcada por senso de humor seco, cansaço existencial e rejeição do próprio destino.


Ao longo das histórias ele abandona progressivamente o trabalho e embarca em jornadas mais solitárias, confrontando sua herança infernal e as profecias que o colocam como agente do apocalipse.


Diferente de heróis tradicionais, Hellboy não busca salvar o mundo por idealismo mas por uma espécie de resistência pessoal contra o seu destino e esse conflito interno sustenta a progressão da trama: ele é simultaneamente uma arma cósmica e alguém tentando viver de forma simples, gosta de gatos, charutos, panquecas e isolamento.


Sua jornada é menos sobre vitória e mais sobre aceitação, onde ele literalmente desce ao inferno e enfrenta seu próprio papel no equilíbrio entre mundos e por isso raspa os próprios chifres como um ato deliberado de negação da sua natureza demoníaca pois os chifres completos são um símbolo direto da sua identidade como Anung Un Rama, destinada a trazer o apocalipse.


Psicologicamente, isso expõe o conflito central do personagem; ele não está em dúvida sobre o que é (ele sabe exatamente) mas escolhe agir contra isso o tempo todo, Hellboy não luta contra monstros, ele luta contra o próprio destino e os chifres são só o sinal mais visível dessa guerra interna e busca por autocontrole.


O significado exato de Anung Un Rama nunca é traduzido de forma direta mas o contexto deixa claro não só a identidade mas uma função, aquele destinado a assumir um trono demoníaco e desencadear o fim do mundo; Anung Un Rama representa destino, linhagem e obrigação cósmica; Hellboy representa escolha, e o conflito entre os dois sustenta o personagem.



Hellboy e Xangô lidam com força destrutiva associada ao fogo e ao poder bruto, mas operam em lógicas opostas: Hellboy carrega um poder que ele vê como ameaça, algo a ser contido porque aponta para destruição inevitável.


Xangô não contém o próprio poder, ele o exerce como instrumento legítimo de justiça.


Em um caso, o poder é um risco; no outro, é autoridade.


Um é definido pela recusa e sua identidade é construída contra a própria natureza.


Outro representa integração total — ele não questiona o papel que ocupa e é a própria manifestação desse papel.


Isso impacta diretamente como cada um em sua mitologia (iorubá ou urbana) se relaciona com justiça.


Um não age guiado por um princípio de justiça; ele reage a ameaças e tenta impedir consequências piores e, quando o resultado parece justo, é porque evitar o caos coincidiu com proteger outros.


Outro não opera por reação, ele é por definição um agente de justiça, julgando e punindo de forma ativa como parte da ordem do mundo, não como resposta improvisada.


Mas assim como Xangô, Hellboy nunca consegue deixar de ser Hellboy.


[SOMENTE LIVRO]

[SOMENTE LIVRO]


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Você sabe, existem cinco estágios da raiva, sete cores do arco-íris e 12 estágios da Jornada do Herói e, quando olhamos para eles juntos, vemos um caminho de transformação que pulsa em cada experiência humana.


No início o herói vive seu mundo comum cercado pela rotina e pela familiaridade, sentindo uma raiva silenciosa, quase imperceptível, como o vermelho intenso que anuncia mudanças.


Então chega o chamado à aventura, e a raiva se transforma em ira, aquecendo o coração do herói como o laranja que desperta ação e coragem, mesmo quando ele hesita e tenta adiar o confronto com o desconhecido, iluminado pelo amarelo da dúvida e da reflexão.


O encontro com o mentor transforma a energia contida da raiva em aprendizado; o verde surge como crescimento, trazendo clareza e orientação para atravessar o primeiro limiar.


Nas provas entre aliados e inimigos a raiva oscila entre fúria e frustração, enquanto o azul traz reflexão e discernimento e cada desafio aproxima o herói da caverna mais profunda onde a tristeza se mistura à raiva, o anil convida à introspecção e a preparação para enfrentar o maior teste de todos.


Na provação suprema, a raiva explode em intensidade e urgência, refletida no vermelho que queima e força a transformação.


Mas quando o desafio é vencido, a raiva se acalma e a recompensa é conquistada, o laranja irradia realização e energia positiva.


No caminho de volta, a clareza ilumina os passos do herói, o amarelo revela o aprendizado acumulado e a serenidade do verde guia a ressurreição, equilibrando força e sabedoria.


Finalmente, ao retornar ao mundo comum com o elixir, a raiva se integra de forma saudável, como o azul que simboliza harmonia e equilíbrio.



O herói transforma suas experiências em aprendizado, compartilhando sabedoria, e percebemos que cada emoção, cada cor e cada estágio da jornada não são apenas etapas, mas pulsações da vida, que nos ensinam a sentir, enfrentar e evoluir, tornando-nos mais completos a cada passo que damos.


[SOMENTE LIVRO]

[SOMENTE LIVRO]


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[SOMENTE LIVRO]

[SOMENTE LIVRO]


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Decidi parar de usar borracha, escrever e seguir.


[SOMENTE LIVRO]

[SOMENTE LIVRO]

[SOMENTE LIVRO]

[SOMENTE LIVRO]


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Let them judge you.

Let them misunderstand you.

Let them gossip about you.


Their opinions aren’t your problem.


You stay kind, committed to love,

and free in your authenticity.


No matter what they do or say,

don’t you dare doubt your worth

or the beauty of your truth.


Just keep on shining like you do.


- Scott Stabile


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Em tempo, o mito do canguru mito foi desmentido em 1972 pelo linguista John B. Haviland, que trabalhou com o povo guugu yimithirr e confirmou que gangurru é, de fato, o nome específico de um tipo de canguru em sua língua.


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Ufa, a primeira fase da segunda vida do Músicas & Palavras encerra hoje.


Gostaria de agradecer demais quem me acompanhou nesses quatro anos e me incentivou, leu, riu, se emocionou, se inspirou e mais ainda, quem também se abriu e começou a escrever e contar as suas próprias histórias.


Neste oceano de superficialidade da internet eu consegui encontrar um pequeno mundo vivo e diverso de pessoas e ilhas de expressão e escrita em diálogos que me guiaram para lidar com quase mil rascunhos, textos, ensaios e poemas revisados, organizados e condensados em apenas cem e novamente desorganizados, embaralhados, empilhados, emparelhados e publicados.


Uma ideia que começou e seguiu por impulso tomou forma com cada ensaio guiado por uma música e cada música resgatando outro.


Quero agradecer também as cem (+1) pessoas que dividiram comigo alguns minutos dos seus dias: amigos, DJs, músicos, profissionais do mundo da música e muitos ídolos pessoais que abriram mente e coração e responderam as minhas cinco perguntas.


Foram quatro anos de conversas e dicas, lembranças e nostalgias, segredos e confissões, muitas risadas e algumas lágrimas, descobertas e redescobertas, fofocas e desabafos, propósitos renovados e o principal: resgatar, reviver e ressignificar memórias afetivas.


Quero deixar um agradecimento especial para os DJs que toparam o desafio e estão me ajudando a construir a grande via gastronômica musical aberta 24 horas no Mixcloud e me deram de presente sets maravilhosos e outro tão ou mais especial ainda para os fotógrafos Ayrton Cruz (esta foto incrível é dele), Lucas Miró e Robson Ramon e o ilustrador e pintor Grant Haffner.


Os seus olhos, ângulos e cores me abriram a mente e foram inspiração para seguir no exercício mais solitário e egoísta de todos, e por causa de vocês voltei a fotografar também.


No meio dessa aventura ainda viajei bastante, abracei mais uma profissão e o mar passou a ser o meu segundo lar.


Agora vamos recolher e revisar, me jogar num labirinto de letras foi a maneira que encontrei de não fugir de mim e ainda preciso descobrir como sair, mas o traçado está feito e a missão vai se cumprir pois escrever, é viver a vida duas vezes.


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