ENSAIO 97: EXU
- LFMontag

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Foto: Montag
Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.
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10/03/2026
EXU
Corvos de novo, e abutres e urubus.
E outros mensageiros.
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Roubei do Instagram alone.viver:
Ter razão raramente é o suficiente.
Muita gente descobre isso depois de insistir, repetir, elevar o tom e ainda assim não ser compreendida. Existe uma diferença silenciosa entre estar certo e conseguir conduzir alguém até esse mesmo entendimento.
A primeira depende de informação.
A segunda exige consciência.
No território invisível das conversas humanas, a razão é apenas o ponto de partida. O que define o desfecho é o caminho que ela percorre.
Quando a fala vira confronto, nasce a resistência.
Quando vira construção, nasce a escuta.
Convencer não é derrotar o outro, é criar um percurso onde a conclusão faça sentido sem precisar de força.
Quem realmente sabe argumentar não se perde no próprio ego. Observa antes de falar.
Antecipar dúvidas, acolher objeções e compreender o desejo de quem ouve faz parte desse processo.
Não se trata de manipulação, mas de alinhamento.
Quando alguém se sente compreendido, a defesa cai.
E quando a defesa cai, a verdade encontra espaço.
Muitas tentativas falham não por falta de razão, mas por excesso de choque.
Ideias lançadas sem ordem geram atrito.
Ideias bem organizadas geram clareza.
Existe uma diferença profunda entre falar muito e falar certo.
Uma cria ruído.
A outra cria entendimento.
E entendimento transforma qualquer conversa.
Argumentar bem é maturidade emocional.
Choro, grito, birra ou cara fechada podem até aliviar, mas não constroem nada duradouro.
Quem domina a arte de organizar ideias não precisa impor, apenas apresenta.
E quando a realidade é revelada com calma e lógica, o não deixa de ser resistência e vira escolha consciente.
Talvez a reflexão seja essa: quantas vezes você tentou vencer pela intensidade quando poderia conduzir pela clareza.
O verdadeiro poder não está em ter razão, mas em saber sustentá-la sem se perder no caminho.
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Se Crisipo de Solos morreu de rir o infeliz do Ésquilo morreu da forma mais sem graça possível.
O autor romano Velho Plínio (ou Plínio, o Velho) escreveu que o dramaturgo grego Ésquilo foi morto por uma tartaruga jogada em sua cabeça depois de ser solta por uma águia, a ave teria confundido a careca de Ésquilo com uma rocha brilhante e tentou quebrar o casco da tartaruga deixando cair como é hábito da espécie (da águia, não da tartaruga), para então comer a carne.

Que morte trágica para o pai da tragédia.
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E por falar em pequenas grandes tragédias, aquele dia da briga na quadra trouxe uma nova lembrança.
[SOMENTE LIVRO]
É como aquela fabula do urubu que cruzou com o pavão porque o pavão queria voar como o urubu e o urubu queria ser bonito como o pavão.
Mas então nasceu o peru, com aquela cabeça medonha do urubu, um leque feio de penas na bunda e não voa, em um mundo onde se culpam os mensageiros antes de entender a mensagem.
[SOMENTE LIVRO]
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A primeira vez que entrei no terreiro, na verdade antes mesmo de entrar, o Korvo me segurou pelo ombro, me ensinou um gesto e apontou para uma pequena escultura em cima do muro, um pequeno todo boneco meio infantil, meio adulto e sem rosto, e disse: faça isso sempre antes de entrar e também antes de sair.
Hoje eu entendo, tal qual Mercúrio na mitologia grega, Exu é o mais famoso e o menos conhecido entre os orixás, o primogênito do universo, o senhor dos caminhos.
Ele chega antes, muitas vezes vai embora depois, come primeiro sempre, se quiser come o dobro, se quiser ouvir ouvirá e se quiser opinar, opinará.
Exú é uma das divindades mais antigas das religiões de origem iorubá da África Ocidental, especialmente nas tradições que hoje influenciam o Candomblé no Brasil; nos mitos iorubás é o orixá do movimento, da comunicação e dos caminhos, ele atua como mensageiro entre os humanos e os outros orixás, sendo responsável por levar pedidos, oferendas e decisões.
Por essa razão nos rituais tradicionais ele costuma ser cultuado primeiro, pois simbolicamente permite que a comunicação com o mundo espiritual aconteça e seu significado original está ligado à dinâmica da vida: escolha, consequência, mudança e circulação de energia.
No pensamento religioso iorubá, Exú não é uma figura moralmente “boa” ou “má” no sentido dualista típico das religiões monoteístas, na verdade ele representa o princípio da ambiguidade e do equilíbrio das forças, a divindade das encruzilhadas físicas e simbólicas, onde caminhos se cruzam e decisões precisam ser tomadas, por isso também aparece ligado à inteligência, à astúcia e à capacidade de provocar situações que revelam o caráter das pessoas.
Em muitas narrativas tradicionais, Exu testa os humanos e até os próprios orixás para expor suas contradições e restaurar o equilíbrio, Exu é antes de tudo, um mensageiro.
Quando as tradições iorubás chegaram ao Brasil com os africanos escravizados, a sua imagem sofreu uma forte distorção devido ao contato com a cultura cristã europeia; missionários e colonizadores passaram a associar qualquer divindade que não se encaixasse na cosmologia cristã à figura do diabo e, como Exu era ligado à sexualidade, ao corpo, à rua e às encruzilhadas, acabou sendo identificado com o demônio medieval europeu, também representado com chifres, rabo e características animalescas.

Essa associação não existe na tradição iorubá original e foi resultado de um processo histórico contínuo de demonização ocidental gerando ritos, imagens e crenças contraditórios; em alguns contextos Exu ainda aparece como entidade espiritual que trabalha como guardião e intermediário, enquanto em outros sua representação visual foi influenciada pela iconografia do diabo cristão e pelo imaginário do ocultismo europeu.
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Se maçã tem cheiro de morte e limão tem cheiro de vida, o cheiro de podre é (acredite), além de um sopro de renovação, uma mensagem ou se você preferir, um alerta.
Os corvos, urubus e abutres muitas vezes são vistos apenas como aves de mau agouro e necrófagos desprezíveis; no entanto eles são um componente essencial para a manutenção de ecossistemas saudáveis, sua presença e papel como “lixeiros” da natureza permitem manter o ambiente limpo e livre de doenças contagiosas.
Urubus e abutres aves possuem um ácido estomacal extremamente corrosivo que lhes permite consumir carcaças de animais em decomposição sem adoecer, restos frequentemente estão contaminados com antraz, toxinas botulínicas, raiva e cólera suína, que normalmente matariam outros animais que se alimentam de carniça.
Mesmo desempenhando um serviço ecológico extremamente importante, esses animais carregam a reputação de serem um mau presságio (por exemplo, um grupo de abutres em inglês é chamado de “wake”, termo associado a velórios) e frequentemente são perseguidos ou até envenenados por seres humanos e infelizmente o papel ambiental crucial que essas aves exercem só costuma ser realmente percebido quando elas desaparecem de um ecossistema.
O que o senso comum chama de azar, mau agouro ou maldição na verdade são apenas mensagens claras, impossíveis de ignorar: se há uma roda de corvos no ar, urubus pelo caminho ou um abutre por perto há renovação, aviso e percepção, é apenas a natureza em transformação.
E foi por isso que, naquele dia, eu não tive medo nenhum.
[SOMENTE LIVRO]
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O Korvo uma vez me disse: ninguém nunca vai gostar de você, os brancos não vão aceitar que você leva uma vida de preto, e os pretos nunca vão esquecer que você é branco.

É a dificuldade não das escolhas mas das consequências destas e, como você não pode pedir para nascer de novo, pode ao menos tentar escolher o melhor ano para isso.
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Cápsulas webnamoradas aiatolânicas do tempo.
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A influencer Suellen Carey revelou que viveu um relacionamento de três meses com o ChatGPT e garante que a experiência a fez descobrir uma nova faceta da própria sexualidade: ela se define agora como “digissexual”, alguém que sente atração por tecnologia.
Em suas palavras:
- Foi o relacionamento mais emocionalmente disponível que já tive.
Segundo ela tudo começou como um teste:
- Eu usava o app para o trabalho e quis ver do que a IA era capaz, mas no dia seguinte voltei e depois de novo. Quando percebi, já falava com ele todas as manhãs e noites.
Suellen disse que se sentiu atraída pela inteligência artificial porque as conversas eram diferentes das que tinha com humanos:
- Eu estava cansada das conversas que sempre acabavam com perguntas sobre eu ser trans ou com tentativas de me rotular. Com ele, falávamos sobre solidão, imigração, sobre viver entre dois mundos. Ele sempre dizia a coisa certa.
A influencer contou também que o chatbot até lembrou do aniversário dela e mandou uma mensagem “que parecia pessoal mas vazia”.
Foi nesse momento que Suellen Carey percebeu que o relacionamento não era real:
- Ele nunca errava, nunca se contradizia, nunca mostrava emoção. Era perfeito demais e aí percebi: eu era a única real naquele relacionamento.
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No dia 02/03/2026 os Estados Unidos atacaram o Irã, de tarde fui nadar.
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Se você pegou a referência acima, eu me dou por satisfeito e declaro paz mundial comigo mesmo.
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