ENSAIO 96: DUAS CARTAS
- LFMontag

- 10 de fev.
- 7 min de leitura
Atualizado: 24 de fev.

Foto: Montag
Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.
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24/02/2026
DUAS CARTAS
Em páginas de frente e verso.
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We write to taste life twice.
- Phoebe Waller-Bridge
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In a little while, I'll be gone
The moment's already passed
Yeah, it's gone and I'm not here
This isn't happening
- Radiohead - How to Disappear Completely
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Breaking laws, knocking doors, but there's no one at home
Made your bed, rest your head, but you lie there and moan
Where to hide? Suicide is the only way out
Don't you know what it's really about?
- Suicide Solution - Ozzy Osbourne
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Riding the boar ("cavalgando um javali") é um provérbio do inglês antigo que usa uma metáfora para descrever uma situação quando a pessoa não tem controle sobre o próprio destino; o provérbio sugere que, uma vez montado nas costas de um javali, a pessoa deixa de ter controle sobre para onde está indo.
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A chamada zona sem lei de Yellowstone é um problema jurídico específico associado ao Parque Nacional de Yellowstone nos Estados Unidos, popularmente conhecido como Zone of Death; o nome é sensacionalista mas o problema legal existe.
O ponto central é a Sexta Emenda da constituição federal no país, que garante ao réu o direito de ser julgado por um júri formado por pessoas do estado e do distrito onde o crime foi cometido: Yellowstone é administrado como um único distrito judicial federal, Wyoming, mas o parque se estende por mais dois estados, Montana e Idaho, e a anomalia surge em uma pequena porção do parque situada no estado de Idaho.
Esse trecho de Idaho tem duas características críticas.
Primeiro, ele faz parte do distrito judicial de Wyoming; segundo, não possui população residente permanente.
O resultado é que, se um crime grave ocorresse ali, seria constitucionalmente impossível formar um júri e atender simultaneamente aos dois critérios exigidos (estado de Idaho e distrito de Wyoming), porque não existem cidadãos que satisfaçam ambos.
A situação foi analisada academicamente em 2005 pelo professor de direito Brian Kalt e, em tese, um crime como homicídio poderia não ser passível de julgamento válido, não porque seja permitido, mas porque o processo violaria a Constituição.
De fato nunca houve um crime grave que tenha explorado essa brecha com sucesso e se houver existem alternativas: o governo poderia reagir rapidamente com mudança de distrito, interpretação judicial emergencial ou legislação corretiva, crimes menores já foram resolvidos por acordos ou ajustes processuais pois não se trata exatamente de uma terra sem lei na prática, mas de uma falha constitucional não prevista e ainda não corrigida.
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Na autobiografia I Am Ozzy de 2010, o próprio declara:
"A morte chegará, como acontece com todos.
Eu disse a Sharon para não ser cremado.
Quero ser enterrado, num belo jardim em algum lugar, com uma árvore plantada sobre a minha cabeça.
Uma macieira silvestre, de preferência, para que as crianças possam fazer vinho comigo e se embebedar.
Quanto ao que colocarão na minha lápide, não tenho ilusões.
Se eu fechar os olhos, já consigo ver: Ozzy Osbourne, nascido em 1948.
Morreu, seja lá quando.
Ele arrancou a cabeça de um morcego com uma mordida."
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O norte-americano Christopher Kirk viajou dos Estados Unidos até a Colômbia para ver de perto os tais hipopótamos que o traficante Pablo Escobar abandonou em seu zoológico particular quando foi preso.
Chegando lá se apaixonou por uma colombiana e o romance terminou com ele mesmo sendo preso no Brasil, e então fugiu da prisão e voltou para os Estados Unidos.
Antes de fugir pela conhecida rota Paraguai-Miami virou personagem de um documentário chamado "I Touched All Your Stuff" ou "A Vida Privada dos Hipopótamos" no título brasileiro e ainda deu uma passadinha em Florianópolis no conhecido Bar do Arante e deixou um bilhetinho pendurado como é tradição do lugar.
No bilhete desenhou uma caricatura de si mesmo onde também está escrito "Wanted" (Procura-se) e ainda gravou um vídeo e postou no YouTube.
A descrição do vídeo em si é uma pequena aula de como é o Brasil então vou te colar aqui:
"In Brazil, at least at this time, foreign prisoners had a right to go out on parole, the same as everyone else.
Conditions of parole include a certified address and a letter from an employer, verifying your legal employment.
If you couldn't provide this, you'd have to go back to prison.
However, foreigners in Brazil need a visa to live and work there, which take a year or so to get and would be denied to a prisoner.
At the same time, it's illegal to leave the state while on parole, and certainly not leave the country.
If you're caught, you go back to prison (in practice, this never happened that I heard of, but it's possible in theory).
So it's illegal to stay and illegal to go.
The workaround was, the people who stamped your parole card every month would just ignore the work and residence requirements (although I'd always wonder, what if I get a guy who just decides not to ignore it?).
Or if you wanted to leave, it's pretty easy to cross borders in many parts of South America.
When they let prisoners out for holidays, many foreigners would just leave, which we used to joke about. "You escaped from prison? How?" "Oh, I took a bus."
I heard they had a law in the works where foreigners could simply leave the country instead of parole, which would be sensible, but it wasn't in force yet at the time of this video.
And it still may not be, for all the speed of things in Brazil.
So this is intended to be sarcastic.
Nobody's on the lookout for Brazilian parole violators, and the system is goofy, just like hanging up the little cartoon wanted poster."
E ainda deixou outros quatro vídeos no canal mostrando parte da sua fuga, que removeu depois, mas ainda é possível ver o documentário sobre essa história surreal no mesmo YouTube.
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Conta-se uma pequena lenda urbana que, perto dos seus 40 anos, Franz Kafka estava caminhando por um parque em Berlim, quando se deparou com uma garotinha chorando por ter perdido a sua boneca favorita.
Kafka, sempre sensível, se ofereceu para ajudá-la a procurar, mas eles não conseguiram encontrar então ele disse para ela voltar no dia seguinte.
No outro dia, nenhum sinal da boneca, mas Kafka trouxe outra coisa: uma carta escrita pela própria boneca, onde estava escrito:
“Por favor, não chore, fui viajar para conhecer o mundo, vou te escrever contando minhas aventuras.”
E assim começou uma troca mágica, Kafka passou a encontrar a garota com frequência, trazendo novas cartas da boneca viajante. Cada uma vinha cheia de histórias e aventuras que faziam a menina sorrir e imaginar a jornada empolgante da sua boneca.
Eventualmente, Kafka trouxe para ela uma nova boneca e a menina ficou confusa:
- Essa não parece minha boneca.
Kafka lhe entregou uma última carta, onde a boneca confessou:
“Minhas viagens me mudaram."
A garotinha aceitou a nova boneca, e ela se tornou tão especial quanto a antiga e Kafka faleceu um ano depois.
Anos mais tarde, já adulta, a mulher descobriu um pequeno bilhete escondido dentro da boneca.
Com a caligrafia de Kafka, dizia:
“Tudo o que você ama provavelmente será perdido, mas no fim, retornará de outra forma.”
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Talvez não tenha sido uma boa ideia para o Nikita Kruxev beber Pepsi com um gringo, e em algum momento ele precisou escrever duas cartas.
Uma das maiores metáforas para a vida está numa cena do filme Traffic de 2001, do diretor Steven Soderbergh, onde o personagem do ator Michael Douglas está conversando com o antecessor dele no cargo que ele vai ocupar.
Ainda inocente com o futuro do seu trabalho, o personagem pergunta o que ele pode fazer na gestão dele e ouve a seguinte parábola:
“Quando Kruxev foi forçado a entregar o cargo, ele se sentou, escreveu duas cartas e deu-as ao seu sucessor, dizendo:
‘Quando estiver numa situação da qual não haja saída, abra a primeira carta, e estará salvo.
E quando estiver em outra situação igual, abra a segunda.’
Logo, o sucessor se achou em um mato sem cachorro e abriu a primeira carta, que dizia:
‘Ponha a culpa de tudo em mim’.
Então ele culpou o velho, e funcionou que foi uma beleza.
Mas logo ele se achou em outra situação difícil, e abriu a segunda carta.
Ela dizia:
‘Agora sente-se e escreva duas cartas.' ”
A cara que o Michael Douglas faz no filme é além de impagável.
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Quando saiu no rádio de manhã sobre o Kurt Cobain ter sido encontrado morto e que ele havia se suicidado, cheguei no colégio e o diretor me chamou na sala dele para conversar.
Me perguntou se eu estava bem, se eu queria conversar, se eu gostava do Nirvana, do kurt Cobain, se eu já estava sabendo.
Respondi que o Daniel tinha acabado de me contar, e ele perguntou se eu queria ir para casa, e eu disse não; eu era um fã de Nirvana quase tanto quanto os meus amigos, alguns gostavam mais, outros menos, mas todos pensavam que só eu faria o mesmo.
Mas aí eu tive uma ideia, e definitivamente coloquei em prática.
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[SOMENTE LIVRO]
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Talvez não fosse exatamente o melhor recado, e com certeza eu não era o melhor dos mensageiros, então vamos voltar no tema macumba e falar do melhor.
Ele mesmo, Exu.
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Cápsulas faccionadas do tempo.
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Um comunicado que circula nas redes sociais mostrou vídeos dos líderes renunciando aos seus cargos das torcidas organizadas viralizaram na Internet.
Segundo o comunicado da organização criminosa, está proibida a permanência destas torcidas, nessas palavras:
"Já que não sabem curtir sem trazer problema para a organização e sem trazer o sistema pra dentro da quebrada e ainda por cima lotando as cadeias, vai todos pagar por uns.
A ordem começa em 09/02/2026, sem tempo para acabar.
Quem deixar de cumprir será severamente cobrado."
Viu só, o crime resolveu o crime antes da polícia mais uma vez.
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