ENSAIO 99: LIMBO
- LFMontag

- há 4 dias
- 7 min de leitura

Foto: Ayrton Cruz
Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.
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14/04/2026
LIMBO
Um Sísifo rolando uma pedra alheia.
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Static, static, static
We're on a video rage
Static, static, static
We're on a video rage
We're all blue from projection tubes
We're all blue from projection tubes
- Static Age, Misfits.
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Deer are weird, they freeze when scared, even when running could save them.
Wolves are weird, they howl for company, yet walk alone.
Cats are weird, they crave warmth but fear getting too close.
Bears are weird, they sleep through danger, but wake at the smallest sound of being approached.
Dolphins are weird, they live in perfect silence underwater, yet spend their whole lives trying to be heard.
Tigers are weird, they live alone for years, yet mark the forest as if someone might come looking.
Leopards are weird, they see everything, but never speak of it.
Horses are weird, they can kill anything that chases them, but their first instinct is to run from things that can’t even touch them.
Humans are weird, they destroy what they can’t understand, and miss what they never held.
- Momentary Existentialism
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- That's the very reason why they put rubbers on the end of pencils.
- What, to fuck hamsters?
- No, because people make mistakes.
- Fleabag
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Fantasy is the impossible made probable.
Science Fiction is the improbable made possible.
- Rod Serling
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O livro Vineland do escritor Thomas Pynchon e lançado em 1992 se tornou relativamente famoso no último ano por ter inspirado o roteiro de One Battle After Another em 2025, do diretor Paul Thomas Anderson e estrelado por Leonardo DiCaprio, e embora o filme tenha um tom mais no estilo comédia e ação com boas doses de drama familiar e social, o enredo e o personagem principal no livro são tratados de forma muito mais profunda, e absolutamente estranha, sobre a falta de propósito na vida.
No livro este estado é chamado de thanatoid, dos prefixos e sufixos Thanatos (ela mesma) e oid (semelhante).
Os thanatoid são pessoas que não estão exatamente vivas, mas também não estão mortas; são indivíduos presos numa espécie de meia existência, anestesiados, repetitivos, vivendo rotinas mecânicas e sem agência real.
Eles continuam funcionando e trabalham, conversam e mantêm hábitos mas perderam algo essencial: vontade, presença, capacidade de mudança.
É uma morte em vida, burocratizada.
O personagem Zoyd Wheeler uma vez por ano, regularmente, se joga contra superfícies de vidro (portas, janelas, vitrines) para simular acidentes, se machucar propositalmente e continuar recebendo indenizações do governo, após ter sido diagnosticado como incapaz mentalmente e precisar, de tempos em tempos, provar essa condição e não perder o benefício.
Esse absurdo é uma crítica direta: ele reduz a própria existência a um mecanismo de compensação financeira.
O corpo vira instrumento de renda, a dor vira protocolo quando não há dignidade e nem propósito, apenas repetição e recompensa mínima; os thanatoids são o diagnóstico do escritor sobre o que aconteceu com a geração dos anos 60 depois da repressão política, da vigilância estatal e da absorção da rebeldia através do conforto.
Em vez de serem destruídos de forma explícita, eles foram neutralizados (tornando-se previsíveis e inofensivos) e Zoyd é o exemplo extremo, ele não resiste, não luta e não cria, apenas reage aos incentivos que lhe foram oferecidos, em seu caso se machucar para receber pagamento, uma caricatura brutal da adaptação ao sistema.
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Já no filme Revenant, também estrelado por Leonardo DiCaprio em 2015 e dirigido por Alejandro González Iñárritu, mostra algo um tanto mais brutal e, como descobri anos antes mesmo do filme ser gravado, tristemente comum.
Você já assistiu, Hugh Glass é gravemente ferido por um urso após fugir de um ataque de uma tribo indígena atrás das peles que ele e o seu grupo carregavam e, incapaz de se mover, é deixado para trás com John Fitzgerald, o jovem Bridger e seu filho Hawk (mestiço de Hugh com uma indígena), que deveriam cuidar dele até conseguir resgate ou assistir a sua morte.

Desde o início do filme Hawk é destratado por todos ao redor, seja com indiferença ou hostilidade aberta, um retrato do início do século XIX quando a fronteira norte-americana era marcada por uma lógica de hierarquia racial, mas não de forma totalmente uniforme.
Filhos de indígenas com europeus (muitas vezes chamados de “mestiços” ou “half-breeds”) eram em geral vistos como inferiores dentro da sociedade colonial branca; sofriam desconfiança, exclusão social e frequentemente tratados como não pertencentes a nenhum dos dois mundos: nem plenamente aceitos entre brancos, nem sempre integrados às comunidades indígenas.
Isso variava conforme o contexto, em regiões de comércio de peles como no enredo do filme alguns mestiços tinham papel intermediário útil como intérpretes ou guias.
Apesar da doutrina cristã tradicional afirmar que todos os humanos têm alma, muitos colonizadores distorciam ou ignoravam essa base para justificar a violência, exploração e racismo como parte de uma desumanização frequente: indígenas e seus descendentes eram vistos como menos civilizados, selvagens ou moralmente inferiores.
Sem saber do pacto com Hugh, o seu filho tenta protegê-lo e entra em conflito com Fitzgerald que o despreza e quer abandonar a missão, alegando que ele não tem chances de sobreviver e está colocando a vida de todos em risco, e a tensão culmina com o assassinato do rapaz na frente do pai, incapaz de reagir.
Esse evento transforma a sobrevivência do personagem em uma busca direta por vingança e, em um dado momento da sua jornada, encontra outro indígena enforcado ao lado de uma placa, onde pode-se ler:
“ON EST TOUS DES SAUVAGES”
Desnecessário traduzir, mesmo que eu não saiba (e talvez nem você) falar francês.
Esse conflito da presença de um mestiço entre brancos me fez pensar e lembrar em uma foto que ainda guardo comigo, mesmo sem eu estar nela.
[SOMENTE LIVRO]
[SOMENTE LIVRO]
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No Japão, ajudar o outro não é apenas um ato de gentileza, é uma expressão profunda de respeito e harmonia em uma sociedade que valoriza o coletivo acima do individual oferecer ajuda é visto como uma honra, não uma obrigação.
Por isso, não é raro ver japoneses indo além do esperado para auxiliar alguém, mesmo um completo desconhecido.
Essa mentalidade nasce de princípios enraizados na cultura japonesa como o “Omoiyari”, palavra que significa “consideração pelos sentimentos e necessidades dos outros”, o espírito de se colocar no lugar do próximo, de agir com empatia e delicadeza, mesmo em situações simples do dia a dia (como devolver um item perdido, acompanhar um turista até o destino certo ou limpar o espaço público após um evento).
Nas ruas, nas escolas e até nas empresas, a cooperação é vista como um pilar da convivência e as crianças aprendem desde cedo a limpar suas salas de aula, dividir responsabilidades e pensar no bem comum, uma educação que molda cidadãos conscientes de que o sucesso individual só faz sentido quando o grupo também prospera.
O resultado é uma sociedade onde o respeito mútuo e a solidariedade são práticas cotidianas onde ajudar o outro não diminui ninguém.
Pelo contrário, engrandece.
E então aquela segunda-feira provou.
[SOMENTE LIVRO]
[SOMENTE LIVRO]
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Time Enough at Last é o oitavo episódio da série antológica The Twilight Zone e foi ao ar em 20 de novembro de 1959.
O personagem central Henry Bemis é um arquétipo simples: um homem comum, fraco socialmente, cuja única motivação real é ler.
Trabalha num banco, mas não se encaixa; lê escondido no expediente, é reprimido pelo chefe, e em casa a situação é pior: a esposa despreza completamente o hábito, chegando ao ponto de sabotar seus livros.
Bemis não tem controle sobre nada da própria vida, não negocia, não confronta, não estrutura uma saída.
Ele só se refugia.
Um dia durante o horário de trabalho, ele desce até o cofre do banco para ler, o único lugar onde consegue ficar isolado e enquanto está lá dentro ocorre uma explosão nuclear.
Quando ele sai, o mundo acabou.
A cidade está destruída, não há mais pessoas, não há mais cobrança externa, pela primeira vez Bemis tem exatamente o que sempre quis, tempo ilimitado e silêncio absoluto para ler.

Ele encontra uma biblioteca em ruínas mas com muitos livros intactos, organiza pilhas e planeja anos de leitura, finalmente alinhado com o próprio desejo e então vem o verdadeiro colapso da história: ao se abaixar, seus óculos caem e quebram.
Sem eles, praticamente não enxerga, e definitivamente não consegue ler nada.
E então Henry olha enfim para o céu e lamenta:
- Não é justo.
Bemis constrói toda a identidade em torno de uma única variável (a leitura) mas nunca construiu as condições mínimas para sustentar: autonomia, adaptação, redundância.
Ele depende de um objeto frágil (os óculos, sem um extra reserva) e de circunstâncias externas (tempo livre o qual ele nunca conseguiu criar por conta própria).
Quando finalmente elimina o mundo ao redor como obstáculo surge o problema real, mesmo quando fugia era quando e onde ele era permitido, e agora sozinho no mundo e com todo o espaço e tempo disponíveis, não tem para onde ir.

Não é azar, é ter a sorte de todos os seus sonhos se tornarem realidade, e não poder aproveitar.
[SOMENTE LIVRO]
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Em resumo era isso, quando você tem todos os lugares de fala, todo mundo te cala e você vive em um limbo.
[SOMENTE LIVRO]
[SOMENTE LIVRO]
[SOMENTE LIVRO]
[SOMENTE LIVRO]
E é por isso que se colocam borrachas no final dos lápis.

E também o motivo pelo qual muitos raspam os seus chifres, quando deveriam se orgulhar.

Calma, não estou falando de traição, mas sim de Anung Un Rama.
Quê?
Segue, está acabando, talvez tenha até uma reviravolta.
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Cápsulas vazadas do tempo.
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Usuários do aplicativo de navegação Waze se depararam com um alerta até então pouco conhecido: um ícone de “ladrão”, com touca e máscara, no trajeto.
O símbolo segundo a empresa faz parte do alerta de “insegurança”, que avisa os motoristas sobre áreas onde há risco de assalto, roubo de celular ou vandalismo no trânsito.
Não descobri se tem como avaliar a experiência.
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