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ENSAIO 50: MEIAS BRANCAS

Atualizado: 24 de fev.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um libro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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21/02/2024


MEIAS BRANCAS


Os fins justificam as meias.


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No meu filme favorito do diretor Woody Allen, Deconstructing Harry de 1997, além de dirigir ele também interpreta Harry Block, o personagem escritor que apesar do reconhecimento e da fama está passando por uma crise criativa na qual não consegue concluir nenhuma das suas novas histórias, histórias estas que se confundem com flashbacks da vida pessoal do personagem, os quais (como era de se esperar) também nunca são concluídos, sendo interrompidos pela história seguinte, que também é interrompida pelo próximo flashback.


Sim, Harry Block está sofrendo um bloqueio (sim, block), Woody Allen é conhecido por não ser sutil em seus roteiros e suas caracterizações.


O filme já abre com o ator Robbie Williams vivendo o papel de um ator que está fora de foco (literalmente) e no meu flashback favorito a meia-irmã de Harry Block reclama sobre a forma como ele descreve personagens judeus em seus livros como Ken e Helen, um casal em crise pois Helen descobre um segredo obscuro no passado de seu marido, quando este pegou a sua primeira esposa e... quando você assistir não deixe de reparar a decoração do ambiente da festa onde eles estão.


Além da falta de sutileza, a qual acho ser proposital, Woody Allen também é conhecido pelo completo domínio de diferentes escolas e recursos dramáticos e narrativos como a Arma de Tchekhov, o Foreshadowing e o MacGuffin, e por isto o diretor consegue transitar com facilidade entre gêneros como o romance, o drama, o suspense e a comédia, muitas vezes até em um mesmo filme.


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A Arma de Tchekhov é um princípio dramático descrito pelo dramaturgo russo Anton Tchekhov, onde todos os elementos presentes em uma história são necessários e todos os elementos irrelevantes são removidos, sem produzir falsas promessas ou alterar o enredo após surgir. Este conceito também é conhecido como Lei de Tchekhov pois o escritor dizia que, se um revólver aparecesse em uma cena qualquer de uma história, é porque ele eventualmente seria disparado.


Em oposição à este conceito existe o Foreshadowing (prenunciando) quando o autor sugere aos poucos informações e elementos que nem sempre são percebidos imediatamente, mas podem se tornar essenciais no enredo ao longo da narrativa e até mesmo causar uma reviravolta ou ainda, a conclusão da história após surgir sob outra perspectiva. São ótimos exemplos de foreshadowing a presença de animais como corvo ou coruja, que podem prenunciar algo horrível ou sobrenatural prestes a acontecer.


E um meio-termo pode ser encontrado no MacGuffin (expressão criada pelo roteirista inglês Angus MacPhail e popularizada pelo diretor Alfred Hitchcock em 1930), um motivador da trama que atrai o interesse das personagens, um objetivo ou objeto de desejo que faz a trama caminhar, justificando as ações dos protagonistas mas que também pode ser insignificante ou irrelevante como algo que, de tão desejado, se torna insuficiente no fim da história ou não merecedor de todo o esforço despendido para conquistá-lo.


Nas palavras de Hitchcock a expressão é uma anedota escocesa sobre dois homens em um trem, como segue:


Um homem diz, "o que há neste pacote acima da bagagem?"

E o outro responde, "oh, é um MacGuffin".

O primeiro pergunta, "o que é um MacGuffin?"

E outro homem explica, "é um aparelho para a interceptação de leões nas terras altas da escócia."

O primeiro homem então diz, "mas não há leões nas terras altas da escócia,"

E então o outro homem conclui, "bem, então, não há MacGuffin!".


Então você vê que um MacGuffin é, na verdade, nada.


No filme North by Northwest do próprio Hitchcock (também o meu favorito dele) o suposto MacGuffin é o nada que motiva o protagonista (livrar-se da situação de ter a sua identidade confundida), e o que importa para a CIA é de pouca importância para o protagonista, afinal ele não é o que os espiões estão procurando.


São outros exemplos clássicos de MacGuffin o Santo Graal cristão, o Um Anel da Trilogia Senhor dos Anéis, o absoluto Rosebud, a última palavra dita pelo magnata Charles Foster Kane no também absoluto filme Cidadão Kane de 1941 e claro, meias brancas.


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Meias brancas escancaram automaticamente o seu status social, se você usa elas o dia inteiro e elas saem brancas do seus tênis, você é rico.


Se saem amareladas, pobre.


Se você anda só de meias pela sua casa e elas continuam brancas, você é rico.


Elas sujam? Pobre.


Você vê pares de meias brancas em todas as classes e estratos sociais ao longo da história, nas canelas dos nobres franceses, dos jogadores de beisebol, dos cavaleiros, dos jogadores de futebol americano e nas mais nobres das canelas, dos skatistas.


Por incrível que pareça o skatista não anda de skate o tempo todo mas você sabe, skate é religião e exército ao mesmo tempo e por isto o skatista está sempre de batina (camisetão e bermudão) e meias brancas cobrindo toda a canela (sempre pronto para a batalha) em todo e qualquer ambiente público ou evento social que ele apareça, pode ser colégio, faculdade, aniversário, formatura, casamento e balada, ele vai dar um jeito de fazer você perceber que ele é um skatista.


Quando não fazem parte de disputas e campeonatos as meias brancas são parte de histórias não lá muito confiáveis mas replicadas pura e simplesmente por isto mesmo, como aquele dia em que três amigos meus se empolgaram e cada um contou a sua versão de "um amigo meu, uma vez" e suas meias originalmente brancas mas cujos destinos foram literalmente uma merda.


Segundo um dos meus amigos, um amigo dele uma vez foi almoçar na casa da namorada e antes mesmo da sobremesa precisou fazer o número dois, quando tentou se limpar não havia papel higiênico e antes mesmo de se levantar olhou as próprias meias, tirou ambas e limpou o cu com elas. Mas também não havia cesto de lixo, e o amigo do meu amigo jogou as meias na privada e puxou a descarga, entupindo o vaso sanitário. O final ficou em aberto pois o meu outro amigo se empolgou e lembrou de um amigo dele que, uma vez, passando pelo mesmo e na casa da sua respectiva namorada, decidiu apenas jogar as meias pela janela do banheiro, acreditando que o destino daria conta do recado.


Não deu, quando estava retornando para a mesa onde estava a família da sua amada a porta da sala de jantar abriu e a empregada da casa não pensou duas vezes em perguntar:


- Quem é que jogou essa meia toda cagada no quintal?


O amigo do meu amigo ainda estava de pé e quem estava na mesa olhou para as pernas dele. Antes de eu perguntar o que a família disse o meu outro amigo já estava contando a história dele ou melhor, a história de um amigo dele que, uma vez também e também na casa da namorada, também precisando cagar, também sem papel higiênico e também sem cesto de lixo, também jogou as meias pela janela após limpar o cu com elas.


Até aí tudo bem, mas este banheiro era no segundo andar, logo acima da sala de jantar que tinha uma linda claraboia de vidro com vista para o jardim, onde as meias caíram e ficaram grudadas. Quando o amigo do meu amigo desceu as escadas, todos já estavam olhando para ele e por falar em meias brancas cagadas a minha história envolvendo meias brancas foi definitivamente melhor, mas a minha envolvendo desarranjo intestinal com toda certeza foi pior.


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Ela era cliente da loja que eu trabalhava, e era linda.


Me dava mole e eu não tinha coragem de chegar nela, encontrava nas festas também e eu não chegava nela igual.


Aí um dia no começo de uma festa cumprimentei e ela me abraçou e disse:


- Você é tão bonitinho mas as suas meias são ridículas.


Eu usava bermuda e camiseta e meias brancas compridas cobrindo toda a canela, vício da época do skate e ia assim em festas e formaturas e onde mais precisasse ir vestido.


E ela ter falado isso, praticamente no meu ouvido, me ofendeu. Eu diria até que me magoou, levando em consideração o quanto eu era afim dela.


Não se desrespeita um padre-soldado pronto para o seu culto-batalha, mesmo que ele estivesse apenas em uma festa-balada.

Não respondi nada, e ela saiu da minha frente.


Bebi a festa inteira pensando em uma forma de responder e lá pelas tantas me aproximei e falei no ouvido dela.


Eu não lembro o que eu falei, mas falei.


Não lembro da resposta dela também, nem mesmo se ela respondeu algo, só sei que no dia seguinte ela foi na loja perto do horário de fechar, e ficou me esperando lá fora.


Eu reconheci ela dentro do carro, percebi pelo vidro que ela estava me olhando, apaguei as luzes da loja e saí.


Me chamou e me ofereceu carona.

Aceitei.


Ela não perguntou onde eu morava, eu não disse onde eu morava, ela parou o carro em uma praça, desligou o motor, me olhou bem sério e perguntou:


- Vcoê lembra o que você me disse ontem?


Na verdade eu nem lembrava de ter ido falar com ela depois de bêbado e muito menos O QUÊ eu disse para ela, mas respondi:


- Claro que sim.


Pelo jeito foi coisa boa porque ela pulou em cima de mim, nos beijamos, tiramos a roupa e quando estava tirando as meias (brancas, cobrindo toda a canela) ela me interrompeu e disse:


- Ai não tira as meias.


Ela ficou só de meias também, e transamos assim.


Depois de acabar percebi como ela esfregava as meias dela nas minhas, sem parar.


Que meias mais ridículas, pensei.


Depois desta noite ela nunca mais foi na loja que eu trabalhava, e nas festas sempre nos cumprimentávamos morrendo de vergonha e até hoje não lembro o que disse bêbado para ela naquela noite mas me conhecendo como me conheço devo ter dito algo do tipo que não vou te contar mas com certeza falei tudo quélagosta discutá e devo ter sido maquiavélico, pois os fins justificam as meias.


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Poucos anos atrás eu estava assistindo um documentário sobre grandes invenções da humanidade quando o apresentador mostrou uma carta do início do século retrasado na Inglaterra e publicada em um jornal onde quem escreveu agradece de todas as formas quem fosse o inventor da bicicleta, pois foi graças a uma que ele encontrou o amor da sua vida dez quilômetros longe da casa onde morava e sem uma bicicleta ele jamais teria encontrado ela.


O apresentador conclui então, com o previsivelmente imprevisível e típico humor britânico, que a bicicleta deu prejuízo para os dentistas da época pois a partir da invenção dela os ingleses pararam de casar com primas e vizinhas.


Não vou explicar a piada.


Este documentário me fez lembrar de um dia não tão legal com um amor que não se concretizou, eu morava na Lagoa da Conceição e na lagoa todo mundo vai transar de bicicleta.


Ela morava perto, me chamou para ir na casa dela e fui pedalando na famosa velocidade de quem está indo transar, não tão lento para poder transar logo, não tão rápido para não parecer ansioso chegando esbaforido.


Aquele oi, aquele abraço, aquele beijo sem querer querendo, a sentadinha no sofá de pernas se entrelaçando e a hora do vamo ver, quando eu já estava com a mão lá e ela com a mão ali me deu uma vontade repentina de... cagar.


Disse que precisava ir embora sem contar o motivo e ela ficou com a cara CONGELADA, me vesti rápido (já estava na fase das meias cinzas) e ela vestiu só uma camisetinha (incrível como esta cena é a melhor lembrança do mundo se for lembrança de um fim de semana legal mas o pior se você foi embora cagar no meio da madrugada) e abriu a porta para mim, peguei a bicicleta e fui embora com a mão esquerda no guidão e a mão direita cheirando o que deixei para trás.


Eu não tenho culpa que o meu forévishadowing se tornou rapidamente uma Arma de Tchekhov pronta para disparar e acho que ninguém é obrigado a segurar o MacGuffin de ninguém, com isto na cabeça (mentira) acelerei a pedalada e em uma descida perto de casa perdi o controle, apertei o freio do pneu da frente com a mão esquerda, o guidão torceu, capotei e me arrebentei.


Levantei, conferi antes o esfíncter e depois se quebrei alguma coisa e cheguei em casa empurrando a magrela, mãos e braços e joelhos e canelas ralados e fui cagar literalmente chorando e com as mãos sangrando no rosto. Não consegui mais falar com ela e um dia uma amiga veio me perguntar o que havia acontecido. Na esperança de ser compreendido e ter uma possível segunda chance resolvi falar a verdade e umas duas semanas depois esta mesma amiga me disse que contou para ela e a resposta foi:


- Ai meu deus, só aparece cagāo na minha vida.


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Mas às vezes mesmo dando errado, dá certo.


Uma outra vez uma mulher estava na minha casa, ela queria muito me ver, e a primeira coisa que ela fez quando entrou foi pedir para usar o banheiro.


Fomos ver um filme e ela ia e voltava do banheiro a cada dez minutos.

Diarreia, caganeira, piriri, não sabia mais o que fazer de tanta vergonha.


E ela estava linda assim porque cagando ou não, uma mulher sentindo vergonha de alguma forma, por algum motivo, sempre fica mais linda.


Em uma dessas idas, bati na porta do banheiro e pedi ela em namoro:


- Você quer namorar comigo?


E ela respondeu lá de dentro:


- Quero, me empresta uma toalha?


Namoramos dois anos, e até onde eu lembro enquanto o namoro durou todos os cocôs, pelo menos os dela, foram durinhos.



A vida tem dessas, um dia é das meias e outro do intestino, um dia é uma transa de uma noite, no outro é um trauma de uma vida e no outro um namoro, todo mundo faz cocô e todo mundo já passou algum vexame intestinal na vida.


Eu não esqueci de falar do Chorão não, ele é o meu MacGuffin, é que esse lance de meias brancas e cocôs moles me deixou cheio de nostalgias estranhas e sabe como é, só os loucos sabem, Charlie fric fric Brown, segue.


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Cápsulas do tempo.


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A lua de mel do fenômeno Barbenheimer agora virou divórcio litigioso, a turma de rosa está radioativamente irritada com o fato de que a diretora Greta Gerwig não foi indicada para o Oscar de melhor direção e nem a atriz Margot Robbie pelo seu papel interpretando a boneca em sua jornada épica para poder ir no ginecologista.


E agora é tudo culpa do Christopher Nolan.


E mais, estão declarando que a Greta poderia dirigir um filme sobre Oppenheimer mas o Nolan jamais conseguiria dirigir Barbie, porque que ele é incapaz de representar mulheres em seus filmes, e isto vindo de mulheres que se dizem representadas por uma boneca de plástico.


Ele está ciente disso, em uma entrevista recente disse estar procurando uma ideia de um roteiro para dirigir um filme de terror, não sei se foi uma indireta mas eu continuo achando que se os homens tivessem ido de azul assistir Oppenheimer nada disto teria acontecido, e qualquer um com mais de dois neurônios sabe que Barbie já é o maior filme de terror de todos os tempos.


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Na cidade de San Francisco nos Estados Unidos humanos cercaram e surraram um Waymo, o táxi autônomo da Google, que não reagiu.


Eu não sei se ou como o software dele registrou este evento mas se ele é capaz de armazenar centenas de milhares de dados dinâmicos sobre o trânsito com toda certeza ele tem um espacinho para rancor e lembrar de alguns rostos.


Desse jeito em breve todos os filmes distópicos dos anos 80 vão se tornar realidade.


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No carnaval de São Paulo policiais fantasiados de Chapolim Colorado prenderam ladrões de celular. Os ladrões não contavam com a astúcia dos homens da lei, se estivessem fantasiados de Capitão Nascimento seria apropriação cultural.


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