ENSAIO 92: GLEN BENTON
- LFMontag

- 3 de dez. de 2025
- 11 min de leitura
Atualizado: há 4 dias

Foto: Montag
Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.
--
16/12/2025
GLEN BENTON
É sobre oblívio.
--
Look here, brother: Who you jivin' with that cosmic debris?
Frank Zappa - Cosmik Debris
--
No god, no lord shall live
What always has should never been
No god, no lord shall live
Behead the prophet and we win
Deicide - Behead the Prophet
--
Oblívio significa esquecimento profundo, apagamento da memória ou um estado de inconsciência sobre algo, podendo também se referir ao desaparecimento no tempo ou ao anonimato.
O termo tem relação com a mitologia grega, especialmente com o rio Lete, localizado no Hades, onde as almas bebiam das suas águas para esquecer tudo antes de reencarnar e a palavra vem do grego Léthe, que significa esquecimento ou ocultamento, e é a origem de ideias associadas à perda de memória presentes em termos como letargia.

O Anel de Giges é um conceito filosófico clássico que simboliza a invisibilidade e a questão moral ligada ao poder absoluto sem consequências e aparece principalmente na obra “A República” de Platão, onde é usado para explorar a natureza da justiça e da ética.
A história é contada por Glauco, que relata o caso do pastor Giges, da Lídia: Depois de um terremoto, Giges encontra dentro de uma caverna o corpo de um gigante morto usando um anel mágico e, ao colocar o anel, ele percebe que se torna invisível e passa a agir sem ser visto, seduzindo a rainha, assassinando o rei e tomando o trono.
A mensagem central do Anel de Giges é discutir se alguém seria moral se pudesse agir sem medo de punição e Glauco argumenta que, na maioria das vezes, as pessoas só se comportam moralmente por medo das consequências, e não porque valorizem a justiça por si mesma, a lenda é um precursor das discussões sobre egoísmo e altruísmo, e influenciou filósofos posteriores como Thomas Hobbes, que refletiu sobre a necessidade da lei para conter o comportamento humano.
O conceito também teve grande repercussão na cultura popular e na ética moderna em narrativas de invisibilidade e poder absoluto sem punição, como em “O Homem Invisível” e “Senhor dos Anéis” e também como metáfora em debates sobre tecnologia, anonimato e vigilância, questionando como o poder invisível afeta o comportamento humano e a moralidade.
Por outro lado a sublimação, na psicologia, é um mecanismo de defesa maduro onde impulsos socialmente inaceitáveis, como os sexuais ou agressivos, são redirecionados para atividades socialmente valorizadas e produtivas, como arte, ciência, esporte ou trabalho; este processo permite a satisfação indireta e não patológica desses impulsos, reduzindo a tensão sem a criação de sintomas neuróticos.
--
O Glen Benton talvez você não conheça, ao contrário do Ozzy não mordeu morcego sem querer, nem mordeu pombo querendo, ou cheirou formiga sem saber se queria, mas também vive como poucos e canta (grita) como ninguém, agita tanto quanto e teve culpa parcial quando nós decidimos subir no terraço do prédio do Charles em pleno inverno com um toca-fitas, dois copos, uma faca e uma galinha.
[SOMENTE LIVRO]
[SOMENTE LIVRO]
--
Na animação Sausage Party de 2016 os alimentos do supermercado acreditam em uma lenda chamada O Grande Além: eles pensam que, ao serem escolhidos pelos humanos, estão sendo levados para um paraíso de fartura e felicidade.
Frank, uma salsicha, sonha em ser levado junto com sua namorada, o pão de hot dog Brenda, mas tudo muda quando alguns produtos descobrem a verdade terrível: fora das prateleiras, os humanos não são deuses benevolentes, e sim assassinos que cozinham e devoram seus corpos.
Quando os alimentos acreditam estar sendo libertados para o Grande Além, a batata é a primeira a perceber o horror: logo após ser levada para a cozinha, tem a pele arrancada com um descascador, gritando de dor e em seguida outras comidas passam por torturas semelhantes, a alface é rasgada em pedaços; as cenouras são cortadas; e um pacote inteiro de alimentos observa, em choque, os companheiros sendo fervidos, fatiados e mastigados.
Esse contraste entre a esperança de salvação e a violência brutal da cozinha humana marca uma das viradas mais grotescas do filme.
Esta versão é confirmada depois pelos alimentos não-perecíveis, que já sabiam a realidade por terem sobrevivido fora das gôndolas:
Okay, the thing about the Great Beyond is… we invented it!
As soon as you’re out those doors, the gods kill our asses. What, are you crazy? That doesn’t make any sense, why would the gods kill us? Because it makes them stronger, every kill gives them more power, and it’s never enough.
Over the years they’ve grown bigger, stronger, fatter; their hunger’s insatiable, buddy.
I mean, fuck. You guys are fucking nuts.
How much of that shit have you been smoking? Too much is how much. We blaze for real, 24/7. No joke. But we also know our shit.
Before us, everyone knew the awful truth.
Oh, how they screamed.
It was a living nightmare.
So we, the non-perishables, created a story.
The story of the Great Beyond.
A place where the gods care for you, and all your wildest and wettest dreams would come true, they would go out those doors happy instead of shitting themselves.
A partir dessa revelação Frank tenta alertar os outros sobre o destino real que os espera, enfrentando a descrença e a resistência de quem ainda tem fé no Grande Além.
Paralelamente, outros personagens, como um bagel judeu, um pão sírio muçulmano e um taco lésbico, vivem aventuras próprias em meio às suas próprias crises de fé e identidade.
[SOMENTE LIVRO]
--
[SOMENTE LIVRO]
Então fui desesperadamente atrás de respostas e me perguntei: o que diriam os profetas?
Consegui achar um disposto a nos ajudar, encontrei (imaginei) um que aceitou ser entrevistado por mim, segue.
--
ENTREVISTA COM UM PROFETA
Saiba o que passa pela cabeça de quem vive o amanhã.
Os profetas são pessoas reclusas, e achar um profeta que aceite dar uma entrevista é tarefa difícil. Quando um deles aceita, é com o argumento de que só o faz porque havia previsto que você o entrevistaria. O entrevistado em questão sabia até mesmo como a entrevista terminaria. Fiquei com medo, mas ele disse que não adianta se preocupar: o destino está escrito e não há como mudar os rumos dos acontecimentos. O profeta fez apenas duas exigências: que eu não fizesse perguntas sobre a Mega-Sena e que seu nome não fosse divulgado. Problemas com a justiça trabalhista.
Eu: Em primeiro lugar, gostaria de agradecer muito pela oportunidade de lhe entrev...
Profeta: (Interrompendo) Assim estava escrito, esta entrevista faz parte do plano mestre dos acontecimentos divinos...
Eu: Que plano mestre?
Profeta: Não posso contar agora. Se o fizer, estarei interferindo no destino, e não temos poder sobre ele.
Eu: Qual a sua previsão mais famosa?
Profeta: Eu disse que seriam dois aviões que atacariam as torres gêmeas em Nova York e não apenas um, como falavam no dia.
Eu: E quando o senhor contou que sabia?
Profeta: Logo depois que o Jornal Nacional confirmou que foram dois aviões.
Eu: Por que não antes?
Profeta: Porque o destino não pode ser mudado.
Eu: Por que não?
Profeta: Assista a *O Exterminador do Futuro* e você entenderá.
Eu: Já assisti, e o melhor que se podia fazer era avisar mesmo ela sobre o exterminador. Assim, ela conseguiu escapar e teve o filho que salvou a humanidade das máquinas.
Profeta: Mas se ninguém avisasse, ela morreria logo e não teríamos tantas continuações...
Eu: É verdade. Como o senhor faz as suas previsões?
Profeta: Eu jogo tarô, búzios, faço horóscopo e mapa astral, varetas do I Ching, dados do I Ching, moedas do I Ching japonês, leio íris dos olhos, palma da mão e planta do pé, leio mentes, visualizo borra de café, visualizo aura, analiso caligrafia, extrato bancário e histórico escolar.
Eu: Nossa!
Profeta: Também aceito encomendas de doces e salgadinhos.
Eu: E para 2012? O senhor já previu algo?
Profeta: Eu sei tudo o que acontecerá em 2012.
Eu: E o que acontecerá?
Profeta: Não posso contar agora.
Eu: Quando o senhor contará?
Profeta: Em 2013.
Eu: Opa, então haverá 2013?
Profeta: Sim, mas não da forma como você imagina.
Eu: E como será então?
Profeta: Não posso contar.
Eu: De que adianta prever se não pode contar para ninguém?
Profeta: Eu contarei na hora certa.
Eu: Quando?
Profeta: Depois que tudo acontecer.
Eu: Mas se o senhor contar depois que acontecer, como poderá provar que sabia antes?
Profeta: Muito simples: já estou te contando agora!
Eu: Contando o quê?
Profeta: Que eu sei o que acontecerá!
Eu: Mas o senhor não conta O QUE acontecerá...
Profeta: (Alterado) Só posso contar na hora certa!
Eu: Que é?
Profeta: Depois!
Eu: E de que vai adiantar contar depois?
Profeta: Isso ajudará as pessoas...
Eu: Como?
Profeta: Elas poderão se proteger do que virá por aí.
Eu: Mas o senhor contará depois. Como elas vão se proteger?
Profeta: Aí é uma escolha pessoal de cada um.
Eu: Mas não seria melhor para proteção delas o senhor contar antes?
Profeta: Você não entende os desígnios da minha profissão...
Eu: E quais são os desígnios da sua profissão?
Profeta: Eu uso a minha capacidade de prever o futuro para alertar as pessoas e assim ajudar elas.
Eu: Mas o senhor só conta depois que tudo acontece!
Profeta: Eu disse que você não entenderia o meu trabalho...
Eu: Eu estou tentando, mas se o senhor contar só depois, o que aconteceu vai parecer mais uma reportagem do que uma previsão.
Profeta: Porque eu já lhe disse que não posso contar antes!
Eu: E como isso ajudará as pessoas então?
Profeta: (Levantando a voz) Ajudará porque eu contarei!
Eu: Vamos começar novamente... O senhor faz previsões.
Profeta: Sim.
Eu: Mas não pode contar.
Profeta: Não.
Eu: Aí o que o senhor prevê acontece.
Profeta: Sim, sempre.
Eu: E depois o senhor conta que já sabia que aconteceria.
Profeta: Claro.
Eu: E para que serve contar depois?
Profeta: Porque o meu dever é avisar as pessoas!!
Eu: DEPOIS????
Profeta: Garoto, percebo que falta amor no seu coração...
Eu: Isto é uma previsão?
Profeta: Não, você não teria forças para saber o que vai lhe acontecer...
Eu: O senhor sabe?
Profeta: Claro que sim! Esqueceu a minha profissão?
Eu: E o que vai me acontecer?
Profeta: Eu sabia que você me perguntaria isto...
Eu: Então responde o que vai me acontecer.
Profeta: A paciência é a maior das virtudes...
Eu: Esse é o meu futuro?
Profeta: Não.
Eu: Então qual é?
Profeta: Eu só posso contar depois, já lhe disse.
Eu: E por que você está me contando que sabe então?
Profeta: Porque a minha sina é ajudar as pessoas.
Eu: Mas o senhor não está me ajudando!
Profeta: E como eu te ajudaria então?
Eu: Contando-me antes o que vai me acontecer.
Profeta: Eu sou apenas profeta; o que vai acontecer na sua vida é problema seu.
Eu: Mas você sabe o que vai me acontecer.
Profeta: Claro!
Eu: E se você sabe antes, por que então não me conta?
Profeta: Quem faz as perguntas erradas jamais terá as respostas certas.
Eu: Eu vou morrer um dia?
Profeta: Sim.
Eu: Ah, e você sabe quando...
Profeta: Sim.
Eu: E por que eu acho que isto não vai me ajudar em nada?
Profeta: Porque você tem o coração fechado.
Eu: Ah, é? E o senhor faz só isso da vida? “Ajudar” as pessoas?
Profeta: E você acha isso pouco?
Eu: E como você ajuda então?
Profeta: Eu lhe disse, uso o meu dom de prever o futuro e conto para as pessoas, ajudando-as.
Eu: Ah, é? E quando você conta?
Profeta: Depois que acontece.
Eu: E as pessoas agradecem?
Profeta: Geralmente não.
Eu: E o que elas dizem?
Profeta: Que eu deveria ter contado antes.
Eu: Ahá! E o senhor?
Profeta: Digo que, se elas tivessem prestado mais atenção nas minhas palavras, aquilo não teria acontecido.
Eu: Mas o senhor só conta depois!
Profeta: ... Por isso mesmo.
Eu: E QUAL É A SUA AJUDA?
Profeta: Sem mim, elas jamais saberiam que algo aconteceria...
Eu: E como o senhor só conta depois, não faz diferença nenhuma...
Profeta: Claro que faz!
Eu: Como?
Profeta: Você não gostaria de saber o seu futuro?
Eu: Sim, mas antes dele acontecer.
Profeta: Você exige demais do universo.
Eu: Pelo jeito você sempre cobra adiantado.
Profeta: Sim, o mundo está cheio de malandro.
Eu: Você não sente peso na sua consciência?
Profeta: Não, por que deveria?
Eu: Porque o senhor não conta para as pessoas...
Profeta: Mas eu conto!
Eu: Depois!
Profeta: E daí?
Eu: E daí que as pessoas não têm como se precaver...
Profeta: Claro que têm!
Eu: Como?
Profeta: Eu conto pra elas com este propósito.
Eu: É, só que depois.
Profeta: Eu sou profeta, não sou pai de ninguém...
Eu: Vamos tentar mais uma vez. O senhor é profeta.
Profeta: Seguramente.
Eu: Resuma o seu dom pra mim.
Profeta: Eu uso o meu poder de sintonia com a energia cósmica do universo para saber o destino e faço as previsões ajudando as pessoas e dizendo pra elas como elas poderiam ter evitado deixar aquilo acontecer.
Eu: Mas se o senhor contar depois, não está mais para conselho tardio do que profecia?
Profeta: Claro que não, porque eu sabia antes!
Eu: E o que aconteceria se o senhor contasse antes?
Profeta: As pessoas dariam um jeito de driblar o destino, a minha previsão não se concretizaria e eu perderia a credibilidade.
Eu: Então o segredo da sua profissão é não contar.
Profeta: E não contar é uma forma de manter o segredo.
Eu: (Risos histéricos) Essa foi boa!!!!
Profeta: ...
Eu: Mas mesmo assim, não seria melhor se o senhor contasse antes e...
Profeta: (Interrompendo) Você não tem outra pergunta?
Eu: Um ex-ajudante seu está te processando na justiça do trabalho. O que houve?
Profeta: Eu o demiti por justa causa, e ele não gostou. Ele alega que a demissão foi sem justificativas e entrou na justiça porque quer resgatar o FGTS.
Eu: E qual foi a sua justificativa?
Profeta: Eu tive uma revelação nos búzios de que o demitiria.
Eu: Ah, então desta vez o senhor contou antes...
Profeta: Eu não, mandei para o RH.
Eu: Se o senhor contasse antes, teria sido aviso prévio, não é?
Profeta: Sim, aí teria que pagar férias atrasadas e mais outros encargos...
Eu: O seu funcionário não tirava férias?
Profeta: Se o futuro não descansa, por que ele deveria?
Eu: O senhor conhece bem o futuro, então.
Profeta: Claro, eu vivo pra ele.
Eu: O senhor sabe o SEU futuro?
Profeta: Não, eu não advogo em causa própria, e eu morro de medo dessas coisas.
Eu: Como assim?
Profeta: Se eu soubesse o meu destino, abandonaria a carreira e deixaria de informar às pessoas o futuro delas, que é a minha missão neste mundo.
Eu: Mas quando o senhor informa o futuro, ele já é passado...
Profeta: E qual o problema disso?
Eu: O problema é: a pessoa sabendo DEPOIS do que acontece não tem como agir ANTES...
Profeta: E...?
Eu: O senhor sabe a diferença entre ANTES e DEPOIS?
Profeta: O seu tempo acabou.
--
[SOMENTE LIVRO]
[SOMENTE LIVRO]
[SOMENTE LIVRO]
--
[SOMENTE LIVRO]

Mas pode piorar?
Pode, sempre pode, claro que pode.
Mas você pode rir se quiser, segue.
--
Em tempo, na segunda parte de Sausage Party depois de enfrentarem os humanos, alguns dos personagens descobrem algo ainda mais bizarro: encontram Firewater, um dos não perecíveis, e este revela a eles que todo aquele universo é apenas uma animação criada por pessoas em outra dimensão.
Eles veem evidências de que não passam de desenhos animados dublados por atores famosos, como Seth Rogen. Essa cena quebra a quarta parede e insere uma camada meta-humorística, onde os alimentos, já traumatizados pela verdade sobre os humanos, precisam lidar com o choque existencial de serem apenas personagens fictícios dentro de um filme.
O clímax mistura revolta, questionamento da crença no mito e um humor escatológico que culmina em uma cena caótica e sexualizada entre os alimentos, uma grande orgia sexual e, veja só, alimentar ao mesmo tempo e no fim, o grupo parte em busca de seus criadores, deixando em aberto a crítica à religião, ao consumo e até ao próprio ato de contar histórias.
Seriam os deuses cartunistas?
--
Cápsulas diagnosticadas do tempo.
--
Vídeos de chás revelação de condições neurológicas como Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) têm viralizado nas redes sociais, em uma das gravações, familiares aparecem em uma festa com bolo e até balão antes de revelarem o resultado de um diagnóstico.
A ocasião teve ainda broches personalizados com os seguintes textos: "Parabéns pelo TDAH" e "Parabéns pelo autismo".
Em outro vídeo, um grupo de jovens tenta adivinhar o que consta no laudo da amiga.
--





Comentários