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ENSAIO 94: XANGO

  • Foto do escritor: LFMontag
    LFMontag
  • 14 de jan.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 10 de fev.

Foto: Montag


Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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28/01/2026


XANGÔ


E então descobri que o problema com as galinhas era a trilha sonora.


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Se é impossível ignorar o som de um berimbau, algo muito mais profundo acontece, e eu diria assustador, quando você entra em um terreiro de Candomblé.


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No candomblé, assim como na mitologia grega e especialmente nas tradições de matriz iorubá, não existe o conceito pobre e maniqueísta de bem versus mal da moral judaico-cristã, e não se entende que um espírito desencarnado “baixa” no corpo da pessoa como ocorre na umbanda e em religiões voltadas ao contato com mortos.


Não é possessão e nada vem de fora, o que acontece é a manifestação do orixá, que não é um espírito humano mas sim uma força da natureza, um princípio divino, e quando um orixá se manifesta ele ativa e se expressa através do axé da pessoa, algo já existente nela desde o nascimento.


Por isso muitos sacerdotes explicam a manifestação como um alinhamento profundo entre o orixá e o iniciado e não como uma possessão externa no sentido comum da palavra; a pessoa não é “invadida” por algo estranho, mas entra num estado ritual em que sua consciência do cotidiano se afasta para que a força do orixá se expresse, no candomblé o orixá é uma realidade objetiva, cósmica e coletiva, e não uma criação psicológica individual.


O transe então acontece no encontro entre essa força divina e o corpo preparado ritualmente para recebê-la, uma manifestação sagrada que liga o ilê-ayê ao orun por meio do axé.


Axé é a força vital que sustenta e movimenta toda a existência na cosmologia iorubá e no candomblé, a energia sagrada que permite que as coisas existam, cresçam, se transformem e se mantenham em equilíbrio, tudo o que vive ou se manifesta no mundo possui axé em maior ou menor grau, e sem axé nada acontece, nada se realiza e nada se perpetua.


Orun é o plano invisível na cosmologia iorubá e no candomblé, o domínio onde existem os orixás, os ancestrais divinizados e as forças que regem a criação; não é entendido como céu no sentido cristão nem como um lugar de recompensa ou punição moral, mas uma dimensão essencial da existência, paralela e interligada ao mundo material, no orun estão as potências que organizam a vida, o destino e o equilíbrio do universo.


Ilê-ayê em iorubá significa literalmente casa da terra ou casa do mundo, o espaço do mundo material, o plano onde vivem os seres humanos, os animais, as plantas e onde a vida cotidiana acontece em contraposição ao orun, embora este e o ilê-ayê não sejam mundos separados de forma absoluta mas comunicantes, e a vida no candomblé se organiza justamente nessa relação entre os dois planos, em que o axé circula por meio dos rituais (incluindo cantigas, danças e oferendas), dos orixás e dos ancestrais.


Quando um orixá se manifesta no terreiro há uma aproximação entre orun e a terra, permitindo a força divina atuar no mundo visível e manter a harmonia entre os planos.


No candomblé, o axé circula entre o orun e o ilê-ayê por meio dos orixás e na natureza através dos rituais, dos alimentos, das palavras, dos gestos e das relações humanas; pode ser fortalecido, cuidado e renovado através das obrigações, iniciações e práticas do terreiro, sempre respeitando os fundamentos da tradição.


O terreiro pode ser entendido como um ilê-ayê consagrado, um ponto de ligação entre o mundo visível e o invisível onde o orun se comunica com a terra, a vida encarnada, o espaço da experiência, da responsabilidade e do equilíbrio entre o sagrado e o cotidiano.


O axé não é apenas energia abstrata mas um princípio concreto de vida, responsabilidade e continuidade ligando pessoas e o próprio território sagrado, assim como o ilê-ayê não é apenas um lugar físico, mas um território carregado de axé, onde as relações humanas, sociais e espirituais se manifestam.


Um terreiro de candomblé iorubá puro, geralmente chamado de nação Ketu, é organizado a partir de uma lógica sagrada que reflete a cosmologia iorubá, onde o espaço é dividido entre áreas públicas e áreas restritas, sempre orientadas pelo axé do local: há o barracão, onde acontecem as festas públicas e os toques para os orixás, com chão batido ou cimentado, limpo e consagrado, e os atabaques posicionados de forma tradicional.


Em pontos específicos do terreiro ficam os assentamentos dos orixás, guardados em locais próprios, muitas vezes em casas pequenas ou quartos sagrados, onde só pessoas iniciadas podem entrar e árvores (especialmente as consideradas sagradas como a gameleira) costumam fazer parte do espaço, reforçando a ligação direta com a natureza e o mundo superior.


O funcionamento do terreiro iorubá puro é marcado pelo rigor ritual e pela preservação da tradição africana, com cantigas na própria língua iorubá, toques e cantos específicos para cada orixá e uma hierarquia bem definida.


O babalorixá ou ialorixá é a autoridade máxima, responsável por zelar pelo axé, orientar a comunidade e manter os fundamentos intactos, auxiliado por cargos tradicionais como ogãs, ekedis e iaôs; o ambiente é de disciplina, respeito e coletividade onde cada gesto, objeto e ritual tem um significado ancestral, o terreiro é entendido como um território vivo onde se mantêm a memória, a espiritualidade e a continuidade da cultura iorubá no Brasil.


[SOMENTE LIVRO]


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Xangô é um dos orixás mais conhecidos e respeitados das religiões de matriz africana, especialmente no candomblé brasileiro e representa o poder da justiça, das leis e do equilíbrio, do fogo, do relâmpago e do trovão e da palavra bem colocada, sendo uma figura associada à autoridade, ao julgamento e ao equilíbrio e a sua presença simboliza a força que ordena, corrige e sustenta a vida social e espiritual, atuando tanto como protetor quanto agente de correção diante da mentira e da injustiça.


Um Xangô nunca consegue deixar de ser Xangô.


Sua origem vem de onde hoje corresponde principalmente à Nigéria e ao Benim e na tradição africana Xangô não é apenas um orixá mítico, mas teria sido um rei histórico e após sua morte seus feitos e seu poder foram divinizados, o que explica sua personalidade marcada pela liderança, pelo temperamento forte e por um senso rigoroso de justiça, combinando a experiência humana com a dimensão divina.


Seu principal símbolo é o oxé, o machado duplo que representa a justiça equilibrada, e seus elementos rituais incluem além do fogo e o trovão, as cores vermelho e branco (em algumas nações também o marrom) e a quarta-feira como dia de culto e comidas como amalá de quiabo, caruru, frutas e preparações temperadas e apimentadas fortes.


Sua justiça é firme e direta, podendo ser implacável, mas sempre voltada à retidão.


Além do culto iorubá no Brasil, Xangô é cultuado em diversas outras nações do candomblé, como Ketu, Angola e Jeje, com variações rituais que preservam sua essência, é visto como um orixá vaidoso, elegante e imponente, de personalidade intensa, apaixonada e orgulhosa, muito ligado à dignidade, à honra e à verdade.



Seus filhos e filhas costumam ser associados com pessoas de fala forte, senso de liderança, podendo ser temperamentais mas comprometidas com o correto, e no sincretismo religioso brasileiro Xangô é frequentemente associado a São Jerônimo ou São João Batista e na mitologia grega o equivalente mais próximo de Xangô é, ele mesmo, Zeus.


A associação vem principalmente dos atributos e funções, não de uma equivalência perfeita: o trovão e o raio, relâmpagos e das tempestades, autoridade e liderança, realeza e à imposição da ordem.


Xangô é o orixá do equilíbrio, da justiça e da punição dos injustos, Zeus é o guardião da ordem cósmica e das leis divinas, e ambos simbolizarem força, virilidade e poder masculino.


A diferença mais importante é que Xangô, dentro da tradição iorubá e do candomblé, carrega uma dimensão ética e comunitária muito forte ligada à justiça humana e social enquanto Zeus, apesar de manter a ordem, frequentemente age de forma arbitrária e pessoal nos mitos gregos, ocupando um plano superior autoimposto.


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Você já sabe, quem viveu e cresceu anos 80 e 90, viveu e cresceu em um Volkswagen Gol; foi para a praia, para o sítio, perdeu a virgindade, vomitou, não necessariamente nessa ordem.


Mas um Volkswagen Gol cheio de galinhas pretas no porta-malas, vivas, até segunda ordem só eu mesmo.


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Quando o Korvo ainda era apenas Arnaldo, o Cristóvão encontrou ele distraído no terminal de ônibus e apenas disse:


- Esse corvo não está conseguindo levantar voo.


Como o Korvo ainda era apenas Arnaldo, mas ainda Arnaldo ele já era o que sempre foi, levantou a cabeça e já perguntou irritado:


- COMÉQUIÉ??


O Cristóvão não disse nada, sentou do lado dele quando o Korvo, ainda Arnaldo, perguntou:


- Qual é a tua?


O Cristóvão respondeu:


- A minha já está estabelecida, vamos descobrir a sua agora.


Deu um cartão para o Arnaldo, com um endereço e telefone, e nesse momento ele se tornou o corvo, conhecido Korvo, para os íntimos Korvão.


E dois anos depois desse dia, bastou eu falar que estava de carro e oferecer carona, que ele me perguntou:


- Vais fazer o quê sábado de manhã?


E antes de eu responder, emendou:


- Tá afim de levar umas galinhas para o terreiro comigo?


Claro que eu não estava afim, quem é que fica afim de levar galinha para terreiro, mas jamais diria não para um convite desses, ainda mais depois de já dominar o assunto, pelo menos em terraços ouvindo N.I.B., no frio, nas piores companhias.


E então perguntei apenas o horário, e ele:


- Cinco da manhã.


Então não era manhã, era madrugada, galinhas pretas vivas, terreiro, madrugada, bora.


[SOMENTE LIVRO]


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E foi assim que eu descobri que o problema com as galinhas era a trilha sonora, o sangue estava lá, mas Black Sabbath não fazia parte.



Ainda não sei o que Cristóvão viu em mim mas a parte mais bonita do candomblé é ele ensinar sobre caminhos, uma religião voltada para dentro, para a manifestação do poder e potencial individual, e eu seria muito feliz se alguém tivesse me mostrado um anos depois quando realmente precisei.


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Cápsulas do IFood do tempo.


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Uma pizzaria quase caiu em um golpe após uma cliente usar inteligência artificial para simular a presença de uma barata em uma foto da pizza entregue.


Com a imagem manipulada, ela exigiu o estorno do valor e dono do estabelecimento desconfiado se ofereceu para recolher o produto e averiguar a situação, então a mulher alegou que havia jogado a pizza fora e que o cachorro teria rasgado o lixo e comido, impossibilitando qualquer devolução ou comprovação.


Até o fechamento desta edição a barata não foi encontrada, mas o espaço segue aberto para futuras manifestações.


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