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ENSAIO 13: AMEN BREAK

Atualizado: 4 de nov. de 2023



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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02/08/2022


AMEN BREAK


O amor da minha vida faz parte da sua também, a música mais linda de todos os tempos, a melhor música do universo, caveiras sorridentes, DJs de olhos fechados e pessoas que se foram mas ficaram.


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Por falar em seres de outros planetas, amores e melhores combinações, a coisa que eu mais amo na vida não parece ser deste mundo mas também faz parte da sua vida e do seu mundo sem você perceber, e ainda criou a melhor combinação e a melhor música do universo.


Precisamos falar sobre Amen Break.


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Em 1969 um grupo chamado The Winstons lançou uma música maravilhosa chamada Color Him Father, faixa que inclusive ganhou um Grammy de melhor música de R&B em 1970.




E no lado B do compacto uma musica instrumental que mudaria o mundo, incluindo o seu mundo, de nome Amen, Brother.




Na verdade apenas seis segundos desta música, o solo de bateria aos 01:29 dela conhecido hoje como Amen Break, e a coisa que eu mais amo nesta vida.



Cerca de dez anos depois alguém muito esperto sequenciou este trecho marcando uma das origens do Hip Hop e a batida que dominaria praticamente toda a década de 80, como por exemplo na abertura do primeiro disco do N.W.A, a famosíssima Straight Outta Compton e a sua introdução "You are now about to witness the strength of street knowledge" e então o Amen Break mais filha da puta da história.



Alguns anos depois alguém muito maluco tocou uma faixa destas do Hip Hop com quase o dobro da aceleração e pronto: nascia a Acid House.


Logo depois alguém mais maluco ainda tocou uma faixa destas sem querer (ou querendo, jamais saberemos) de 33 RPM em 45 RPM ou seja, uns 30% mais rápida, e assim nascia a Jungle Music.


De forma bem resumida, simples e maravilhosamente confusa, o 70 BPM do Hip Hop virou quase 140 BPM na Acid House, a Acid House então baixou para 120/130 BPM originando/se reencontrando com o Techno e o renascimento da House Music o o nascimento do UK Garage, se manteve em 130/140 bpm originando o Trance, em quase 150 BPM originando o Gabba e o Happy Hardcore, subiu para 160 BPM criando o Jungle e o Drum and Bass, a melhor música do universo, e ainda o som do futuro.


E não menos importante mas igualmente apaixonante, o UK Garage tocado sem querer em 45 RPM também originou o Dubstep.


Este pequeno grande monstro de apenas seis segundos chamado Amen Break dominou 30 anos da história da música pop e eletrônica, Rock and Roll e até mesmo no Heavy Metal e hoje em dia ainda domina, foi usado em mais de cinco mil músicas catalogadas e influenciou outras tantas milhares, passando por artistas como David Bowie, James Brown, Everything But The Girl, Public Enemy, Pixes, Oasis, Prodigy, Linkin Park, Amon Tobin, Korn, Deftones, Limp Bizkit, Rage Against the Machine, Tricky, Portishead, Carl Cox, LTJ Bukem, Atari Teenage Riot, Goldie e, pega essa, até mesmo na nossa MPB e Soul Music nacional ainda lá no início dos anos 70 com o grupo MPB-4 na maravilhosa música "Quem Vem de Lá" e chegou até nas Meninas Superpoderosas.


Como assim Meninas Superpoderosas?


Sim, ou você não lembra da música de abertura do desenho?



E tudo porque, naturalmente e distraidamente ou até intencionalmente alguém tocava músicas gravadas originalmente em 33 RPM em 45 RPM e pensava: isto ficou legal.


E assim uma nova subcultura nascia a cada momento e a exata origem jamais será encontrada, como os grandes e maravilhosos mistérios da vida e do universo.


O famoso e ao mesmo tempo desconhecido Amen Break está para a história da música assim como o sal está para a sua comida, possivelmente o legado mais espontâneo da história musical contemporânea, e uma das maiores manifestações espontâneas da criatividade e do espírito humano.


Então o recado é claro, a próxima vez que você ouvir essa batidinha por aí lembre-se que bastam apenas seis segundos para provar que a música assim como as pessoas são uma coisa só, e rótulos são pequenos perto do poder que a música, e as pessoas, possuem quando decidem por para fora o melhor de si.



É mais simples de entender que explicar: as melhores coisas da vida são quebradas.


Tudo o que é bom é quebrado, casquinha de Eskibon, resto de bolacha no fundo do pacote, castanha do pará pela metade do preço, amores que vem e vão, UK Garage, Breakbeat e claro, Drum and Bass.


Sabe quando você se apaixona e o seu coração do nada começa a bater em ritmo quebrado e bombeia sangue para todo o corpo arrumar um jeito de se recompor, sabe quando você tropeça na rua e o seu coração do nada começa a bater em ritmo quebrado e bombeia sangue para o teu corpo todo arrumar um jeito de se recompor e sabe quando você está transando e o seu coração do nada começa a bater em ritmo quebrado e bombeia sangue para o teu corpo arrumar um jeito de... e você então... sabe?


Assim é o Amen Break.


Amen Break é o ritmo das ruas, dos clubes escuros e de quem escolhe a música que quer ouvir.


Hip Hop na veia, Drum and Bass na alma, Amen Break no coração.


E o que para algumas pessoas é apenas uma partitura para mim é o meu eletrocardiograma, e o exame mostra o meu coração normal, acelerado e em repouso.




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A virada do estilo de Jungle para Drum and Bass se deu graças a uma música e um disco, a música mais linda de todos os tempos e o disco cujo nome não poderia ser outro: Timeless.



Apesar de falar dele sempre que posso eu não escuto este disco tanto quanto parece, sinceramente depois da fase do vício diário agora eu ouço apenas uma ou duas vezes por ano.


As únicas certezas são sempre ouvir inteiro do começo ao fim e parecer sempre a primeira vez, e assim como as melhores coisas da vida são quebradas, as primeiras vezes são sempre inesquecíveis.


Como algumas pessoas sabem, o Drum and Bass nasceu no início dos anos 90 no dia em que um grafiteiro com dentes de ouro chamado Douradinho se apaixonou por uma negra de dreadlocks loiros (descanse em paz Kemi) chamada Valéria e ela convidou ele para ir em uma festa chamada Raiva em um clube chamado Céu.


E lá no Céu havia um subsolo onde estavam tocando o Fabio, o melhor DJ de todos os tempos, e o Corredor de Groove, provavelmente o DJ mais rápido do oeste.


E ela ainda levou uma amiga chamada Janaína cujo apelido era Tempestade para fazer vela para o casal.


E então a Jungle Music, filha mais velha e desgarrada da mãe Acid House com o pai Hip Hop e sobrinha do Reggae, começou a sair de casa na sexta e só voltar na segunda.


Duvido outro estilo musical ter uma origem mais acidentada, engraçada, romântica e maravilhosa que esta.


O grafiteiro virou DJ e produtor de Drum and Bass e as duas amigas de tornaram o segundo duo de DJs da história do estilo: Kemistry & Storm.



Goldie, Valéria & Janaína, Valerie & Jayne, Química & Tempestade, Kemistry & Storm, Fabio & Grooverider, mais legais que dupla sertaneja, mais fodas que X-Men.



Esse roteiro poderia facilmente fazer parte da novela Malhação e eles poderiam formar a Vagabanda mas graças ao Deus Bassline o trio fundou a gravadora Metalheadz em 1994.


Mas em 1994 o Drum and Bass ainda não existia exatamente, Goldie e a Kemi já não namoravam mais e no natal deste ano foi lançada a música mais linda de todos os tempos e no ano seguinte, no dia 31 de julho de 1995, este disco.


E então o Goldie já estava namorando com uma mocinha chamada Bjork, cujo nome e currículo dispensam apresentações, e segundo a lenda ela sugeriu mudar o nome do estilo de Jungle para Drum and Bass e a pedra fundamental virou um diamante e até hoje está aí, sólido e brilhando.


O nome Timeless simplesmente não poderia estar em nenhum outro disco da história da música.


Algumas semanas depois deste mesmo ano eu mesmo achei este CD em uma loja do Shopping Beira-Mar, naquele cantinho onde ficavam as coisas estranhas e que ninguém gostava e era frequentado apenas por pessoas estranhas e que ninguém gostava, e eram caras demais para comprar todas de uma vez.


E você tinha de escolher e decidir comprar pela capa, porque o dono da loja não deixava você tirar o lacre para ouvir.


Eu não sabia o que era esse disco e nem de quem se tratava, mas a lógica mental para gostar de um disco para mim na época era bem simples: Se tinha caveira na capa já era metade do sucesso garantido.


Sangrando? Soma mais dois pontos.

Com um olho só? Soma mais dez.


E se por acaso esta caveira não fosse nem descarnada, nem amaldiçoada e nem sanguinolenta mas apenas METALIZADA?


DENTRO DE UMA GOTA AZUL?


Aí me parecia ser 100% sucesso, e foi.


Existia toda uma psicologia nas lojas de CD nessa época, se você prometia comprar um o dono liberava para você ouvir outro. Mas eu queria levar só este mesmo e ouvir antes só para obrigar o vendedor a tirar o lacre na frente de todo mundo. Escolhi um outro aleatório para fazer a psicologia reversa fajuta e ele liberou a caveira.


A música mais linda de todos os tempos abre o disco e não é pouca coisa, ela tem vinte e um minutos e é dividida em três partes:


Timeless:

- Inner City Life

- Pressure

- Jah


Mas eu precisei de apenas 10 segundos para decidir comprar o CD.


Era assustador, lindo e estranho demais para não levar.

Pulei mais umas duas faixas só para fazer charme e comprei.



Somente em casa de noite fui entender o tamanho do monstro, demora dois minutos e quarenta e dois segundos para a batida entrar e a Diane Charlemagne (Descanse em paz rainha) começar a cantar.


Aí não tem mais volta.



É Blues, é Soul, é Jazz, Hip Hop, Trip Hop, Breakbeat, Ambient, Jungle, Dub, Drum and Bass.


Ruídos de trem, pratos quebrando, discos ao contrário, sinos, ecos e mais ecos e claro, muita batida quebrada e muito bassline.


Mais satânico que Slayer, mais romântico que Roberto Carlos e ao longo do disco o estranhamento e o encantamento definitivamente só aumentam faixa após faixa.


Um disco precisa ser muito foda, mas muito foda, para ter a música mais linda de todos os tempos e ao mesmo tempo ser o disco que mudou a vida até de quem não conhece.


Você pode não conhecer e até não gostar mas os artistas que você conhece e gosta com toda certeza conhecem, e gostam.


Em 1997 fui abençoado por poder ver este show no Free Jazz Festival em Sao Paulo depois de 500 horas de ônibus e duas toneladas de Imosec (se não sabe o que é Imosec pesquise e sinta-se abençoado por nunca ter precisado) e ver e ouvir de perto o Goldie e o Adam F e as vozes do Cleveland Watkiss e da Diane, uma daquelas noites da vida lembradas como antes e depois dela.


O Drum and Bass está para a Inglaterra assim como o Reggae está para a Jamaica, o Techno para Detroit, o Black Metal para a Noruega e o Samba para o Brasil, é a materialização sonora de uma época, de uma cultura, de um estado de espírito, de um modo de vida, de um lugar.


Claro, você pode achar que a música mais linda do mundo é outra, ninguém é obrigado a estar certo e concordar comigo, mas imagina se eu vou ligar para a opinião de quem nunca viu uma caveira na vida?


Em 1995 você tinha de pedir licença para as pessoas e esperar duas semanas o seu amigo com internet discada te ligar para avisar que conseguiu terminar de baixar o filme Taxi Driver e ver com a galera.


Você nem sabe o que é um Taxi Driver, você só conhece Uber.


Descanse em paz Kemi, descanse em paz Diane, seguimos aqui.




Drum and Bass para sempre.


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Por falar em Metalheadz, quem já conversou a sério comigo deve lembrar que eu sempre conto qual a primeira palavra que eu digitei no Google na vida e cliquei no primeiro link que apareceu.


O mundo era muito mais injusto nessa época e a internet terceiro mundista me ofereceu duas opções:


"flash"

e

"no flash".


Aprendi rapidinho que "flash" era sinônimo de "se fudeu, travei" e na opção "no flash" aparecia apenas a caveira metalizada com fones de ouvido e umas fotos de umas pessoas cujos nomes hoje eu sei de cor: Goldie, DJ Kemistry, DJ Storm, Christian Coral, Randall, Grooverider, Jonny L, Alex Reece, Doc Scott, J Majik, Dillinja e Lemon D.


Quando a internet deu aquela melhoradinha na velocidade adivinha o que eu fiz?


Cliquei na opção "flash" e um mundo todo se abriu com um grande METALHEADZ e então a seguinte frase:


BASSLINE VIBRATION RIDING ACROSS THE NATION


Mas não era só isso não, a frase piscava cara, e no ritmo da música!!


GENIAL NÉ?


E a música?


Ed Rush - The Raven, monstruosa.



Que coisa mais assustadora e genial.


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Alguns anos depois, mais precisamente no outono de 2000 tropecei num set do Fabio em um festival em Curitba e fiquei completamente encucado com o fato dele tocar de olhos fechados, sem nunca olhar para a pista.


Até passar cerca de quinze minutos do set e descobrir que estava na frente do maior DJ de todos os tempos e que ele simplesmente não precisava enxergar nada, afinal ele precisava apenas dos ouvidos, e ele tem os melhores ouvidos de todos os tempos também.


E então em algum momento ele tocou uma das músicas que eu mais amo na vida:

Fresh & Vegas - Otto's Way


Amo tanto que se tornou a minha primeira conta de email, pode me mandar um oi lá que eu respondo: ottosway@hotmail.com.



Em algum outro momento do ano 2000 o Gustavo me ligou no meio da tarde e disse:


- Felipão, aquele Bad Company que você fala o tempo todo vai tocar aqui em São Paulo mês que vem.


E eu:


- Você tem certeza? Porque existe uma banda de Rock and Roll com o mesmo nome.


E ele:


- Não, são aqueles caras da Inglaterra.


E então eu disse:


- Cara, os dois são da Inglaterra.


E daí ele gritou:


- MEU, é aquele Bad Company do NNNNNNHHHOOOOIIMM NHOIM NHOIM, eu ouvi no rádio agora.


É, era o Bad Company que eu falava o tempo todo mesmo.


Em uma única noite eu iria ver o Bad Company ao vivo na minha primeira noite inteirinha só de Drum and Bass e enfim conhecer o Overnight Club.


E lá fui eu.


Quando eu cheguei na frente do lugar a minha primeira lembrança da fila em frente ao clube foi dar de cara com um maluco usando uma camiseta de caveira que me deixou com ciúmes, puto da cara, porque na época eu ainda andava de skate e reconheceria aquele crânio a quilômetros de distância, aquela caveira não era Drum and Bass, era Powell & Peralta.


Mas a primeira regra de sobrevivência nas ruas é: Se você encontrar por aí alguém com uma camiseta de caveira, não arrume briga.


Então deixei passar.


E isto era muito a cena underground brasileira, e principalmente a cena Drum and Bass paulistana na época, não tenho ideia de como começou mas era muito comum encontrar camisetas de Drum and Bass em São Paulo sempre com alguma referência de Rock and Roll ou Heavy Metal nelas.


Crânios do Metallica ou Slayer, tipografia sangrenta por cima, cérebros explodidos ou despedaçados, monstros e vampiros e o agora meu favorito, o crânio sorridente da Powell & Peralta.



Era a mesma atitude punk do it yourself de toda cena musical underground real, se não podemos comprar, nós fazemos.


O Overnight Club era simplesmente incrível, um verdadeiro Hopi Hari de maluco, colorido, barulhento e com aquela claustrofobia obrigatória de um trem fantasma ou montanha russa ou melhor, uma noite de música eletrônica.


Luzes no teto, som nas paredes e pessoas felizes no chão e claro, a sensação constante do mesmo teto caindo na cabeça e tremor nos pés que você só sente em noites de Drum and Bass.


Quando enfim o Bad Company foi anunciado, logo na primeira música e no primeiro drop o moleque mais negro, magro e sorridente que eu já vi na vida agarrou a minha camiseta desesperado e gritou, mais sorridente e desesperado ainda:


- HIROSHIMAAAAAAAAA!!!


Imagina um figurante do clipe da Thriller do Michael Jackson e você consegue visualizar a cena.


E aí vem a segunda regra de sobrevivência das ruas: Se em alguma festa algum maluco agarrar a sua camiseta e gritar Hiroshima sorrindo, você sorri e grita de volta.


Qualquer coisa.


E assim foi.


Não gritei Hiroshima porque perdi o timing, não gritei Nagasaki porque não queria me adiantar, então apenas visualizei mentalmente um cogumelo atômico e gritei.


Por mais de um ano eu pensei que o nome da música era Hiroshima até descobrir em 2001 que na verdade ela se chamava "Messiah" do Konflict quando comprei o CD Fine Tuning Volume One do Jumping Jack Frost e ela estava no meio do set.


E por mais um ano ainda achei aquele moleque doido por ter confundido o nome da música mas isto era comum, até em um festival ver outros malucos gritando a mesma coisa, perguntei qual era a dessa ideia maluca para o Tiago e ele:


- Ah uns malucos costumam gritar "Hiroshima" quando o DJ joga a bomba na pista.


Pois é bando de maluco da Zona Leste, humor brasileiro no seu melhor, ou pior.


E não preciso falar muito mais sobre como a noite foi perfeita, assustadora, pesada e incrivelmente engraçada como uma verdadeira noite de música eletrônica underground ou uma montanha russa ou ainda um trem fantasma tem de ser.


Olhar para qualquer lado e sempre ver o rosto de algum desconhecido quase morrendo, sorrindo e gritando a cada virada não tem preço, é esta a diferença quando a música está em primeiro lugar, ninguém se conhece e todo mundo é amigo.


Hoje esta caveira idiota com este sorriso culpado e este olhar de cão namorando frango assado faz todo sentido, de todas as minhas lembranças de shows o Bad Company só tem equivalência aos shows do Prodigy e Slayer, todo mundo desesperado, todo mundo perdido, todo mundo junto, todo mundo rindo.


E adivinha só, existem imagens dessa noite na INTERNET, procure por Bad Company BC UK @ Overnight Club São Paulo 2000 e você verá.


Quem assistir vai achar o momento da bomba de Hiroshima aos e o momento da NNNNNNHHHOOOOIIMM NHOIM NHOIM mas a minha parte favorita é a mixagem afiadíssima e inteligente entre Miami Flashback e Kloaking Device, a última do set do Bad Company e a primeira do set do nosso tesouro nacional DJ Andy, e troca aquele aperto de mão espertíssimo com o meu herói dBridge.



Eu não sou um cara nostálgico, eu gosto de boas histórias e pensar no futuro e sinceramente fazem anos que eu não escuto mais este estilo de Drum and Bass, mas eu definitivamente sinto muitas saudades desta sensação de caos controlado que está perdida na música eletrônica atual e eu desejo muito um futuro onde ela recupere a parte da sua função original: assustar, criar desconforto, e divertir.


Que noite do caralho, ouvidos zunindo, joelhos rangendo, panturrilhas assando e gargantas inflamando, malucos gritando, caveiras sorrindo e todo mundo vivo, isso sim é festa.


Música real para pessoas reais.


Drum and Bass mais que para sempre.


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Por falar em sal da comida se você é o que come, você também é o que ouve e se a música é o alimento da alma, o Drum and Bass é um buffet livre.


Você abre a porta do restaurante e vem cheiro de tudo junto ao mesmo tempo: feijão, arroz, bife, bananinha frita, macarrão alho e óleo, quibe, polenta, Hip Hop, Rap, Jazz, Funk, Soul, Rock, Heavy Metal, MPB, House, Techno, Reggae, Dub, você fica perdido, pega de tudo um pouco e fica aquela montanha no prato, strogonoff de um lado, carne de panela do outro, mistura arroz com massa e ainda repete a sobremesa.


Não existe gula no Drum and Bass, nem indigestão.


Drum and Bass é arroz e feijão, pode ser por cima ou por baixo ou até do lado, baixo e bateria, bateria e baixo, o básico bem feito ninguém resiste.


Drum and Bass para sempre caralho.


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Drum and Bass era, se tornou, é, e sempre será para gente doida, normal, que ama, ama mais, ama mais um pouco, para quem está triste, para quem está feliz, mais feliz, mais feliz ainda, é foda, é foda demais, é perfeito, é maravilhoso, é clima, é sexy, é sensual até sem querer como as mulheres que não sabem que são sensuais, é sensacional, é top, é topzera, é para ouvir de olhos arregalados, é para ouvir de olhos fechados, é louco, é eterno, mais que eterno, é bonito, é música de malaco, é quando tudo faz sentido, é legal para caralho, é sem palavras, é um sonho, um pesadelo, um sonho desses de acordar rindo, um pesadelo desses de acordar suado, para viajar de carro, para correr, é de tirar o fôlego, é para ouvir sozinho, é para ouvir com alguém, para dançar pelado em casa, para dançar pelado na rua, para abençoar o dia, para exorcizar os demônios do corpo, é tudo, Drum and Bass é um dos mistérios da vida e do universo, um buraco negro com comportamento de Big Bang: absorve o Hip Hop, o Rap, o Jazz, o Funk, o Soul, o Rock, o Heavy Metal, a Mpb, a House, o Techno, o Reggae, o Dub e devolve tudo na sua cara sem dó.


E sem fôlego se você venceu o parágrafo acima.


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Os direitos autorais de Amen, Brother incluindo o trecho Amen Break pertenciam ao líder do grupo The Winstons, Richard Lewis Spencer e nem ele nem o baterista Gregory Coleman receberam algo pelo uso do intervalo, e Richard Spencer não tinha a mínima ideia a respeito até 1996, quando um executivo de uma gravadora entrou em contato com ele pedindo a fita original.



Richard Spencer condenou o uso como plágio e declarou em 2011:


- O coração e a alma [de Gregory Coleman] entraram nesta bateria. Agora esses caras copiam e colam e ganham milhões.


Em 2015 o mesmo Richard Spencer declarou, um pouco mais aliviado:


- Não é a pior coisa que pode acontecer com você. Eu sou um homem negro na América e o fato de alguém querer usar algo que eu criei é lisonjeiro.


Gregory Coleman morreu sem-teto e como indigente em 2006 e Richard Spencer disse ser improvável ele saber do impacto que causou na história da música e ainda em 2015 uma campanha do site GoFundMe criada para Spencer pelos DJs britânicos Martyn Webster e Steve Theobald arrecadou apenas 24 mil libras.


Obrigado Gregory Sylvester Coleman, tudo começou com você em 1969 e uma merda de um solinho de bateria de apenas 6 segundos, que de tão perfeito fez a história da música nunca mais ser a mesma.


E a parte mais legal de tudo isto é o final, a música original Amen Break é ela mesma uma releitura de duas músicas anteriores, ambas do também grupo de Soul Music/Funk/Gospel The Impressions, We're a Winner e Amen.




Porque é disto que a música se trata e é disso que é feito o universo, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.


Drum and Bass mais que para sempre caralho.


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Drum and Bass deforma os dentes e faz você passar vergonha na rua mas tudo vale à pena.


Duvida?


Faça o teste: depois de ler este ensaio faça esta batidinha com a boca, na velocidade que você achar melhor:


Tum tum tá tá tátum tá


Ou a versão um pouco mais complexa:


Tum tum tá tstá tátum tá


E tente não viciar.


Depois disso escolha a sua música favorita do estilo e faça o bassline dela com a boca:


mmmm MMM DUMMM MMMM mmmm


E tente não esquecer.


E depois enfim, a prova final: faça isto em público, e veja o olhar das pessoas.


Passe vergonha, repita todos os passos anteriores.


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E claro, se você chegou até aqui e ainda estranha alguém falar e escrever tanto sobre algo que ama, talvez esteja na hora de você começar a falar e escrever sobra algo que você ama, ou talvez até mesmo encontrar algo para amar.


Não é possível viver sem paixões nem muito menos sem amar, e mais impossível ainda é viver sem música e falar sobre ela.


Fale sobre o que você ama e o amor se espalha.


Músicas & Palavras é sobre isto, é sobre isto sabe, SLA, como dizem por aí.



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O amor da minha vida nasceu em 1969 como acabamos de ler, que aliás foi um ano muito legal na história da humanidade, então vamos agora falar um pouquinho sobre.


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