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ENSAIO 16: CONTROLE REMOTO

Atualizado: 3 de jan.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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28/09/2022


CONTROLE REMOTO


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A melhor forma de controlar uma pessoa é convencê-la de que ela está no controle.


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Esta é uma semana triste aqui no Brasil, semana que antecede o primeiro turno das eleições presidenciais e, embora eu esteja muito bem blindado não vendo mais postagens lixosas das pessoas sobre o assunto, a dor de ver por aí seres humanos brigando novamente com amigos e familiares e trocar seis por meia-dúzia sempre vai me assustar e algo me assusta mais ainda, a capacidade de todos de enganarem a si mesmos.


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Dois dos livros mais legais que eu li se chamam "O Andar do Bêbado" e "Subliminar", ambos de um escritor americano chamado Leonard Mlodinow e tratam basicamente de como o acaso e o inconsciente regem nossas vidas e da nossa necessidade de estabelecer padrões mentais e justificativas racionais para situações do dia-a-dia que não compreendemos ou não temos controle sobre.


Numa das passagens mais interessantes e divertidas de um desses livros (não lembro qual deles) ele explica que ao decidir por uma maçã na feira não estamos de fato escolhendo ela, mas sim desistindo de escolher entre tantas opções.


É muito fácil entender isso se lembrarmos que até muito pouco tempo atrás o nosso cérebro -moldado por milênios de escassez alimentar, migratória e instinto de sobrevivência - nos ensinou a pegar aquela que parece a melhor dentro de um limite de tempo rápido demais para racionalizarmos sobre.


Então temos sempre duas opções: ou nós pegamos o máximo de maçãs que pudermos carregar e saímos correndo ou pegamos apenas uma, quando o cérebro ordena parar de escolher e não perder esta oportunidade de comer ou fugir.


Ou comer e fugir.


2000 anos de era cristã ou 5.000 anos de qualquer outra era da civilização até os dias de hoje não foram o suficiente para apagar isso de nós.


E mais, através de outros exemplos ele mostra no livro como, quando essa escolha acontece em grupo, temos tendência a achar melhor a escolha de quem se manifestou primeiro e este passa a ser inclusive visto como alguém mais capaz dentro desse determinado grupo.


Um líder natural.


E a partir dessas escolhas (que agora sabermos ser ilusórias) o cérebro passa então a tentar justificá-las como se fôssemos donos absolutos de nosso destino e capazes de controlar todo o ambiente ao nosso redor.


Em outra passagem ainda ele conta a história de um ganhador na loteria e, como todos os ganhadores da loteria, ele tinha um segredo para racionalizar o acaso e driblar a probabilidade: O jogo em questão era de sete números então ele decidiu jogar apenas múltiplos de sete, começando pelo sete em si, e seus números foram:


07 - 14 - 22 - 28 - 35 - 42 - 49


E como você pode notar, é possível se tornar um milionário sem estudar.


E claro, não faltam justificativas e tentativas de colocar o destino como dono da vida e nós como donos do destino por ser dependente do seu fim, a grama do vizinho sempre é mais verde, como dizem, e este é um mecanismo humano pois buscamos sempre o melhor para nós mesmos.


Publicitários e políticos sabem bem como usar essa ferramenta, quanto mais frustrados, ansiosos, irritados e com medo ficarmos, mais jogamos nós mesmos para este estado primitivo na nossa mente e mais fácil é nos induzir a "escolher" o "melhor" produto ou representante popular.


Perceberam também como cada vez mais tudo ao nosso redor, inclusive pessoas, parecem cada vez mais produtos?


Eles dizem ter a melhor da maçãs, no gramado mais invejado, e que tudo isso pode ser seu, parcelado ou se eles forem eleitos.


E dentro de dois ou quatro anos haverão maçãs mais lindas ainda, 2.0, é só você parcelar de novo ou reeleger, ou escolher quem lhe prometer acabar com as maçãs podres ou te oferecer uma maçã melhor e talvez MAIOR.


E depois nos elogiam por termos usado essa ilusão de poder e escolha, alimentando nosso ego, e a partir disso tentamos justificar racionalmente toda e qualquer decisão nossa por mais errada ou primitiva e instintiva que ela tenha sido.


E de fato a coisa chegou num nível onde eles não se dão mais nem ao trabalho de convencer você como as maçãs deles são boas, basta apenas dizer que as maçãs do pomar vizinho estão podres.


É a indução pela repulsa e não pela atração.


Alguém pensou em "menos pior" aqui?


Pois é.


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Sim, não basta acharmos capazes de escolher algo racionalmente, além disso vivemos também na sombra do messianismo, acreditando existir uma pessoa, em um único cargo, capaz de gerir e guiar todo um pomar, ou país inteiro, sozinho.


Mas claro que sim, nós escolhemos ele não?


Não, nós não sabemos escolher, nós não queremos escolher, somos guiados coletivamente por instintos irracionais, individuais e egoístas, nós apenas queremos pegar a primeira maçã aparentemente mais atraente (ou a menos podre) e sair correndo.


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Imagine a seguinte cena, um cidadão vendo TV em casa, com o controle remoto na mão.


Cidadão = Você

Controle remoto = A Democracia

TV = O Estado


De tempos em tempos você, descontente, muda de canal num único e preguiçoso gesto, automático.


Em certos períodos você muda de canal seguidas vezes, movido por mais descontentamento ainda pelos canais que você foi substituindo os anteriores.


Mas o gesto é sempre o mesmo, sempre único e automático, e repetitivo.


De tempos em tempos ainda o descontentamento é tão grande que você compra mais canais e aceita pagar mais caro ainda por eles. E leva vários outros canais desnecessários juntos, e quando você cansa deste ciclo você procura uma televisão nova e maior. E mais cara.


Se você já teve algum dia assim na vida percebeu como quanto mais você muda de canal mais parecem todos a mesma coisa, um único gesto não faz de você cidadão, trocar de canais não faz de você cidadão, aumentar o número de canais e pagar mais caro por eles não faz de você cidadão.


Mas a sua ilusão de controle faz você pensar ser capaz de mudar algo na sua vida apenas apertando botões de tempos em tempos, e faz repetidamente sem se questionar.


Note neste momento quão limitado é o papel do controle remoto, podendo apenas ir e vir dentro de um ciclo vicioso até se desgastar e ser substituído por outro igual.


A democracia não é o suficiente e de tempos em tempos ela fica sem pilhas, e você não precisa de uma TV maior.


E você paga caro para assistir um teatro mesmo quando nem todos os atores saibam que estão atuando.



Se todos se vigiarem e vigiarem a si mesmos quem sabe um dia daremos jeito neste condomínio de loucos chamado Brasil.


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Cápsulas do tempo.


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No dia 08 de Setembro morreu a Rainha Elizabeth II aos 94 anos de idade, uma rainha que carregou consigo três dados importantes sobre a nossa história: ela reinou sobre 32 estados soberanos durante sua vida mas apenas 15 no momento de sua morte. Seu reinado de 70 anos e 214 dias foi o mais longo da monarquia britânica e até onde se sabe o mais longo reinado de toda a história dos monarcas.


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Por falar em condomínio, o síndico dos síndicos Tim Maia faria 80 anos de idade hoje, 28 de Setembro, a falta que faz.



Tive duas oportunidades de ouro (diamante) de ver ele ao vivo e em ambas ele foi 100% Tim Maia: sorriu, cantou, se fez de louco, xingou, saiu, voltou.


Na Barra da Lagoa em Florianópolis em 1997 ele mal entrou e antes de terminar o "Boa noite Floripa" já apontou e começou a xingar uma família que estava filmando na sacada de um restaurante e menos de um minuto depois xingando o coitado do técnico de som, jogando nele a culpa de uma surdez progressiva nunca admitida e obviamente nunca diagnosticada, e assim foi até o show acabar, cada acenada de mãos a gente não sabia se era pra gente cantar ou se ele estava abandonando o palco pela enésima vez e desta ele nao voltaria.


Mas na primeira edição do Planeta Atlântida no dia 14 de Fevereiro de 1998 ele se esbaldou, cantou como nunca, xingou como sempre, riu e aparentemente chorou ou talvez tenha sido o suor nos olhos e de quebra foi a minha primeira tirolesa e o meu primeiro bungee jump da vida, ambos com o coração na boca e na garganta aquela acidez do estômago avisando que vomitaria ainda naquela mesma noite.


Exatamente um mês depois Tim Maia faleceria, depois de uma semana internado após o seu último show no dia 08 de março de 1998 no Teatro Municipal de Niterói, o qual ficou apenas alguns minutos no palco e saiu acenando silenciosamente, foi atendido por médicos da plateia e internado às pressas no hospital, colocado em coma induzido para então falecer de falência múltipla dos órgãos e infecção generalizada aos 55 anos de idade, no dia 15 de Março de 1998.


Esta cápsula do tempo poderia se tornar uma máquina do tempo e escolheria esta noite de fevereiro para voltar e gritaria para o Tim: se você cuidar da saúde no verão seguinte você vem na tirolesa e no bungee jump comigo!


Não ironicamente Tim levava a vida como o dia-a-dia fosse uma tirolesa dentro de um bungee jump de álcool, drogas, má alimentação e péssimos hábitos diurnos e noturnos, Tim era sem freios, sem censura, com aquela sinceridade rude capas de fazer os inimigos admirar ele e os amigos sentirem falta todos os dias da vida, um síndico como ele talvez fosse capaz de dar jeito no nosso país.


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Felizmente os meses de agosto e setembro tiveram muita, mas muita música, fomos no show do Iron Maiden na Pedreira Paulo Leminski em Curitiba, sabe como é, a criança metaleira dentro da gente não morre nunca.


A banda estava afiadíssima, as músicas do disco novo estão ótimas ao vivo e os clássicos sempre serão clássicos.


Conseguimos ver duas vezes a Demi Lovato em São Paulo e uma terceira vez em Belo Horizonte e uma semana depois a Dua Lipa em pleno sambódromo paulista.


No meio disso os chatíssimos do Dream Theather fazendo um showzão porque eles são chatos mas são bons, Iron Maiden de novo no Ginásio do Morumbi e de saideira Guns 'n' Roses em Florianópolis, com um Axl Rose Péssimo, uma gralha sendo estrangulada quando canta, isso quando canta. Mas ele está sóbrio, feliz, interagindo e rindo muito e isso é o que importa.


Eu falaria sobre a Demi Lovato e a Dua Lipa se pudesse, mas elas são sem palavras, Demi com carisma, goela e charme no talo, não trouxe nenhum ET mas ela é de outro mundo e a Dua Lipa é aquela típica altona desengonçada que deixa ela mais linda ainda e o show mesmo sendo absurdamente profissional acaba parecendo um ensaio aberto com participação da plateia, nota dez para elas.


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