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ENSAIO 17: CONDOMÍNIO DE LOUCOS

Atualizado: 8 de dez. de 2023



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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12/10/2022


CONDOMÍNIO DE LOUCOS


Este condomínio sem síndico chamado Brasil.


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Existe um raciocínio lógico muito simples que diz o seguinte: Todo mundo é ateu com o deus dos outros, o dia que você entender os reais motivos pelos quais você rejeita o deus do seu amigo, vai entender porque eu rejeito o seu também.


O brasileiro perdeu a fé em si mesmo e passou a depositar toda ela em seres que não contrataríamos nem para office boy da empresa, gerente da lanchonete ou passear com o nosso cachorro, quem dirá para síndico, ou presidente, deste condomínio de loucos chamado Brasil.


Mas existem pessoas que abriram mão desse jogo, e elas não são poucas.


Em 2022 somamos 40 milhões de pessoas, 40 milhões de votos nulos, brancos e abstenções.

Quem diria que seríamos tantos: os alienados, os preguiçosos, os isentões, os covardes.


Talvez até já sejamos maioria dentro e fora do sistema, a verdadeira maioria silenciosa, a verdadeira diversidade, a verdadeira escolha.


Entregamos a sua pizza, operamos a sua apendicite, filmamos o seu casamento.


Trabalhamos enquanto você está dormindo, almoçamos de pé enquanto você tira um cochilo, fazemos hora extra enquanto você vigia a vida dos outros na internet.


Arrancamos o seu siso se for necessário antes de sermos enforcados, para quem puxar um dos nossos verdadeiros heróis na memória.


Todo voto descrente de si é um voto nulo, o dia que você entender os reais motivos pelos quais você rejeita o voto do seu amigo, vai entender porque eu rejeito o seu também.


Anular conscientemente o voto é um ato de coragem e não sair mais de casa pra votar é, além de coragem, um ato de paz consigo mesmo.


A secessão não é sobre expulsar, é sobre se retirar.

A secessão não é um movimento político, é um movimento humano.


A verdadeira revolução não fecha ponte nem lota as ruas, não bate panela nem grita na janela, não chama candidato de crush nem de mito, não troca a foto de perfil nem desfaz amizades, não tem rimas nem dancinhas, não tem likes nem hashtags.


A verdadeira revolução é lenta, gradual e silenciosa, mas depois de começar não volta atrás.

Não se sinta ameaçado, não vamos te xingar nem te chamar pra porrada e nem debochar de você, nós estamos apenas te dando as costas.


Todos nós podemos anular um contrato que nós não assinamos, a secessão é o futuro e ela já começou.


O mesmo cérebro que milhões de anos atrás nos obrigava a pegar uma maçã e sair correndo e nos faz ganhar na loteria jogando os números errados achando estarem certos agora tenta nos convencer que escolher um lado é poder escolher, que votar é nosso dever e poder votar é nosso direito.


O verdadeiro direito de escolha, é não escolher.


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Quando ainda vivo o sensacional Ivan Lessa disse uma das frases que definem o Brasil:


- A cada 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos 15 anos anteriores.


Se estivesse vivo veria esta média se reduzindo para 15 meses, 15 dias, 15 horas, 15 minutos e agora, 15 segundos.


E claro, o brasileiro atualmente também não consegue mais enxergar nem 15 centímetros além da tela de um celular.


Qualquer um que já tenha visto gado sendo pastoreado sabe como é simples, o pastor junto com seus cães empurra a movimentação coletiva na direção escolhida fazendo o grupo oscilar entre esquerda e direita de modo que os bois acreditam estarem escolhendo a direção certa por si só quando na verdade estão sendo apenas assustados e empurrados de um lado para correr para o outro e assim sucessivamente de diagonal em diagonal até que, quando enfim olham para frente, é tarde demais e todos entram na área de confinamento, registro e abate e os poucos bois que então reagirem e tentarem olhar para trás e mudar de direção serão empurrados juntos pela massa histérica e desesperada por não saber mais qual direção tomar.



E quando resolver olhar para trás sairá de um confinamento para entrar em outro.


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Por falar em condomínio e indivíduos, nos fundos do meu prédio tem um galinheiro e uma coisa (des)interessante sobre galinhas é a mais completa falta de senso individual ao mesmo tempo somada a uma mais completa ainda falta de noção de convivência coletiva.


Quando o vizinho entra lá todas seguem e se ele quer elas em uma direção é só fazer barulho na outra ou jogar milho na direção escolhida e todas irão para lá sem questionar.


Todas avançam ao mesmo tempo e se uma delas é atacada de alguma forma todas se sentem atacadas, se você atrai uma atrai todas, se você assusta uma todas se assustam.


Se uma pode todas podem, mexeu com uma mexeu com todas.


As metáforas me atropelam, talvez o esporte preferido neste condomínio de loucos chamado Brasil não é xadrez, nem damas e nem gamão, nem futebol muito menos UFC, as pessoas pararam de mugir e mesmo divididas agora todas estão dentro do mesmo cercado e o esporte da vez talvez seja a rinha de galo.


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Cápsula do tempo.


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65 anos do livro A Revolta de Atlas, o Senhor dos Aneis das desventuras capitalistas, e tão realismo fantástico quanto se Gabriel Garcia Marquez decidisse escrever sobre empreendedorismo, não sei definir de outra forma.


Este livro tem uma certa infantilidade e romantismo a respeito do espírito humano que quase o torna uma novela de autoajuda, inclusive já foi vendido e propagado da mesma forma por empresários, políticos e palestrantes nos Estados Unidos e até pelo mundo.


Mas de infantil Ayn Rand não tem nada, e quando ela quer consegue ser afiada como uma navalha de barbeiro de um pai de família dos anos 50. Longo mas vale cada página, leia.


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Ayn Rand no livro A Anti-Revolução industrial, escrito em 1971, antes da internet:



Os absurdos incontestáveis de hoje são os slogans aceitos de amanhã. Passam a ser aceitos aos poucos, à força de uma pressão constante de um lado e de um recuo constante do outro - até o dia em que, de repente, são declaradas a ideologia oficial do país.


Também é a dela a frase:


- A menor minoria na Terra é o indivíduo, aqueles que negam os direitos individuais não podem se dizer defensores das minorias.


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