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ENSAIO 23: UM BRITÂNICO

Atualizado: 7 de fev.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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11/01/2023


UM BRITÂNICO


O que o pior filme de todos os tempos, um britânico resiliente, um gato transexual e o ato de segurar a vontade de fazer xixi tem a ver com a lealdade.


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Além dos motivos pelos quais os cachorros cheiram os cus uns dos outros é interessantíssimo também os infinitos usos e motivos que eles fazem da própria urina e o ato de urinar e mais ainda, o quanto eles adaptaram a própria vontade de fazer xixi ao nosso estilo de vida.


Quem já viu um cãozinho feliz já viu ele com uma das pernas traseiras levantadas, soltar um ou dois ml de xixi sem olhar para trás e fazer exatamente o mesmo poucos metros à frente e assim por diante.


Parece irresistível para ele, e realmente é.



A urina do cão é uma carta, um e-mail, uma curtida no post (poste no caso), uma cantada, uma pichação, um elogio ou xingamento, um sinal de trégua ou até mesmo um aviso ou ameaça para você, o outro cão ou cachorra, saber quem é quem manda naquele pedaço.


E claro, também é um sinal de perguntar e responder como estão as coisas, aquele oi sumida para aquela cadelinha que sempre retribui a piscadinha de bexiga, quem nunca foi no shopping no mesmo horário outro dia para ver a mesma cadelinha passar e forçar uma coincidência não sabe o que é ser cachorro.


Se um cachorro tem um jardim e um portão ele tem o mundo aos seus pés, uma casa para cuidar e centenas de ois em formatos de cheiradas e xixis o dia inteiro para quem arriscar passar pela frente.


E latidos e abanadas de rabo.


Mas a situação muda de figura quando um cachorro mora em um apartamento e o seu dono passa o dia inteiro fora.


E o único mérito do pior filme de todos os tempos foi provar o quão ingratos nós somos.


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Você com quase toda certeza já leu o livro ou assistiu o filme Marley & Eu.


E com quase toda certeza já quis ter um labrador para chamar de seu, rolar com ele na grama, dormir abraçado com ele, assistir O Rei Leão com ele, ganhar likes nas redes sociais com ele.


Labradores são irresistíveis, parecem bolas de sorvete de creme, todos iguais, todos igualmente lindos.


Por um processo biológico chamado neotenia (pesquise sobre) todos os labradores envelhecem com cara de criança e isso só nos faz adorar eles mais ainda mas nos dias de hoje essa característica, somada com a influência do pior filme de todos os tempos, se tornou uma armadilha para eles.


Existe toda uma pressão social e midiática a respeito dos efeitos prejudiciais de filmes policiais ou de guerra na sociedade mas ninguém fala quão prejudiciais são os filmes que eu chamo de filmes tarja-rosa, comédias românticas que influenciam relações mais parecidas com comerciais de margarina (e tão artificiais quanto) e com seus cães e gatos fofos como mero acessórios decorativos e narrativos.


Quando um desses acessórios é o protagonistas do filme, como é o caso de Marley & Eu, a situação se agrava.


O Marley original teve uma vida aparentemente significativa e o livro em si não é ruim mas o filme teve um impacto cultural tão negativo que ainda dura anos após o seu lançamento, continua disponível por aí inclusive na Netflix, e as pessoas continuam acreditando poder ter um cahorro só porque querem para depois não querer e abandonar alegando simplesmente não poder mais tê-lo.


Até hoje se você for visitar um canil público é muito provável que você vá encontrar um labrador abandonado lá justamente por causa de Marley & Eu, é notória e conhecida a quantidade de labradores abandonados anos após o lançamento deste livro e do filme, se um cão normal precisa de um gramado e ar livre para viver, um labrador precisa de um sítio, um parque na frente de casa, uma casa na praia e sim, parece injusto com você que não tem sítio, não mora na frente de um parque e não possui casa na praia mas a vida não é fácil e nem por isso é direito seu tornar a vida de outro ser vivo, ainda mais um cão, mais difícil apenas por causa do seu ego de querer ter um.


Mas ok, digamos que você se considere consciente e ainda assim acha viável ter um cachorro de outra raça em um apartamento só porque você pesquisou por "cães próprios para apartamento" no Google faça o seguinte exercício: acorde uma única manhã e ao invés de ir ao banheiro tente seguir o seu dia segurando o seu xixi por oito horas seguidas e você pode ter uma ideia da qualidade de vida de um cão de apartamento.


É comum donos de apartamento com cães se orgulharem e dizer passear com os mesmos todos os dias, como se isso aliviasse o fato de que um cão de apartamento é tudo menos um cão, no fundo não passa de um acessório vivo, uma muleta emocional ou enfeite orgânico, para preencher carência ou disfarçar inadequações da personalidade.


Ironia, geralmente são as mesmas pessoas julgando ser um horror passarinho em gaiola ou peixe em aquário e se tornam vegetarianas por supostamente não serem coniventes com tortura animal.


Todo dono de cachorro de apartamento costuma jurar o quanto o seu cachorro é feliz e eis o motivo pelo qual esse pensamento é tão cruel: ele não é feliz, ele apenas se adapta a sua felicidade e é justamente esta capacidade de ir contra a própria natureza para te fazer feliz é o que torna tão cruel forçar ele a isso.


E nós forçamos o tempo todo cães a fazer algo contra a vontade deles e eles apenas aceitam porque são tão dedicados a nós e tomam isto como apenas parte do trabalho de ser apenas um cão e não só, eles sentem prazer assim, sendo úteis e se mostrando adaptáveis ao nosso mundo.


E claro, o livro virou um daqueles facilmente acháveis na sala de qualquer casa, todo mundo deu de presente para colegas de trabalho no amigo secreto de fim de ano ou para aquele aniversariante o qual não entendemos porquê nos convidou.


E claro, Marley & Eu é um filme extremamente machista mas isto é assunto para outro ensaio que nunca será escrito.


Filmes de guerra ensinam sobre empatia muito além das comédias românticas, se você não sente empatia por alguém que morreu por algo ou no lugar de outro alguém você não sente empatia pela própria vida em si.


E olha como o mundo é curioso, um cachorro é mais feliz indo para a guerra que morando em um apartamento, pesquise e descobrirá o mesmo.


Quem quer uma companhia para solidão deveria comprar uma Alexa ou uma daquelas geladeiras te chamando pelo nome e te avisando quando o leite está acabando ou ainda deveria comprar um daqueles aspiradores acostumados a girar e dar cabeçadas pelos cantos, é só pintar dois olhinhos e um sorriso nele.


Lidar com cães é uma lição bruta de empatia, só existe empatia quando você se coloca no lugar de uma vida a qual você não sabe nada a respeito.


E a paciente bexiga de um cachorro é antes de tudo um atestado de lealdade incontestável, como os cães de Shackleton.


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No dia 30 de Agosto de 1916 o navio chileno Yelcho chegava na Ilha Elefante na costa da Antártica encerrando a Expedição Imperial Transantártica com o saldo de 22 meses presos no gelo, 28 homens, 69 cães e o gato Mrs Chippy.


Ernest Henry Shackleton e todos os homens sobreviveram, os cães e o gato tiveram de ser sacrificados.


Antes de 1914 apenas dez homens haviam estado no Pólo Sul e cinco deles morreram tentando voltar, e mesmo esta expedição saiu completamente fora do planejado e na minha opininão é a maior aventura humana, o maior fracasso e o maior triunfo de todos os tempos, representando tudo o que o espírito humano tem de maior para oferecer.


Vamos voltar um pouquinho no tempo e acompanhar esta história cronologicamete e entender os motivos pelos quais eles foram parar lá e principalmente, como e porquê eles foram resgatados.


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Ernest Henry Shackleton foi um marinheiro irlandês e explorador que liderou três expedições britânicas à Antártida e uma das principais figuras do período conhecido como a Idade Heroica da Exploração da Antártida.



A ideia da Expedição Imperial Transantártica escrevendo parece simples: cruzar o continente antártico no navio Endurance de uma costa até a outra através do Polo Sul e aproveitando a abertura do gelo durante a primavera e o verão, seja lá o que signifique as palavras primavera e verão por aquelas bandas.


O navio Endurance foi originalmente chamado de Polaris, mas renomeado como em homenagem ao lema da família de Shackleton: By Endurance We Conquer.


Mais de cinco mil homens se candidataram para a expedição e uma das exigências de Shackleton era a de que todos deveriam saber cantar ou ao menos gostar.


Havia 69 cães a bordo, a maioria cães mestiços pesando cerca de cinquenta quilos e cada um foi atribuído a um membro da equipe e ganhando nomes como Bummer, Chips, Hercules, Judge, Roy, Samson, Satan, Shakespeare, Slippery Neck, Steamer, Stumps, Surly, Swanker, Upton e Wallaby.



O gato Mrs Chippy (Senhora Carpinteira) foi levado a bordo do navio usado pelo grupo do Mar de Weddell da expedição pelo carpinteiro e mestre construtor naval Harry "Chippy" McNish e ganhou este nome por ser companhia constante de Harry, seguindo ele por onde fosse, quando um mês depois descobriu-se que a gata era na verdade um gato mas o nome de senhora ficou, um gato transexual de nome social involuntário.


Segue a timeline da aventura da expedição, que roubei e adaptei do site cool (leia-se cu) antarctica:


01 de agosto de 1914 - O Endurance parte de Londres.


No dia 13 de setembro de 1914 o gato Mrs. Chippy pulou no mar por uma das vigias da cabine até um dos tripulantes ouvir seus gritos e a tripulação virou e o resgatou após estar na água por 10 minutos ou mais. O gato então foi recuperado pelo biólogo Robert Clarck usando uma de suas redes de amostragem.


5 de novembro de 1914 - Chegada à estação baleeira de Grytviken, Geórgia do Sul.


5 de dezembro de 1914 - partiu para a Antártida, último contato com o mundo exterior por 18 meses, último contato com a terra por 497 dias.


7 de dezembro de 1914 - Primeiro encontro com o bloco de gelo.


18 de janeiro de 1915 - Endurance fica cercado, congelado em gelo pesado a um dia de navegação do destino pretendido.


22 de fevereiro de 1915 - A posição mais ao sul alcançada em 77°S 35°W, o gelo agora começa a se mover para o norte levando o Endurance com ele.


01 de agosto de 1915 - O gelo ao redor do navio começa a quebrar e a se empurrar.


A tripulação construiu a Dog Town, onde iglus para cães (chamados dogloos) foram construídos de gelo e madeira para cada um dos cães do navio com seus respectivos nomes, os mais fracos e o gato ficaram dentro do navio.



01 de setembro de 1915 - A pressão do gelo começa a agir sobre o navio.


27 de outubro de 1915 - O Endurance é seriamente danificado pela pressão do gelo agindo sobre ele e vazando, Shackleton ordena que ele seja abandonado, provisões e equipamentos são levados para o gelo marinho e um acampamento é estabelecido.



29 de outubro de 1915 - Shackleton decide que o gato Mrs. Chippy e os cinco cães de trenó que haviam sido carregados a bordo não sobreviveriam.


Em um diário, ele registrou:


"Esta tarde, os três filhotes mais novos de Sallie, o Sirius de Sue, e Mrs. Chippy, a gata do carpinteiro, devem ser fuzilados. Não poderíamos realizar a manutenção de fracos sob as novas condições. Macklin, Crean e o carpinteiro pareciam sentir muito a perda de seus amigos."


01 de novembro de 1915 - Depois de uma tentativa de marcha com barcos e trenós, o "Ocean Camp" é estabelecido a uma milha e meia do Endurance.


21 de novembro de 1915 - O quebrado e estilhaçado Endurance afunda sob o gelo no Mar de Weddell.


22 de dezembro de 1915 - Mantido como dia de Natal, todos os luxos restantes resgatados do navio foram comidos, a última refeição realmente boa em oito meses.


23 de dezembro de 1915 - Ocean Camp é abandonado para tentar se mover para o oeste até a Ilha Paulet encontrar um depósito de comida. A tripulação e os cães arrastam trenós e três botes salva-vidas pelo gelo marinho.


29 de dezembro de 1915 - Um novo acampamento é estabelecido como o "Acampamento de Paciência", onde eles viveriam por quase três meses e meio.


A partir deste momento os cães tiveram de ser todos sacrificados por não haver mais comida o suficiente, que neste ponto já se resumia apenas à caça e pesca de peixes e animais marinhos e ao contrário da crença popular não, os cães não foram comidos e todos foram enterrados com toda a dignidade possível na situação.


Por volta deste período o pouco possível de higiene pessoal também se tornou insustentável pela precariedade em derreter neve e em encontrar pontos para fazer as necessidades pessoais e o papel higiênico oficial passou a ser limpar a bunda com pedras de gelo mesmo.


Durante a celebração de ano novo a tripulação foi atacada por um leopardo do mar logo morto por um tiro de um dos marinheiros e então perceberam o seu estômago cheio de peixe não digerido, o que garantiu uma ótima refeição para a tripulação.


09 de abril de 1916 - Com novos blocos de gelo quebrando e águas abrindo a equipe pega os barcos e segue em direção às Ilhas Shetland do Sul.


15 de abril de 1916 - Desembarque na Ilha Elefante, terra firme pela primeira vez em 497 dias.


24 de abril de 1916 - Shackleton e cinco outros partiram no barco James Caird para a Geórgia do Sul.


10 de maio de 1916 - O barco James Caird chega a King Haakon Bay na Geórgia do Sul.


19 de maio de 1916 - Shackleton, Crean e Worsley partiram para cruzar a Geórgia do Sul para chegar à estação baleeira de Stromness.


20 de maio de 1916 - A equipe chega na estação baleeira de Stromness.


23 de maio de 1916 - 1ª tentativa de resgate, Shackleton parte no Southern Sky, um barco baleeiro para chegar à Ilha Elefante, é desviado pelo gelo marinho e segue para o norte, chegando às Ilhas Malvinas em 31 de maio.


10 de junho de 1916 - 2ª tentativa de resgate de uma traineira, Instituto de Pesca nº 1 emprestada e fornecida pelo governo uruguaio, novamente impedida pelo gelo.


12 de julho de 1916 - 3ª tentativa de resgate da escuna Emma, fretada e abastecida por doações arrecadadas em Punta Arenas, Chile também rechaçado pelo gelo.


25 de agosto de 1916 - 4ª tentativa de resgate pelo rebocador a vapor Yelcho emprestado pelo governo chileno recupera com sucesso todos os que estavam na Ilha Elefante em 30 de agosto.


3 de setembro de 1916 - Yelcho chega a Punta Arenas com todos os 28 homens da expedição Endurance.


Shackleton regressou para a Inglaterra em Maio de 1917 ainda em plena guerra mundial e se ofereceu como voluntário para o exército mesmo com a saúde debilitada, e em outubro de 1917 foi enviado para Buenos Aires para tentar convencer a América do Sul entrar na guerra do lado britâncio através da Argentina e do Chile, felizmente sem sucesso.


Em 1920 lançou a Expedição Shackleton–Rowett que inicialmente seria para o Ártico mas novamente foi a caminho da Antártida deixando a Inglaterra mo navio de nome Quest no dia 24 de Setembro de 1921 e apesar de muitos dos seus antigos tripulantes ainda não terem recebido o pagamento pela expedição do Endurance muitos deles aceitaram fazer parte da nova expedição.


Quando passou pelo Rio de Janeiro Shackleton teve um ataque cardíaco mas mesmo assim decidiu seguir viagem chegando à Geórgia do Sul no dia 4 de Janeiro de 1922 quando teve outro ataque cardíaco no dia seguinte, desta vez não resistindo, morrendo na mesma cidade onde chegou anos antes vindo do pólo sul para iniciar o resgate dos seus companheiros do Endurance.


Leonard Hussey, um veterano da Expedição Transantártica Imperial, ofereceu-se para acompanhar o corpo até à Inglaterra mas ao passar por Montevideo recebeu uma mensagem a esposa de Shackleton, Emily, pedindo que o seu marido fosse enterrado na Geórgia do Sul.


Hussey regressou à Geórgia do Sul com o corpo e em 5 de Março de 1922 Shackleton foi sepultado no cemitério de Grytviken.


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O carpinteiro McNish por sua vez era muito apegado ao gato Mrs Chippy e nunca perdoou Shackleton por tê-lo matado, morreu na miséria em Wellington na Nova Zelândia em setembro de 1930 e foi enterrado com todas as honras navais em uma sepultura sem identificação no Cemitério Karori.


A Sociedade Antártica da Nova Zelândia colocou uma lápide no túmulo em 1959 e também ganhou uma escultura de bronze em tamanho real do Mrs. Chippy em 2004, financiada por meio de uma campanha pública para completar e honrar uma homenagem e memorial ao carpinteiro e seu amado gato.



Mrs. Chippy entrou para o folclore popular através de quadrinhos e até um livro em formato de diário que teria sido escrito por ele e recuperado do naufrágio.



E apesar do amor de McNish pelo gato Mrs. Shippy na sua foto mais conhecida ele está nos ombros de Perce Blackborow, um marinheiro galês de apenas 18 anos de idade e clandestino na expedição, escondido pelo seu amigo William Bakewell no seu armário no navio por três dias, quando o navio então já estava longe demais para retornar.



Ao ser descoberto por Ernest Shackleton ele ameaçou furioso:


- Você sabia que nestas expedições muitas vezes ficamos com muita fome e se houver um clandestino disponível ele é o primeiro a ser comido?


E Perce respondeu:


- Eles tirariam muito mais carne de você, senhor.


Segundo a lenda Shackleton escondeu o riso e depois de conversar com um dos tripulantes disse: Apresente-o ao cozinheiro primeiro.


Mas não antes de passar por um ritual de iniciação em alto mar, Perce Blackborow foi amarrado na frente de um dos botes salva-vidas no meio de um cardume de orcas, que vieram e o cheiraram e o balançaram, sem ele saber que orcas não comem humanos.


Quando foi puxado de de volta ganhou um abraço de Shackleton e foi anunciado oficialmente como membro da tripulação e auxiliar de cozinheiro.


E quando enfim toda a tripulação naufragada chegou na Ilha Elefante, Perce teve os dedos do pé esquerdo amputados devido a queimaduras do gelo.


Quando retornou para casa foi dispensado do exército por invalidez ainda com a Primeira Guerra Mundial acontecendo e ao retornar foi recebido por uma festa na estação de trem, a qual fugiu saindo do outro lado do vagão e foi encontrado apenas na casa da sua família e até a sua morte nunca se viu como um herói ou celebridade, casando e criando seis filhos trabalhando como estivador em Newport até morrer de insuficiência cardíaca aos 53 anos de idade em 1949.


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Apesar de sacrificados existe uma diferença fundamental entre a pobre da Laika, os Marley covers e os cães de Shackleton, estes não foram descartados, não foram cobaias, não foram acessórios emocionais nem muito menos traídos, eles cumpriram uma missão, desbravando e enfrentando as adversidades juntos, exatamente da forma que a relação homem-cachorro se originou milhares e milhares de anos atrás.


Eles tiveram um propósito, e quando você tem um propósito na vida, por mais breve que ela seja ou final abrupto ela tenha, é uma vida completa.



A domesticação do homem só foi possível graças a presença dos cães, foram os cães os nossos primeiros perímetros, as nossas primeiras cercas, portões eletrônicos e alarmes, as nossas primeiras câmeras de vigilância, a presença deles nos ajudou a desenvolver o sedentarismo na nossa espécie, tão fundamental para a criação do nosso senso de comunidade, de convivência coletiva e evolução social.


E claro, cachorros sabem naturalmente a regra de ouro da vida: trabalhar como um adulto, se divertir como um adolescente, dormir como um bebê.



Você tem uma obrigação e uma dívida moral e espiritual com qualquer cão que cruze o seu caminho, quando ver um reverencie ele e faça carinho.


Se ele te oferecer a barriga, sinta-se abençoado, você ascendeu.


Se ele latir ou te morder peça desculpas, ele é apenas um cão, e você não passa de um selvagem urbano.


E se ele fizer xixi na sua perna, não leve para o lado pessoal, talvez ele te veja apenas como um poste que se move e levará o recado geral dele para toda a vizinhança.



E por favor, se você quiser ter um cachorro, tenha a decência de ao menos se tornar merecedor de um e compre antes uma casa.


Ele adaptou o ciclo do sono, do metabolismo, da bexiga e até a própria dieta para te fazer companhia e você não é capaz de retribuir ele com um gramado?


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A expedição Endurance de Ernest Shackleton foi o notório capítulo final da Heroica Era da Exploração e como muitos grandes contos, a história de Shackleton parece, e é narrada por muitos, como uma história de fracasso.


Na minha opinião falhar e fracassar são verbos absolutamente diferentes e como ele mesmo pontuou:


- É da nossa natureza explorar, alcançar o desconhecido. O único verdadeiro fracasso seria não explorar nada.


Assim como os cães fazendo xixi por aí, leais, destemidos, vencedores.


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No dia 5 de Março de 2022, cem anos após a morte de Ernest Shackleton, o Navio Endurance foi encontrado no Mar de Weddell a 3.008 metros de profundidade e o seu nome na popa permanece claramente legível.


A expedição fotografou e filmou fazendo uma completa reconstituição digitalizada em 3D da embarcação, embora não haja nenhuma previsão de resgate ou exploração do navio porque o local está protegido pelo Tratado da Antártida, tratado de 1959 que impediu a disputa territorial dos países exploradores e permite desde então a pesquisa científica e a exploração do continente em regime de cooperação internacional.


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Eu também já planejei uma grande aventura marítima embora ela tenha sido cancelada por causa de um simples telefonema, uma ligação a cobrar, feita de um orelhão.


A missão era simples, eu, o Maurício e o Claudio iríamos juntar nossas moedinhas, comprar um catamarã e subir a costa brasileira até chegar no Caribe e estava tudo certo até o Claudio decidir ligar para o pai e contar a novidade.


Eu fui junto, pegamos nossas bicicletas e fomos até a praça da Barra da Lagoa quando o Claudio pegou o orelhão e fez uma ligação a cobrar, de onde eu naturalmente só pude ouvir as falas e respostas do Claudio, que foram mais ou menos assim:


- Dae pai, eu e o Maurício e o Luizão vamos comprar um barco e viajar até o Caribe, vou vender as minhas pranchas e o carro e a gente vai ficar seis meses viajando.


E daí:


- É, uhum, uhum, mmm, uhum, verdade, uhum, mmm, uhum.


Quando o Claudio desligou eu perguntei o que o pai dele havia dito e ele:


- Ah, a parte que eu entendi mesmo foi no final: é filhão, e eu aqui com o dedo no cu das vaca.


O pai dele trabalhava com inseminação artificial de gado e esta frase foi o suficiente para o Claudio desistir da nossa missão.


Não encalhamos nem naufragamos, apenas literalmente morremos na praia antes de sair.


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E claro, lealdade por lealdade e cão por cão eu já tive um escudeiro, o Pluto, o cão mais fiel, corajoso, leal e aventureiro jamais superado neste planeta, conquistamos juntos terrenos baldios, cemitérios, bairros e rios, mijamos na frente da casa de vizinhos e lutamos sem perder uma única batalha contra o mesmo exército por treze anos seguidos.


Lealdade está acima de muitas coisas, incluindo as privações da vida, não interessa se você limpou a bunda com gelo ou de onde você vem, não interessa nem mesmo se você segurou o xixi o dia todo, lealdade é de fato uma bexiga cheia.


E já existiu um tempo em que ninguém soltava a mão de ninguém, quanta ironia.


Se liberdade é o ingrediente mais caro do universo a lealdade não é só cada vez mais rara, mas uma qualidade visivelmente em extinção.



E quando toda a lealdade se for, não haverá ninguém para tentar resgatá-la.


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Por falar em lealdade (e em tomar no cu) o Ricardo foi um dos melhores colegas de trabalho possíveis, embora a nossa comunicação nem sempre tenha ocorrido da melhor forma esperada, uma vez por exemplo o nosso problema eram ladrões de asfalto, ou coisa parecida, quando ele chegou atrasado e já entrou na sala se desculpando e o diálogo foi mais ou menos assim nas minhas lembranças:


Ele:


- Desculpas, tô tendo de pegar um monte de desvio, tão asfaltando lá perto de casa direto.


Eu:


- Sério, mas você mora de aluguel né, por que você não se muda?


Ele:


- Pô, porque tá ficando melhor né.


Eu:


- Tá, tão assaltando direto e você acha que tá melhorando, você é assaltante também?


Ele:


- Ô burro, eu disse AS FAL TAN DO.


Eu:


- É, essa onda de asfalto tá assolando a nossa cidade mesmo.


Ele:


- Sim, tão asfaltando até quem tá assaltando.


Eu:


- Pra você ver, não se pode mais nem assaltar em paz hoje em dia.



Por falar nele, alguns dias depois travamos também o seguinte e igualmente desastroso diálogo:


Ele:


- Na próxima reunião vou mandar ele tomar no cu!!


Eu:


- É a vigésima vez que você me diz isso.


Ele:


- Mas na próxima vou mandar ele tomar no cu mesmo!!!


Eu:


- É a vigésima vez que você me diz isso também.


Ele:


- Ah vai tomar no cu vai!!!


Eu:


- Ah, é a vigésima vez que você diz isso também.


No cu tomaremos todos e im, eu sou brasileiro e não desisto nunca.


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Por falar em neve, você já parou para pensar que se você estivesse em algum país gelado e cometesse um crime e tivesse de fugir correndo a polícia acharia facilmente você por causa das suas pegadas na neve mas, se continuasse nevando, as suas pegadas seriam cobertas pela mesma neve que quase te denunciou?


Agora você já sabe, se você estiver um dia em um país gelado, cometer um crime e sair correndo pela neve, seja positivo e torça para continuar nevando.


E quando chegar no seu esconderijo não se esqueça de tomar um banho quente, nada como um banho quente depois de cometer um crime e fugir na neve.


Eu não fiz isto, estou apenas fazendo uso da minha imaginação e tentando te ajudar.


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E por falar em tomar no cu e lealdade Michael Collins fotografou todos os que existem e existiram e ainda existirão na Terra e Ernest salvou todos os que estavam com ele, mas e se eu te contar quando um russo teimoso salvou todo mundo e evitou que todos nós tomássemos no cu ao mesmo tempo, incluindo aqueles que nem haviam nascido ainda, incluindo até mesmo você?


Se no espaço os russos nunca prometeram o paraíso para ninguém, na terra o inferno por muito tempo era uma garantia e uma ameaça constante até mesmo para quem nem russo era.


Ainda bem que Stanislav Petrov foi antes de tudo leal a si mesmo e disse não.


Cinco vezes seguidas.


Eu logo logo vou parar de falar sobre cu, mas ainda não é o momento.


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Em tempo, se já sabemos (quase) tudo sobre xixi canino eu preciso te contar algo sobre o cocô deles. Quando um cachorro faz cocô ele tende a se sentir vulnerável e por isto mesmo de costas ele se vira e fica encarando o dono enquanto ainda está cagando.


Aquele olhar não é vergonha, é um gesto de confiança. Claro que é muito estranho estabelecer um laço de confiança cagando e olhando nos olhos, mas este é o mundo deles e não o seu.


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Cápsulas do tempo.


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Por falar em gelado o McDonald's parou de vender sorvete e você nem reparou.


Mas calma pois nada mudou de fato, o produto antes se chamava sorvete e agora é chamado apenas de sobremesa, dando uma rasteira de leve na burocracia dos ladrões chamados fiscais da receita viciados em nomenclaturas e por ironia, presos na mesma.


Chamando de sobremesa os impostos são menores, o McDonald's continua vendendo sorvete (ops, sobremesa), você continua tomando sorvete (digo, sobremesa) e todos nós ficamos felizes e os pinguins do estado não conseguem encher o bolso tanto quanto gostariam.


Dentre os sabores amargos que o McDonald’s paga sobre os seus produtos vendidos em território brasileiro estão o sabor ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias Livre) cobrado em todos os produtos comercializados no país, o sabor PIS (Programa de Integração Social) cobrado de todas as empresas privadas para bancar a cobertura granulada das questões trabalhistas e o especial sabor IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) cobrado de todos os produtos industrializados importados ou nacionais.


Chamando de sobremesa até onde li as cobranças diminuem consideravelmente e isto diz muito sobre defesa pessoal no Brasil, somente o palhaço Ronald McDonald e grandes empresas conseguem se esquivar e serem menos espancados que um palhaço de circo.


Aliás o bombom Serenata de Amor da Garoto não é mais bombom, é wafer, pelos mesmos motivos (pagar menos imposto), é assim que se faz Garoto.


Então na próxima vez que você for no McDonald's e a sua amada perdir um sorvete não tenha medo do mansplaining e explique para ela que agora se chama sobremesa e se você comprar um Serenata de Amor para ela não se esqueça também de falar bem de pertinho de peito estufado e boca cheia sem medo de cuspir: imposto é roubo.


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A Suzane von Richthofen foi solta. Fofa, querida, iluminada, todo um futuro pela frente.


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