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ENSAIO 27: GOLEM

Atualizado: 11 de fev.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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GOLEM


07/03/2023


No princípio existia apenas o verbo, depois o tempo e então os tempos verbais, aí a coisa desandou.


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Do you think God stays in heaven because He too lives in fear of what he's created?


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Ser ateu é muito chato.


Primeiro você deixa de acreditar em deus.

Depois você começa a querer provar que deus não existe para as pessoas.

Aí você deixa de acreditar nas pessoas porque elas não acreditam em você.


Conclusão: todo ateu acha que é Deus.


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A vida se torna bastante divertida quando nem os religiosos nem a ciência possuem a resposta e então ambos atrapalhadamente passam a discordar concordando ou concordar discordando, por exemplo:


O homem veio do barro, segundo a bíblia.

No barro há vida, segundo os cientistas.


Do pó viemos, ao pó voltaremos, disse Deus em pessoa.

Somos feitos do pó de estrelas, disse Carl Sagan.


Até aqui tudo bem, mas a vida na terra é um negócio estranho, bilhões de seres vivos e só uma espécie se interessa pelo fim da vida.


O ciclo da natureza por si é uma matança só: O capim sequestra o nitrogênio do solo, a zebra come o capim e o leão come a zebra, mas só nós matamos todos.


Ninguém responde direito como o mundo começou, mas todos têm alguma ideia de como vai acabar e reconhecidamente sofremos de ejaculação precoce, pois o planeta mal esfriou e já queremos ver ele pegando fogo de novo.


Se tudo o que existe começou com um troço de dois segundos chamado Big Bang podemos acabar da mesma forma, se alguém criou “tudo isto que aí está” em seis dias e ainda tirou o sétimo para descansar, não precisaremos de um mês inteiro para chegar no "meu deus alguém faça alguma coisa".


Se no começo não havia nada e depois tudo do nada se fez com algum Big isso ou Senhor aquilo, a diferença do fim do mundo entre a ciência e a religião é uma questão de ângulo, a ciência tentou facilitar pra você chamando de Big Bang o início de tudo para você entender que o universo começou com um simples... Cabúm. E segundo os mesmos cientistas o fim será o tal do Big Crunch, desnecesário traduzir, mas de acordo com as contas deles isto não vai acontecer em menos de 20 bilhões de anos.


Em outras palavras, mesmo na velocidade seis, pra esperar pelo Grande Créu do Universo tem que ter disposição.


Se em quatro linhas a ciência resolveu o seu problema com a religião não é bem assim pois segundo eles, os econômicos religiosos monoteístas, Deus criou o universo há uns cinco mil anos atrás e deu de presente para o homem, o Doutor Adão.


Deus também lhe deu de presente uma criatura compacta cuja única função original era lhe servir de companhia, feita a partir de uma costela para economizar material e com acessórios que nem a Toyota ou a Tesla imaginaria, quão úteis e divertidos poderiam ser.


Chamou-a de mulher, a Dona Eva.


Mas você sabe, na primeira vez que os dois saíram pra jantar a Dona Eva resolveu dar ouvido ao papo de uma cobra (aquela víbora peçonhenta, jararaca venenosa, cascavel traiçoeira) e botar maçã na receita e assim a massa do bolo começou a desandar.


A dondoca teve um surto e de cara acusou o Doutor Adão de adultério mesmo sabendo que não havia nenhuma outra mulher no planeta até então, juro.


Mentira, disse ela.


Se você ainda acredita no poder da monogamia, perceba como a intriga nasceu junto com o primeiro casamento e que os homens são todos iguais desde o tempo em que não existia nenhum outro para comparar.


Mas Deus, que é do sexo masculino, tomou as dores de Adão e descontou na Eva com a grossura que já lhe era habitual: enxaqueca pra cá, TPM pra lá, menstruação, dor no parto, promoção relâmpago de sapatos, tudo para atormentar a coitada.


Eterno insatisfeito, Deus ainda expulsou os dois do paraíso, botou de quebra umas baratas no mundo e mandou-os plantar para ter o que comer pois Deus é pai mas não é mãe.


E assim, o primeiro homem e a primeira mulher foram os primeiros inquilinos e síndicos e logo também os primeiros despejados, desempregados e sem-terra da história.


Não que isso tenha causado pânico nos dois, nesta época o planeta ainda era apenas um enorme continente de modo que todo sem-terra fora do paraíso era ao mesmo tempo um bem afortunado latifundiário.


Mesmo com tantos contratempos já no início da criação e sem ter terminado a sua obra-prima Deus pôs-se a escrever a sua autobiografia e sem modéstia nenhuma disse ser o idealizador e criador de tudo e seria também o executor se alguém ousasse discordar.


Encheu o livro de regras, dicas de etiqueta e algumas receitas.

Ninguém leu na época.


Por conta deste fato, Deus mandou um agente literário para a terra, seu filho, para ver se deslanchava.


Nada.


Aí o todo poderoso se rebelou novamente como já era de se esperar e escreveu a parte dois de sua história com a ajuda de doze roteiristas e com um finalzinho surpresa de nome Apocalipse.


Nesta segunda edição revisada e ampliada e bem mais incisiva ele conta que quando lhe apetecesse mandaria quatro peões com umas peixeiras enormes na mão para cortar a cabeça de todo mundo, o chão se abriria e o fogo consumiria todos.


Não disse exatamente quando faria isso, mas para evitar os cavaleiros descabelados e sua fúria implacável todos deveriam apenas seguir Ele e ouvir só as regras Dele e agora sim, com leis, regulamentações e penalidades juntas, sucesso imediato, tiragem esgotada em poucos dias e matéria obrigatória no colégio.


Era uma obra confusa, uma mistura de Constituição Brasileira e Senhor dos Anéis em um livro só, idealista, ultrapassada e cheia de monstruosidades, mas vende bem até hoje.


O estilo é inclassificável e num gesto de boa vontade eu enquadraria no Realismo Fantástico do Gabriel Garcia Márquez, muito embora pareça mais um livro feito a quatro mãos por Paulo Coelho e Stephen King, começando edificante, cheio de lições e parábolas e termina com cheiro de enxofre e animais de seis patas e outras tantas cabeças falantes.


Não teve adaptação para o cinema porque James Cameron só foi criar a tecnologia necessária ano passado.


Ano que vem sai e para fazer o papel principal, Deus quer alguém à sua imagem e semelhança.


E assim se fez a vida e a infelicidade alheia, nos mostrando como o Criador pode dar com uma mão e tirar com a outra.


Como alguém tão poderoso pode ser tão falastrão, olho gordo, mimado e birrento?


Invejoso e mesquinho?

Mão-de-vaca, enxerido e vingativo?

E ainda por cima sem ter pai nem mãe?


Mistério.


E agora depois de velho mudou de ramo, se autointitulando “Designer Inteligente”.


Aliás, pra entender Deus só por metáforas mesmo, ele parece aquela criança que te oferece refrigerante já apertando o canudinho.


Sabe aquele gordinho que ninguém convida pra jogar futebol? É Deus, e a bola é Dele.


O campo também, junto com as traves e até a torcida está do lado Dele, então você tem que convidar e durante o jogo ele é onisciente, onipresente e onipotente, então escolha ele para o seu time.


Assim é o famoso livre arbítrio.

Agora, se Ele é desse jeito, não seríamos nós prova de algo melhor.



Deus criou o mundo usando um Autocad pirata, mas culpou Adão quando o projeto saiu do esquadro.


Adão culpou Eva alegando a necessidade de espaço de sempre.

Eva devolveu a culpa se dizendo sufocada e ambos passaram a botar a culpa na vizinhança e aqui estamos nós, exatamente como em uma tirinha do Henfil que li num jornal lá pela década de 90, e nunca esqueci:


Deus:


"plim"


Adão:


- Ó, quem sou eu?


Deus:


- Você é a primeira pessoa, a pessoa que fala.


Adão:


- E quem é a segunda pessoa, a pessoa com quem eu falo?


Deus:


"plim"



(Deus aponta para Eva):


- Tó.


Eva:


- E cadê a terceira pessoa, aquela de quem a gente fala?


Deus:


- Eu sabia que esse lance de pronome iria acabar em sacanagem.



Ah, o que seria da vida a dois sem uma terceira pessoa?

Sem um triângulo?

Sem uma empresa terceirizada?


A moda pegou.


Judeus culparam romanos que culpavam cristãos que carregaram a culpa nas costas. Deuses Gregos culpavam Semideuses que traçaram os mortais gregos que tinham a maior querela com os troianos.


Católicos acusavam hereges que culpavam as bruxas que azaravam gatos pretos. Cruzados culpavam otomanos, ingleses jogaram a culpa nos franceses que ameaçaram portugueses que fugiram para o Brasil, culpando os índios que hoje culpam a Funai e esta divide a culpa com o governo.


Gavrilo culpou Francisco Ferdinando, Hitler culpou os judeus que culparam Hitler de volta.

Russos culpavam norte-americanos, que sempre acabam levando a culpa por tudo e sempre que podem culpam todo mundo.


Você está me entendendo, a vida na terra resume-se a viver entre a culpa e a chance de poder culpar alguém.


O cristianismo fez desta inclusive a regra número um, e se fizermos as contas não sobrou mais ninguém para culpar então apelamos para a arqueologia, sempre escavando um novo culpado, de preferência de alguma civilização perdida.


Se existe algo que a humanidade faz melhor além de nomear culpados é chutar cachorro morto.


Mas claro, esta é a minha versão.


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A versão original na Bíblia é narrada no livro do Gênesis, um dos cinco livros do Antigo Testamento (nomeado Pentateuco para os cristãos ou Torá para os judeus e formado pelos livros Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), e a história começa com a descrição da criação do mundo por Deus em seis dias.


No sexto dia Deus decide criar o homem à sua imagem e semelhança, chamado Adão, e coloca-o no Jardim do Éden e lhe dá a tarefa de cuidar e também permite que Adão nomeie todos os animais do jardim.


No entanto, Deus percebe a solidão de Adão, fazendo-o cair em um sono profundo e tirando uma costela de seu corpo para criar a primeira mulher, Eva. Quando Adão acorda, ele a encontra ao seu lado e se alegra e a partir desse momento eles se tornam companheiros e assumem a responsabilidade de cuidar e governar a terra.


A maneira como Deus criou o universo se deu através de palavras.


Segundo o apóstolo João no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus, tudo foi feito por ele e nada do que tem sido feito, foi feito sem ele. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.


Sabemos também que Deus transmitiu conhecimentos à Adão, o chamado Sefer Yetzirah (ou "Livro da Criação" em hebraico), onde é revelada a existência de 32 portões de criação e sabedoria, a combinação das vinte e duas letras do alfabeto hebraico mais dez emanações.


Outro fator interessante, além da criação a Bíblia também traz casos de profetas que ressuscitaram mortos, como foi com Elias e Eliseu.


E então existe uma tradição de que é possível criar uma espécie de vida, e o mito judaico originado nesta crença é provavelmente o mais conhecido desta prática a partir do barro e da palavra, e com certeza é o meu mito favorito.


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Na mitologia judaica, um golem é uma criatura de feições humanas feita de argila ou barro e geralmente descrito como uma figura robusta semelhante a um homem, sem vida e sem alma até ser animada por meio de poderes místicos ou mágicos.


A palavra aparece apenas uma vez na Bíblia, no quinto livro dos Livros dos Salmos do Velho Testamento, no versículo 16, Salmo 139 e significa algo inacabado ou em formação, e a partir das versões inglesas da Bíblia também é descrito como embrião ou algo imperfeito.


Após a criação da terra, conforme referenciado no Salmo, Deus criou Adão formando o seu corpo a partir do barro da terra e soprando nele o fôlego da vida e assim ele se torna um ser vivente, o primeiro homem.


Adão, agora com uma alma, falou com Deus:


- Teus olhos viram meu golem, ainda sem forma.


Esta declaração foi a forma com que Adão afirmou a sua consciência de saber não ser nada sem a sua alma sendo inserida pelo próprio Deus e o nome é uma derivação da palavra "gelem" ou "ge'lem" ou ainda "gal’mi", cuja tradução mais literal se aproxima de "matéria-prima".


De acordo com esta tradição muitos rabinos e sábios sagrados teriam criado golems humanos e até animais, como o rabino Ben Sira no período do Segundo Templo, os onze irmãos de José (formando as doze Tribos de Israel) e até mesmo o patriarca Abraão, através da Cabala (do hebraico "kabbalah" ou "recebimento" ou, mais literalmente, "tradição"), a antiga prática hebraica do judaísmo frequentemente e atualmente descrita como misticismo judaico.


Apesar das suas origens serem medievais os cabalistas acreditam que a cabala antecede o próprio surgimento das religiões e o seu estudo tenta entender a criação do mundo e a conexão entre Deus e o Homem através do Zohar ("esplendor", ou "radiante", ou "iluminação", ou ainda "janela") uma coleção de comentários místicos sobre a Torá surgida na Espanha a partir do Século VIII (o que também alude à sua relação com a Torá, pois fornece “iluminação” para as histórias contidas).


Por muitos anos a cabala também foi chamada de magia branca por seus seguidores pois, ao contrário da magia negra que tanto assustou e assusta até os dias de hoje, na cabala as invocações possuem o único e obrigatório propósito de realizar o bem.


O Zohar contém discussões sobre a natureza de Deus, a origem e a estrutura do universo, a vida e a morte, a natureza das almas, a redenção, a relação do ego com a escuridão e o "verdadeiro eu" com a "luz de Deus", e o termo também vem do Livro do Gênesis, quando Deus instrui Noé a iluminar a arca ("tzohar taaseh " ou "um "brilho você fará"), e palavra hebraica para meio-dia, "tzohoriyim" ou "a hora mais iluminada", é derivada da mesma raiz.



As primeiras histórias de golems são de fato mais antigas que o judaísmo e o primeiro relato conhecido envolve o nome do rabino Abba ben Rav Hamma ("Rava"), registrado pela primeira vez no Talmude (“ensinar, instruir” ou também “aprender”) da Babilônia no Século IV antes de Cristo, um dos livros básicos da religião judaica contendo a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus, surgido da necessidade de complementar a Torá.


Conta-se que certa vez Rav Zeira veio a Rava e disse:


- Como nunca conheci um golem, não acredito em golems. Prove-me que eles existem.


Rava então respondeu:


- Você precisa da mesma prova do Todo-Poderoso ou seja, embora Deus nunca tenha sido revelado a você, você ainda acredita que Deus existe?


Rav Zeira respondeu enfurecido:


- Você ousa comparar um pedaço de argila animada com o Criador do Universo?


Rava então respondeu com uma ironia cortante:


- Você ousa se comparar?


Depois de alguns dias Rava fez um golem e o direcionou para a casa de Rav Zeira que, nenhum pouco impressionado, olhou e afirmou:


- Vejo que você foi feito por um dos nossos colegas, volte ao pó.



Assim como Adão todos os golems são feitos a partir da lama e são considerados criações de pessoas santas e muito próximas de Deus, esforçadas o suficiente para se aproximar do divino recebendo em troca um pouco desta sabedoria e poder como recompensa e reconhecimento e um destes poderes, se não o maior deles, é o de criar vida.


A criação poderia ser feita por combinações de poderes entre elementos e rituais, pois o universo da cabala “é construído essencialmente sobre os elementos primos de números e letras, pois letras da linguagem de Deus refletidas na nossa linguagem são traduções da sua energia criativa".


Mas por mais santa que a pessoa fosse no entanto o resultado seria sempre apenas uma sombra de qualquer criação de Deus e sempre seria, de algum modo, imperfeita.


Desde cedo então se desenvolveu a noção de que a principal deficiência do golem era a sua incapacidade em falar (e o poder de expressar através da fala é a própria definição do livre arbítrio dada à Adão), mas mesmo assim ter um como servo era considerado como o mais elevado símbolo de sabedoria e santidade.


Existem muitos contos de golems ligados a proeminentes rabinos a partir da Idade Média e centenas, senão milhares de outras obras fora do judaísmo mas diretamente inspiradas, atravessando séculos, eras e limitações culturais e geográficas, e muitas vezes modificadas e reinterpretadas absorvendo a zeitgeist vivida por quem assinou a obra.


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Existem também várias versões e tradições sobre como criar e ativar um golem de acordo com a mitologia judaica, mas geralmente primeiro a comunidade convence o rabino local da necessidade de ter um guardião local.


Depois é feita a coleta do barro ou argila e moldada por todos os moradores, ou apenas pelo rabino ou então o rabino desenha na lama uma figura que então se ergue e o tamanho pode variar de acordo com a necessidade.


Em uma versão o rabino primeiro seleciona as características que o golem vai ter e com base nessa decisão ele escolhe o Sigil que vai representá-lo. Um Sigil é um selo, sinal ou símbolo inscrito ou pintado e considerado possuidor de poder mágico, se referindo a uma assinatura de uma divindade ou espírito e também uma representação simbólica do resultado desejado pelo praticante, com relação direta com algum anjo ou demônio que vai influenciar a manifestação de sua invocação.


Depois o rabino vai até um cemitério de onde recolhe terra logo abaixo da superfície do solo misturando com água e o sangue de um cordeiro sacrificado e nesta prática o barro resultante ganha forma humanóide sozinha e no peito dela o rabino então desenha o sigil correspondente.


O criador desenha também um círculo de giz em volta e então o convoca a ganhar vida, quando os dois negociam por quanto tempo o monstro vai ser obediente.


Em outra versão da ativação se escreve um dos 72 nomes de Deus em um pedaço de papel colocado dentro da sua boca ou colado em sua fronte ou numa placa de argila embaixo de sua língua, emulando e promovendo o ato sagrado do sopro da vida.


Também relata-se a ativação, na minha versão favorita, através do ato de escrever a palavra Emet ou Emeth (“verdade”) ou "aemaeth" ("a verdade de Deus") na sua testa ou no peito.



Ao apagar a primeira letra de Emet (da direita para a esquerda, como assim é escrito o hebraico), formando Met (“morto” em hebraico), o golem era desfeito, personificando uma metáfora bastante pregada nas comunidades judaicas de que a vida só é possível através da verdade, pois a verdade é a palavra de Deus e a ausência dela é certeza de morte.


Nesta narrativa um golem possui vida mas é inanimado, um ser terrestre e não divino, naturalmente despersonalizado e sem autonomia, sem o livre arbítrio doado por Deus para nos diferenciar dos animais, uma figura humana incompleta, sem alma, sem espírito.



Em outra versão consultam-se os escritos sagrados e as disposições alfabéticas partindo das letras IHVH (as consoantes de Yahweh, o nome em hebraico do Deus bíblico do antigo Reino de Israel) e combinando 231 vezes para dar vida a uma criatura ou o dobro (isto é, 462 vezes), para fazê-la retornar ao pó original, mais uma metáfora sensacional indicando que, na minha interpretação, para desfazer um erro é necessário o dobro da energia gasta para cometê-lo.


Outra versão ainda aplica-se o nome de Adão (o primeiro homem) e quando chegasse a hora de desativar a primeira letra, Aleph, seria apagada.


Sem aleph, Adam se torna dam ("sangue").


Em algumas versões ele é desativado todas as noites e em outras somente quando a sua missão é considerada encerrada ou quando ele começa a mais atrapalhar que ajudar.


A existência de um golem na maioria das histórias mostrava algo bom mas com problemas, embora não fosse inteligente o Golem podia fazer simples tarefas repetidamente e a dificuldade era controlá-lo e fazê-lo parar.


Encontram-se também versões onde o ele é ativado pela palavra escrita em sua testa mas continua inerte esperando os comandos e tarefas serem colocados em sua boca ou peito, em uma abertura próxima de onde seria o seu coração, uma versão que também gosto muito pois remete ao (interpretação minha também) quão longe se pode ir e ao mesmo tempo o quanto se pode perder o controle quando se é movido apenas pela paixão.



As tarefas solicitadas ao golem são geralmente simples como limpar o jardim, construir um muro, buscar lenha, fazer chover e defender do inimigo e se não forem controladas ou desativadas no momento certo resulta em desmatamento, um muro tão alto que ninguém mais transpõe, mais desmatamento e alagamento e violência.


Muitas versões mostram este descontrole como resultado da criatura passar a atender as vontades individuais das pessoas da população ao invés de apenas obedecer o seu criador, se tornando uma metáfora para o ônus da preguiça humana e o exercício do poder ou ainda, por ser capaz de ler, ver e ouvir os desejos mais profundos e reprimidos do seu criador (incluindo desejos de vingança) e novamente, mostrando a reafirmação da frase de que devemos cuidar com os nossos desejos, pois eles podem se realizar e se voltar contra nós.


E claro, em uma religião riquíssima em metáforas e alegorias e parábolas pode muito bem significar os riscos de colocar palavras na boca de outro.



As histórias mais recentes de criação de golems datam do Século XVI e envolvem nomes conhecidos da história da Europa no período pós-medieval e da queda do Império Romano do Ocidente e propagadas graças a tecnologia da prensa móvel no início da era moderna.


Uma dessas narrativas envolve o nome de Elijah bar Aaron Judah Baal Shem, o rabino de Chelm na Polônia, cujo golem teria crescido tanto que poderia destruir o mundo.




Na versão mais obscura desta narrativa conhecida quando o rabino decidiu extrair a ativação da sua testa foi esmagado até morrer sob o peso da criatura quando esta se desfez em pedaços.


Segundo a mesma lenda o poder do rabino foi provado logo após sua morte, no ano de 1583.


A única estrada para o cemitério judeu passava por uma igreja russa e sempre que uma procissão fúnebre judaica passava, os cristãos jogavam pedras.


O Rabino pediu em seu testamento que ninguém se movesse ou fugisse se os cristãos fizessem o mesmo na sua despedida e quando o dia chegou, e a procissão se aproximou da igreja e as pedras começaram a atingir o caixão e os judeus, Elijah sentou-se milagrosamente e ao olhar para os cristãos e em seguida o rolo da Torá que estava no caixão a igreja afundou junto com os vândalos.


O rabino então deitou-se ficando rígido como um cadáver novamente, os judeus se entreolharam, a procissão continuou e os cristãos ficaram mudos, encerrando para sempre este ato e permitindo aos judeus carregar e velar os seus mortos em paz.



Mas o mais famoso é também narrado na idade média sobre o esforço do rabino Yehudah Levi Ben Betzalel de Praga na República Tcheca, conhecido como O Maharal (do hebraico "Moreinu ha-Rav" ou "Nosso professor, o Rabino"), para proteger a comunidade judaica de Praga também no Século XVI da perseguição anti-semita.


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A Velha Nova Sinagoga, também chamada de Altneuschul e situada em Josefov, Praga, é a mais antiga sinagoga ativa da Europa e também a mais antiga sinagoga medieval ainda existente com design de nave dupla.


Foi concluída em 1270 em estilo gótico e o seu nome era apenas Nova Sinagoga ou Grande Sinagoga até o Século XVI, quando novas sinagogas surgiram e ela então passou a ser chamada de Velha Nova Sinagoga.


Envelheceu mas não perdeu a pose.


Outra explicação deriva do nome hebraico "al tnay" (que significa "condição" ou "em condições") soar idêntico ao iídiche "alt-nay" (ou "antigo-novo") e de acordo com a lenda anjos trouxeram pedras do Templo de Jerusalém para a sua construção com a condição de que fossem devolvidas quando o Messias retornasse ou seja, quando o Templo de Jerusalém fosse reconstruído e as pedras seriam necessárias.



O Maharal criou o seu golem para ajudar a salvar os judeus de Praga do libelo de sangue, a crença e acusação de que os judeus usavam o sangue de crianças cristãs durante o Seder da Páscoa.


Esse libelo difamatório era frequentemente invocado para explicar o desaparecimento de uma criança e não era incomum uma criança cristã ser morta ou assassinada para ser plantada em uma casa judaica, geralmente por um padre que então "descobria" o corpo e liderava as massas em fúria assassina pelos guetos judaicos, quando aproveitava a histeria e ausência de ordem para se apropriar de bens e ouro e joias dos judeus.


O Maharal teria esculpido uma figura em argila e em seguida recitado orações e fórmulas mágicas para dar vida ao ser artificial que então se levantou e começou a cumprir as ordens do rabino, protegendo os judeus de Praga de seus inimigos e ao contrário do costume o Maharal deu nome para o seu golem, Yosseph, e logo se apegou à sua criação apelidando ele de Pequeno Yossele.



No entanto, o golem era uma criatura desajeitada e incapaz de distinguir entre o bem e o mal e passou a aceitar também ordens dos moradores que o colocavam para realizar tarefas mundanas (buscar água, recolher madeira) e em certos momentos parecia se tornar violento e descontrolado, ameaçando a vida dos próprios judeus que ele deveria proteger mas (na versão do escritor romeno Elie Wiesel publicada em 1983) quando ameaçado ou contrariado Yosseph encolhia a cabeça tentando enterrar a si mesmo nos ombros, como que tentando tornar-se invisível.


Conta-se que era possível ouvir ele respirando, seu olhar era sempre vazio parecendo sempre mirar o horizonte e quando dormia parecia estar sonhando. Não comia, não bebia, não envelhecia e não falava, embora muitas vezes era visto abrindo e fechando a boca tentando exprimir algo além da sua capacidade.


Alguns relatos contam que ele parecia ser sem olhos e outros narram pessoas que viram a si mesmas ou até o mundo pela perspectiva dos olhos do Golem e então enlouqueciam.


Com a sua missão concluída e tempos de paz relativamente estáveis, Yosseph passou a repousar sozinho nos fundos da sinagoga quando era visitado todas as sextas por seu criador, e o recebia com olhos tristes e erguendo os ombros de forma ansiosa à espera de uma nova missão, encolhendo novamente quando percebia ser apenas uma visita.


Dez anos depois de ser criado o Maharal então decidiu comunicar a comunidade e desativar o Golem, levando-o ao sótão da sinagoga e removendo a fórmula mágica que lhe dava vida e cobrindo-o com um taleth, o manto com o qual os rabinos recitam suas orações.



Desde então acredita-se que o Golem está na genizah (do hebraico "armazenamento" ou "escondido") do sotão da sinagoga apenas adormecido esperando o seu mestre lhe dar novamente uma vida e uma missão, algo impossível de acontecer pois segundo a tradição somente o criador poderia revivê-lo novamente, Yehudah Levi Ben Betzalel, falecido em 17 de Setembro de 1609, mas em outros relatos um golem desativado poderia ganhar vida novamente usando os códigos e emanações recebidos diretamente pelas mãos do mesmo rabino que o criou.


Uma genizah é uma área de uma sinagoga ou cemitério judeu designada para o armazenamento temporário de livros e papéis usados ​​em língua hebraica sobre tópicos religiosos antes do enterro apropriado no cemitério.


O sótão da Velha Nova Sinagoga onde o Golem supostamente estaria não é aberto para visitação e os três metros mais baixos da escada externa que leva até ele pelo lado de fora (por onde o Golem subiria) foram removidos para evitar tentativas de acesso de curiosos e vandalismo.



Durante a reforma em 1883 e a exploração do sótão em agosto de 2014 não encontraram vestígios de um golem e nem mesmo de barro.


Mesmo assim outras lendas surgiram e resistem até recentemente, pois invadir o sótão onde o Golem repousa retiraria a alma da pessoa e a transformaria em barro que então se esfacelava na calçada lateral da sinagoga e o rabino varria no dia seguinte como se não soubesse do que se tratava.


Existem narrativas sobre pessoas que desapareceram ou enlouqueceram depois de entrar lá e um suposto agente nazista durante a Segunda Guerra Mundial que teria subido ao sótão e morrido por lá, algo nunca registrado ou confirmado além da tradição oral da fofoca.


Mas de fato a Velha-Nova Sinagoga foi poupada durante a destruição de sinagogas pelos nazistas e esta é uma informação interessantíssima pois os oficiais ligados à Hitler, principalmente os do alto escalão, apesar de não seguirem nenhuma religião específica eram adeptos e caçadores ferrenhos de toda forma de magia e ocultismo que pudesse validar a sua noção de superioridade ariana e conquistar mais poder, e por este exato motivo tinham muito medo e faziam de tudo para reprimir ou ao menos não provocar quem pudesse usar forças ocultas opostas as suas crenças e, a partir de mais uma interpretação muito pessoal minha, posso concluir que se os judeus fossem todos adeptos da cabala muito provavelmente teriam sido poupados do holocausto.


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As palavras de poder do alfabeto hebraico de uso cabalista são chamadas Shems, conhecidos como nomes ocultos de Deus, gerando poderes elementais concedidos por Deus ou outros espíritos.


Shem foi um dos filhos de Noé, o mais velho e considerado o mais dedicado, e seu nome em Hebraico significa “renome" ou "prosperidade".


O cabalista vê nos shems as chaves para desvendar os segredos de Deus ou melhor, são segredos concedidos por Ele após muita dedicação para desbloquear poderes que quase poderiam imitar poderes divinos da criação, como um golem.


Note aqui a religião e a ciência encontrando novamente um ponto de confluência mesmo quando não parece, afinal se para os crentes Deus é uma certeza, para os cientistas ele é uma possibilidade como centenas de outras para o mistério da vida.


No seu livro "Respostas Breves para Grandes Questões" o físico britânico Stephen Hawking declarou:


- Ninguém criou o universo e ninguém dirige nossos destinos. Isso me leva ao profundo entendimento de que provavelmente não existe céu e nem vida após a morte. Temos apenas esta vida para apreciar o grande projeto do Universo, e sou muito grato por isso.


Mas em outro momento, em uma entrevista na década de 90 ele considerou a possibilidade da existência de Deus, embora sem nenhum louvor e, se você interpretar da maneira como eu interpretei, ele considera Ele um colega de trabalho:


- Eu creio que se Deus existiu ele pôde apenas escolher entre as equações físicas e matemáticas já existentes para criar o universo. Se ele nos criou à sua imagem e semelhança, estamos ambos presos no mesmo universo sob as mesmas regras.


Eu acho ambos, crentes e cientistas, irritantes, mas talvez não seria este o grande segredo do universo?


Não seria este universo apenas um grande e desengonçado golem, sem forma, sem brilho e sem órbita, esperando um grande matemático dar vida e o animar?


Minha teoria não responde nada mas deixa tudo um pouco mais divertido pelo menos.


Ou, muito mais divertida ainda, é a teoria do Douglas Adams que abre o segundo livro da série "O Guia do Mochileiro das Galáxias":


- Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. Existe uma segunda teoria dizendo que isso já aconteceu.



Os gnósticos possuem uma visão que combina com a ideia de Stephen Hawking.


Também com base em interpretações heterodoxas e alternativas do Pentateuco e outras leituras das escrituras hebraica e cristã, os gnósticos afirmam que o universo material (cosmo) foi criado por uma emanação imperfeita do Deus Supremo chamada Demiurgo, para prender a centelha divina (espírito) no corpo humano.


Esta centelha poderia então ser libertada através da gnose (do grego "gnosis" ou "conhecimento", o conhecimento intuitivo sobre o espírito e a natureza da realidade), e esta seria transmitida por Jesus Cristo.


Os agnósticos por sua vez consideram os fenômenos sobrenaturais inacessíveis à nossa compreensão.


Eu li uma vez e não esqueci também: perguntas as quais você não consegue responder são de longe melhores que respostas as quais você não pode questionar, um grande mistério pode invocar uma força vital dentro de nós, porque nela está o conhecimento de possibilidades infinitas.


Talvez Deus tenha sido uma criança de uma civilização superior e nós os pequenos bonecos de barro que ele moldou antes dos pais dele levarem ele de volta para um planeta mais interessante.


A fé construiu tantas coisas e a ciência tem destruído tantas outras, há muita ciência nas catedrais e há crendice demais nos laboratórios atuais.


E (como já falamos por aqui) a certeza é para os fracos, só a dúvida leva adiante e onde há dúvida, há liberdade. E com certeza no apocalipse tem um capítulo sobre a internet e as BESTAS DO CAPSLOCK que sempre aparecem para infernizar debates online.


Toda criança nasce livre até os pais enfiarem uma religião, um partido político, um time de futebol e uma novela goela abaixo e de quebra uma projeção de conquistas pessoais nunca alcançadas somada a uma educação destinada a formar massas uniformes e não o pensamento crítico e individual que realmente faz as pessoas, e a humanidade, seguirem em frente.


A criança passa a se desenvolver com a mentalidade divisível onde tudo se divide entre certo e errado, nós e eles, e cresce um adulto incapaz de aceitar ser contrariado, incapaz de admitir um erro, se recusa a aprender, não consegue perdoar e assim por diante.


Tal qual o paladar infantil que nos fazer sempre querer açúcar quando estamos tristes para nos consolar ou felizes para nos recompensar o ego infantil nos faz sempre querer remeter aquela fase da vida quando bastava chorar pra ter razão.


Você nasceu muito tarde para explorar a terra e muito cedo para explorar as estrelas, mas foi dotado de espírito crítico capaz de te permitir explorar a sua própria consciência e isto é uma benção, seja divina, seja a matemática do universo atuando.


A internet nos deu uma oportunidade única de conhecer o diferente, o contraditório, o desafio, mas se você quiser apenas validação você consegue achar provas de que deus existe na internet se você for crente e com certeza conseguirá achar provas de que deus não existe se você for ateu.


Ou deuses.


Todo mundo é ateu com o deus dos outros, quando você entender os motivos pelos quais os deuses dos outros são mitologia para você será o dia em que você entenderá porque o seu deus é mitologia para mim também.


E quando todas as religiões forem tratadas como tal enfim viveremos sem medo, cada um com as suas crenças e todos com lindas metáforas, parábolas, lições e experiências para dividir.


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Esta crença, o milagre da vida como algo vindo de uma força superior, sempre foi forte até a descoberta dos processos de fecundação humana pela via sexual, antes disso considerava-se que a mulher era incubada por um ser minúsculo já formado (um homúnculo) que ela então alimentaria até atingir o tamanho de um bebê.


E esta era não só a concepção religiosa na idade média como até mesmo dos considerados inimigos desta, como as bruxas e suas mandrágoras (os homúnculos nascidos fora do corpo da mulher, considerados malditos pela igreja) e até mesmo a crença na prática alquimista iniciada por Paracelso referente à criação in vitro de um ser a partir de om uma mistura de terra e água ou sêmen dentro de um recipiente de vidro com esterco de cavalo ou outro substrato orgânico.



É interessante também notar o quanto o Golem Judaico é parecido e existem criaturas com o mesmo propósito e finalidade em várias outras culturas e mitologias antigas.


O mito de um ser inanimado ou não-humano que então ganha vida e habita dois mundos e ao mesmo tempo passa a obedecer todas as ordens e a realizar todos os nossos desejos atravessa todos os períodos da nossa história e por praticamente todas as religiões, mitologias e filosofias como os Djinns árabes, os Daimones gregos, o Exu africano e o Hórus egípcio, e tal qual na vida real se estes desejos serão bons ou ruins a escolha é de quem comanda ou seja, todos personificam o ditado: cuidado com o que você deseja, seu desejo pode se realizar e se voltar contra você.


Ao contrário de Deus, que detém o monopólio da bondade, os Djinns, Daimones, Hórus e até mesmo Exus são geralmente neutros e afeitos a assumir a postura de quem os invoca, a maldade através deles virá do próprio desejo de quem eles atenderão.



Os Djinns indicam, na religião pré-islâmica e muçulmana, entidades sobrenaturais do mundo intermediário entre o angélico e o terreno, associados ao bem ou ao mal, e regem o destino de alguém ou de um lugar, embora também possam descritos de um modo inteiramente virtuoso e protetor.


De acordo com esta mitologia, os djinns foram criados dois mil anos antes de Adão e eram possuidores de elevada posição no paraíso, a grosso modo igual a dos anjos, embora na hierarquia celeste fossem provavelmente considerados inferiores.


Quando Adão surgiu o orgulhoso Djinn Iblis se recusou a curvar-se perante a nova criatura e por esta conduta todos os seus semelhantes foram expulsos do paraíso, tornando-se entes aliados perversos e asquerosos, ou rivais perdidos buscando servir ao homem como forma de obter o perdão divino.


São considerados bidimensionais, com a habilidade de viver e operar tanto no domínio visível quando no invisível e podem casar, ter filhos, formar comunidades e tribos, comer, dormir, brincar e ter experiências com os humanos, até mesmo se apaixonando ou tendo relações sexuais, relações naturalmente consideradas impuras pelos seguidores da fé islâmica.


Muitas das ideias do ocidente sobre gênios da lâmpada vêm de As Mil e Uma Noites, relação de contos contendo centenas de (ou mil e uma) histórias, embora tenham se concentrado em apenas dois dos contos, “Aladdin e a Lâmpada Maravilhosa” e o “Conto do Pescador e os Gênios”, ambos os quais ficam presos em lâmpadas ou garrafas até serem libertados por uma pesoa e, por gratidão ou obrigação, conceder desejos.


Além das Mil e Uma Noites os djinns foram inspiração direta do personagem Shazam, o mago das histórias em quadrinhos americanas publicadas na década de 40, e o nome é um acrônimo que vem das seis figuras mitológicas fornecedoras dos seus poderes.


Ele tem a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a resistência de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio.


E claro, a série televisiva I Dream of Jeannie (Jeannie é um Gênio no Brasil) da década de 70 escrita por Sidney Sheldon e estrelando Barbara Eden como um gênio de dois mil anos e Larry Hagman como um astronauta que se torna seu mestre, e por quem ela se apaixona e acaba se casando.



Apesar de haverem comparações com os golems, a descrição dos djinss é quase idêntica à dos shedim da mitologia judaica, também invisíveis aos olhos humanos e sujeitos a desejos terrenos como a procriação e a necessidade de comer.


Algumas fontes judaicas concordam com a noção islâmica de que os djinns habitaram o mundo antes de nós.


O termo em grego para o mesmo conceito de djinns e shedims é Daimon ou Daemon no latim, originado na antiguidade mas ao longo da História surgiram diversas descrições para esses seres, até a sua versão portuguesa "demônio".


Com a tradução dos textos hebraicos para o grego e sob a influência do dualismo zoroastriano o termo shedim foi traduzido para o grego com conotações implícitas de negatividade e com o passar dos anos na cultura judaico-islâmica, shedim tornou-se a palavra hebraica para djinn, transmitindo a atitude moralmente ambivalente desses seres e possivelmente confirmando de que se tratam das mesmas criaturas, pois uma das interpretações do termo shedim representa "os deuses de outros povos".



Na cultura grega os Daimones são deuses de determinadas entidades da natureza humana como a loucura, a ira, a tristeza e a raiva e seu temperamento liga-se ao elemento natural ou vontade divina que o origina e por isso não se fala em "bem" ou "mal" categoricamente, um daemon não tem condições de guiar o seu invocador, apenas faz uma leitura dos desejos deste, apresentando-se conforme as circunstâncias do relacionamento estabelecidas e sujeito à sua influência.


Posteriormente os daimones foram descritos como entidades infernais pela Igreja Católica e a compilação mais detalhada que se tem notícia são as Chaves (ou Clavículas) de Salomão, uma coleção de manuscritos do séculos XIV e XV com feitiços antigos hebraicos (ou grimórios), com inspiração em ensinamentos cabalísticos e talmúdicos e atribuída supostamente ao Rei Salomão, citando quando este rei subjugou os 72 daemons e prendendo-os em uma urna e criando um sistema de evocação estruturado (As Chaves, Sigils ou Sigilos ou ainda, os Selos) para se utilizar da energia dos mesmos conforme a necessidade.



Hórus por sua vez era um dos deuses mais respeitados e cultuados de toda a religiosidade egípcia, sendo considerado o deus dos céus.


Os egípcios acreditavam que Hórus era um deus protetor da humanidade, sendo também patrono dos homens jovens e protetor da realeza egípcia e teria estabelecido uma ligação muito forte com os faraós egípcios, que consideravam ser encarnações de Hórus.


Era representado pelos egípcios como um falcão e segundo esta crença tinha um papel muito importante na manutenção da ordem, e também poderia ser invocado em casos de guerra.



O tão falado e tão pouco conhecido Exu é o Orixá da comunicação e da linguagem, atuando como mensageiro entre os seres humanos e as divindades (dentre outras muitas atribuições) e é cultuado no continente africano pelo Povo Iorubá e também nos cultos afro-descendentes como no candomblé baiano e no tambor de mina maranhense.


O Orixá Exu recebe diversos nomes de acordo com a função exercida ou suas qualidades e a ambivalência é marca registrada da sua personalidade, visto como o mais humano dos orixás e em certos cultos não é nem mesmo considerado um Orixá mas uma entidade à parte vivendo nos dois mundos, tais quais os semi-deuses gregos ou os golems judaicos ou os shedims e djinns judaico-islâmicos.


Possui caráter irascível, astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente e gosta de provocar dissensões e disputas quando não é devidamente agradado e por esta razão nada se faz sem ele e sem ele receber oferendas antes de qualquer outro orixá, sendo invocado para abrir qualquer cerimônia e garantir a calma e o bom andamento do ritual ou trabalho. É sempre representado em um montinho de terra e com atributos sexuais exorbitantes, geralmente instalado na entrada da

aldeia ou terreiro, afastando todos os maus espíritos, limpando os corpos que adentram e, de certa forma, abençoando os que saem.


A palavra vem de "Èsù" da língua yorubá e significa "esfera".

Exu é o orixá do movimento, da ida e da volta, do entorno, do contorno, e do retorno.


Exu é o fiscalizador do Axé, das coisas que são feitas e do comportamento dos homens.


O também muito falado, muito cantado, até mesmo tatuado e tanto quanto pouco estudado Axé não é uma divindade, nem demônio, muito menos um orixá.


Axé é um sentimento, significa emanar força de realização e manifestação do poder divino, prosperar e realizar desejos. É uma forma de cumprimentar e de se despedir, é a força sagrada de cada orixá que se revigora no candomblé com as oferendas dos fiéis e os sacrifícios rituais.


Notou como Axé se parece não só o significado mas também a pronúncia sonora do Shem judaico? Pois é.


Procure sobre as chaves de Exu e se assuste mais ainda com a semelhança simbólica e gráfica entre elas e as Chaves de Salomão.


Através da influência e repressão católica na colonização e formação político-social do Brasil o Exu foi logo associado ao diabo e assim foi assimilado nos primórdios da Umbanda, assumindo postura maniqueísta e considerado fonte de discórdia e temor.


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A cultura popular também é rica em manifestações do Golem Judaico.


O Mito do Golem foi reinterpretado e adaptado em diversas obras de literatura e cinema, direta ou indiretamente, incluindo a famosa peça de teatro "Der Golem" de Gustav Meyrink publicada em 1915, e nas três versões cinematográficas "Der Golem" (O Golem, de 1915, sobre uma figura desumana e desajeitada que se torna violenta após ser rejeitada por uma humana), o curta-metragem "Der Golem und die Tänzerin" (O Golem e a Dançarina, de 1917, cujo personagem principal se transforma em um golem para assustar uma jovem por quem ele está apaixonado) e "Der Golem, wie er in die Welt kam" (O Golem, Como Ele Veio ao Mundo, de 1920).


Três filmes mudos alemães dirigidos por Paul Wegener, três filmes em sequência sendo que o último conta a história de como ele surgiu e foi criado, tornando esta não só a primeira trilogia e franquia de horror da história do cinema como torna o filme de 1920 a primeira prequela e mais ainda, como os dois primeiros filmes são considerados perdidos, torço para que um dia eles ressurjam como O Golem de Blair.



Para garantir o clima de terror, neste filme de 1920 a palavra de ativação inclusive vem primeiramente pela boca do demônio Astaroth, invocado pelo rabino.


Astaroth na demonologia era conhecido por ser o Grande Duque do Inferno na primeira hierarquia junto com Belzebu e Lúcifer, fazendo parte da trindade do mal.


Apesar do tom claramente antissemita (por considerar os cabalistas ocultistas a serviço de forças do mal), esta era a visão compartilhada pelos próprios judeus na virada do século passado, que renegavam a cultura cabalística.


O judaísmo tradicional tem mandamentos muito rígidos contra imagens esculpidas, estátuas e qualquer tipo de idolatria além do próprio Criador, motivo pelo qual no próprio hebraico moderno a palavra golem assume o significado "tolo", "imbecil" ou "estúpido", e no filme obrigar um demônio a declarar uma palavra mágica reforçaria esta percepção.


Mas a minha interpretação (tão pessoal quanto reflexiva) é diferente.


Para mim ativar o Golem através de um demônio é uma clara alegoria para os perigos de se brincar de Deus e o preço a se pagar por tentar imitar o criador ou, em outras palavras, de que os fins não justificam os meios.


Em dado momento do filme o próprio Astaroth possui o Golem e ataca os seus criadores, no final sendo desativado por uma criança curiosa removendo a palavra mágica do seu peito, em outra clara alegoria de que somente a inocência será perdoada.


O sucesso foi grandioso e até hoje é influente no cinema, com os seus planos e sequências e até enredos inspirando diretamente filmes como Nosferatu de 1922 e King Kong de 1933.


Ganhou até mesmo uma sequência não autorizada e sem relação com os realizadores originais, "Le Golem", filme francês em 1936 onde a criatura é roubada, despertada por rugidos de leões (!!!) e então ressuscitada para realizar uma última missão: Matar o imperador romano Rodolfo II.


E sim, os leões também escapam garantindo o caos e a surrealidade do filme.



Elementos semelhantes podem ser encontrados no romance Frankenstein de 1818 de Mary Shelley e a própria definição simbólica do Golem, de seu início e fim: um ser, servo do seu criador, cujo poder cresce continua e perigosamente até o limite em que, a fim de preservar a própria comunidade, deve ser devolvido onde foi criado e neutralizado ou destruído.


Quase três séculos depois do lendário episódio do Golem de Praga, numa noite de verão do ano de 1816 na Vila Diodati e à beira do lago Genebra na Suíça, os poetas Lord Byron e Percy Shelley discutiam sobre a natureza da origem da vida e de que forma coisas inanimadas poderiam começar a mover-se, provavelmente inspirados pelas novas assombrações reais comuns na época, o ressurgimento dos autômatos, bonecos e engenhocas mecanizadas que pareciam ter vida e motivações próprias e vinham das mais diversas épocas e culturas que se somaram a partir da era das grandes navegações.


Na mesma sala estava Mary Shelley, mulher de Percy, que tempos antes havia lido e ouvido sobre as histórias fantasmagóricas dos tempos góticos alemães e possivelmente, a Lenda do Golem.


Segundo suas palavras Mary Shelley disse não ter dormido naquela noite de 16 para 17 de junho de 1816.


Levantou-se e correu para a escrivaninha e escreveu no alto da folha:


“Foi numa sombria noite de novembro que eu contemplei a realização da minha obra”.


Era o começo de uma das mais impressionantes novelas de horror e na sua história, hoje um clássico absoluto do gênero, o rabino Judah Loew foi substituído por um cientista, o Doutor Victor Frankenstein de Ingolstadt.


E claro, as combinações cabalísticas cediam lugar às experiências de Galvani e Volta executadas pelo jovem doutor, produto da tecnologia da revolução industrial em plena marcha.


O milenar sonho do homem dar vida a um outro homem retomava o seu curso e, como o monstro feito de barro do Gueto de Praga, a criatura do Doutor Frankenstein não era agradável de ser vista.



Tecnicamente o trabalho fora perfeito, meticuloso e preciso, mas a aparência do produto final era espantosa, terrível, quase um prenúncio do seu fim.


Erguendo-se da mesa onde nascera, a extravagante figura logo iniciou a fugir colocando em pânico e alarmando seus moradores e o resto da história eu recomendo fortemente que você compre o livro e leia.



Também existem ecos do Golem na obra nem um pouco infantil "As Aventuras de Pinóquio" de 1883, do escritor italiano Carlo Collodi nascido na cidade de Florença, Toscana, sobre um boneco de madeira que ganha vida e sonha em se tornar um menino de verdade e cujo nariz cresce quando ele mente, e de fato muitas vezes o menino Pinóquio é identificado como um golem de madeira, principalmente porque tanto na versão original quanto em suas adaptações em certo momento (ou em vários) ele sempre se vira contra o seu criador.



O antigo e sensacional seriado Arquivo X possui um episódio chamado "Kaddish" de 1999, contando a história de um golem criado para vingar a morte de um jovem judeu.


O Kaddish ("sagrado" em hebraico) é a prece especial dita regularmente nas rezas cotidianas e em enterros em memória aos entes falecidos, onde se dá ênfase à glorificação e santificação do nome de Deus, e geralmente é realizada pelos filhos ou parentes próximos do falecido, uma antiga sequência de oração judaica regularmente recitada no serviço da sinagoga incluindo ação de graças e louvor e concluindo com uma oração pela paz universal, que em português

se traduz mais ou menos assim:


"Bendito, louvado, glorificado, exaltado, honrado, elevado e louvado seja o Nome do Santo, Bendito seja Ele – acima e além de quaisquer bênçãos e hinos, Louvores e consolações que são proferidas no mundo; e diga Amém."



Também encontram-se os filmes:


- "The New Golem" de 1977 do diretor israelense Amos Gitai sobre um jovem artista que cria um golem em plena Tel Aviv.


- "Golem" de 1980 do diretor polonês Piotr Szulkin, um filme interessante e distópico em um mundo aterrorizante do futuro, onde a tecnologia comanda os movimentos dos indivíduos supervisionados por médicos realizando um programa para supostamente melhorar a raça humana.


Assim, em vez de os médicos criarem um monstro como Frankestein os monstros já estão lá como as espécies do futuro, mas um deles é suspeito de ser um ser humano normal isto é, um golem ao contrário.


- "The Golem" de 2018, filme britânico dirigido por Doron Paz e Yoav Paz, contando a história de uma mulher que cria um golem criança para proteger sua comunidade judaica da perseguição.


Apesar de extremamente bem filmado, incluindo uma ótima fotografia com ótimas cenas de ação, conflitos bem escritos e atuações dedicadas, é realmente um típico filme de terror moderno, poderia até mesmo ser um filme do Stephen King incluindo uma criança com ares de Pet Sematary, nada além do esperado pois ambos os diretores são conhecidos pelo filme Jeruzalem sobre pessoas que se tornam zumbis em... Israel. Assista ambos quando estiver sem inspiração para procurar algo melhor.


Também existe no YouTube o maravilhoso curta-metragem de animação GOLEM de Alon Boroda e Ron Nadel, sobre uma tarde muito divertida, lúdica e desastrada, entre uma menina solitária e um golem idem, com perda de inocência para ambos os lados.





E além das já citadas obras de Gustav Meyrink e do escritor Elie Wiesel, existem muitos outros textos sobre o tema nas mais variadas versões, interpretações e contextos, como o maravilhoso romance The Golem and the Jinni ("O Golem e o Gênio", de 2013) da escritora Helene Wecker narrando uma não tão improvável amizade entre um golem e um djinn vivendo em Nova York durante o final do século XIX, e o interessantíssimo "Os Fazedores de Golem" ensaios montados pelos escritores brasileiros Luiz Nazario e Lyslei Nascimento, que ainda não li mas acabei de comprar.


E não poderia esquecer o poema "El Golem" do poeta e escritor argentino Jorge Luis Borges em homenagem ao Golem de Praga e em cujo final ele pergunta:


"Na hora da angústia e da luz vaga,

em seu Golem seus olhos pararam,


Quem nos contará as coisas que

Deus sentiu quando olhou para seu rabino em Praga?"



O Golem aparece também em animes e mangás japoneses fazendo companhia para personagens solitários e protetores de crianças como na série "Somali to Mori no Kamisama", e te colo a sinopse aqui:


"Em um mundo habitado por demônios, ciclopes e outras criaturas fantásticas, a humanidade se destaca como pária. Rapidamente se enfurecendo, a raça humana se envolveu em uma guerra que quase os eliminou.


Os poucos que restam são vistos como uma iguaria, sem nenhum propósito além de serem caçados e comidos.


Um dia, Golem, um protetor errante da natureza, encontra uma criança solitária enquanto patrulhava. Inspirado por seu entusiasmo, ele leva a garota, chamada Somali, sob sua asa. Juntos, a dupla embarca em uma jornada para encontrar os pais de Somali e trazê-la para casa."



E mais ainda, não podemos deixar de relacionar os robôs dos contos e livros de Isaac Azimov, cujos dramas e conflitos estamos começando a vivenciar em nossas vidas neste exato momento, em tempos de assistentes virtuais e chats com inteligências artificiais, e as suas conhecidíssimas Três Leis da Robótica saíram da ficção para se tornar a conduta raiz dos cientistas do ramo e poderiam facilmente ser regras cabalísticas se tivessem sido escritas em outra era:


1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal;


2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei;


3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.



E no mesmo ano do Golem nos cinemas alemães e nascimento de Isaac Azimov surgia na Tchecoslováquia a nada menos que incrível peça de teatro R.U.R., os Rossumovi Univerzální Roboti ou no inglês "Rossum's Universal Robots", do escritor Karel Čapek e simplesmente a primeira vez na história onde a palavra "robô" foi mencionada, com estreia mundial em 02 de janeiro de 1921 e logo então traduzida para mais de 30 idiomas.


A peça conta sobre uma fábrica de pessoas artificiais chamadas "roboti" feitas a partir de matéria orgânica sintética e criadas para realizar trabalhos rejeitados pelos humanos.


Os roboti eram confundidos com humanos e podiam pensar por si mesmos e, apesar de inicialmente estarem felizes em trabalhar para a humanidade, em dado momento se revoltam e causam a extinção da raça humana.


Karel Čapek nunca admitiu ou citou influência do Mito do Golem em sua peça mas os seus roboti eram chamados pelos nomes Marius, Sula, Raio, Primus, Helena e... Daemon.


R.U.R. traz conflitos interessantes sobre o tema, em geral criamos e modificamos seres vivos ou humanizamos máquinas para que sejam utilizadas como ferramentas, se não há sofrimento, não há conflito moral e para não haver conflito moral a criação não pode sofrer e isto só acontecerá se ela não estiver viva ou não possuir consciência. Nossa certeza de sua incapacidade de sentir é o que torna a criação útil para qualquer tarefa perigosa ou desagradável para a qual possa ser projetada e ao criar consciência torna-se invariavelmente contrária a sua função.


Criar uma consciência exige passividade com a nossa criação, e terminaríamos por renegar a sua utilidade.


O impacto cultural da peça foi tão grande que Čapek mais tarde adotou uma abordagem diferente para o mesmo tema em seu romance "War with the Newts" de 1936 , no qual os não-humanos se tornam uma classe serva na sociedade humana.


E a cultura humana seja real ou ficção, histórica ou anedótica, é recheada de golems bem-intencionados e desastrados, o grande poder de destruição das boas intenções mal direcionadas, sejam Blade Runners, Terminators ou Neos (originalmente projetados para ajudar os humanos com sua inteligência artificial, mas depois se tornaram um pouco inteligentes demais e decidiram que os humanos eram mais incômodos do que valiam a pena) ou até mesmo a série de filmes Alien, onde os criadores são denominados nada menos que engenheiros, e eles se arrependem da sua criação.


Outra interpretação interessante é discutir nossos sentimentos em relação ao custo da segurança. A sociedade dota seus guardiões de poder, mas fica apavorada quando eles não estão mais sob seu controle.


Um exemplo tão real quanto comum nos cinemas é o ex-agente do FBI, CIA e todas as siglas de espionagem dos EUA que saem do controle e se rebelam contra o seu próprio governo e sistema que tanto defenderam e a única solução parece, digamos, fazer ele voltar ao pó.


O Golem está para o terror e a ficção científica assim como a Jornada do Herói está para o drama e a aventura e eu ficaria feliz com dezenas de adaptações de terror e ficção não autorizadas da Lenda do Golem:


Golem o Oitavo Passageiro

Golem o Brinquedo Assassino

O Exorcismo de Emily Golem

O Grito do Golem

2001 Um Golem no Espaço

Guerra dos Golems


e toda a franquia Star Wars com:


Golem Uma Nova Esperança

O Golem Contra-Ataca e

O Retorno do Golem


só para ficar nos mais clássicos.


De onde você acha que o Chewbacca foi inspirado?

Eu não tenho dúvidas.


E não podemos esquecer dos golems dos jogos como o Minecraft, feitos com blocos de ferro ou gelo e cabeça de abóbora e cuja função é atacar monstros, defender o jogador e aldeões em vilas e moradias.



E se do pó viemos e ao pó voltaremos sim, é muito comum nas mitologias o fim da vida através do pó, sejam os anjos que se rebelaram contra Deus e caíram pegando fogo na Terra até serem petrificados e ai de quem olhasse a Medusa da Mitologia Grega nos olhos, virava pedra também.



A lenda do golem também se tornou um símbolo do poder e dos perigos da criação artificial, inspirando muitas discussões sobre ética e responsabilidade na ciência e na tecnologia.


Os Cientistas do Brigham and Women’s Hospital em Boston, por exemplo, fizeram experiências com células-tronco e descobriram que utilizar nano-plaquetas de silicato sintético (ou, em termos leigos, plaquinhas de argila) como base de cultura de células-tronco induz essas células a se transformarem em tecido ósseo.


Isso mesmo: Células-Tronco + Barro = Osso.


O homem veio do barro, segundo a bíblia.

No barro há vida, segundo os cientistas.


Se moldarmos uma costela estamos a meio caminho de uma mulher.



E claro, existe o Golem Project, que movimenta a Golem Network e sim, muito obviamente, possui uma criptomoeda chamada Golem Coin.


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A primeira vez que eu lembro conscientemente de ser chamado de golem foi quando eu achei ser uma boa ideia mergulhar em um tanque de cimento, chegando em casa chorando e virando estátua em tempo real e com a pouca fresta dos olhos e um pouco de canal de ouvido sobrando percebi e ouvi a minha vó rindo e logo depois me levando raivosa no quintal para me dar um banho de duas horas de balde e mangueira.


Não tente fazer isso em casa, devo ter alguns neurônios pavimentados até hoje por causa deste dia.


Entre um xingão e outro ganhei o melhor apelido que alguém pode ter na vida, e me passou a me chamar assim resumidamente quando estava feliz ou irritada comigo.

Dicotomia amorosa.


Não sei dizer se o apelido se manteve por causa da minha mania de viver sujo de barro ou por ser de alguma forma, o golem pessoal dela: buscar leite, levar pão na casa de não sei quem, avisar não sei quem sobre não sei o quê, chamar não sei quem para almoçar, bastava ela me ativar recitando apenas VÁLÁ e eu iria lá no minuto seguinte.



Mas ao contrário de um golem, após ativado eu falava todos os palavrões possíveis invocando todas as línguas do inferno que você possa imaginar, assombrando todos na comunidade ao meu redor, na rua de casa, no vizinho, no colégio e se bobeasse, mesmo dentro da igreja.


Se um simples VÁLÁ era capaz de me ativar bastava tirar o V para ver o resultado de me deixar solto por aí: ALÁ A CAGADA, ALÁ A MERDA QUE ELE FEZ, ALÁ O TAMANHO DO PALAVRÃO QUE ELE FALOU.


Fiz todas as suas vontades e na adolescência definitivamente virei um golem que cresceu demais e saiu fora de controle para fazer jus à fama.


Claro que é arrogância, ego, prepotência eu tentar transformar a minha adolescência em uma lenda judaica ou fazer de mim mesmo um mito para lidar com as minhas lembranças mas veja, vivemos em um mundo de pessoas capazes de dizer que conversam com Deus e outras mais ainda, que Deus fala através delas.


O ego é maior e mais denso que a grande massa escura do universo, se precisamos de um recado que deveríamos ouvir todas as manhãs ele seria:


- Do ego viemos, do ego fugiremos.



Não há indícios arqueológicos da existência de golems, afinal barro embaixo de barro continua sendo barro, mas eu me identifico muito porque toda as suas histórias são exercícios de imaginação e muito do que sei sobre a minha vó são pontos costurados usando esta mesma imaginação, a história da minha vó é uma história real e também uma ficção de uma mulher sem livre arbítrio que viveu em dois mundos e lidou da melhor forma possível.


O Mito do Golem também me serve como uma ótima metáfora sobre o poder da palavra e do uso da escrita para expressar algo e claro, serve de alerta também sobre os riscos do uso irracional das palavras, como os muçulmanos acreditam, e também dos riscos de colocar palavras na boca de outra pessoa e como isto pode se virar contra você também um dia.


Este texto por exemplo começou num lamaçal de pesquisa, referências, lembranças e emoções e até que terminou organizado o suficiente para tomar forma e ganhar vida, ainda um pouco desengonçado mas não creio que vá se virar contra mim no futuro.



E sobre acontecer de novo, a lei do retorno, a Bíblia pouco fala sobre o humor de Jesus, embora ele tenha algumas qualidades que indiquem ele ter sido uma pessoa afável, talvez um tanto passiva, definitivamente gentil, absolutamente sociável e de uma capacidade imensa de nunca devolver na mesma moeda.


Concordo, a vida já me ensinou, ninguém tolera ser tratado da mesma forma como trata outras pessoas, a única moeda que se pode pagar de volta na exata mesma medida, ou até com um troco a mais, é o humor.


Se eu achasse um gênio da lâmpada e tivesse direito a apenas um desejo com toda certeza voltaria no tempo no uns minutos antes da crucificação de Jesus, cutucaria ele, e falaria no seu ouvido:


- Cara, eu vim do futuro, não vale a pena, vai por mim.


Ou pediria um golem só pra mim, e ativaria ele pra ir no supermercado ou descer lá na frente do prédio buscar a pizza pra mim.


Ou trocaria receitas e experiências, e isto me lembrou de algumas histórias, minhas e do mundo, que ocorreram lá pelos idos de março.


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* Fofoca exclusiva e em primeiríssima mão: Fontes dizem que uma cópia do filme "Der Golem" de 1915 foi encontrado em Buenos Aires na Argentina no ano passado e estão fazendo um trabalho de recuperação para poder lançar.


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E ah, para encerrar: homem e mulher possuem exatamente o mesmo número de costelas, fomos enganados todos esses anos.


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Cápsulas do tempo.


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Ontem dia 06/03/20013 foi a data dos 10 anos da morte do Chorão e isso me lembra que surrei ele duas vezes, logo eu conto.


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Não acompanhei as fofocas do carnaval, mas deve ter sido o de sempre: batucada, mijo pilsen em lata, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez em banheiro químico e as queixas de assédio que já se tornaram uma alegoria de enredo.


No meio dessa lambança duas notícias me chamaram a atenção.


A Polícia Militar do Rio de Janeiro prendeu um homem fantasiado de pênis depois que várias pessoas reclamaram do comportamento dele. De acordo com as informações da corporação o rapaz teria se aproveitado da fantasia para perseguir mulheres durante bloco de Carnaval. Ficou parecendo um golem de sex shop, se é que isto existe.


Imagina o que ele não faria se arrumasse uma fantasia de cu.


Em Belo Horizonte um homem fantasiado de presidiário foi preso com drogas na mochila, 15 pinos de cocaína, 14 buchas de maconha e dois celulares.


Segundo a PM o suspeito de 20 anos de idade usava uma blusa vermelha, um calção com a sigla do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) e uma imitação de uma tornozeleira eletrônica feita com fita isolante no pé esquerdo.


Imagina o que ele faria não se arrumasse uma fantasia de policial.


O problema está na alegria do carnaval, se fosse uma festa triste não haveria essa bagunça toda, carnaval tinha de ser gótico, na sexta haveria o desenterro da tristeza, as pessoas usariam preto por cinco dias seguidos e na quarta seria quarta de cinzas de fato e na quinta enfim o desenterro dos ossos, festa gótica tem de ter ossos.


Na trilha sonora o ponto alto seria show do Radiohead, eu sempre quis fazer um trio elétrico com o Radiohead no carnaval só para chamar de Karna-Police.


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Fui fazer compras no supermercado e percebi algo que me assustou muito e você deveria se preocupar também, ao tirar a etiqueta de estacionamento aquela voz automática que sempre me dava boa noite e me desejava boas vindas não estava lá.


Eu nunca vi ela ao vivo, não sei se ela é um robô de fato ou apenas uma voz mas ela foi demitida.


Será que esse lance de inteligência artificial está tão adiantado e já temos robôs desempregados por aí?


E se no futuro as lojas de conveniência forem automatizadas não será inconveniente não ter mais atendentes pra eu poder ignorar?


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A Madonna apareceu em um festival parecendo um golem depois de ser espancado por judeus, cristãos e muçulmanos ao mesmo tempo e como era de se esperar culpou a sociedade machista que segundo ela não aceita mulheres mais velhas no mundo do cinema e da música em geral. Nós aceitamos Madonna, quem não aceita a velhice é você que continua tentando parecer a Madonna dos anos 80 quando era naturalmente bela e jovem.


Aceite você mesma primeiro e os outros aceitarão.


E pensar que eu perdi a virgindade olhando o sovaco dessa mulher.


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A Guerra da Ucrânia que ainda não é uma guerra mas já custa tanto quanto uma guerra fez um ano de aniversário no dia 24 de Fevereiro.


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Morreu o Paulo Caruso, cartunista sensacional e irmão gêmeo do igualmente (literalmente) sensacional Chico Caruso, irmãos que tanto fizeram pelo humor no brasil nas últimas décadas.


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Comecei a testar o Chat GPT, que antes na maior cara de pau perguntou se eu era um robô para poder falar com ele e logo na primeira conversa optou por mentir descaradamente quando fiz uma pergunta sobre um tema ao qual eu já tinha conhecimento.


Quanta prepotência colega, nosso relacionamento já começou com o algoritmo esquerdo.

Inventar histórias para preencher espaços que não sabe explicar?


Talvez o Chat GPT seja demasiadamente humano e a inteligência artificial é outro golem perdendo o controle justamente quando passou a ter lugar de fala.


Que feio Senhor GPT, se for demitido não reclama.


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