top of page

ENSAIO 90: METALLICA

  • Foto do escritor: LFMontag
    LFMontag
  • 12 de nov.
  • 10 min de leitura

Atualizado: 26 de nov.

ree

Foto: Montag


Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



--


26/11/2025


METALLICA


É sobre pererecas e cavernas, porque nada mais importa.


--


Petricor (do grego "petra" e "ichor", pedra e fluído dos deuses, o fluido dourado, luminoso ou etéreo que circula no corpo dos deuses olímpicos no lugar do sangue) é aquele cheiro maravilhoso depois da chuva, e o termo foi criado em 1964 por dois pesquisadores australianos, Bear e Thomas, para um artigo na revista Nature.


O aroma vem de óleos produzidos por plantas durante longos períodos de seca (preservando a germinação de sementes e a fase de crescimento inicial das plantas), que são absorvidos pela terra e por pedras argilosas e durante a chuva desprendem-se no ar juntamente com a geosmina ("perfume da terra" em grego), um composto orgânico produzido pela bactéria Streptomyces coelicolor, em gotículas líquidas extremamente finas que ficam suspensas no ar como o aerossol de um perfume.


A mesma bactéria é encontrada na pata e nos pelos de um cachorro feliz após passear e sim, eu sei que você já cheirou e achou gostoso também, afinal o nariz humano é extremamente sensível à geosmina e capaz de detectá-la em concentrações tão baixas quanto 400 partes por trilhão, e alguns cientistas acreditam que os humanos apreciam este cheiro porque nossos ancestrais aprenderam a identificar o tempo chuvoso como essencial para sobreviver.


O petricor ocorre em todas as estações e é mais presente em regiões com pouca umidade, onde o contraste é mais perceptível e, na minha opinião, deveria ser chamado de o umami da natureza, o sexto sabor, direto do sangue dos deuses.


--


A caverna Utroba, ou caverna do útero, é localizada na Bulgária e vista de cima é uma representação fisicamente precisa de uma vagina feminina, um bucetão.


Os historiadores acreditam que os trácios, antigo povo indo-europeu, usavam esta caverna como local de culto, onde havia um altar no final e funcionava como o principal componente da adoração representando, sim, a fertilidade.


A caverna é uma ocorrência natural por onde ainda flui água e todos os dias, por volta do meio-dia a luz entra mas apenas uma vez por ano chega ao fundo, onde deveria estar o altar, por volta de fevereiro a março; acredita-se que esses povos antigos adoravam esse evento para aumentar as chances de ter filhos ou uma boa vida sexual, pois em sua percepção a luz representava um pênis entrando na vagina.


ree

Esta caverna dá uma visão de como as pessoas apreciavam, viam e interpretavam o sexo antigamente e o uso de crenças e superstições como uma forma de controle social, e ainda hoje casais que lutam para ter filhos ainda visitam a caverna, na esperança de resolver seus problemas de fertilidade.


--


[SOMENTE LIVRO]


--


Não precisa ser sempre uma caveira azul na capa e nem Drum and Bass.


Às vezes pode ser apenas uma capa cinza estranha com uma menininha estranha e Trip Hop e um olho gordo para salvar o seu final de semana.


Mas para falar sobre esse disco eu não posso escrever tantos palavrões assim então a partir daqui escolha o seu palavrão favorito e toda vez que você ver um @ você pensa nele.


Melhor se for aquele palavrão perfeito que serve tanto para as coisas boas quanto para as coisas ruins da vida.


Exemplos:


- Bateu o mindinho no pé da cama? @!

- Ganhou na loteria? @!!

- Bateu o carro no carro da polícia? @!!!

- Acertou o bolo de cenoura pela primeira vez na vida? @!!!!!


E assim por diante, segue a história.


Eu estava tendo um dia de @.


E para piorar era uma sexta-feira, uma sexta-feira de @.


E para piorar mais eu morava na @ da Fortaleza da Barra da Lagoa lá na @ do @ que o parta.


E para piorar mais ainda eu tinha de sair da Trindade, pegar um ônibus até o centro e só então pegar a @ do ônibus Barra da Lagoa para poder chegar em casa.


Mas sabe como é, chegou no centro?

Bora dar uma voltinha.


Opa, vai dar uma voltinha?

Vai na Roots Records.


Oooopaaa, vai na Roots Records?

Compra um disquinho.


Com o dinheiro que você nem tem, pra alegrar a @ da sua sexta-feira de @.


A Roots Records na galeria ARS é o mais próximo que você pode imaginar do filme Alta Fidelidade e, ao contrário da loja do Shopping Beiramar, na Roots as coisas e pessoas estranhas circulavam livremente e sem vergonha de serem felizes fingindo serem infelizes.


Punks, góticos, metaleiros, reaggaeiros, todo mundo junto.


E discos com caveiras e diabos pela loja toda e apesar do diabo estar sempre presente (ou até mesmo por isso), a Roots era o paraíso, lugar que já passou por umas duas reformas depois mas quando fizerem escavações e acharem a dinastia da Roots Records Raiz (opa) com toda certeza irão encontrar a bancada original com as marcas das bundas dos dois maiores faraófeiros do período: Eu mesmo e o Andrey.


Era chegar e sentar e ver a vida passar e olhar e ouvir discos sem ter dinheiro para levar, e o dono e o atendente eram bem mais gente boa, deixavam ouvir o disco inteiro e ainda colocavam para toda loja ouvir.


Na real toda a galeria, alto, e isso era muito legal.


E mais legal ainda, o dono era o Gota e o atendente era o Grilo e um lugar onde você chama o dono e o atendente pelos seus apelidos é um lugar legal para se estar e sendo bem sincero, não sei o nome deles até hoje e isso deixa tudo melhor ainda.


Mas eu estava tendo uma sexta-feira de @ e estava com uma dor de cabeça do tamanho de um @ de @.


Cheguei na Roots Records e como era o comportamento padrão primeiro você fingia que não ia entrar a ficava olhando a vitrine com suas caveiras, diabos e vampiros, nomes de bandas impossíveis de ler e se lesse eram impossíveis de pronunciar e se pronunciasse sabe deus o que poderiam invocar.


E lá no meio essa capinha, com essa menininha estranha e possivelmente mais demoníaca que os concorrentes, e embaixo escrito apenas, duplamente, PORTISHEAD | PORTISHEAD.


Sinistro, preciso ouvir.


Entrei e pedi para ouvir e quando o Grilo colocou eu simplesmente odiei, eu estava com a cabeça explodindo e a primeira música, Cowboys, justamente a primeira música, parecia a abertura de um comercial de analgésico.


Sem mentira, ouve os primeiros 13 segundos e volta aqui e me diz se a careta de enxaqueca não vem automaticamente na cabeça.


Logo após entrou uma batida de Hip Hop e a coisa melhorou bastante, mas não o suficiente para me empolgar, aí entrou uma voz anasalada com efeito de voz de rádio estranhíssima e entre a segunda e terceira faixa eu já estava quase desistindo de ouvir quando do nada um cara colou do meu lado no balcão e falou bem baixinho:


- É você que tá ouvindo esse disco aí?


E eu:


- Opa, sim.


E ele, falando mais baixinho ainda:


- Meu, imagina você com uma mina ouvindo esse sonzinho aí, luz baixa, acende uma vela e só você e ela curtindo esse som aí, imagina só.


Bom, eu não imaginei isso, eu só pensei: Eu não vou deixar esse @ desse @ de uma @ levar esse disco.


Aí virei para o Grilo e disse que iria comprar.


E lá fui eu para casa morrendo de dor de cabeça e com um disco indesejado só porque um @ se empolgou com ele e eu não podia deixar isso passar em branco.


Cheguei em casa e nem ouvi, comi alguma coisa, tomei banho e em algum momento fui dormir.


Eu não lembro se aquela sexta estava cinza e chuvosa como esse disco (quando a gente está cinza e chuvoso nós nem reparamos no mundo em volta), mas o sábado estava ensolarado.


Mas sábado de sol é para os fracos e fãs dos Mamonas Assassinas, os fortes gostam de dias e discos cinzentos e chuvosos como esse @ de discaço da @ do @, resolvi então ouvir e bum, tempestade emocional do primeiro ao último segundo.


Esse disco é uma @ atrás da outra.

A Beth Gibbons é uma @ de uma @ do @ dos @ da @.


Guitarra, baixo e bateria?

Não pensa em palavrão, pensa em alho, óleo e parmesão.


E o Geoff Barrows é o maior DJ da história do Hip Hop fora do Hip Hop, o que ele faz nesse disco é sensacional, lirismo define o trabalho dele.


Porra é muita classe, sério, bendito seja o dia que eu não deixei um fura-zóio levar o disco que eu nem queria levar.


Enxaqueca? Leve Portishead para casa.


Depois descobri que este já era o segundo disco deles e o primeiro tinha uma capinha azul, e capinhas azuis também são legais, e também nem precisa ter uma caveira nelas.


--


[SOMENTE LIVRO]


--


[SOMENTE LIVRO]


--


[SOMENTE LIVRO]


Mas a vida tem dessas, um comedor de morcegos precisou morrer por nós para darmos mais valor à vida.

->>>


--


Em tempo, não precisa sempre ter uma caveira nem menina estranha na capa, nem ser Drum and Bass e nem Trip Hop e nem ter olho gordo dos outros, às vezes pode ser apenas o pior disco de Rock de todos os tempos e ter três meninas estranhas na capa, e estragar o prazer dos outros.


E esta história se divide em duas partes, separadas por três décadas.


1969.


No natal de 1968 um homem chamado Austin Wiggin Jr. na cidade de Fremont, no estado de New Hampshire (EUA), tentou cumprir a profecia da sua mãe, comprou duas guitarras e uma bateria para as três filhas e disse que elas teriam até o ano novo para aprender a tocar e gravar um disco.


Não deu certo obviamente, apesar do nome esperto da banda: The Shaggs.


Mas pelo menos a tentativa foi registrada em estúdio e realmente virou um álbum com o nada modesto nome Philosophy of the World, genial demais, tão genial que nos dias não-geniais de hoje faria sucesso, mas não fez em 1969 quando o disco foi lançado.


Alguns anos depois o Frank Zappa (este em vida jamais perdeu a piada) declarou o disco como um dos mais importantes de todos os tempos (melhor que Beatles, palavras dele) (e eu jamais questionaria essa informação mesmo sem nunca ter escutado) e o Kurt Cobain (outro que em vida soube rir da cara dos outros como ninguém) também declarou The Shaggs e Philosophy of the World como uma das suas maiores influências.


E por anos fiquei com essas histórias na cabeça sem saber como seriam essa banda e esse disco.


Só existiram mil cópias em vinil (novecentas foram roubadas ou talvez nunca tenham sido prensadas), não existia em CD e quando soube sobre ele ainda não havia YouTube para poder mandar para mil amigos ao mesmo tempo.


1999.


Tempos atrás, lá pelo meio de 1999, o Presuntinho (sim, esse era o apelido dele) apareceu no bar da UFSC e contou que lá na Roots Records o Grilo ficava colocando um CD para torturar e expulsar os clientes da loja:


- Umas minas desafinadas, sem refrão, sem ritmo e a baterista ainda erra o tempo a música inteira.


Comecei a rir e disse que iria lá conferir qual era o disco mas antes disso o Andrey apareceu e completou:


- São aquelas The Shaggs, o disco que o Zappa falou que era melhor que Beatles.


E eu:


- É, vou lá comprar esse disco agora.


Cheguei na loja, pulei todo o ritual de olhar vitrines e fingir desinteresse e falei:


- E aí, tem o CD das The Shaggs?


O Grilo sorriu meio irônico, meio em choque, como se estivesse vendo um atropelamento de alguém que ele não gostava, e respondeu:


- Tem.


E eu:


- Vou levar.


Aí ele sorriu como se ele mesmo estivesse sendo atropelado.


Paguei 10 reais À VISTA, pedi embalagem para presente (para mim mesmo) e levei.


O mundo é assim, é necessário acabar com a alegria de uns para alegrar outros e quem estraga o prazer de quem é estraga-prazeres tem cem anos de prazer.


O disco é simplesmente horrível, se o Portishead foi um santo remédio pós-enxaqueca esse aqui já é um AVC com meia hora de duração e mesmo assim, ou por isso mesmo, andei com esse CD para lá e para cá e hoje ele está seguro disfarçado na coleção do Yuri.


Perdi a conta das pessoas elogiando o disco com sorrisos amarelos e olhos enrugados por pura polidez com a minha pessoa.


Tem gosto pra tudo, deviam pensar eles.


As namoradas também sofreram, porque depois de um certo tempo eu já sabia as letras de cor e também acertava direitinho o tom e o timbre das vozes delas.


A minha favorita é Shaggs' Own Thing, "cantada" pelo pai no maior estilo Elvis drogado em um dueto para lá de desanimado com o irmão renegado da família, é o auge do egoísmo paterno, não basta torturar as filhas, tem de se achar artista também.


Mas nada supera o impacto da primeira música e título do álbum, a verdadeira Smells Like Teen Spirit do seu tempo, pois a primeira impressão é a que fica.


A música Philosophy of the World já abre o disco com essa pérola de letra:


Oh, the rich people want what the poor people's got,

And the poor people want what the rich people's got,

And the skinny people want what the fat people's got,

And the fat people want what the skinny people's got,


You can never please anybody in this world.


ree

Na boa, elas foram injustiçadas, poderia ser Britney Spears cantando isso no meio de Toxic, poderia ser parte da letra de Beautiful People do Marilyn Manson, poderia ser Foo Fighters, U2 e Elton John juntos em um festival contra o aquecimento global, poderia ser Anitta cantando para as invejosas e todos elogiariam.


Mas eram apenas três meninas estranhas com as melhores das intenções de agradar o pai em uma cidade com menos de cinco mil habitantes no interior dos Estados Unidos.


A música em si não dá para descrever de tão errada, só ouvindo, fora do tom, da melodia, do ritmo, do tempo, os piores tios do pavê no pior dos karaokês não fariam isso nem com as piores das intenções.


Não fizeram turnê, não ganharam Grammy, não venderam nem cem cópias e não marcaram as mãos na calçada da fama mas veja só, entraram para a história e pesquisando sobre achei vídeos delas tocando ao vivo... em 2017 e descobri também o testemunho do baixista que acompanha elas, simplesmente maravilhoso, admitindo que sim, elas sabiam exatamente o que estavam fazendo (ou ao menos aprenderam).


A lenda ficou maior, os erros foram incorporados nas músicas de fato, então esse disco acabou de deixar de ser o pior disco de Rock de todos os tempos e elas entraram para a história da música como a primeira banda de Jazz-Indie-Math Rock e como reafirmação de um ditado do próprio Frank Zappa, valioso para a vida: A mente é como um paraquedas, só funciona se abrir.


--


[SOMENTE LIVRO]


--


Cápsulas de balas perfumadas do tempo.


--


A Corregedoria da Polícia Militar do Rio de Janeiro investiga a atuação de oito agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) durante a Operação Caixinha, realizada no Complexo do Alemão em 15 de janeiro deste ano.


Vídeos das câmeras corporais utilizadas pelos PMs na ocasião mostram o grupo entrando em uma casa de dois pavimentos e vasculhando todos os cômodos e ao mostrar o interior do imóvel, os policiais aparecem escolhendo roupas, experimentando perfumes e separando pares de sapatos.


Em seguida, guardam artigos dos quais se apossaram em mochilas, enquanto conversam abertamente sobre o furto, com diz um deles:


- Se estivesse com a viatura, levava a JBL.


Já sabemos para que serve uma viatura.


--


Morreu o Udo Kier, o esbugalhadíssimo e excelente ator de estranhíssimos e excelentes filmes.


--


Morreu o Jimmy Cliff, sem palavras.


--

Comentários


bottom of page