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ENSAIO 29: CEREVISIAE

Atualizado: 28 de dez. de 2023



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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11/04/2023


CEREVISIAE


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Duas expressões, um mesmo momento em duas histórias, uma mesma história em dois momentos, bodes expiatórios, maçons e pontapés, areia nos pés e areia nos olhos, fungos e timidez e claro, pão e manteiga.


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Uma das expressões mais tristes da história humana, e um dos hábitos mais feios na cultura não só judaico-cristã mas possivelmente citado ou encontrado em todas as culturas e religiões ou ao menos sociedades, é o bode expiatório.


Você já viu um, provavelmente você já apontou um, muitas vezes talvez tenha torcido para surgir um e vir ocupar o seu lugar. E se você já esteve na situação de ser um bode expiatório, você sabe muito bem quão ruim e traumático pode ser.


O ser humano muitas vezes tem pavor de responsabilidade, e quando esta assume o claro rosto de uma culpa, foge como (perdoe o trocadilho) o diabo foge da cruz. Quando surge alguém disposto (tradução: exposto e sem um mecanismo de defesa formado), esta culpa será transferida, projetada e atirada nele.


A busca por bode expiatório chega a ser um ato irracional muitas vezes sem mesmo a constatação real dos fatos, o irresistível ato de apontar um é tão arraigado em todas as sociedades que creio ser virtualmente possível encontrar um em toda e qualquer relação social, no trabalho, família, igreja, roda de amigos, universidade e em qualquer tipo de perfilamento étnico, sexual, religioso, social, político e filosófico.


Qualquer pessoa ou grupo pode assumir a posição de acusador ou acusado, as sociedades evoluíram a partir dos Terceiros Partidos de Confiança, onde as relações e conflitos pessoais poderiam ser resolvidos por uma terceira pessoa da confiança de ambas as partes em conflito, como padres, juízes, gerentes, fiscais, líderes comunitários, bancários, policiais e políticos.


A ocorrência de bodes expiatórios é um sintoma de desequilíbrio nesta triangulação em um ambiente doente, quando o agente fiscalizador se mantém alheio permitindo abusos entre as duas outras pontas e onde haverá três figuras ou grupo de figuras: uma alienada, uma acusadora e por fim a acusada, a ponta fraca assumindo involuntariamente o desequilíbrio entre as outras duas pontas.



O hábito original é bem conhecido, os Hebreus (como descrito no livro de Levítico) costumavam escolher um bode para ser carregado com os pecados da comunidade de tempos em tempos e depois soltá-lo no deserto como forma de purificação, conhecido como "O Dia da Expiação”, buscando acalmar a ira de Deus através da limpeza dos pecados.



Esta expiação começava com a seleção e então sorteio entre dois bodes, um deles deveria ser sacrificado e o seu sangue misturado com o sangue de um touro para marcar as paredes do templo, e o outro deveria ser expulso para o deserto carregando os pecados do povo, devendo buscar água e comida por si só, e certamente em algum momento acabaria morrendo.



Não me pergunte como eles carregavam os pecados em um bode pois as piadas começam a brotar na minha mente, até mesmo porque quando uma pessoa se vê nesta situação ela, singelamente, declara: botaram no meu cu.



Na Grécia Antiga havia uma prática chamada "catarsis" e consistia em liberar a cidade de seus males, atribuindo a culpa a um indivíduo ou grupo específico que era então exilado ou punido de alguma forma a fim de purificar a comunidade.


Com o tempo esta catarse foi transferida para as expressões artísticas com o mesmo propósito e intenção como a pintura, a música, o cinema e o teatro.


Para Freud a catarse representa a descarga emocional de um afeto sentido no passado mas que no seu devido tempo não teve a reação necessária para o sujeito se libertar do conteúdo afetivo, perdurando assim reprimida no inconsciente.


A história é forrada de bodes expiatórios famosos e claro, a definição de quem cumpriu este papel depende de quem está escrevendo, e segundo muitas interpretações religiosas o próprio Jesus Cristo pode ser considerado o bode expiatório do sua época, cuja figura é vista pela teologia cristã e na vida da igreja como uma antecipação simbólica da sua missão, que atraiu para si os pecados da humanidade, carregando as nossas dores e as nossas enfermidades, ao mesmo tempo o sacerdote, o altar e o cordeiro entregue ao sacrifício.


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Uma das expressões mais bonitas da história e cultura humana, esta especificamente do cristianismo, é bem simples e aparentemente óbvia e até mesmo fácil de correlacionar com um mínimo de conhecimento histórico: Um cristão em areias cristãs.


Mas o contexto em torno dela é, como de se esperar, uma história de sangue, violência e vingança.



As cruzadas foram expedições militares cristãs com o objetivo de reconquistar a Terra Santa (Palestina) e a Cidade Santa (Jerusalém) que se encontravam nas mãos dos muçulmanos desde o Século VI, e duraram oito batalhas de 1095 até 1270.


Durante a Primeira Cruzada os guerreiros cristãos, denominados Cruzados, conseguiram recuperar Jerusalém no ano de 1099 e logo após esta primeira conquista os surgiram os Templários, ordem militar cristã fundada em 1119 e uma das ordens mais poderosas e influentes da Europa Medieval.


Os membros da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (também conhecida como Ordem dos Cavaleiros Templários ou apenas Templários) eram conhecidos por sua habilidade em combate e foram responsáveis por proteger os peregrinos cristãos que viajavam para a Terra Santa, contando inicialmente com apenas nove membros mas crescendo rapidamente em número e poder, acumulando terras e riquezas e influência na Europa e no Oriente Médio, marcando e construindo no caminho entre Constantinopla e Jerusalém dezenas de paradas para descanso de qualquer cristão que passassem por elas.


Sem uma parada cristã um cavaleiro cruzado ou templário ou peregrino cristão era apenas um estranho em uma terra estranha mas quando então, após dias e quilômetros cavalgados e chegando em uma região segura e fortificada com água, comida e uma cama, e sendo recebido num espaço batizado com um pão e uma cerveja enfim ele poderia se considerar, e se sentir como, um cristão em areias cristãs.


Em outras palavras, se sentir bem e seguro ao lado de um semelhante.


Com o passar das décadas e séculos estes pontos começaram a ter função social, comercial e cultural também entre peregrinos de outras etnias e religiões e muitos foram até mesmo próximos em comum com paradas da famosa Rota da Seda em direção à Europa, influenciando até mesmo o movimento ecumênico surgido a partir do Século IV.


Os Templários também estabeleceram um sistema bancário permitindo aos viajantes depositar seus fundos em um local e recuperar em outro lugar, desta forma foram os primeiros postos de gasolina, lojas de conveniência, hotel, motel, caixas (semi) automáticos, correios, casas de câmbio, os primeiros postos alfandegários e até mesmo as primeiras embaixadas por serem basicamente prédios de uma nação no meio de outras nações em uma época em que não havia diferença entre estado e igreja.


Paralelamente aos combates nas Cruzadas os Templários acumularam uma enorme fortuna, chegando a emprestar dinheiro a reis e príncipes europeus tornando-se também em muitos países os percursores dos bancos, inclusive na Suíça.


O patrimônio dos Templários incluía mosteiros, fortalezas, terras aráveis e moinhos, além de muito ouro e prata guardados nos cofres das suas sedes espalhadas pela Europa.


Os templários ainda tiveram os seus próprios navios nos quais transportavam artigos de luxo do Oriente para a Europa, como sedas e especiarias.


Jerusalém foi sede da Ordem do Templo desde sua fundação em 1119 até a queda da Cidade Santa tomada pelo Exército de Saladino em 1187, então transferida para São João de Acre (atualmente a costa mediterrânea de Israel) onde permaneceu pouco mais de um século, até nova derrota para os muçulmanos em 1291, 20 anos após a última cruzada.


A queda de Acre marcou o último estado cristão na Terra Santa, quando a ordem transferiu sua sede para a Ilha de Chipre no Mar Mediterrâneo, a terra cristã mais próxima.


Foi em Chipre que viveu Jacques de Molay, o último Mestre Templário, eleito em 1293. Em 1303 Chipre também foi perdida assim como a Ilha de Rodes já na costa da Grécia, a últma sede cristã do período, tornando completa a expulsão dos cristãos do Oriente, encerrando o período das cruzadas e marcando o início do Império Otomano.


A perda da Terra Santa abalou o prestígio dos Templários fazendo crescer a animosidade contra a ordem, especialmente em razão da vida de luxo e abundância de alguns templários em contradição ao voto de pobreza cobrando taxas, fretes, direitos de uso e circulação e com um poder militar equivalente a 15 mil homens treinados em combate, uma força que estava submetida unicamente ao papa.


A presença dos templários como jurisdição pontifícia (ou seja, acima das fronteiras dos países) afrontava a soberania real limitando o poder do reis dentro de seus próprios territórios e a situação ficou particularmente ruim a partir de 1305 quando Clemente V foi eleito papa e aliou-se a Filipe IV, o Belo, Rei da França.


O novo papa comprometeu-se a retirar a excomunhão da família real francesa, colocada pelo papa anterior e ambos se uniram pensando em formar uma nova cruzada juntando as duas ordens de monges guerreiros – Templários e Hospitalários (ordem fundada ainda em 1099 e encarregada de tratar doentes e soldados nas batalhas e fortificações) – tendo por líder absoluto Filipe IV.


Jacques de Molay rejeitou a ideia de fusão e se recusou a condecorar o rei francês como honorário da Ordem do Templo e a partir de 1307 Filipe IV começou uma campanha difamatória contra os Templários acusando-os de heresia e outros crimes e ordenando a prisão de todos os membros da ordem presentes na França, com o objetivo de descobrir a localização e ficar com os seus bens e riquezas.


Na madrugada do dia 13 de Outubro de 1307 uma operação sigilosa da guarda real prendeu o mestre Jacques Molay e todos os Templários em território francês.


O rei Filipe IV foi ainda mais longe na perseguição enviando cartas aos monarcas de Portugal, Espanha e Inglaterra pedindo que fizessem o mesmo mas todos recusaram, afinal a Ordem do Templo estava protegida pela imunidade sancionada pelo papa, e não poderia ser submetida à justiça secular.


Filipe IV entregou os templários ao Grande Inquisidor da França e durante sete anos fora submetidos a interrogatórios e sessões de tortura, quando alguns confessaram heresias e idolatrias: negação da Santa Cruz, negação de Jesus Cristo, beijos obscenos entre si, sodomia e adoração de um ídolo chamado Bafomé, associado ao Diabo. Era o bode expiatório com cara de bode, nada mais conveniente. Dos 138 templários presos, 38 morreram torturados.


Jacques De Molay nunca confessou as acusações e mesmo após três julgamentos não denunciou nenhum de seus companheiros e não revelou o local onde estavam guardadas as riquezas da ordem, que foi oficialmente dissolvida em 1312 pelo Papa Clemente V.


No dia 18 de março de 1314 e diante dos líderes templários os bispos leram a decisão, os prisioneiros ficariam em regime de prisão perpétua sob custódia apostólica, quando Jacques de Molay bradou a sua inocência, mesmo com sua assinatura ter sido forjada na acusação.


Segundo a justiça da época declarar inocência depois de ter se confessado culpado significava ter mentido aos juízes da Inquisição, uma falta gravíssima "comprovada" pela assinatura, sendo Jacques entregue para a justiça real.


Filipe IV aproveitou a manobra e ordenou que fossem levados à fogueira naquele mesmo dia na Ilha da Cidade, no adro da Igreja de Notre Dame, onde havia sido fundada a Cidade de Paris.


Amarrado, Jacques de Molay disse as suas últimas palavras, lançando a hoje célebre maldição:


- Vocês todos serão amaldiçoados até a décima terceira geração.



Como podemos perceber, a inquisição não foi feita para punir os pecadores, mas para esconder o pecado dos inquisidores.


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Lá pelo ano 2000 eu e o Gustavo estávamos na Praia da Joaquina fazendo o que sabíamos fazer de melhor: pedalar e fazer barra para depois então comer pastel e pegar alguma balada, encher a cara, beijar a eleita da noite, acordar sentido ressaca e culpa, almoçar e recomeçar o processo a partir da tarde do dia seguinte.


Quatro caras estavam jogando futebol na areia, e a bola insistia em bater na gente ou perto de alguma forma. Nunca reclamamos, e lembrando hoje me parece que o incômodo deles foi justamente não nos importarmos.


Lá pela sétima vez que a bola nos atingiu, peguei ela com as mãos e joguei para o imbecil mais próximo, que ao invés de agradecer, gritou:


- Não é vôlei seu viado, tem de chutar.


Eu apenas ri e virei de costas. O imbecil gritou:


- Não vai falar nada? Virou de costas né viado!


Virei de frente, sem dizer nada, e os quatro babacas vieram a nossa direção, como o Gustavo era (ainda é) um gordo bombado 10 cm mais alto e 20 quilos a mais, dois dos caras avançaram direto nele e eu escolhi o primeiro mais próximo de mim, justamente o gritalhão que, obviamente, gritou de novo:


- Não bate em mim porque eu sou demolay!


Então eu gritei para o Gustavo:


- O que que é um demolay???


E o Gustavo gritou de volta:


- Bate que depois eu explico.


Dito e feito, três apanharam, um saiu correndo, e o Gustavo enfim explicou:


- DeMolay é tipo o escoteiro da maçonaria, guri babaca.


Hoje eu fui pesquisar para escrever e achei o seguinte: A Ordem DeMolay é uma ordem de princípios filosóficos, fraternais e iniciáticos, patrocinada pela Maçonaria para jovens do sexo masculino com idade compreendida entre os 12 e os 21 anos, fundada nos Estados Unidos em 24 de Março de 1919 pelo maçom Frank Sherman Land em homenagem a Jacques de Molay.


Bom, não achei a atitude deles filosófica nem muito menos fraternal, mas se a ideia era um rito de iniciação expulsamos eles daquelas areias não tão cristãs porque templário folgado com a gente não se cria e eu não me impressiono com qualquer coisa.


Todo mundo sabe da importância de se ter uma turma, e maçons sabem a importância de andar acompanhado e como eu nunca havia pesquisado a fundo sobre maçonaria resolvi seguir o fio e descobri um mundo bem interessante.


A maçonaria é uma espécie de máfia mundial espírita, você paga para entrar e reza para sair. A maioria foi queimada na idade média e os que sobreviveram se disfarçaram de gatos pretos e assim ficaram por cerca de 300 anos até o advento do comunismo. Originalmente o símbolo era a foice e o martelo, mas este desenho além de atrair muito pobre perdeu o sentido depois da Guerra Fria, então eles se decidiram pelo esquadro e compasso, cujo significado exato é “dentro do nosso círculo você tem de andar na linha”.


A letra “G” é porque lá dentro todo mundo é genro de todo mundo.


Existem dois tipos principais de sociedades maçônicas: a discreta e a secreta.


Na sociedade discreta eles matam um membro da sua família para poder entrar.

Na secreta matam todos.


Os maçons são um tanto assustadores, tomam sangue de galinha e fazem sexo com cabras, pregam a igualdade mas alguns são mais iguais que os outros. Geralmente as mulheres dos maçons são feias, mas quem já teve um sogro maçom não sobreviveu para contar e tentar entender a ideologia deles somente ouvindo os discos da Xuxa ao contrário, aqueles da fase “Só Para Baixinhos”, porque todo maçom tem no máximo um metro e sessenta de altura.


Não interessa o que aconteça no planeta sempre aparece alguém para dizer que os maçons estão envolvidos e nunca ninguém vai descobrir toda a verdade e não há como descobrir, eles dominam a TV, a rádio, a internet e até mesmo o seu pensamento, não me pergunte como.


Fique de olho e, por via das dúvidas, ao encontrar um maçom na rua corra sem olhar pra trás.


Veja como reconhecer um maçom através das suas atitudes e aparência física:


- Possuem o chifre raspado à moda Hellboy e o rabo cortado como os Pitbulls.

- Vão de sapatos para a praia porque possuem seis dedos em cada pé.

- Na rua costumam andar de lado com as mãos tateando a parede.

- Possuem pisada pronada (para dentro) e usam tênis para pisada supinada (para fora) reforçando propositalmente o andar cadavérico, por isso eles correm batendo os joelhos.


- Os maçons não têm reflexo no espelho.

- O hálito dos maçons tem cheiro de querosene.

- Têm um terceiro olho na nuca, embaixo dos cabelos.

- Têm tatuagem de dragão em alguma parte do corpo. O tamanho da tatuagem indica o seu posto, o nome de batismo e a importância dentro do grupo, em ordem crescente:


1 – Dragão pequeno em cima da bunda – Demolay

2 – Dragão pequeno na canela – Osama Bin Laden

3 – Dragão médio na canela – Venerável Mestre

4 – Dragão pequeno no braço – George Bush filho

5 – Dragão médio no braço – George Bush pai

6 – Dragão grande nas costas – Yakuza

7 – Dragão ocupando o corpo todo – Anitta


- Sempre furam o sinal vermelho no trânsito e as fotos da placa no radar sempre saem embaçadas.

- Usam o celular sempre no modo viva-voz, mas você não escuta a voz de quem fala no outro lado.

- Têm o hábito de virar os olhos quando riem.

- Batem palmas quando alguém tropeça na rua.

- Na fila do banco ou na casa lotérica ficam de costas, encarando quem chega depois.


As roupas de um maçom:


- De dia: Calça legging preta, botas cor caramelo de salto, sobretudo de veludo preto e chicote. O conjunto todo se chama “Sadomaçom”.


- De noite: Avental branco e capuz branco com as iniciais KKK, cujo significado é “KemKomeKaga”.


O aperto de mão maçônico:


- Aquele que deve dinheiro ao outro maçom estica o dedo indicador e coça o pulso do credor ao mesmo tempo em que repete três vezes mentalmente: “Eu juro que vou pagar”.


O abraço maçônico:


- Pela frente: Coloca-se um braço por cima e outro por baixo, bate 3 vezes nas costas e trocam de posição outras três vezes. Neste momento um deles cochicha no ouvido do outro: “três vezes três é nove”.


Se ambos se reencontram no banheiro o ritual se repete.


- Por trás: O maçom mais experiente chega por trás e diz “quero muito”. O mais novo consente respondendo “quero em dobro”. Aí o abraço costuma demorar conforme o interesse do Grão Mestre pelo novilho.


Antigamente costumava ser apenas um beliscão na região do períneo em que se dizia apenas:

"teu corpo me pertence”.


A assinatura maçônica:


- Os maçons abreviam as palavras usando três pontos em forma de triângulo.

Se for triângulo irregular, é iniciante.

Se for retângulo, é mestre.

Se for equilátero, é cheque sem fundos.


Pelo visto é mais difícil provar quem é um maçom que ser um de fato.


Adendo especial:


Como saber em dez dicas se você entrou sem querer em uma loja maçônica:


1 - Alguém te oferece ovo de codorna na entrada.

2 - A sala tem cheiro de churrasco frio.

3 - As paredes têm marcas de unhas recentes.

4 - Há uma cabeça de bode na parede central da sala. E ela fala.

5 - Há uma mesa de sinuca com somente sete bolas no canto esquerdo.

6 - Há um tabuleiro de xadrez com as peças coladas no canto direito.

7 - No centro da sala há um Tabuleiro Ouija, chamuscado.

8 - As sombras das pessoas se mexem sozinhas.

9 - No chão está escrito a frase “Charlie, fric fric, Brown”.

10 - Nos banheiros não há papel higiênico, só lencinho perfumado.


Como eu sei de tudo isso?

Não interessa, agora você também sabe e agora você é um de nós.


Maçons sabem a importância de andar em turma com os seus semelhantes, coisa que nós meros mortais muitas vezes erramos. Por exemplo, mesmo quando eu era adolescente e me sentia livre e rodeado de pessoas que pareciam ser iguais a mim, a realidade me pegava de calças curtas.


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Alguns anos antes de vir morar em Florianópolis eu era pobre mas me divertia, ou pelo menos tentava e chamava tudo de diversão.


Alguns amigos meus saíam com os carros dos pais com apenas 13 ou 14 anos de idade, e bebiam, e faziam racha pelas ruas.


Uma noite dessas o Jardel gritou para o Marcelo no outro carro ao lado:


- Piá, ali na lombada a gente arranca, ganha quem chega primeiro na próxima lombada.


Pois bem, arrancamos e segundos depois eu vi apenas um par de pernas voando e ouvi um barulho seco, um barulho daqueles que a gente nunca ouviu na vida e depois de saber do que se trata nunca mais quer ouvir de novo.


Tadinho do homem, era vigilante do supermercado e queria apenas ir pra casa. Dizia estar bem apesar do joelho arrebentado, dos braços sangrando e da bicicleta destruída. Insistiu que não precisava de ajuda, nem de hospital, nem de carona. Queria ir para casa dormir, mas não conseguia dar nenhum passo.


Levamos ele no hospital, e deixamos a bicicleta jogada lá onde o acidente aconteceu. Em meia hora toda a cidade já estava sabendo, todos os familiares já estavam xingando e dando chinelada nos meus amigos e a minha madrinha apareceu de pijama me buscar.


Como todos nós éramos templários adolescentes, ninguém assumiu culpa nenhuma e como eu era geralmente o mais revoltadinho da turma e o único sem pai nem mãe para me defender fui apontado como o idealizador do racha, embora nem sequer tinha carro nem muito menos autorização de casa ou do departamento de trânsito para dirigir um e, como todos sabemos, quando adolescentes têm ideias idiotas elas parecem vir do nada na cabeça de todos ao mesmo tempo.


E assim descobri, mesmo convivendo com eles jamais seria tratado como um igual e jamais me sentiria em casa com aqueles que até então chamava de amigos, então a inquisição paterna, materna, policial e judiciária escolheu o bode expiatório da vez e cobrou penitência generalizada.


Pagamos todo o seu tratamento médicos e remédios, ele ganhou uma bicicleta nova, demos um fogão de presente de natal e o tempo em que ainda vivi na cidade levávamos de tudo: comida, roupa de cama, brinquedos para os filhos dele.


Minha vó fez pão a mais durante quatro anos e uma vez por semana lá ia eu levar pão pra ele.

Eu sentia ciúmes, culpa e ao mesmo tempo orgulho.



25 anos depois e já adulto resolvi contar esta história do atropelamento para alguns amigos em uma madrugada no McDonald’s.


Contei do acidente, da noite, do vigilante, da bicicleta torta, dos puxões de orelha, dos remédios.

Contei da minha vó resignada fazendo pão a mais durante quatro anos.


O Leonardo, cujo maior dom é ouvir em silêncio monástico e na hora certa opinar como se estivesse na Câmara dos Comuns, tomou a palavra e me perguntou o seguinte:


- Por que quatro anos de pão? Não teria sido mais fácil já negociar com ele na hora uma facada no bucho ou coisa parecida como retaliação? Já resolvia na hora, cada um pro seu lado.


E gesticulou com as mãos e braços como quem fazia a balança da justiça comparando os pesos e medidas da sua lei do talião particular:


- Quatro anos de pão ou uma facada no bucho? Quatro anos de pão ou uma facada no bucho?


Adorei a sugestão, até mesmo porque não era eu quem estava no volante naquela noite e me sentiria duplamente vingado.


Alguns meses depois o ainda deputado Jair Bolsonaro tomou uma facada exatamente no bucho e rimos mais ainda, não da facada porque seria maldade, mas tentando imaginar qual acordo ele fez e qual infeliz ele havia atropelado.


Tem quem não ache graça em conspirações maçônicas e desventuras adolescentes, eu vejo e dou valor para coisas aparentemente sem graça e sem muito valor, como por exemplo cana-de-açúcar, batata, milho e farinha de trigo.


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Nós temos uma tendência inata a darmos valor automaticamente e prestar atenção apenas no que nos saltam aos olhos como mágicas e maravilhosas e com o mesmo automatismo ignorar outras tanto quanto.


Por exemplo, é senso comum falar sobre o salto na qualidade de vida nas pessoas que veio através da Revolução Industrial na virada do século passado, o motor disso e daquilo, fábrica deste e daquele, lâmpada e energia elétrica, trens e automóveis, o avião.


Eu acho esta visão reducionista e até enganosa na minha perspectiva, a verdadeira revolução aconteceu nos três séculos anteriores e ela se chama carboidrato.


O trigo chinês do Oriente Médio, o açúcar francês da Oceania, a batata inglesa da América Central, o milho norte-americano também da América Central, somente quando as grandes navegações fizeram circular fontes de carboidrato além de terras, areias e fronteiras até a nacionalidade e região de origem de cada um não importar mais foi quando a escassez alimentar deixou de ser a nossa preocupação primária, nascendo assim a divisão de trabalho entre campo e cidade, liberando o cérebro para criar e o corpo para engordar.


Desta lista o trigo é o mais antigo na nossa história e com toda certeza o mais louvado por todas as culturas e religiões, a sua origem remonta cerca de dez mil anos atrás no Oriente Médio onde as primeiras variedades selvagens de trigo cresceram naturalmente e então selecionadas por agricultores primitivos na região conhecida como Crescente Fértil e abrangia partes da atual Síria, Iraque e Turquia.


Com o tempo o cultivo do trigo se espalhou para outras partes do mundo incluindo a Europa, a Ásia e a África e se tornou essencial para a alimentação humana, desenvolvendo novas variedades para diferentes condições climáticas e necessidades nutricionais e hoje em dia é cultivado em todo o planeta com as maiores produções vindo da China, Índia, Rússia e Estados Unidos e (você sabe) com trigo se faz pão, massas, cereais e biscoitos, além do seu uso na alimentação animal e produção de biocombustíveis.


Mas o trigo, ou o que é feito dele, não seria nada sem o meu, o seu, o nosso amigo, fungo.


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O fungo está em tudo.

Tipo, tudo.


Na madeira, na terra, no deserto, no fundo do mar, no ar, tão dominante, estranho e generalizado que a biologia teve de criar um reino só para ele, não é vegetal, não é animal, é fungo.


Se você esquecer a comida, o fungo irá aparecer, na verdade ele já estava por lá.


Se você resolver caprichar no Strogonoff você vai colocar fungo, na verdade você colocará o cogumelo, estrutura de reprodução sexuada de certas espécies de fungos ou, em outras palavras, basicamente um pinto do reino dos mofos.


Quer impressionar com um queijo? Escolha um fungado por algumas semanas.

Quer arrasar com um vinho? Dias, semanas, meses, anos e décadas de fungo nele.

Quer agradar uma pessoa fazendo um pão para ela? Uma horinha de fungo resolve.


O fungo ou melhor, os fungos dominam também a cultura popular, podem ser os cogumelos coloridos da Disney ou os zumbis mofados do jogo e série The Last of Us.



O fungo do pão, também conhecido como levedura do pão, é um organismo unicelular chamado Saccharomyces cerevisiae e é amplamente utilizado na produção de alimentos, especialmente pão, cerveja e vinho.


Acredita-se que ele tenha sido descoberto acidentalmente pelos antigos egípcios quando deixaram a massa de pão descansando e notaram o aumento de volume, tornando-a mais leve e macia, mas só no século XIX a relação entre a fermentação e a levedura foi provada pelo químico francês Louis Pasteur e o processo pelo qual as células metabolizavam os açúcares presentes na massa, produzindo dióxido de carbono e álcool.


Com o avanço da tecnologia foram desenvolvidas cepas específicas para diferentes usos, se produzia mais dóxido de carbono iria para a padaria e se produzia álcool iria para as fábricas de cerveja e vinho, sendo atualmente produzidas comercialmente em laboratórios especializados e amplamente utilizadas na tanto na indústria alimentícia e sua pesquisa quanto em avanços significativos em áreas como biotecnologia, genética e medicina.


Os fungos unicelulares surgiram pela primeira vez há cerca de um bilhão de anos, desenvolvidos a partir de ancestrais bacterianos capazes de desenvolver uma membrana ao redor do seu material genético, permitindo o crescimento em tamanhos maiores e se tornando mais complexos, evoluindo para se adaptar a diferentes ambientes.



Embora seja difícil precisar a data exata de origem o Saccharomyces cerevisiae provavelmente surgiu há milhões de anos, possivelmente antes da evolução das plantas com flores e evoluído ao longo do tempo em resposta a mudanças ambientais e pressões seletivas, mede em média 5 microns de tamanho (ou seja, 5 milionésimos de metro ou 5 milésimos de milímetro) e é encontrado naturalmente em ambientes diversos e preferencialmente úmidos como solo ribeirinho, superfícies de plantas, frutas maduras, flores, pele e trato gastrointestinal de animais, incluindo você.


E também, novamente, na Bíblia.


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Quando deus expulsou Adão e Eva do paraíso um dos primeiros castigos foi ter de aprender a fazer a própria comida e então, quem sabe um dia, poder retornar para o paraíso ou, quem sabe um dia a menos, reviver o mesmo aqui na Terra dos Homens, através do ato de fazer pão.


Assim como a Parábola da Mostarda, a Parábola do Fermento também trata do Reino de Deus e pode ser lida em Mateus, 13:33:


- O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado.


e em Lucas, 13:21:


- É como o fermento que uma mulher misturou com uma grande quantidade de farinha, e toda a massa ficou fermentada


Esta parábola compartilha do mesmo sentido do grão de mostarda, o crescimento a partir de pequenos começos cujo resultado final é inevitável, uma vez que após começar o processo natural de crescimento é irreversível.


Jesus descreveu uma situação corriqueira na vida de qualquer dona de casa da época, fazer pão e neste processo a mulher pegou uma medida de fermento, misturou em três medidas de farinha e após fazer toda esta mistura restava à ela apenas deixar a massa descansar, esperando com que o fermento fizesse a sua parte.


Algumas interpretações vêem na mulher a representação da Igreja, outros argumentam que as três medidas se referem ao corpo, alma e espírito, ou ao coração, a alma e a mente ou até mesmo a Santíssima Trindade formada pelo pai, filho e espírito santo.



Além da Parábola do Fermento, o pão tem presença marcante em boa parte do Velho e do Novo Testamento e mencionado diversas vezes como um alimento básico na dieta do povo da época e considerado tão importante que em algumas passagens é referido como "o sustento da vida" entregue aos homens diretamente das mãos de Deus, como citado na conhecida oração do Pai Nosso:


- O Pai nosso nos dai hoje, o pão nosso de cada dia.


Na tradição judaica, há vários tipos de pão que são considerados especiais, como o challah e o matzá.


O challah é um pão trançado tradicionalmente consumido na sexta-feira à noite durante o Shabat, o dia sagrado de descanso semanal no judaísmo, e o matzá é um pão sem fermento, feito apenas com farinha de trigo e água e consumido durante a Páscoa judaica, também conhecida como Pesach, simbolizando a pressa com que os judeus tiveram que deixar o Egito e não tiveram tempo de esperar a massa do pão fermentar.


Em Êxodo 16:4 Deus fala com Moisés e promete alimentar os israelitas durante sua jornada no deserto, após a sua libertação do Egito:


- Então disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não.


Nesse trecho, Deus promete fornecer o pão dos céus, também conhecido como maná, uma substância comestível em forma de pequenos grãos brancos que aparecia todas as manhãs na superfície do deserto e os israelitas eram instruídos a coletá-la e usá-la para fazer pão, cozinhando ou moendo em farinha.


Segundo a tradição bíblica o maná era um presente divino e considerado um milagre aparecendo no deserto, um ambiente hostil e inóspito, todos os dias durante quarenta anos, enquanto os israelitas viajavam em busca da Terra Prometida.


Em Êxodo 16:14-15 é é descrito o momento em que o maná apareceu pela primeira vez e também a aparência e a coleta pelos israelitas:


- Quando a camada de orvalho se desfez, apareceu na superfície do deserto uma coisa fina em forma de grãos, fina como a geada sobre a terra.

Quando os israelitas viram aquilo, perguntaram uns aos outros:

'O que é isto?' pois não sabiam o que era.

Moisés lhes disse: 'Este é o pão que o Senhor lhes deu para comer'.



Segundo alguns pesquisadores o maná poderia se tratar da planta Fraxinus ornus, conhecida como maná-cinza, cuja seiva açucarada pode ser extraída diretamente removendo a sua casca.

Outros sugerem que poderia se tratar de um cogumelo alucinógeno como o Psilocybe cubensis ou ainda pedaços de líquens ou a espuma esbranquiçada das bactérias do gênero Spirulina ou até mesmo a melada cristalizada do inseto Trabutina mannipara, conhecido genericamente como cochonilha do grupo dos hemípteros, um inseto minúsculo que se alimenta da seiva de tamargueira, arbusto comum no Oriente Médio.


A seiva ingerida por este inseto possui muito açúcar o qual ele precisa se livrar secretando um líquido chamado melada, e nos dias de hoje ainda é extraída e consumida por moradores das regiões desérticas.



No Novo Testamento além da Parábola do Fermento uma das histórias mais conhecidas conta a história da alimentação dos cinco mil, quando Jesus dividiu e então multiplicou cinco pães e dois peixes para então dividir novamente e alimentar uma multidão de pessoas e também os momentos da Última Ceia onde Jesus compartilhou pão com seus discípulos antes de sua crucificação, conhecido como pão ázimo, sem fermento simbolizando a pressa da sua despedida e últimos momentos de vida, momentos em que ele convida os seus próximos na passagem chamada de transubstanciação, onde o seu corpo é o pão e o seu sangue é o vinho, ritual encenado nas missas católicas ao redor do mundo.


Em resumo, na cultura judaico-cristã o pão é sinônimo de acolhimento, gratidão e redenção.



Além do Judaísmo e do Cristianismo os seguidores do Islã também consideram o pão um alimento básico e importante na dieta dos muçulmanos, sendo visto como um presente divino para a humanidade e mencionado em vários versos do Alcorão, tradicionalmente consumido com outras comidas em uma refeição como um acompanhamento em pedaços compartilhado entre várias pessoas.


Na cultura islâmica, é considerado um ato de bondade e generosidade oferecer pão aos outros e durante o Ramadã, o mês sagrado de jejum para os muçulmanos, é comum comer pão antes do nascer do sol e depois do pôr do sol, quando o jejum é interrompido. Isso ajuda a fornecer energia e nutrição para o corpo durante o período de jejum diário.


Além disso, em algumas comunidades muçulmanas, é comum distribuir pão aos pobres e necessitados como uma forma de caridade e ato de solidariedade com os menos afortunados.


O que parece unir todas as parábolas e metáforas relacionadas ao pão e fermento é o ato de gentileza, exatamente como na minha infância em uma cidade do interior do Paraná.


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Quando o rio da minha cidade natal encheu mais de 14 metros acima do seu leito natural em 1983, as cidades divididas pelo mesmo rio, ficaram desoladas.


Uma em cada três pessoas foi atingida pelas águas e boa parte delas ficou desabrigada perdendo tudo o que tinha.



Como 1/3 estava sofrendo o outro 2/3 sofreu junto diretamente, e as cidades mobilizaram a defesa civil, as polícias, bombeiros, o exército baseado na cidade paranaense e as velhinhas.


Nunca senti tanto cheiro de pão na minha vida, nem nunca mais veria um batalhão de avós fazendo tanto pão em quantidades industriais com o carinho artesanal que só uma avó é capaz, e o destino de todos os pães eram os acampamentos e alojamentos nos ginásios e colégios disponíveis para alimentar os desabrigados.


E quem levava era uma brigada de crianças e adolescentes em bicicletas, skates, motos, tênis e chinelos, incluindo eu.


O cheiro de pão é uma das maiores perdas da vida em uma capital mas quando eu cheguei em Florianópolis em um domingo lá pela década de 90 a primeira coisa que eu fiz foi comprar pão e aprender a lidar com a timidez.


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Quem é o tímido na fila do pão?


O tímido sempre se pergunta se existe outro infeliz mais tímido que ele, de preferência na frente dele.

Quando um tímido vê outro mais tímido ainda, é uma vitória.


Ser tímido é a arte de encarar todo mundo por achar que todo mundo está te encarando até o ponto que todo mundo começa a te encarar porque você está encarando todo mundo e aí você tem a certeza que todo mundo está te encarando, é a personificação do ditado "cuidado com o que você não deseja" pois de tanto não desejar ele acaba se realizando por sua culpa.


Todo tímido é um romancista nato, ele escreve e reescreve mentalmente uma novela perfeita onde a personagem central é uma pessoa real que está esperando você apenas ir dar um oi enquanto você já está com ela morando em uma ilha do caribe com três flhos e um cachorro.


Ser tímido também é ver o beijo que você tanto fantasia na boca de outro e então terminar com a mulher sem ela saber que você um dia namorou com ela.


Ser tímido é ser humilhado quando a mulher que você é afim te convida para um luau, você se arruma como se fosse um ator coadjuvante de um reality show no Hawaii: bermuda cargo, camisa florida aberta no peito, meias brancas, tênis dois números maior que o seu pé.


Aí você chega cedo e ela já está ficando com um cara e os dois já estão descalços e ela te apresenta ele e ele te cumprimenta como se já te conhecesse e gostasse de você, o que deixa tudo pior.


Aí ele fala para ela:


- Meu cadê meu chinelo?


Ela ri sem responder nada e eles se beijam aquele beijo que nem você teve coragem de fantasiar e eles saem de costas para você sem se despedir para deixar bem claro que neste reality show você não é nem o coadjuvante, mas um figurante.


E na fila do pão o tímido fantasia, revisa o roteiro da novela mental, e espera que a sua vez nunca chegue.



Todo tímido gosta de pão, na verdade todo mundo gosta de pão mas o tímido provavelmente gosta mais e quando atendente é bonita torna a hora de pedir pão uma aventura, ou uma novela, ou um filme de terror, a mais.


Ou talvez o atendente é um homem e ele é gente boa demais para um tímido tolerar e corresponder à altura da genteboísse dele.


E pior, você pode ser tímido e estar de regime e além de ter de enfrentar atendentes bonitas ou gente-finas você ainda tem de lidar com o quê eles vão pensar da sua escolha numérica.

Na mente do tímido qualquer interação social é uma fogueira da inquisição sendo acesa.


O tímido fica dois minutos na fila que parecem horas, enquanto ele ensaia mentalmente o que dizer quando for a vez dele.


Talvez um simples oi seja o suficiente.


É isto, vou dar oi e pedir dois pães e sair correndo.

Ou talvez peça oito pães para poder ficar quatro dias sem precisar aparecer aqui novamente.


Mas às vezes, quando menos se espera, a gatinha da padaria ou o gente boa cumprimentam apenas sorrindo ou seja, a fogueira pegando nas canelas e você diz apenas:


- Oi.


E o/a tendente responde perguntando:


- Oito?


E você:


- Oito.


E ele/ela:


- Oi.


E você:


- Oi.


E ele/ela:


- Dois?


Você, desiste enfim:


- Sim.



Na próxima vai ser diferente, você calcula o tempo, e pensa em ser direto afinal de contas é só uma atendente bonita ou um atendente legal e isto não é culpa sua e tem gente muito mais grossa no dia deles além um indeciso como todos os tímidos e tímido como todos os indecisos.


Vou pedir dois pães e deu:


- Dois pães por favor.


E ele/ela:


- Oi.


E você:


- Oi.


E ele/ela:


- Oito?


E você


- Isso.


Você vê o atendente pegando oito pães e você não interrompe pois você pensa que ele pode estar pegando para outra pessoa que pediu antes de você mas não tem ninguém perto de você e você concordou.



Mas na próxima vai ser diferente:


- Oito pães por favor.


E ele/ela:


- Dois?


Você:


- Oito.


E ele/ela:


- Oi?


Você:


- Isso.


O/a atendente pega só dois pães e embala na sua frente e você vai comer só estes dois pães.

E amaldiçoar quem te atendeu até a décima terceira geração.



Isto precisa acabar, você não vai se mudar de bairro por causa de um imbróglio na padaria, você anota mentalmente todos os números existentes de 0 a 10 e se pergunta: qual a quantidade de pão me satisfaria, que não me faria sentir culpa e o/a atendente nunca confundiria???


Já sei, seis pães, é menos que oito mas é mais que quatro, não é dois mas posso torrar o resto, seis pães, assim será:


- Oi, seis pães por favor.


E ele/ela:


- Três?



A vida de um tímido é uma fatia de pão caindo no chão com a manteiga virada para baixo, ser tímido é ser um bode expiatório de si mesmo, e quando menos se espera, de fato se torna.



Mas aqueles pães daquele domingo tiveram um gosto especial para mim, de liberdade.

Eu estava longe casa, uma casa onde nunca me senti em casa, e agora eu estava só, e livre.


Mas talvez liberdade não seja tudo na vida, e eu aprendi isso quando descobri porque odiava manteiga, e porque resolvi amar.


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Quando se é pobre, qualquer cheiro de comida quente é um alento, e quando se é criança esse sentimento de multiplica por mil.


Eu venho de família pobre e odiava manteiga porque para mim manteiga representava pobreza e margarina representava uma família que tinha dinheiro.


Na casa dos meus amigos sempre tinha margarina, na minha só manteiga.


Na televisão só aparecia propaganda de margarina, com famílias ricas e felizes.

Quando então passei a morar sozinho só entrava margarina na minha casa.


Mas em um dia já bem adulto, muitos anos depois daqueles seis pães e muitos quilos de margarina consumidos eu vi uma embalagem de manteiga com uma imagem de uma vaca sorridente e comprei sem pensar.


No outro dia de manhã na hora do café passei a tal vaca sorridente no pão e na primeira mordida uma vida inteira se passou pela minha cabeça.


Tinha gosto de infância, de brincar com cachorro e do cheiro de pão da minha vó.

Tinha sensação de joelho ralado, banho tomado, Nescau quente e desenho animado.


Comi todos os pães que havia comprado e acabei com a manteiga antes de levantar da mesa.

Aliás não levantei da mesa, depois de seis pães e duzentas gramas de manteiga e meio litro de Nescau com leite só me restou continuar revivendo a imagem de mim mesmo criança, com o bucho cheio e enjoado por não saber ainda o limite entre fome e gula.


A partir de então viciei em manteiga, no outro dia comprei duas vacas sorridentes para garantir e nunca mais comprei ou comi margarina na vida e pelo jeito já sei de que eu vou morrer.

Mas morrerei com o sorriso de uma criança gordinha feliz.


Talvez eu tenha de fato um coração de manteiga.


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Certas atitudes e da vida não possuem unidade de grandeza, e muitas delas não existem sequer fórmula: amor, gentileza, honestidade.


Se você estiver perto de alguém incapaz de medir amor, gentileza e honestidade considere-se sortudo, você está do lado de alguém de valor, mas se você estiver perto de alguém que mede tome cuidado, esta pessoa não tem valor, mas com certeza tem um preço.


Passeando por Minas Gerais aprendi uma frase maravilhosa sobre os mineiros: O mineiro não diz que te ama, ele te faz um café e pão de queijo quentinho.


Gestos falam mais, e já está na hora de eu aprender a fazer pão de queijo.


Fazer pão é contagiante como o fungo do The Last of Us, maravilhoso como uma parábola bíblica e romântico como um tímido que enfim acertou como pedir a quantidade certa de pães.


Quando eu aprendi a fazer a vida talvez não tenha mudado de sentido, mas a casa ficou com cheiro de uma vida cheia de sentidos.



Faça pão, esta massa disforme como um Golem de farinha que toma forma, ganha vida e abençoa cafés, almoços e jantares. Se não souber aprenda, fazer pão é um ato de amor, e fazer para alguém é uma declaração.


O milagre que se faz com farinha, água e sal, calor e peido de fungo, um ser quase invisível, com nome e sobrenome estranho, cujo papel na nossa vida ignoramos mas cuja mágica nos salta aos olhos e todos os outros sentidos.


Tente falar Saccharomyces cerevisiae bem rápido com a língua no céu da boca.



Se um único míssil obsoleto pode derrubar o mais moderno dos aviões e um pão quentinho pode salvar o dia de uma pessoa está quase na hora de falar daquele único tiro que quase acabou com um exército mas para entender precisamos falar antes do exército de um cachorro só, Pluto, o destemido.


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Cápsulas do tempo.


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Por falar em pão e ciúmes a cantina do colégio onde eu estudava tinha um lanche chamado dobradinha e apesar do nome graças ao bom Deus não era feita com restos de boi como se cozinha e come por aí.


Era massa de pão frita com queijo e presunto e tomate dentro.


Eu pedia dinheiro todos os dias de manhã para comprar uma, minha vó começou a ficar com ciúmes um dia do nada começou a fritar massa de pão com queijo e presunto e tomate dentro, óbvio que a dobradinha dela ficou melhor e hoje adivinha o que eu fiz?


Isso mesmo.


Óbvio que a da minha vó era melhor e provavelmente a da cantina também mas ainda assim está melhor que qualquer coisa que você vá comer no seu dia hoje.


Morra de inveja, ou aprenda a fazer.


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Em Manaus um palhaço de 46 anos foi assassinado em um bar por se recusar a comprar paçoca oferecida por um vendedor ambulante.


Não se recusa paçoca, palhaço.


Se eu fosse juiz desse caso absolveria o vendedor e amaldiçoaria a família do palhaço até a décima terceira geração.


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Dez anos atrás no dia 30/03/2013 assisti o meu primeiro show do Queens of the Stone Age no Lollapalooza e tomado pela empolgação fiquei cantando Claudia Leitte bem alto antes deles entrarem no palco e ainda puxei um coro de "claudinhaaaa, claudinhaaaaa" até fazer inimigos e novos amigos instantâneos.


Tenho disposição, interesse e plenas condições físicas e mentais para destruir o seu aniversário, casamento ou formatura, em contrapartida posso dar uma agitada legal no seu velório, favor contatar aqui.


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No dia 05 de Abril fez 90 anos da Ordem Executiva 6102 nos Estados Unidos, que obrigou todo e qualquer cidadão americano entregar toda e qualquer quantidade de ouro que poderia ter consigo.


Em outras palavras, 90 anos de escravidão.


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