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ENSAIO 31: CARAMELO

Atualizado: 25 de dez. de 2023



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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02/05/2023


CARAMELO


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Histórias caninas aleatórias, o ciclo da violência, a insônia e claro, os caramelos.


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Um belo dia eu estava tendo um não tão belo dia quando enfim fui para casa no meio de uma tempestade de tarde e durante o trânsito recém-engarrafado um cachorro que parecia mais um pano de chão encharcado de tanta chuva passou na minha frente abanando o rabo e apenas me perguntei qual foi a cadela que fez ele feliz em um dia como aquele.


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Ao contrário dos gregos a bíblia não vê os cães com bons olhos, negando a eles inclusive a entrada no céu.


Entre muitas outras passagens os cães são vistos como impuros em Mateus 7:6:


- Não deis aos cães as coisas santas, nem deites aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés, e, voltando-se vos despedacem.


Como sujos em Provérbios 26:11:


- Como o cão que torna ao seu vômito, assim é o tolo que reitera a sua estultícia.


Como furtivos em Salmos 22:16:


- Pois me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores me cercou; traspassaram-me as mãos e os pés.


Como desonrados em Samuel 17:43:


- Disse, pois, o filisteu a Davi: Sou eu algum cão, para tu vires a mim com paus?


E lá no fim de tudo ainda são tratados como desmerecedores do paraíso e de entrar no céu, em Apocalipse 22:14-15:


- Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas.


- Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira.


Talvez para entender esta perspectiva, precisamos entender um pouco sobre a páscoa judaica e o ciclo da violência.


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Diferente da páscoa cristã a páscoa judaica comemora a passagem da escravidão para libertação dos israelitas no Egito e uma das manifestações mais conhecidas é a canção chamada Chad Gadya.


Chad Gadya (do aramaico "um cabrito ou "uma criança" ou ainda, "um inocente") é uma canção cumulativa lúdica cantada em aramaico e hebraico no fim do Seder da Páscoa, a festa ritual que marca o início do feriado judaico.


A melodia tem as suas raízes possivelmente na música folclórica alemã medieval e apareceu pela primeira vez em Praga no ano de 1590, a canção é popular entre as crianças e como outras canções cumulativas ou seus versos subsequentes são uma repetição dos versos anteriores cada vez somando mais uma frase em contraponto ou reforçando o verso anterior.


Apesar do seu ritmo alegre o seu simbolismo traz interpretações sérias e profundamente enraizadas no judaísmo bíblico.


Uma das interpretações mais antigas e aceitas é que a música trata sobre as diferentes nações que conquistaram a Terra de Israel:


O cabrito simboliza o povo judeu, o gato é a Assíria, o cachorro é a Babilônia, o bastão é a Pérsia, o fogo é a Macedônia, a água é o Império Romano, o boi representa os sarracenos, o matador representa os cruzados, e o anjo da morte representa os turcos.


No final, Deus retorna para enviar os judeus de volta a Israel.



O refrão recorrente de "dois zuzim" é uma referência às duas tábuas de pedra dadas a Moisés no Monte Sinai e esta interpretação foi amplamente publicada pela primeira vez em um panfleto publicado em 1731 na cidade de Leipzig na Alemanha.


Os babilônios, ou cães, foram o povo que destruiu o Templo de Jerusalém e escravizou os judeus, destruindo o Reino de Judá.


Logo temos que na bíblia todo cão é um cão danado e sinônimo de distante de Deus, de não batizado ou comungado na fé divina mas eu não estou nem aí, por mim todos os cães merecem o céu, não me interessa se Deus vai gostar ou não.



Em outra interpretação a música também pode representar a jornada interna para o autodesenvolvimento e aproximação de Deus, e o preço de dois zuzim mencionado em cada estrofe é igual ao imposto de meio siclo sobre cada homem israelita adulto, o preço de uma alma judia, citado em Êxodo 30:13:


- Dará cada um ao ser alistado meio siclo, segundo o siclo do santuário, meio siclo é a oferta ao Senhor.



Na versão da cantora Chava Alberstein existe um verso adicional no qual ela critica a política de Israel em relação aos palestinos, remetendo a sua interpretação original e ao ciclo de violência político-religiosa histórico da região, mas desta vez incluindo o Estado de Israel também como perpetrador e você com toda certeza vai facilmente identificar este trecho na letra completa aqui abaixo:


O cordeiro! O cordeiro!

Meu pai o comprou por apenas dois suz


Astuto, o gato ficou à espreita

Ele atirou-se sobre o cordeiro e o devorou

O cão que estrangulou o gato


Que devorou o cordeiro

Que meu pai comprou por apenas dois suz

O cordeiro, o cordeiro!


Então veio o bastão

E se abateu sobre o cão

Que mordeu o gato

Que devorou o cordeiro que meu pai comprou


Ele o comprou por apenas dois suz

O cordeiro, o cordeiro!


Então veio o fogo e consumiu o bastão

Que abateu o cão

Que estrangulou o gato

Que devorou o cordeiro que meu pai comprou


Por apenas dois suz

O cordeiro, o cordeiro!


Então a água veio apagar o fogo

Que consumiu o bastão

Que abateu o cão

Que estrangulou o gato

Que devorou o cordeiro que meu pai comprou


Por apenas dois suz

O cordeiro, o cordeiro


O boi que passava por ali bebeu a água que apagou o fogo

Que queimou o bastão

Que abateu o cão

Que estrangulou o gato

Que devorou o cordeiro que meu pai comprou


Por apenas dois suz

O cordeiro, o cordeiro


Veio o açougueiro que matou o boi que bebeu a água

Que apagou o fogo

Que consumiu o bastão

Que abateu o cão

Que estrangulou o gato

Que devorou o cordeiro que meu pai comprou


Então veio o Anjo da Morte que matou o açougueiro

Que matou o boi que bebeu a água

Que apagou o fogo

Que consumiu o bastão

Que abateu o cão

Que estrangulou o gato

Que devorou o cordeiro que meu pai comprou


Por apenas dois suz

O cordeiro, o cordeiro


Por que você canta então o cordeiro?

A primavera não está aqui ainda, nem a Páscoa

Você mudou


Eu mudei este ano

E todas as noites

Como cada noite


Eu fiz apenas quatro perguntas

Mas esta noite, me vem uma outra pergunta

Até quando durará esse ciclo infernal?


Essa noite me vem uma pergunta

Até quando durará esse ciclo infernal?


Do opressor e do oprimido,

Do carrasco e da vítima

Até quando essa loucura?


Alguma coisa mudou

Eu mudei este ano

Eu era um cordeiro bom

Eu me tornei um tigre e um lobo selvagem

Eu era uma pomba, uma gazela


Hoje eu não sei quem eu sou


Meu pai o comprou por apenas dois suz

O cordeiro, o cordeiro


Nosso pai o comprou por apenas dois suz

E voltamos ao ponto de partida



Se você ler (ou cantar) debaixo para cima, você consegue perceber que cada última frase de cada estrofe parece ser o momento certo de encerrar o ciclo da violência, cabendo a cada personagem de cada frase tomar para si esta responsabilidade.


E deste ciclo, e esta responsabilidade, o cão Hagen entende bem.


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Você sabe, nossos instintos nem sempre dão os melhores conselhos.


Na verdade muitas das melhores técnicas de defesa pessoal, sobrevivência e até primeiros socorros consiste antes em você lutar contra a sua natureza reativa e tomar uma decisão racional a partir da observação e aceitação dos possíveis danos que você vai sofrer mas priorizando, no fim, o menor dano possível e a preservação da sua vida.


Um exemplo simples, quando um cachorro raivoso ataca o nosso espírito, coração, alma e o pouco que nos resta de cérebro nos manda correr. Parece lógico, parece viável, quem em sã consciência ficaria parado esperando um cachorro morder?


O problema é que correr é um comportamento típico de presas na natureza, e fugir estimula o comportamento de caça dos cães ou seja, ele vai correr atrás de você até conseguir o que deseja, te morder.


E na mente dele morder com mais vontade ainda, pois ninguém mandou você fugir.


Agora se você porventura e coragem (e confiança em mim) resolver se agachar, proteger a cabeça e deitar, o nervosinho automaticamente vai entender este gesto como uma rendição, e isto na natureza dele é o suficiente para mostrar quem manda e quem venceu, ele.



No filme húngaro Féher Insten ("Deus Branco") de 2014 o vira-lata Hagen se perde da sua dona, a trompetista adolescente Lili, quando o seu pai decide abandonar ele na periferia da cidade para não precisar pagar o imposto cobrado pelo governo da cidade de donos de cães mestiços.


Hagen então se perde no mundo dos homens e vive uma versão invertida da jornada do herói como se Ulisses ficasse e Argos partisse, ou o filme The Revenant com um cachorro no lugar do Leonardo DiCaprio ou ainda, como compararam na época do lançamento, o Planeta dos Macacos canino.


Deus Branco significa algo como um deus neutro ou indiferente, uma metáfora sobre a paixão incondicional e idolatria dos cães pelos homens, idolatria nem sempre correspondida e pela qual Hagen paga um preço bem alto durante as suas desventuras.


Vagando sozinho pela cidade faz amizade com outros vira-latas, escapa de açougueiros e caçadores de cães e, quando decide confiar novamente em um humano é acorrentado, vendido e preso em um ringue de lutas caninas.


Após passar fome e ser incitado e torturado na sua primeira luta mata outro cão e consegue fugir até ser preso por funcionários da prefeitura e enviado para o canil da cidade, quando mata um funcionário e também consegue escapar.


A partir deste ponto Hagen não é mais reconhecível como o cão dócil do começo do filme, mas uma besta raivosa e assassina, e na sua mais recente fuga arromba as gaiolas do canil e liberta os outros cães, partindo como líder de uma revolução canina pela cidade quando procura, persegue, encontra e mata todos os que fizeram mal para ele.



Quando Hagen retorna e chega onde está o pai de Lili disposto a matá-lo, ela intervém e começa a tocar trompete, e Hagen parece perdoá-la e se deita para ouvir, todos os outros cachorros se deitam em um gesto de reconciliação enquanto Lili senta no meio deles e continua tocando até então se deitar de frente para Hagen.


Logo após na última cena o pai então se aproxima e se deita ao lado da filha, enfim presenteando Hagen com o tão esperado e devido respeito, submissão e reverência, e o ciclo da violência se encerra.



Todo mundo sabe que o prêmio anual mais importante do cinema é o Palm Dog, a palma de ouro canina do Festival de Cannes.


Em 2014 o cachorro Bodie ganhou a coleira-prêmio pela sua atuação como Hagen, onde foi flagrado dando um beijo de língua no diretor do filme no seu dia de tapete vermelho.



Sabe como é, cachorro que é cachorro não dá selinho, dá logo beijo de língua.



Bodie é um cão dócil e brincalhão e impressiona a transformação feita com ele no filme, tornando-se raivoso e agressivo mas não, ele não foi incitado nem treinado para demonstrar raiva, foram apenas sensacionais efeitos digitalizados e muita movimentação de câmera e sonoplastia, rendendo um filme pesado mas que vale cada minuto.


Felizmente na maioria das vezes para se entender com um cão aleatório basta estender a mão e aí você será poupado com indiferença ou abençoado com uma lambida ou elevado ao paraíso com a oportunidade de fazer carinho na barriga dele.


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Eu gosto daqueles cachorros aleatórios que aparecem em documentários cujo o enredo é sobre tráfico de drogas ou algum político desaparecido ou alguma revolução e daí do nada aparece um cachorro cuidando da vida dele, cheirando a bunda de outro, procurando comida ou dando uma passeada pela rua sem saber que está sendo filmado e eu fico o resto do documentário pensando:


- Alguém sabe como está este cachorro agora? Ele está bem?.


Às vezes até assisto de novo um tempo depois só para ver se ele cresceu ou foi adotado.


Cachorros aleatórios são o mais próximo que podemos experimentar sobre a origem da amizade entre cães e homens e a forma mais natural também de aproximar pessoas aleatórias.


Uma vez por exemplo estava caminhando quando um cachorrinho veio feliz na minha direção, então aproveitei a deixa e perguntei para a dona:


- Posso fazer carinho?


E ela:


- Claro que sim!


Me aproximei, fiz carinho nela primeiro e depois no cachorro e disse:


- Você disse que podia.


Estou até agora ouvindo a gargalhada dela, Tinder da vida real.


E o cachorro dela gostou de mim, não só me lambeu como também me ofereceu a barriga e confesso ter me aproximado com as melhores das piores intenções de conhecer ela pois ela também era uma vira-lata caramelo.


E mulheres vira-latas caramelos são as melhores.

Eu explico.


Você já viu o tipo por aí, e a descrição torna ela comum: olhos castanhos, cabelos castanhos, pele castanha.


Aquele olhar sempre cheio de vida e curioso, os cabelos sempre desarrumados e prontos ao mesmo tempo, aquela pele sempre bronzeada sem estar bronzeada, a mulher mais linda que existe, a mais brasileira, sempre de rabo abanando.


Boa de prato, parceira, divertida, inteligente, sem frescuras, brincalhona, vai no pet shop (salão de beleza) e coloca apenas uma fivelinha no cabelo e um risquinho preto embaixo dos olhos e fica dez vezes mais linda, sorriso fácil, gostosa, uma vira-lata, desnecessário explicar mais.


Todo homem precisa de uma doguinha caramelo na vida, destas que fazem a gente feliz mesmo nos piores dias de chuva, se uma assim passar pelo seu caminho adote, você não vai se arrepender.



Como nós já sabemos não se pode compreender as mulheres pela perspectiva masculina e menos ainda um cão pela perspectiva humana, mas sim se colocar no lugar dele e ver o mundo pelos seus olhos. E você só vai entender quando souber o que uma coleira, uma lambida, uma barriga e um banho de lama significa para ele.


Assim como a agressividade de barreira some quando a barreira se vai, a coleira faz do cão um anjo se bem administrada, e isto também tem uma explicação evolutiva maravilhosa.


Mães são mães e mães caninas não são diferentes, e existem dezenas (senão centenas) formas de uma mãe canina puxar a orelha dos seus filhotes, que vai desde uma respirada em um certo ritmo e volume ou uma bufada até crescer em rosnadas, latidos e ameaça de morder e, se a praguinha do filhote não entender, uma mordida na orelha.


Quando uma mãe canina é apenas uma mãe tendo um dia de mãe ela sabe quão tolo e inocente o seu filhote pode ser e nem todas as inflexões vocais dela serão suficientes e nem todo momento é momento de castigar a cria, e nestes momentos de paz ela pega o seu filho no colo, mais precisamente uma abocanhada no cangote para carregá-lo e colocá-lo onde ela acha que ele realmente deve ficar.


Para um filhote este é um gesto tão forte quanto amoroso e um recado duplo fácil de entender: eu sou a sua mãe e estou aqui por você, mas você precisa me respeitar e é aqui que você deve ficar.


É uma forma de controle e afeto simultaneamente.


Quando você coloca uma coleira em um cachorro é desta forma, afetuosa e respeitosa, que ele vai te ver e vai se sentir bem assim, melhor que isso só se ele te lamber ou, prazer dos prazeres, te oferecer a barriga.



Em uma matilha o cachorro ou o lobo lambe os animais de que gosta, e este gesto aplicado apenas aos membros de sua própria espécie passou a ser aplicado a seres humanos quando os cães foram domesticados.


Além de afeto a lambida pode ser uma demonstração de reverência e de que ele projeta em você a mãe que ele perdeu quando foi adotado por um humano, inclusive espera ansiosamente que você vomite comida mastigadinha e semi-digerida na boca dele.


Através de um processo conhecido como neotenia os cães preservam atitudes e gestos de filhotes na companhia de humanos mesmo quando já são adultos, a forma espertíssima com qual a natureza nos faz querer sempre proteger e deixar escapar um óóó quando vemos um.


Mas você não precisa cuspir nada, um bom carinho atrás da orelha e ele fica satisfeito e, se a satisfação for mútua e ele perceber, muito provavelmente vai ter oferecer a barriga, a maior demonstração de trégua possível oferecida por um cachorro.



Sim, no mundo dos cães e dos predadores qualquer pausa é uma trégua e a barriga é o ponto mais vulnerável de qualquer mamífero terrestre superior, onde a pele é mais sensível e logo abaixo encontram-se os órgãos mais disputados, nutritivos e fáceis de digerir por quem se dispuser a atacá-lo.


Quando um cachorro te oferece a barriga, ele está basicamente se rendendo e entregando a sua vida para você.


Mas não se esqueça, mesmo em trégua um cachorro saudável está sempre pronto para a guerra, e na guerra particular dele a lama é essencial.


Você já viu a cena, e não compreendeu.


Você dá banho, passa shampoo, enxágua, seca, penteia, passa perfume canino e quando você está pronto e na esperança de ver o desfile na frente da casa do vizinho ele sai imediatamente em disparada se espojar no gramado ou terra o máximo possível.


Se tiver lama, melhor ainda.


Cães, como boa parte dos mamíferos terrestres superiores, são caçadores e presas ao mesmo tempo.


Em outras palavras ele precisa se disfarçar no ambiente e poder caçar sem precisar gastar muita energia e também se proteger de ser caçado, não interessa quantos anos morando com você sendo domesticado e treinado, isto está na sua memória instintiva e nada mais vai fazer um cão se sentir tão bem e seguro quanto se emporcalhar na lama e ele realmente não vai se importar se você não gostou.


Muito pelo contrário, ele vai em algum momento se perguntar porquê você não faz o mesmo.


Por falar em trégua, eu já declarei guerra a um cachorro e pelo menos por um minuto eu planejei matar o desgraçado, e óbvio que a guerra terminou comigo me rendendo.


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Quando eu morava na Lagoa da Conceição em Florianópolis eu tive uma das primeiras lições que a vida adulta pode oferecer: vizinhos.


Você pode morar no paraíso, os vizinhos transformarão em um inferno. Se não é pelo que eles fazem com você, é o que eles farão consigo mesmos e invariavelmente, de alguma forma, te atingirá.


Esse meu vizinho em questão era uma pessoa indisfarçavelmente amarga, parecia ter tudo e nada ao mesmo tempo.


Quase todos os dias chegava com algo embaixo dos braços ou no porta-malas do carro, algum pacote, alguma sacola, alguma caixa.


Comprava de tudo: varal novo, bicicleta, churrasqueira de tambor, pé de pato. Nunca vi ele de tênis velho, estava sempre com aqueles tênis coloridos estilo o mais recente modelo com tecnologia da NASA que ganhou os últimos cem metros rasos das últimas olimpíadas. Mas não parecia vencer a si mesmo, o olhar sempre vazio, a namorada sempre cabisbaixa e igualmente mal humorada.


Um dia então ele comprou um cachorro.


É incrível como pessoas vazias sempre em algum momento de suas vidas tentam preencher o vazio com outro ser vivo. Pode ser um cão, um gato, ou até mesmo um filho. E aí elas se tornam vazias e amargas e usam este ser vivo como bode expiatório e saco de pancadas de suas frustrações.


O cachorro era a vítima da vez e o meu vizinho amargo (que era até então era apenas um amargo silencioso) passou a mostrar a sua verdadeira face. Sim, é quando temos alguém sob nossa responsabilidade (afetiva, profissional, física e espiritual), que mostramos quem somos.


Ele mostrou.


Gritava, chutava o pote de comida, e gritava mais. Nunca vi ele agredindo o cachorro de fato, mas os gestos com braços e pernas ameaçando agredir eram uma cena constante, o que para mim é agressão e para um cachorro também.


Em dois dias eu já não aguentava mais ouvir gritos de Tony pra cá e Tony pra lá.


E o Tony, o cachorro, correspondia latindo o tempo todo, qualquer hora do dia ou da noite. Era um Cocker Spaniel lindo e ansioso, abanava o cotoco de rabo sem parar como quem pedia trégua ou perdão o dia inteiro.


E latia.


Ele vinha até a minha porta, se aproximava, abanava o rabo e latia, meu deus como latia, algo nele queria se enturmar, outro algo nele fazia ele se afastar. Cheirava algo e latia, saia correndo e latia, voltava e latia e abanava o rabo e latia mais um pouco.


Eu sabia qual era o problema: O Tony não passeava, o terreno era pequeno, ele não era treinado e fazia xixi e cocô por todos os cantos e, pelos gritos do dono, dentro da casa também. E obviamente o seu maior problema era ter um péssimo e destemperado dono. Quando eu chegava em casa ele tentava se aproximar, latia e fugia e eu sempre percebia isso como um pedido confuso de socorro.


Cachorros sabem quando estão sofrendo, e demonstram, mas cabe a nós traduzir e ajudar. Consegui algumas poucas vezes e por alguns poucos segundos acariciar ele no queixo e entre os olhos (quando ele ficava de olhos meio cerrados e o rabo abanando na velocidade da luz) até o dono aparecer e ele do nada recomeçar a latir rouco e agudo e se afastar. Parecia treinado para me frustrar também.


Em uma das poucas e milagrosas vezes que esse meu vizinho me olhou nos olhos e me cumprimentou eu resolvi arriscar puxar papo e me oferecer pra passear e treinar com o cachorro. Ele me encarou com um meio sorriso e continuou me ouvindo, então me empolguei e continuei falando.



Contei da minha experiência com cães e da minha paixão por eles, disse que tinha horário e vontade disponíveis. E assim a minha vida se tornou um inferno pelos próximos dois meses.


No exato momento quando terminei de falar todo o ódio que ele sentia da vida (e descontava no Tony) se materializou em mim. Gritava que eu não era ninguém para tentar roubar o cachorro dele e que se eu me aproximasse do Tony novamente ele chamaria a polícia.


Quando eu chegava em casa ouvia ele chamar o cachorro da forma mais falsamente amorosa possível e dizendo em voz alta frases onde eu era citado como ameaça ou ligava o som do carro e atiçava o cachorro para fazer mais barulho ainda.


Ouvia Bon Jovi e 50 Cent, alternadamente e no volume máximo, e nem sei como interpretar essa lembrança.


Acordava de madrugada para fazer barulho, fingia que o carro estava estragado e ficava horas acelerando ou seja, este cara era um autêntico suicida terceirizado, só esperando o momento de um dia encontrar algum louco igual ele, mas violento e assassino, e encerrar na marra a sua não tão breve passagem pela Terra.


A minha gota d'água foi um domingo de manhã quando abri a porta e ele estava fazendo churrasco na entrada da minha casa. Me apresentou para os seus amigos como se eu fosse o bagunceiro do terreno. Saí de bicicleta e fiquei um domingo inteiro pedalando e procurando outro lugar para morar.


Achei.


Passei a semana inteira fazendo a minha mudança, todo dia levando uma caixa ou alguma mala ou sacola de roupas. No domingo seguinte em menos de uma hora carreguei o resto das minhas coisas no caminhão de mudanças e fui embora sem olhar para trás. Tadinho daquele cachorro, mas o que mais eu poderia fazer? Eu precisava de paz.


Montei e arrumei a cama no apartamento novo, passei um pano na casa e organizei algumas coisas e então fui no supermercado comprar comida, jantei, tomei banho e tentei dormir. Seria a minha primeira noite de sono em paz nos últimos três meses e já era meia-noite quando apaguei a luz, me joguei na cama e deitei a cabeça no travesseiro. Um segundo depois (ou um minuto, ou uma hora, jamais saberei dizer) ele começou a latir. Ele, um cachorro, outro cachorro, mas um cachorro.


Pela primeira e única vez na minha vida eu senti ódio de um cachorro.


Sentei na cama e decidi: Eu vou matar este cachorro, nunca mais nenhum cachorro vai estragar o meu sono, eu nunca mais vou me mudar daqui, eu vou morar aqui para sempre depois de matar esse cachorro, eu vou sair deste apartamento agora e ver a cara deste cachorro e amanhã eu vou comprar veneno de rato, veneno de cachorro, veneno de gente e um revólver e vou matar este cachorro. Coloquei o chinelo, vesti uma bermuda e uma camiseta e saí para ver a cara do filho da puta mais filho da puta de toda a história de todos os filhos da puta.


Passei pelo portão do terreno, virei à direita por instinto enquanto ouvia os latidos aumentando e quando me dei por mim os latidos pararam e ali estava ele.


Não latiu mais, mas começou a abanar o rabo e balançar a cabeça desesperadamente como quem queria dizer:


- E aí cara, até que enfim alguém me ouviu, você tem insônia também, me faz companhia?


Antes fosse só o rabo, ele abanava o corpo todo a partir das patas dianteiras. E balançava a cabeça sem tirar os olhos de mim como se eu fosse o dono escolhido por uma noite. Virava de bunda olhando para trás, aí virava de frente e enfiava o focinho por entre a grade do portão.


E virava de bunda de novo.


Toda essa cena durou um segundo (ou um minuto, ou uma hora, jamais saberei dizer) e logo lá estava eu sentado e encostado sendo lambido, cheirado e tomando rabadas e bundadas involuntárias no rosto e no pescoço através do portão.


O filho da puta simplesmente não decidia se queria carinho na cabeça ou na bunda, se era para eu lamber o nariz dele também ou cheirar o seu cu.


Deitava no chão, virava de pé, virava de frente, virava de bunda, espirrava e rosnava engasgado como quem pedia para eu fazer o mesmo, e recomeçava.


Imagina todas as coreografias do É o Tchan! em uma dança só, no corpo de um cachorro, e talvez você me entenda. Não sei dizer por quanto tempo fiquei ali sentado no chão, mas lembro muito bem de pensar:


- Meu deus, por que eu pensei em matar ele?


Antes que eu pudesse pensar em uma resposta decente (que jamais encontraria), ele deitou e mostrou a barriga.


Fui derrotado, rendido, conquistado.


Como é tênue a linha entre julgar alguém e se transformar neste exato alguém na primeira oportunidade, como é curta a distância entre a solução e a desgraça.


E é o que eu tinha planejado fazer, descontar a minha raiva e frustração em quem não merece, igual meu ex-vizinho. Mas ele era um cachorro, e se existem duas coisas que os cachorros dominam são o perdão e a confiança.


Talvez ele já soubesse o que eu tinha planejado e na linguagem dos cães ele já havia me perdoado e dobraria minha consciência ao meio com todas as lambidas e rabadas e bundadas que o alfabeto deles permite.


Talvez ele tenha pensando:


- Meu arqui-inimigo está vindo, vou seduzi-lo com todo o meu sex appeal canino.


Ele parecia estar há anos esperando por esse momento.


E assim foi, teve paradinha, twerk, rebolation e quadradinho de oito.


Irresistível.


A frase “seja o humano que o seu cão pensa que você é” nunca fez tanto sentido.


Quando enfim voltei para casa não lembro de ter ouvido mais nenhum latido e dormi como um anjo de ressaca, cansado e arrependido, cheirando a vira-lata e afogado em culpa e remorso por ter pensado algo tão horrível.


Mas se ele me perdoou, eu poderia me perdoar também.


Na segunda feira no fim do dia antes de entrar em casa fui lá ver ele. Um pouco tímido, talvez não quisesse me apresentar os seus donos ainda, mas igualmente amável. Agradei ele um pouco, puxei papo com o dono sentindo uma culpa interna monstruosa e fui para casa.


Naquela noite não teve latido e dormi como há meses não dormia, corpo relaxado, mente vazia.

Na terça ele latiu de novo, com menos intensidade mas impossível de ignorar e lá fui eu, desta vez decidido unicamente a fazer nele e receber de volta o que sabíamos fazer de melhor: Carinhos desengonçados.


Na noite seguinte não teve latido e visita, mas na quinta para sexta ouvi apenas um ou dois latidos tímidos, que me pareceram ser apenas algo como:


- Humano? Tá aí?.


Óbvio que estava, e óbvio que fui lá.


Era isto, a vida havia alinhado um cachorro insone, amoroso e solitário fingindo ser vigia noturno e um recém adulto aprendendo de uma vez por todas que os animais nunca podem ser culpados pelos seus donos, humanos dotados com plena consciência de quando, como e porquê encerrar o ciclo da violência.


E definitivamente todos os cães merecem o céu.


Todos. Os que lambem, mordem, arranham, espirram, mijam, cagam, vomitam, rebolam, latem, destroem coisas, rolam na grama, na terra e na lama, e amam.


São coisas de cachorro, não tente entender.


Cães são apenas cães (e vira-latas são deuses que fugiram do olimpo), quando você ver um, reverencie.


Se ninguém estiver olhando, role no chão com ele.



Por algum bloqueio mental (chama-se culpa) não consigo lembrar o nome dele, lembro de ter perguntado para o seu dono e ter achado graça da escolha. Na verdade não lembro nunca de ter de fato chamado ele pelo nome, pensando hoje fiquei com a impressão de sempre sentir vergonha perto dele.


Ele deveria é ter me mordido.


Mas pelos seis meses seguintes foi meu amigo de algumas noites em claro e fins de tarde preguiçosos. A sua cor era aquela cor dos cachorros mais lindos e com histórias pra contar, aquele caramelo claro clássico dos vira-latas ou castanha de caju e para fins de enredo fica anotado aqui o nome que eu daria para ele hoje: Caju.


Apenas Caju.


E quase duas quadras além da casa do Caju, morava o Elvis.


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Apesar do nome, Elvis não tinha gingado nenhum. Não queria proteger ou defender nada além de si mesmo, não olhava ninguém nos olhos, não latia, não abanava o rabo.


Saía do portão da sua casa, andava até a esquina cheirando tudo lentamente, cabisbaixo e desconfiado e retornava sem precisar ser chamado. A esquina era o limite e a rua não parecia oferecer nenhum atrativo para ele.


Nem os carros, muito menos as pessoas, tampouco as crianças, menos ainda outros cachorros. Não xingava as rodas, não olhava para ninguém por vontade própria e não ficava mais de cinco minutos fora do seu quintal.


Talvez fosse complexo. Elvis tinha uma orelha, digamos, um pouco mais lenta que a outra, se você assoviasse te olhava assustado no mesmo segundo e a sua orelha direita ficava em pé simultaneamente.


O mesmo não podia ser dito sobre a sua orelha esquerda, que demorava entre 0,5 a 1,5 segundos a mais para tomar uma atitude e a acompanhar a outra. Se você o chamava pelo nome, a reação era um pouco mais rápida mas ainda assim o atraso da orelha esquerda era inevitável.


Quando esta orelha enfim se erguia era a senha para o Elvis abaixar a cabeça e voltar para o mundo interno dos seus medos e desconfiança diários. Sem latir, sem abanar o rabo, sem te olhar de novo. Uma orelha parecia querer se enturmar, a outra colocava ele no seu devido e tímido lugar.


Elvis era um Weimaraner, cinzento de olhos cinzentos, e faria sucesso na pracinha se não fosse exatamente o oposto canino do Caju e do cantor que inspirou o seu nome.


Por falar em devido lugar, lembrei do Xande, este sabia das coisas e colocava cada um no seu quadrado.


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Alguns anos depois de sair da lagoa eu chegava bem cedo para trabalhar em uma loja, em um posto de gasolina.


Nesta época havia um cachorro por lá, apelidado de Xande, que adotou nós e o posto e começou obviamente a fazer as funções de guardião e vigia em troca de carinho, água e comida.


E obviamente as maiores ameaças para ele eram... outros cachorros.


O posto ficava de frente para um cruzamento e toda vez quando aparecia outro vira-lata ele botava pra correr. O concorrente saía em disparada na diagonal do cruzamento, por instinto, percorrendo a menor distância possível para atravessar e fugir.


Mas o Xande não, atravessava em linha reta na primeira faixa de pedestres e depois na outra faixa perpendicular.


Com este gesto estratégico, ganhava triplamente:


- Salvava o posto de mais uma ameaça.

- Provava para todo mundo ser um cão especial e educado.

- Atravessando na faixa duplamente dava chance do outro cachorro correr e escapar, provando também ser um guerreiro justo e evitando um confronto desnecessário, a verdadeira arte da guerra canina.


Quando retornava, fazia o mesmo caminho no sentido oposto, abanando o rabo lentamente como quem diria se pudesse falar:


- É um trabalho sujo, mas alguém tem de fazer.


Aliás não tem nada mais foda que cachorro adotando posto de gasolina e virando segurança do local, lobo moderno.


Grande Xande.


Pois outra vez de manhã bem cedo e indo para este mesmo trabalho eu vi outro cachorro andando na outra calçada na mesma direção que eu onde perto da esquina havia uma seta pintada no chão, apontando a direção oposta.


Ele parou, olhou a seta e então olhou para onde a seta apontava, pensou por um segundo e quase num salto virou 180 graus e seguiu na direção sugerida por ela.


Até hoje eu penso se deveria ter feito o mesmo, mudar de direção no meio da caminhada pareceu ser a escolha certa para ele, que não pensou duas vezes.


Alguns anos depois ainda eu sempre escolhia outro caminho para ir para outro trabalho e encontrava o Rômulo e o Remo, e nada passava em branco para eles.



Cortar caminho pela favela era mais fácil e rápido, 30 minutos pelo caminho regular contornando o morro ou a metade do tempo subindo e descendo o mesmo morro.


O único problema eram os vigias da comunidade, dois irmãos gêmeos, que eu logo apelidei de Rômulo e Remo, corajosos, implacáveis, e desbocados.


Na virada da esquina onde mudava o sentido favela-centro eles ficavam lá, Rômulo sempre sentado, Remo sempre deitado.


Qualquer carro que passasse, Rômulo ficava de pé e encarava e Remo abria os olhos e se concentrava na situação.


E eu buzinava. Uma vez só era suficiente e Remo, o deitado, dava um pulo igual gato tomando choque e em seguida latia todos os palavrões possíveis aprendidos na favela.


Rômulo levantava mais lentamente como se fosse a segunda orelha do Elvis, latia de forma mais segura e dava dois passos para frente.


Ao contrário da regra (ou etiqueta) canina eles não miravam nas rodas, ambos te olhavam nos olhos. Era mais que suficiente para entender, a favela era deles, a esquina era deles e nada abalaria a paz no morro, um carro por vez.



Não só as favelas, o mundo é dos vira-latas, nós estamos apenas de passagem.


Eu e o Pluto estávamos só de passagem e entrincheirados naquele fatídico dia daquela única batalha daquela única guerra onde um único tiro foi disparado.


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Cápsulas do tempo.


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A SpaceX lançou na quinta-feira o seu foguete Starship pela primeira vez usando seu poderoso propulsor Super Heavy em um voo de teste não tripulado que terminou minutos depois com o veículo explodindo no céu.


O foguete de dois estágios decolou das instalações de teste a leste de Brownsville no Texas na expectativa de um voo de estreia de 90 minutos para o espaço, mas em menos de quatro minutos de vôo a Starship de estágio superior não conseguiu se separar conforme projetado do Super Heavy de estágio inferior, e o veículo combinado foi visto virando antes de explodir.


A Vulva Spaceship vai ter de esperar.


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Já aqui na Terra (redondamente plana ou planamente redonda, jamais saberemos) a Capela de Nossa Senhora da Piedade, conhecida como 'Igrejinha', na zona rural de Araras no Estado de São Paulo, foi alvo de um ato de vandalismo terraplanista no dia 29 de março.


As pixações foram:


"Estas estátuas não tiveram poder algum para me impedir de entrar aqui, de movê-las de lugar e de escrever nestas paredes. Teriam elas algum poder para ouvir orações ou livrar do mal àqueles que clamam a elas? Ha ha ha ha ha ha",


“A terra é um círculo plano com uma cúpula acima (o nosso céu)”


“Detalhe importante, a bíblia também diz que a terra é plana”


E na parede lateral do lado de fora:


"A terra é plana pesquise".


Que época louca estamos vivendo, briga de terraplanistas de hoje com terraplanistas do passado.


Imagina quando a briga chegar em quem é ou quem não é o centro do universo.


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No dia 21 de Abril de 1933, 90 anos atrás e quase imediatamente após a chegada dos nazistas ao poder, o parlamento alemão se tornou pioneiro nas leis de proteção dos animais, proibindo a vivisecção e o abate sem anestesia.


Hermann Göring aproveitou o momento e declarou:


- Aqueles que ainda pensam que podem continuar a tratar os animais como propriedade inanimada deveriam ser enviados para campos de concentração.


Não foi uma declaração à toa, nem inocente, nem muito menos sem alvo definido.


Um dos principais objetivos das leis recém aprovadas era tornar ilegal o abate kosher judaico, mais uma legislação com boas intenções na superfície para criar e reafirmar o sistema de direito penal do inimigo, quando o alvo não é o crime mas sim um determinado grupo social ou étnico.


Pouco após esta declaração a revista alemã satírica Kladderadatsch publicou um desenho mostrando animais acenando para Hermann Göring com a saudação nazista, um desenho tão ridículo que até hoje não é possível dizer se foi deboche ou pura propaganda ideológica infantilizada, visto que logo após a mesma revista adotou uma abordagem satírica agressiva em relação aos judeus e apoiando a ascensão do nazismo.



Leis persecutórias disfarçadas de bem-intencionadas, mídia em conluio com o governo, parece até os dias de hoje.


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Por falar em leis, no dia 14 de abril um tal Felipe Becari, deputado de um tal partido União do Estado de São Paulo criou uma lei pedindo o reconhecimento da expressão “vira-lata caramelo” como manifestação cultural imaterial do Brasil.


Acordem para a vida, cães não precisam de Deus para entrar no céu e nem de lei para ser patrimônio.


Quando eu for presidente todo cachorro terá um nome de rua e uma estátua em praça pública, vai faltar rua e praça para cada estátua mas aí é problema do político que vocês elegeram.



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