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ENSAIO 32: BARBAROSSA

Atualizado: 5 de fev.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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24/05/2023


BARBAROSSA


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Declarei guerra uma única vez na vida, disparei um único tiro e tomei seis puxões de orelha.


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No High Museum of Art na Cidade de Atlanta, capital do Estado da Geórgia nos Estados unidos, existe uma escutura maravilhosa de nome "A Friend in Need Is a Friend Indeed" feita em 1888 pelo escultor Henry Church.


Fazendo jus ao título ela retrata uma cena dramática onde um distraído e alheio filhote de cordeiro é defendido pelo seu pastor, que é defendido pelo seu cachorro, do ataque de uma pantera.



Olhando (ou escrevendo) por outro ângulo, você vê o cachorro atacando uma pantera, que ataca o pastor, que defende o cordeiro e uma metáfora cravada em pedra sobre a amizade canina na percepção mais pura do termo, capaz de defender um homem (alguém que ele vê como igual) como se ele mesmo estivesse sendo atacado, merecedor de risco e sacrifício.


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Assim como entre os gregos os cães também eram amados e admirados pelos romanos, sendo retratados e homenageados em anéis personalizados e velados em lápides tal qual membros da família com declarações escritas, como estas que achei por aí:

"Estou em lágrimas, enquanto carrego você para seu último lugar de descanso, tanto quanto me alegrei ao trazê-lo para casa em minhas próprias mãos, quinze anos atrás."

"Tu que passas por este caminho, se por acaso marcares este monumento não ria, embora seja a sepultura de um cão. Lágrimas caíram em mim e o pó estava sobre mim pelas mãos de um mestre." ⁣

"Para Helena, filha adotiva, alma sem comparação e merecedora de louvor."

"Esta é a tumba do cão, Stephanos, que morreu, a quem Rhodope derramou lágrimas e o enterrou como um humano. Eu sou o cachorro Stephanos e Rhodope montou uma tumba para mim."

"Myia nunca latiu sem motivo, mas agora ela está calada."


Nada impressionante ou inesperado se você lembrar que na mitologia da fundação de Roma a própria cidade nasceu graças a um ancestral canino, a lenda dos irmãos Rômulo e Remo amamentados por uma loba, Capitolina, séculos e séculos (se não milênios) antes de se tornarem guardiões de favela.



Assim como a Odisseia de Homero a lenda de Rômulo e Remo trata-se de uma tradição oral representando o espírito de um tempo e lugar mesclando elementos gregos e romanos, povos habituados a criar heróis homônimos e míticos para enaltecer as virtudes étnicas e sociais e explicar as origens dos nomes de locais e eventos e misturando ficção e fatos históricos comprovados.


Um destes fatos são os Molossos, cães reais de nome mitológico, vindos da região do Épiro no noroeste da Grécia e raça dominante cerca de 300 anos antes de Cristo.


Usados inicialmente para guardar rebanhos e casas o cão ganhou reputação mítica ilustrando mosaicos e pinturas por todo o império e a fama de brigão lhe garantiu o apelido de canis pugnax, ou “cão lutador”.


Nas arenas dos circos romanos lutava contra leões, tigres, leopardos, elefantes, girafas, lobos, ursos, javalis, cervos e animais domésticos como touros, cavalos e gladiadores em lutas encenando caçadas e batalhas, chamadas venatios.


E a partir do reinado do imperador Marco Aurélio os molossos foram levados também para os campos de batalha, vestindo anéis com lâminas de ferro no pescoço e nas patas formando companhias inteiras apenas por cachorros.


Não é exagero dizer que o canis pugnax ajudou a expandir e manter as fronteiras do império, usados para intimidação, perseguição, combate e rastreio.


Para chegar neste resultado os romanos passaram a cruzar diferentes raças de molossos até produzirem cães de porte grande com 60 cm de altura, aspecto bruto, de cor preta, latido grave e intimidador e pesando entre 40 a 50 kg, obedientes, leais, territoriais e ferozes.


Além do Mastiff inglês e os São-Bernardo e Cane Corso italianos os molossos também originaram os Grandes Boladeiros e os Bernesses da Suíça, os Dogues e Dogos espalhados pelo mundo inteiro, o nosso mais que querido Rottweiler e pelo menos um cão reconhecido como descendente direto ainda existente: O Molosso do Épiro.



Atualmente diferentes raças são cães militares atuantes e usados pelas forças armadas, policiais e forças especiais de cada país principalmente para resgate, perseguição e rastreamento de drogas e explosivos e ao longo da história da humanidade dezenas, se não centenas, de cães se tornaram famosos por suas ações, os quais eu gosto de destacar sempre aqueles que eu chamo de Os Três Teimosinhos.


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Stubby (literalmente, teimosinho) foi um vira-lata resultado do assustador cruzamento entre um Pitbull e um Terrier e adotado ainda filhote pelo soldado J. Robert Conroy em 1917 na região do campus da Universidade Yale na cidade de New Havem no Estado de Connecticut, Estados Unidos, enquanto observava um treinamento do exército.


Robert ensinou para ele alguns truques como atender às chamadas de corneta, exercícios e até a fazer saudações do exército levantando a pata direita.


Quando Robert foi convocado para a linha de frente da Primeira Guerra Mundial na França levou Stubby escondido no navio e ao ser descoberto levantou a pata conquistando o comandante com a sua continência canina, permitindo a sua viagem.


A presença de Stubby foi se mostrando mais útil do que se poderia imaginar quando, em um ataque de bombas de gás (no qual ele e seu tutor sobreviveram graças ao uso de máscaras de proteção), o cãozinho passou a identificar pelo olfato novos ataques e avisando os companheiros de exército com antecedência.


A proeza do animal rendeu a sua primeira condecoração, se tornando primeiro cabo do exército, participava de patrulhas e encontrava soldados feridos e mortos mas sua maior honraria veio quando ele conseguiu identificar um espião alemão, que estava tentando mapear as trincheiras americanas. O cão saltou sobre o inimigo mordendo e imobilizando com seus dentes e soltando apenas quando seus companheiros americanos chegaram.


Após esse novo ato heroico Stubby foi promovido pelo comandante ao posto de sargento e com a vitória americana recebeu de presente um casaco de camurça, com diversas medalhas e condecorações de reconhecimento por sua bravura.



Durante os conflitos Stubby chegou a ser ferido no peito e na perna por uma granada mas sobreviveu aos estilhaços. Com o fim da guerra Robert Conroy levou seu cachorro de volta para casa nos Estados Unidos onde participou de desfiles, conhecendo os presidentes Woodrow Wilson, Warren G. Harding e Calvin Coolidge.


Em 1921 Conroy entrou para a Universidade de Georgetown e Stubby se tornou mascote do time de futebol da faculdade, divertindo o público durante os jogos e dois anos depois o sargento de quatro patas e herói de guerra morreu enquanto dormia.



Em 2018 a sua história foi contada em um filme de animação chamado Sargento Stubby: Um Herói Americano.



Em março de 1944 Smoky (esfumaçada), uma cachorrinha da raça Yorkshire Terrier, foi encontrada por um cabo do exército americano na Nova Guiné em plena Segunda Guerra Mundial, e decidiu que iria vendê-la. Bill Wynne, outro soldado de 22 anos, decidiu pagar o preço exigido pela cachorrinha passando a cuidar da nova amiga.



Durante as batalhas na Nova Guiné vários aviões japoneses atacavam o campo de aviação aliado no Golfo de Lingayen, em Luzon, e o ataque estava afetando as comunicações e os comandantes americanos precisavam urgentemente passar linhas telefônicas por um tubo que se estendia por cerca de 21 metros de profundidade, ligando a base até três esquadrões separados sem ter equipamento adequado para a função.


O tubo tinha apenas 20 centímetros de diâmetro e a única forma de colocar os cabos no lugar seria fazê-lo manualmente com os soldados cavando trincheiras para colocar os fios no subsolo, o que os deixaria expostos e alvos fáceis aos ataques inimigos.


Mas para isso existia uma cachorrinha então Bill Wynne se posicionou na outra extremidade para encorajar que Smoky atravessasse por todo o caminho com um fio que levava o cabo de comunicação preso à coleira.


Smoky completou a sua missão, sendo responsável por salvar cerca de 250 homens e 40 aviões naquele dia.


Algum tempo depois Bill pegou dengue e foi enviado para a estação hospitalar, onde ficou internado.


Alguns dias depois os amigos de exército levaram Smoky para vê-lo e as enfermeiras se encantaram com a cachorrinha, e pediram para leva-la visitar outros pacientes feridos e doentes.


Smoky passou cinco dias no hospital onde dormia com seu tutor durante à noite e visitava outros pacientes durante o dia, se tornando assim um dos primeiros cães de terapia da história.


Em 2005 uma escultura em sua homenagem (dentro de um capacete, como só o seu tamanho permitiria) foi instalada no mesmo local em que foi enterrada.



Anos depois Billy adotou outra cachorrinha da mesma raça, a qual deu o nome de Smoky II, ou Smoky the Second.


Bill Wynny faleceu em abril de 2021, aos 99 anos de idade, e a história da dupla original é contada no seu livro de memórias Yorkie Doodle Dandy: A Memoir.



Judy (apenas Judy, Just Judy) era uma Pointer inglês nascida na China e adotada pela tripulação de um navio da Marinha Real Britânica em 1942, como mascote da tripulação.


Quando o navio foi atacado pelo exército japonês cerca de 50 homens sobreviveram perdidos em uma ilha do Mar da China Meridional e com a ajuda de Judy os marinheiros conseguiram encontrar água potável, até serem resgatados e presos pelos japoneses e levados até um campo localizado na Indonésia.


No campo de prisioneiros a cadelinha conheceu o aviador Frank Williams que passou a alimentá-la e com um acordo conseguiu registrar Judy como mais um dos seus prisioneiros, assim podendo receber a mesma proteção dos demais internos.


Quando foram transferidos para outro campo em Singapura o navio em que estavam também foi atacado, Frank Williams foi resgatado pelos japoneses e levado para o campo mas Judy escapou junto a outros prisioneiros ajudando a encontrar o caminho de volta à terra firme, onde ela reencontrou seu tutor.


Em 1945 todos foram libertados e Judy reconhecida como heroína condecorada um ano depois com a Medalha Dickin, condecoração britânica especial para animais que serviram na guerra.



Judy e Frank viveram uma vida pacata até 1950 quando Judy precisou ser sacrificada aos 13 anos e a sua história foi contada em um livro de Damien Lewis, Judy: A Dog in a Million, lançado em 2017.


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Voltando ao Império Romano os cães também eram muito comuns como companheiros da família e, como de se esperar, guardiões das casas.


Na cidade de Pompéia por exemplo uma das casas preservadas mostra um mosaico no chão da entrada onde pode ser lido “cave canem" (ou “cuidado com o cão" em latim) e de acordo com os romanos os cães não cuidavam apenas da sua casa, mas também da morada eterna e da comunicação com o mundo dos mortos. Quando um cachorro começava a latir sem motivo aparente o dono sabia que Trivia (rainha dos fantasmas, encruzilhadas e cemitérios) se aproximava.



Não muito longe de Roma os cachorros eram membros queridos nas famílias egípcias e acreditava-se que o espírito deles vivesse após a morte, levando no além uma existência idêntica àquela da vida na Terra, e por isso eram mumificados e enterrados junto de seus donos.


Na tumba do faraó Ramsés Segundo, morto em 1213 antes de Cristo, existem gravuras suas andando no mundo dos mortos junto de seus cães, os quais também eram associados ao deus egípcio Anúbis, com sua famosa cabeça de chacal e conduzindo as almas ao Salão da Verdade onde seriam julgadas por Osíris.


De acordo com a lenda ao nascer Anúbis foi entregue a uma família de cães e criado em meio aos seus filhotes, uma confluência gritante (uivante?) com a lenda de Rômulo e Remo.



Voltando para a Europa alguns estudos apontam que os vikings também acreditavam nos dons sobrenaturais dos cães e praticavam o sacrifício de mascotes com a intenção de orientar as almas humanas no mundo dos mortos, sendo enterrados com seus donos e retratados junto dos mesmos chegando no além.



Atravessando o Oceano Atlântico encontramos os lindíssimos Xoloitzcuintle ou Xolos, os cães pelados no México. Os Xolos teriam sido um presente do deus asteca Xolotl aos homens que deveriam cuidar deles e alimentá-los e em troca seriam guiados após morrerem em sua jornada por Mictlan, o Mundo da Morte.



Desta forma estes cães também eram sacrificados e enterrados com seus donos e ossos de xolos foram encontrados em túmulos astecas e de outros povos pré-colombianos, como maias e toltecas.



É um tanto amargo saber que tantas culturas e em épocas tão diferentes tivessem o hábito de sacrificar criaturas tão leais e ao mesmo tempo entender ser exatamente este o propósito com o qual o cão vê o homem e ter a certeza de que, se fosse perguntado e soubesse responder em nossa língua, escolheria morrer junto de nós ou em nosso lugar.


Escolha a qual o espertíssimo Charlie representa muito bem.


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No desenho Todos Os Cães Merecem o Céu (All Dogs to Heaven) de 1989 o charmoso e inescrupuloso Charles B. "Charlie" Barkin na Nova Orleans de 1939 escapa do canil onde seria sacrificado com a ajuda de seu melhor amigo Itchy Itchiford e retorna ao barco do cassino onde administrava com o seu parceiro Carface Caruthers.


Carface convence Charlie a deixar a cidade com metade dos ganhos do cassino, fica embriagado durante o Mardi Gras e é morto por um carro empurrado ladeira abaixo por Carface e seu assistente, Killer.


Apesar de nunca ter sido exatamente um good boy Charlie é automaticamente enviado para o céu onde o Anjo Whippet explica que como os cães são inerentemente bons e leais, todos vão para o céu e têm direito ao paraíso.


Não contente Charlie engana a morte roubando um relógio de bolso de ouro que representa sua vida e dá corda nele.


Enquanto Charlie desce de volta à Terra o Anjo Whippet diz que ele nunca poderá retornar ao céu e enquanto o relógio continuar funcionando, Charlie será imortal.


Mas quando o relógio parar novamente ele será enviado para o Inferno.


Depois que Charlie se reúne com Itchy e planeja a sua vingança na forma de um negócio rival, eles descobrem que Carface sequestrou uma jovem órfã chamada Anne-Marie por sua habilidade de falar com animais, e se mostra útil ao apostar em corridas.


Charlie a resgata, promete ajudá-la a encontrar uma família e no dia seguinte na pista de corrida Charlie rouba uma carteira de um casal enquanto eles conversam distraidamente com Anne-Marie preocupados com a sua aparência, e Charlie e Itchy usam seus ganhos para construir um cassino de sucesso no ferro-velho onde moram.


Anne-Marie fica com raiva de Charlie por roubar a carteira e ameaça ir embora depois de descobrir que foi usada e para convencê-la a ficar, Charlie traz pizza para uma família de cachorros pobres e sua mãe, Flo, em uma igreja abandonada.


Enquanto Charlie tem um pesadelo em que é condenado ao Inferno, Anne-Marie devolve a carteira ao casal, Kate e Harold.


Eles discutem em particular adotá-la, Charlie chega e a engana para que saia com ele.


Charlie e Anne-Marie escapam por pouco de uma emboscada de Carface e Killer e se escondem em um prédio abandonado, mas o chão se rompe e eles caem no covil de King Gator, um crocodilo gigante. Ele e Charlie se unem pelo amor à música e o crocodilo os deixa ir, mas Anne-Marie pega uma pneumonia e fica doente.


Carface e seus capangas destroem o cassino de Charlie e atacam Itchy, que volta mancando para a igreja e confronta Charlie sobre seu relacionamento com Anne-Marie, reclamando que ela parece ser mais importante para ele.


Na discussão Charlie diz em voz alta que apenas a está usando e logo dará adeus para ela e a "despejará em um orfanato", Anne-Marie ouve a conversa e foge em lágrimas antes de ser sequestrada por Carface.


Charlie os segue até o cassino onde é emboscado, iniciando sem querer um incêndio, os uivos de Charlie chamam a atenção de King Gator que o salva e então persegue e devora Carface.


No meio do caos Anne-Marie e o relógio de Charlie caem na água e incapaz de resgatar os dois ao mesmo tempo Charlie resgata Anne-Marie, coloca-a em algum tronco e a empurra para um local seguro e o relógio fica sem corda antes dele alcançá-lo, acabando com sua vida.


Algum tempo depois, Kate e Harold adotam Anne-Marie que também adotou Itchy e Charlie ganhou de volta seu lugar no céu por ter dado a sua vida para salvar a menina e retorna na forma de fantasma para se desculpar e se reconciliar com Anne-Marie e então se despedir.


Charlie retorna ao céu, onde Carface finalmente chega e pega seu próprio relógio, dando corda e jurando vingança contra King Gator, voltando a viver.


Enquanto o Anjo Whippet o persegue e tenta avisar sobre o mal uso do relógio, Charlie aparece e olhar para o espectador (você mesmo), dá uma piscadinha e diz: Eu voltarei.



Benjamin Schreiber por sua vez voltou, mas por ser humano talvez não tenha visto o portão do céu, e ao voltar não teve tanta sorte.


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Nos anos 90, Benjamin Schreiber foi considerado culpado de assassinar um homem batendo nele com um pedaço de pau e condenado a passar o resto de sua vida na prisão.


Em 2015, Schreiber teve pedras nos rins e ficou muito doente devido a uma infecção, foi levado a um hospital onde seu coração parou cinco vezes, mas os médicos conseguiram reanimá-lo com medicamentos.


Depois de se recuperar, ele foi enviado de volta à prisão para cumprir sua pena.


Mais tarde, Schreiber argumentou no tribunal que deveria ser libertado da prisão porque tecnicamente havia morrido e cumpriu sua sentença de prisão perpétua quando foi revivido, alegou também ter assinado um formulário afirmando não querer ser ressuscitado.


O juiz não concordou com a sua argumentação do além e disse que se Schreiber ainda estivesse vivo deveria ficar na prisão e se ele estivesse realmente morto, o recurso seria inútil.


É o tipo de argumento que só se ouve uma vez na vida e outra na morte, risos.


O não ele já tinha, e não custava nada tentar.



Charlie prometeu voltar, Benjamin voltou uma vez, e o Frankenweenie voltou duas.


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Na história do desenho Frankenweenie de 2012 do diretor Tim Burton o jovem cientista e cineasta amador Victor Frankenstein mora com seus pais e seu amado cão bull terrier Sparky, na cidade de New Holland.


Sua inteligência é reconhecida por seus colegas de escola incluindo a sombria vizinha Elsa Van Helsing, sobrinha do prefeito Burgermeister, o travesso Edgar "E" Gore, o obeso e crédulo Bob, o superconfiante Toshiaki, o assustador Nassore uma garota excêntrica apelidada de "Weird Girl", mas ele não interage muito por preferir brincar com seu cachorro. Preocupado com o isolamento do filho, o pai de Victor incentiva o menino a jogar beisebol e quando Victor faz um home run em seu primeiro jogo Sparky persegue a bola e é atingido e morto por um carro.


Inspirado pela demonstração de seu novo professor de ciências sobre o efeito da eletricidade em sapos mortos, Victor desenterra Sparky, leva o cachorro a um laboratório improvisado em seu sótão e reanima com sucesso seu velho amigo com um raio.


Enquanto Victor está na escola no dia seguinte Sparky foge do sótão para perseguir o gato da Weird Girl, Mr. Whiskers, e depois explorar a vizinhança, é reconhecido por Edgar que chantageia Victor para ensiná-lo a ressuscitar os mortos.


Juntos, os dois ressuscitam um peixinho dourado morto que fica invisível devido a um erro no experimento. Edgar se gaba do peixe para seus colegas de classe, mas quando ele tenta mostrá-lo ele desaparece, levando-o a especular que as criaturas revividas duram pouco tempo.


Com medo de perder a próxima feira de ciências Toshiaki e Bob fazem um foguete com garrafas de refrigerante e Bob quebra o braço testando e o professor Sr. Rzykruski é culpado pelo acidente e demitido pelo prefeito Burgermeister e pelos adultos, confusos e com ciúmes de sua inteligência. Antes de deixar a escola o professor conversa com Victor e aconselhar o menino a usar a ciência com sabedoria.


Edgar acidentalmente revelaque ele e Victor trouxeram o peixe invisível de volta dos mortos, e que Victor fez o mesmo com Sparky e os inspira a tentar a reanimação, os pais de Victor descobrem Sparky no sótão e ficam assustados, fazendo o cachorro fugir. Seu pai começa a falar com Victor sobre a seriedade do que ele fez, e Victor em lágrimas diz a eles que só queria seu cachorro de volta, então seus pais decidem ajudá-lo a encontrar Sparky e continuar a conversa mais tarde.


Quando a família vai embora os colegas de Victor invadem o laboratório e descobrem as instruções de reanimação. Eles realizam seus experimentos separadamente mas cada um de seus animais mortos é transformado em um monstro e todos vão na direção da feira da cidade assustando todo mundo e quebrando tudo pela frente.


Depois que Victor encontra Sparky no cemitério de animais de estimação da cidade Bob e Toshiaki pedem sua ajuda para lidar com os monstros. Eles vão para a feira e durante o caos Perséfone, a poodle de estimação de Elsa, é agarrada pelo Mr. Whiskers transformado e carregada para o moinho de vento da cidade. Elsa e Victor vão atrás.


Os habitantes da cidade culpam Sparky pelo desaparecimento de Elsa e o perseguem até o moinho de vento, e o tio de Elsa acidentalmente acende com sua tocha, Victor e Sparky entram no moinho de vento em chamas e resgatam Elsa e Perséfone, mas Victor fica preso lá dentro. Sparky resgata Victor e é arrastado de volta para dentro pelo Sr. Whiskers, que é mortalmente empalado por um pedaço de madeira em chamas pouco antes do moinho de vento desabar, matando Sparky novamente.


Para recompensá-lo por sua bravura os habitantes da cidade se reúnem e revivem Sparky com as baterias de seus carros.


Perséfone corre alegremente na direção de Sparky, pinta um clima e eles tocam os focinhos produzindo uma faísca, fim.



E o Pluto, o meu Pluto, foi guardião, espião, soldado, cabo, sargento, tenente, capitão, major, coronel, general, marechal e imperador.


Só não foi fantasma nem zumbi por falta de tempo.


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No dia 22 de Junho de 2021 completou-se 80 anos da Operação Barbarossa, quando o ego do Adolf Hitler decidiu enfim dar um tiro no próprio pé e por fim ao nazismo mudando a direção dos seus tanques de oeste para leste, realizando a maior operação de guerra da história e um dos maiores erros estratégicos e militares de todos os tempos.


Neste mesmo dia uma imagem de tanques alemães entrando em uma vila na antiga União Soviética me jogou automaticamente para mais uma viagem do tempo pessoal então eu tenho coisas mais importantes para contar, somei de novo rascunhos e sentimentos e reflexões, adicionei vírgulas e ironias então segue abaixo, ao infinito e além.



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Durante a minha infância no interior do Paraná nos anos 80 eu morei na pior triangulação possível na vida de uma criança: de um lado o cemitério da cidade, atrás a vila militar e na frente a casa da Karla, o primeiro amor da minha vida.


Os defuntos me assustavam, os militares me atormentavam e a Karla não sabia que ela era o amor da minha vida.


E os tanques eram presença constante nos meus dias e também nos meus sonhos e nos pesadelos da minha vó, não existiu criança do sexo masculino nos anos 80 que não sonhou com tanques e não houve adulto ou idoso no mesmo período sem medo deles, ter nascido e crescido no auge da ditadura militar sendo praticamente vizinho de um regimento do exército teve um peso enorme na minha infância e mais ainda na vida da minha família.


Metade dos meus tios odiava exército, a outra metade seguiu carreira militar e todo final de ano, em todo natal, o bate-boca familiar generalizado era garantido e nem um pouco diplomático.


E a minha avó mãe de muitos e avó de muitos outros, e nascida e crescida entre duas guerras, provavelmente já havia visto tanques demais quando era jovem e ver um filho trabalhar para um com certeza nunca esteve nos seus planos de vida.


Por mim tudo ok, ganhava mini-tanques, mini-jipes, mini-soldados e até mini-comida, aquela ração militar horrorosa onde tudo tinha gosto de paçoca de feijão ou rapadura mas para mim tinha gosto de aventura.


Montava o presépio, colocava o mini-exército ao redor protegendo Jesus, servia ceia de ração para o Nazareno e ganhava mais alguns presentes.


Quando eu me distraía o meu cachorro (O honorável ladrão de meias e bolachas e general vitalício da Tríplice Esquina do Império do Triângulo das Minhas Bermudas) atacava umas bolas do pinheiro de natal, atacava o presépio como se fosse uma besta raivosa de sete cabeças de alguma página perdida do apocalipse e ainda lambia a ração da ceia mostrando quem mandava naquela sala e assim mais um ano terminava.


E só para coroar a narrativa da estranha geopolítica da minha rua o pai do Seu Alberto, professor de história e que morava em frente a casa da Karla na outra esquina, um dia de manhã foi trabalhar e não voltou mais para casa.


Sim, o clichê do professor de história desaparecido durante a ditadura militar, e até onde eu sei nunca se soube sequer do corpo dele e eu sequer lembro o nome dele, não tinha tempo pra anotar os nomes dos vivos, imagina se me importaria com os desaparecidos.


A fofoca da rua era que o seu filho passou a andar de cabeça baixa porque o espírito do seu pai estava sentado nos ombros dele.


Então a minha infância era isso, um cemitério, um exército, um possível fantasma da ditadura na rua e um amor não correspondido.


E os tanques.



Vindos de Curitiba ou indo e vindo de exercícios no campo de tiro entre ambas as cidades os tanques apareciam ora limpíssimos ora com lama por todos os lados mas sempre lindos, sempre assustadores e sempre barulhentos, sempre na direção ou a partir da vila militar da cidade.


Muitos minutos antes do primeiro tanque aparecer chegava um jipe no cruzamento de onde descia um militar que então erguia o braço direito com aquele sinal de quatro dedos na mão e aí tocava uma sirene sabe-se lá de onde (era alta o suficiente para você perder a noção da direção de onde ela vinha) e aí o chão começava a tremer por uma eternidade e então... os tanques.


Dezenas de tanques.


Eu só sabia contar até dez ainda mas como eu contava várias vezes dez eram com toda certeza dezenas.


Quando eles enfim apareciam a minha vó tremia, chorava o choro sem lágrimas como era a especialidade dela e gritava para eu entrar dentro de casa, não olhar os militares nos olhos e não acenar para eles.


Eu entrava correndo e ia para a janela continuar a minha contagem.


Quando eles reduziam a marcha alguns militares acenavam pra mim e eu não correspondia, e hoje sei que muitos deles eram também crianças pouco mais de dez anos mais velhas que eu e estavam ali não para brincar de tanque como eu gostava de imaginar, mas apenas para ter um emprego e salário fixo igual os meus tios quando atingiram a maioridade.


E na janela em frente a minha do outro lado da rua, a Karla.

Ela de olho nos tanques, eu de olho nos tanques e na blitzkrieg dela.


Passado o tormento só sobrava um silêncio mais parecido com uma surdez e uma cena pateticamente desagradável para trás, fumaça de diesel, minha vó com as mãos na cabeça, eu sorrindo empolgado e meu cachorro rouco de tanto latir.


Pluto de frente para os tanques era mais valente que aquele chinesinho anônimo da Praça da Paz Celestial (em contrapartida a primeira e única vez que ele foi para a praia ficou congelado em pânico por causa de 2 centímetros de espuma a ponto de quase desmaiar, foi o dia D na Normandia pessoal dele).


Na hora de dormir eu só pensava quando enfim eu teria o meu próprio tanque, se o sonho da Karla era se casar com um militar de tanque na garagem e eu seria esse militar com tanque na garagem e levaria a metida da Karla passear.


Levaria ela para Curitiba de tanque passear no Shopping Muller, e estacionar o tanque dentro do shopping.


Em tempos de paz (ou seja, quando nenhum tanque passava) havia militares o tempo todo a pé pela minha rua e quando um deles arriscava passar sozinho (e desarmado) na frente da minha casa eu soltava o Pluto para morder as canelas dele, apenas um único comando de "pega" e volta e meia volver e correr era a única salvação possível.


Quando ganhei o meu primeiro tanque digo, minha primeira bicicleta, a minha autonomia e o tamanho do meu pequeno império aumentaram bastante e o meu primeiro passeio foi descer as quadras em direção à vila militar e no meio do caminho conheci a Andréia, o segundo amor da minha vida, que enfim me correspondeu.


Mas toda futura imperatriz é filha de um grande don-alguma-coisa-chato-do-caralho e um belo dia o pai dela me deu um ultimato e me proibiu de ver a filha dele porque, segundo ele, eu estava ensinando ela a falar palavrão.


Nessa época além do arsenal de palavrões a minha goela era uma verdadeira Stuka e o meu choro era mais alto que qualquer sirene de qualquer exército, não ouvi a resposta dele depois de dizer pra ele que ela se casaria comigo e ponto final.


Provavelmente deve ter dito algo sobre passar por cima do cadáver dele, pelo menos essa era a minha intenção quando tivesse um tanque.


Amar de repente passou a ser motivo de orgulho e comecei a pensar se não seria uma boa ideia ter dois carros, um tanque com buzina para levar a Karla pra passear e um jipe com sirene pra fugir com a Andréia para outro lugar.


Então a minha infância era isso, um cemitério, um exército, um possível fantasma da ditadura na rua, um amor não correspondido, um amor correspondido proibido e um imperador inimigo, o pai do meu amor proibido.



Em 1983 ocorreu uma das maiores enchentes da cidade e os militares e os tanques estavam lá ajudando remover entulhos, resgatando carros, fazendo buscas e acolhendo os desabrigados e também os helicópteros e eu e a minha destemida bicicleta.


Minha vó fazia pães, eu levava no ginásio, volta com a sacola vazia, pegava mais pães, e assim por diante. Demorava alguns minutos a mais porque escolhia o caminho mais longo passando na frente da casa da Andréia e registrar quanto tempo o radar do pai dela demorava pra acusar a minha presença.


Pra stalkear naquele tempo você tinha de passar na frente da casa da pessoa e como eu estava embargado na região basicamente eu ligava o modo stealth passava pedalando no dobro da velocidade normal.


Como prêmio de honra ao mérito (ou de tanto pedir) ganhei um passeio de helicóptero entre a vila militar e o campo de tiro longe (ou perto, quando se é criança tamanhos, distâncias e amores são superlativos) dali (que havia sido transformado em alojamento de famílias desabrigadas) e passei a viagem toda sorrindo e segurando o vômito entre os dentes e voltei de carona num jipe de volta para a minha casa que, afinal de contas, era sempre caminho para a vila dos milicos.


Acredite, andar de jipe do exército é pior que andar de helicóptero do exército.


Vomitei com vontade, o jipe nem tinha sirene e até então eu não sabia que militar podia sorrir, muito menos gargalhar da minha cara.


Quando cheguei em casa lembrei da minha bicicleta estacionada no quartel e tive de descer tudo aquilo a pé (vi no Google Maps agora, UM QUILÔMETRO E MEIO DE JORNADA) para recuperar a coitada e sem perder o costume passei em missão de reconhecimento na frente na casa da Andréia. Na ida e na volta.


Amar de repente passou a ser motivo de ostentação e comecei a pensar se não seria uma boa ideia ter dois carros e um helicóptero, um tanque com buzina pra levar a Karla passear, um jipe com sirene para fugir com a Andréia e um helicóptero pois um helicóptero é um helicóptero.


Então a minha infância era isso, um cemitério, um exército, um possível fantasma da ditadura na rua, um amor não correspondido, um amor correspondido proibido e um imperador inimigo (o pai do meu amor proibido), um passeio de helicóptero e um passeio de jipe.


E nada de andar de tanque.



Logo após o fim da ditadura a vila já estava bastante precária e embora eu não tivesse idade para lembrar ou avaliar esse tipo de coisa servi como registro vivo (quase morto) deste fato.


Após meses circulando a garagem do quartel e planejando o meu ataque um dia decidi invadir a área dos tanques de noite e entrar em um por conta própria e acabei saindo de lá carregado em estado de choque e de novo em um jipe em direção ao hospital após ser atacado por uma infestação de pulgas (ou piolhos, não lembro e nem quero lembrar) com a minha sirene ativada no máximo.


Ganhei de brinde um banho de pó branco, banho de chuveiro gelado, umas escovadas, o cabelo raspado, banho de soro, duas noites internado, banho de xingamentos trilíngues da minha vó, trezentos litros de água boricada, uma semana de atestado vendo desenho em casa (tudo valeu a pena) e mais umas três semanas de cicatrizes por todo o corpo.


Quem diria, nosso exército com armadilhas dignas de um Vietnã.



Um pouco depois desse episódio e duas quadras acima da vila militar um tanque perdeu o controle e caiu em um vão entre a rua e a parede de uma casa em uma esquina desnivelada, batendo na parede e criando uma pressão fazendo o fogão da casa se deslocar com tanta força e matar a moradora, quando ela estava sentada no chão da cozinha escolhendo feijão para o almoço.



Em 1989 se não me engano um modelo anfíbio entrou no rio da cidade de manhã cedo fazendo um exercício submerso de rotina e não saiu mais de lá.


A cidade inteira parou na beira do rio e depois de seis horas embaixo da água um guindaste conseguiu tirar o tanque com oito militares mortos afogados dentro, morreram abraçados com tanta força que foi necessário serrar e quebrar os braços deles para poder enterrá-los separados.



E por falar em enterro, sobre o meu querido vizinho cemitério há pouco e muito para contar.


Em toda cidade no interior do Paraná nos anos 80 e 90 dominada pelo catolicismo a vida era basicamente uma idade média com luz elétrica e água encanada e as tradições eram basicamente as mesmas como já comentamos: falar mal dos vizinhos, amaldiçoar grávidas solteiras, trocar de carro para impressionar colegas de trabalho e vizinhos, a homofobia de boteco em contraste com a obsessão pelo ânus alheio, o padre comedor de casadas e o cemitério como paisagem e lembrança incômoda de que todos irão parar ali um dia.


Tão incômoda que só era visitado hipocritamente uma vez por ano no dia de finados, quando então ficava horrendamente colorido e o ar com aquele cheiro doce de flores predestinadas a enfeitar túmulos (disputando espaço com flores de plástico que deveriam durar mais um ano) misturado com cheiro de velas derretidas, dia em que eu estava proibido de pedalar por lá para não atropelar ninguém.


Católicos são espertos e práticos com o seu famoso cristianismo de feriado: um dia para distribuir sopa, um dia para doar roupa velha, um dia para amar o próximo, um dia para rezar por ele, um dia para pedir dinheiro do céu por todo o esforço dos dias anteriores citados e assim por diante. A semana típica católica de seis dias de hipocrisia e o domingo para descansar e ver Faustão ou Silvio Santos, mais adorados que todos os santos juntos.


Mas tudo bem, dia de finados no interior é uma verdadeira Disneylândia então eu aproveitava o recesso e comia pipoca, maçã do amor, pé de moleque e algodão doce e quando ficava doidão do açúcar passava o resto da tarde roubando válvulas de aço dos pneus dos carros estacionados na rua e negociar no mercado negro infantil no centrinho da cidade.


Quando escurecia eu invadia o defuntódromo na velocidade seis atravessando a maior distância possível dentro do trem fantasma sem trem e com o coração na garganta por medo do portão ser fechado comigo dentro ou algum espírito sair do túmulo antes da hora me perguntando como anda o mundo dos vivos ou arrastar o meu cachorro para o além.


Se o Pluto tinha medo não sei dizer, mas a velocidade dele era a mesma e no final da corrida assim como aviões usam flaps eu apenas esticava o meu tênis e ele tratava de morder o cadarço me freando como se a minha vida dependesse dele e a dele dependesse de mim.


E dependíamos mesmo.


Nos outros dias do ano o cemitério vivia relativamente em paz com alguns enterros, alguns macumbeiros, alguns adolescentes e alguns casais de namorados, com exceção talvez de duas ou três histórias como aquela vez em que o meu primo se fantasiou de lobisomem para assustar o vigia (e tomou um tiro de espingarda e todos rimos), ou aquela quando um túmulo sem nome nem reclamante foi aberto para remover a ossada e descobriu-se que a mulher havia sido enterrada viva (eu estava junto e provavelmente foi a única vez que fiz um sinal da cruz sem alguém me obrigar, porque todos fizeram no mesmo momento e eu me empolguei) ou ainda aquele dia fatídico quando declarei uma única guerra de uma única batalha, com um único tiro disparado por um único soldado tendo apenas uma única pessoa ferida e nenhuma morta.


Mas as sanções foram desproporcionais e quase criaram uma cizânia deflagrando uma guerra de puxões de orelha na pobre orelha do pobre eu mesmo.


Segue o enredo semitrágico.



No extremo norte do cemitério morava a família do meu tio, administrador do cemitério inclusive, numa casa alta e muito bonita mas provavelmente não muito valorizada pelo fato de praticamente todas as janelas terem vista para a terra dos mortos.


Quando meus dias não se dividiam entre a vila militar e a minha rua a aventura diária se resumia a atravessar o cemitério de bicicleta ou a pé com o meu fiel escudeiro bebedor de água de vaso até a casa do meu tio incomodar quem estivesse por lá e praticar tiro ao alvo nos fundos da casa com a espingarda de pressão do meu primo, o famoso tiro de chumbinho.


Também roubava as Bonecas Barbies da minha prima para namorar os meus G.I. Joe, embora o dimorfismo sexual deixasse as coisas realmente estranhas pois as bonecas dela eram quase o dobro do tamanho de qualquer soldado do meu exército.


No meio do caminho na ida e na volta eu encontrava o Seu Romalino, o homem mais pobre e banguela que jamais conheci, vigia e coveiro morador dos fundos da capela do cemitério e embora não tivesse um único dente inteiro na boca, sempre sorria para mim o sorriso puro e sincero dos banguelas miseráveis e trabalhadores sem descanso.


No dia da batalha eu estava entediado além do limite acertando em latinhas e pedaços de lenha até olhar para o cemitério e ver uma senhora de quatro no chão lavando o túmulo de alguém.


Para você ter uma ideia da minha maravilhosa pontaria, fiquei umas duas horas bancando o sniper mirando a bunda da velha e disparei um tiro atingindo na parte de trás da cabeça, fazendo ela gesticular como se espantasse uma abelha atacando até olhar para trás e ver eu tentando me esconder atrás das linhas inimigas.


Eu não sei qual radar ou rádio aquela velha usava mas em questão de minutos o telefone da casa do meu tio tocou e era ele mesmo do outro lado da linha, e me perguntou se por acaso o meu primo estava em casa.


Eu respondi que não e ele:


- Então foi você.


Rimos muito, apanhei do mesmo jeito.


E o Seu Romalino, capaz de sorrir até depois de descobrir ter quase matado o meu primo lobisomem desta vez não sorriu, existem limites até para os banguelas.


Pelas minhas lembranças apanhei de pelo menos três adultos e tomei puxões de orelha de umas seis mãos sem rosto diferentes e minha bicicleta ficou embargada por um período maior que a Alemanha ficou sem direito a ter um exército após a primeira guerra, fiquei meses sem ganhar um único chocolate e a minha vó parou de fritar massa de pão para mim.


Também fui proibido de ir na vila militar, no cemitério, na beira do rio e onde mais fosse divertido ir naquela cidade.


Um Tratado de Versalhes inteiro por causa de uma velha aleatória e cadeiruda que sequer morreu mas tudo bem, cada cidade e época tem o seu Gavrilo e uma Dona Francisca Ferdinanda no local errado e na hora errada.


Ou quem sabe Dona Dale Zelko com sua bunda do tamanho de um F-117, desculpas, eu não sabia que a senhora não era invisível.


E até onde eu soube o chumbinho nunca foi removido da cabeça dela.


Bem feito.



Mas uma hora a gente cança de ser crianssa e então a adolescência chegou, a vila militar não era mais a minha paixão, nem a Andréia, nem a Karla, nem muito menos mirar na bunda dos outros.


Troquei bicicletas, tanques, jipes, helicópteros e amores e pulgas (ou piolhos) e espingardas pelo skate, Hip Hop, Hardcore e Curitiba e como todo bom adolescente passei a fugir de casa e ter aquele ódio natural de qualquer tipo de autoridade ou algo remetendo à polícia ou exército.



Aos 18 anos escapei do serviço militar obrigatório pelo famoso excesso de contingente (meu número: 118) mas não sem antes bater boca brevemente com o recrutador, em um diálogo torto mas certeiro e inesquecível como segue:


Ele:


- Senhor Luiz, o senhor gostaria de servir ao exército?


Eu:


- Eu não posso.


Ele:


Senhor Luiz eu não perguntei se o senhor não pode, nós quem diremos se o senhor pode ou não pode, eu perguntei se o senhor quer servir ou não ao exército do seu país.


E eu:


- Eu não posso porque eu não quero.


E ele:


- 119!


Apenas não me façam perguntas difíceis às sete da manhã no frio do inverno no interior do Paraná e tudo correrá bem.


E não, nunca andei de tanque na minha vida.



Logo após meu cachorro morreu e embora já estivesse ficando rabugento e intransigente como a minha vó sempre foi teve uma morte repentina e foi enterrado com honras de estado no nosso quintal embaixo das margaridas, virando adubo dos únicos seres vivos que ele respeitou em sua vida no império que sempre foi dele, apesar de ter lutado a sua existência toda na guerra dos 13 anos contra a minha vó numa eterna e complexa briga por nabos, rabanetes, beterrabas, cenouras e pés de couve arrancados antes da hora, territórios marcados com enxada de um lado e patas de outro, meias enterradas e buracos estratégicos e aleatórios cavados por motivos os quais a diplomacia humana jamais compreenderia.


O meu Pluto, guardião, espião, soldado, cabo, sargento, tenente, capitão, major, coronel, general, marechal e imperador com a mesma pose todos os dias olhando o sol no fim de tarde na entrada da garagem.


Foi até coveiro de meias. Só não foi fantasma nem zumbi por falta de tempo, muito embora sua fama fosse tão assustadora quanto.


E um ano depois dele foi a vez da minha vó, uma morte também repentina demais mas condizente com a idade e enterrada no cemitério com vista para a cidade toda, ao lado do meu vô (que nunca conheci) e da minha mãe (que se foi antes de eu ter consciência a respeito da morte).


Minha vó e meu cachorro me ensinaram tudo de importante sobre a vida e ela deveria ter sido sepultada no quintal embaixo das margaridas ao lado do Pluto no paraíso terrestre e inferno pessoal da disputa de ambos, enfim em paz mas com bustos olhando orgulhosos para lados opostos e embaixo uma lápide onde eu escreveria em pedra:


- AQUI NÃO JAZ UMA VELHA BIRRENTA E NEM UM CÃO DANADO, POIS EM VIDA BRIGARAM TANTO QUANTO SE AMARAM E AGORA APESAR MORTOS NÃO SE FORAM, POIS CONTINUAM ME GUIANDO. -


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Embora hoje sabendo contar muito além de dez e ter a certeza de que vi dezenas de tanques quando criança não consigo imaginar ou conceber qual sentimento se passa no coração de alguém quando eles entram em uma cidade para atacar ou tomar o controle.


E por outro lado, mesmo sendo pacifista nato o meu coração disparou quando vi aquela imagem, um sentimento ridículo de alegria e nostalgia, tamanha era a pressão da propaganda militar na mente das crianças do sexo masculino na época em que cresci, como você já leu nas linhas anteriores.


Tanques, gostando ou não, são maravilhosos: máquinas de matar, salvar, assustar, impressionar, oprimir, reagir, marcar territórios, sustentar posições e redesenhar fronteiras.


Nenhum recado parece ser mais claro em uma guerra além de um tanque avançando ou recuando.


Tanques são golens, uma massa bruta inanimada esperando uma ordem humana de ação e cuja sensação de vitória e proteção ou derrota e medo depende de qual lado você está em relação a ele, a metáfora perfeita sobre a realidade do poder, fato muito bem mostrado em uma série disponível na Netflix chamada Age of Tanks (uma série muito bonita inclusive, independente de você ter sido criado brincando de soldadinho ou não) mostrando não só a sua evolução tecnológica e o impacto da sua presença pelo mundo ao longo dos anos mas também a aceitação social e histórica pelos olhos de quem teve contato direto com eles.


O surgimento dos tanques e a escalada de mortes provocada pelos mesmos no século passado forçaram a nossa espécie a questionar o sentido das guerras de forma inédita.


Salvadores de impérios e destruidores de outros, mantenedores da paz e deflagradores de conflitos e sim, muitas vezes usados contra o próprio povo como por exemplo na já falada Escócia em 1919 contra os próprios trabalhadores que os fabricaram ou os estudantes e trabalhadores mortos e desaparecidos durante o famoso Massacre na Praça da Paz Celestial (não pode rir desse nome) na China.


E a partir da segunda metade do século passado também se tornaram símbolos enferrujados de poder patrocinado com sucatas tecnológicas em ditaduras das áreas pobres e subdesenvolvidas do planeta como nos períodos das ditaduras no Brasil e na América Latina. Igual compramos televisores ultrapassados e remédios proibidos no primeiro mundo enquanto no hemisfério norte continuaram a evoluir tecnologicamente.


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Quando o exército alemão já estava anexando parte da Tchecoslováquia ainda em 1938 a União Soviética publicou um cartoon onde podia-se ler o seguinte diálogo:


- Por que há tantas tropas?


- Em caso de provocação.


- E se não houver provocação?


- Como poderia não haver com tantas tropas?


Três anos depois o início da Operação Barbarossa, no dia 22 de junho de 1941, marcou uma data triplamente importante mas a menos comemorável da história recente da humanidade na minha opinião (mesmo que num primeiro momento ela pareça positiva), o marco zero e o início do fim do nazismo mas a consequência promoveu a expansão do comunismo soviético e exatamente por isto o dia é considerado também a data inicial da guerra fria entre a antiga URSS e o ocidente.


E na minha opinião também esta data foi o ponto central dos refluxos de fronteiras e rancores do século passado, uma pendenga iniciada na verdade séculos antes em 1701 na criação do Reino da Prússia e consolidada em 01 de janeiro de 1871 com a consagração do Império Alemão deixando de herança duas grandes guerras e milhões de mortos e só terminou, em tese, no dia 31 de dezembro de 1991 com a dissolução oficial da antiga União Soviética e o suposto fim da guerra fria e a inocente certeza de que a terceira guerra mundial jamais viria.


Mas ao contrário do ensinado de forma compartimentalizada nos currículos escolares geopolítica é algo completamente dinâmico, um jogo de pressão constante a ponto de nos dias de hoje não se limitar mais a nenhuma fronteira delineada, nem física, nem temporal, nem muito menos ideológica.


Estamos vivendo o momento mais tenso da geopolítica mundial em quase cem anos, um novo 1939 neste exato momento, e ninguém mais é inocente.


Uma infinidade de declarações de animosidades, ameaças e feridas diplomáticas aumentando semana após semana em todas as direções e claro, ditaduras do lado de lá patrocinando e armando ditaduras do lado de cá e não menos importante, alianças e blocos formados e tratados e pactos assinados como nunca se viu desde a segunda grande guerra.


Política na prática é a ação dos exércitos enquanto as pessoas se distraem com políticos na televisão e se nunca existiu almoço grátis exercícios militares são menos gratuitos ainda, o duplo sentido se mantém aqui.


Mas se já evoluímos a ponto de discutir o sentido das guerras este século dos confortos talvez nos impeça de lembrar, aceitar e entender a guerra e a paz armada como o estado natural do ser humano e talvez, apenas talvez, a terceira guerra tenha sido deflagrada há muito tempo, sem data prevista para acabar.


Levando em conta apenas que somente nos últimos 150 anos a população da terra ficou sete vezes maior, que se você recebe mais de três mil reais por mês você já está entre os 5% mais ricos do Brasil e ganha acima da renda média de 50% das pessoas no planeta, que a primeira chupeta da sua vida ainda está enterrada em algum lixão ou boiando por aí e que celulares são trocado s a cada dois anos em média estamos definitivamente em um ponto de inflexão e a conta, mais definitivamente ainda, está chegando.


Se os tanques são o símbolo perfeito da fragilidade da civilização nos últimos cem anos na minha opinião os smartphones são o símbolo máximo de um estilo de vida frágil que se tornou insustentável e não se encaixa mais no planeta, nem intelectualmente, nem economicamente, nem ecologicamente, muito menos politicamente.


Uma criança brincar e sonhar com tanques pode não ser lá a infância mais saudável possível, mas adultos usando chupetas digitais são sintoma de um mundo cada vez mais doente, alienado e ignorante, uma sociedade infantilizada e viciada em chamar a realidade de pessimismo e cada vez mais despreparada para as adversidades da vida, e elas virão.


É (ou deveria ser) de conhecimento de todos que fábricas, empresas e estúdios de cinema como IBM, Nestlé, Coca-Cola, Daimler-Benz, General Motors, Ford, Paramount, Columbia, MGM e até estilistas famosos como Coco Chanel e Hugo Boss sustentaram, trabalharam, defenderam, tiveram relações comerciais e se relacionaram diretamente com o nazismo antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial, corroborando os mesmos ideais e fazendo uso até mesmo de mão de obra escrava dos campos de concentração.


E desde então não só não foram criados mecanismos para evitar como este tipo de relação se aprofundou e, como se costuma dizer, continua a gerar lucro dos dois lados do atlântico.


O mesmo processo ocorre agora em escala global com o nosso dinheiro e sim, o nosso consentimento (não finja que você não sabe onde, como e por quem é feito o seu smartphone), estamos vivendo no melhor do capitalismo fazendo uso do seu pior e esta vida de originais caros feitos com mão de obra escrava e falsificações baratinhas produzidas com matéria prima tóxica já nos jogou em uma pandemia e pode muito bem nos jogar em uma guerra.


Lei de Godwin à parte temos um novo nazismo com os mesmos campos de concentração e experimentos humanos e mão de obra escrava, propaganda massiva, eugenia, genocídio, invasão de territórios alheios e bases militares em águas internacionais, a mesma noção absurda de que partido é governo e governo e povo são a mesma coisa e tudo isso aos olhos do mundo que assim como em 1939, está ignorando até o limite.


Ou talvez comemorando, pois os socialistas de Iphone também usam abertamente símbolos e imagens de ditaduras e louvam alegremente ditadores que juntxs já levaram mais de 100 milhões de pessoas pela fome, entre muitas outras atrocidades.


Afinal, de novo, se uma briga de primos definiu toda a geopolítica do século passado a ditadura da maioria já definiu o século atual nos seus primeiros vinte anos.



É paradoxal mas a liberdade da era da informação serviu para provar como a ignorância é de fato uma escolha, uma prisão confortável, e esta busca constante por zonas de conforto nos tornou todos reféns.


Crises, bolhas e guerras são cíclicas, muitas vezes intencionais e até mesmo artificiais e vão acontecer e chegar até nós independente de você acreditar ou não, porque profecias autorrealizáveis são simplesmente um fato.


Esta é a herança da Operação Barbarossa, 80 anos depois.


Foi-se o século do petróleo, dos tanques e da paranoia nuclear, bem-vindos ao século do petróleo, dos tanques, da paranoia nuclear, da próxima pandemia, da escassez e da insegurança alimentar.


Exatamente como nos séculos anteriores e exatamente como nas brigas da minha vó com o meu cachorro, nabos, rabanetes, beterrabas, cenouras e pés de couve vão voltar a ser motivo de conflito.


E como escrevi antes de outra forma ali em cima, talvez este conflito já esteja acontecendo.


Os próximos anos vão ser tristemente incríveis.


Então partindo do princípio de que não há previsão de futuro mas apenas a soma de lições do passado não aprendidas mais as lições ignoradas do presente, a pergunta que fica é:


Se estamos novamente em 1939, você está preparado para 1941?


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Talvez por ter tanto contato com a morte e vivido no mundo dos adultos desde muito cedo provavelmente hoje eu ame a vida de modo um tanto infantil mas tudo bem, nascer velho e morrer criança sempre me pareceu ser um ótimo negócio.


Sobre o nosso exército conheço muito pouco, é uma pena. Eu amo estratégia e tecnologia militar mas odeio exército, ambos os sentimentos vieram de berço mas boa parte dos países que amamos e sonhamos visitar no mundo só são assim inegavelmente porque seus exércitos garantiram a autodeterminação deles e os seus tanques garantiram as suas fronteiras, assim simples.


É possível odiar exército e entender a necessidade de um ao mesmo tempo, não é difícil e nem mesmo uma contradição, é apenas como as coisas são.


O princípio da autodeterminação dos povos é algo garantido em praticamente qualquer constituição de país democrático e até mesmo em resolução da ONU, e como a nossa própria constituição deixa bem claro, o exército é uma instituição permanente de defesa da pátria. E pátria é um sentimento que não temos, um sentimento na minha opinião bem diferente de nacionalismo.


Sobre os militares em si a minha percepção é a mesma que tenho da área da saúde: eu vejo muitos trabalhadores, trabalhadores sérios, sofridos e invisíveis e muitos acreditam e dão a vida pelo que fazem e quanto mais se aproximam da política (por ideologia, inocência ou interesse), piores ficam. E claro, todo lugar, toda família, toda empresa, toda organização tem os podres de berço e a bem da verdade, em todos os governos.


E em países pobres e desiguais como o Brasil o exército tem uma função infinitamente além de pintar meio-fio de branco como costuma-se dizer por aí, não à toa o lema do exército brasileiro é Braço Forte - Mão Amiga, um corpo de trabalho de ação social constante ajudando, organizando e atuando diariamente salvando vidas, delimitando cidades, protegendo reservas, fronteiras, riquezas naturais e até, ora ora, campanhas de vacinação.


E sim, infelizmente muitas vezes também são usados contra o próprio povo também aqui no Brasil, como na já citada ditadura e também na sempre imbecil guerra às drogas no Rio de Janeiro, mas aí a conversa pode-se resumir ao simples fato de que quando um policial ou militar aponta uma arma para um traficante de morro trata-se apenas de pobre guerreando contra pobre, povo matando povo, então o problema está claramente acima deles, com quem escreve e quem manda executar as leis.


E claro, se militares fossem mesmo apenas pintores de meio-fio, alguém tem de fazer, e duvido que você se ofereceria.


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Em tempo, Judith Barsi é o anjo por trás das vozes originais da dinossauro Ducky e da órfã teimosa Anne-Marie nos desenhos Em Busca do Vale Encantado (The Land Before Time, de 1988) e Todos Os Cães Merecem o Céu (All Dogs to Heaven, de 1989), ambos do diretor Don Bluth, dois desenhos que surgiram quando eu já mentia não gostar de desenho e assistia escondido mesmo assim.


Iniciando na carreira de atriz com apenas três anos de idade Judith apareceu em mais de cem comerciais e uma dezena de filmes ao longo da carreira e também como modelo de passarela infantil mas, aos oito anos de idade, seus pais forçaram nela um pesado tratamento hormonal para fazer a menina crescer causando uma série de dores causados pelo crescimento acelerado, além de engordar.


Por causa da sua nova aparência não conseguia mais trabalhos como atriz e Judith começou a fazer trabalhos como dubladora em desenhos e animações.


Passou a ter crises nervosas arrancado os cílios, sobrancelhas e tufos de cabelo e também passou a maltratar o seu gato de estimação, até o agente da menina a levar ela no médico para fazer uma série de exames contratando também uma psicóloga do conselho tutelar quando a menina contou ter sido acordada pelo pai uma noite com uma faca em seu pescoço e após isso a sua mãe entrou com o pedido de divórcio.


Na manhã do dia 27 de julho de 1988 os bombeiros foram chamados por uma vizinha da família e encontraram Judith morta em sua cama com um tiro na cabeça e o corpo carbonizado e a sua mãe Marie caída na cozinha.


Na garagem foi encontrado o corpo do seu pai Jozsef, que havia se suicidado com um tiro de espingarda e a perícia concluiu que as duas já estavam mortas há pelo menos dois dias enquanto Jozsef havia se matado no dia em que os bombeiros foram chamados.


Judith nunca assistiu os desenhos para os quais gravou a sua voz, lançados cerca de seis meses e mais de um ano após a sua morte.


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E sobre o destino do meu império a Andréia casou com outro imperador menos boca suja, o batalhão da cidade mudou de endereço em 2016 porque os milicos receberam mais verba da Dona Dilmãe, o cemitério continua no mesmo lugar porque os mortos são teimosos e a burocracia sobrevive no além-túmulo, e da Karla não tive mais notícias.


Guerra por guerra, rancor por rancor, tanque por tanque, certeza que hoje ela está um canhão.


Ninguém mandou não ter dado bola pra mim.


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Por falar em sentar na janelinha e ver o bonde andando, vamos falar mais um pouco sobre refrigerantes e aviões e pequenos grandes prazeres, e como eu vejo o mundo lá de cima.


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Cápsulas do tempo.


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Domingo foi aniversário dos 75 anos da criação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948, através do plano proposto pela primeira grande ação internacional da então recém-criada Organização das Nações Unidas, o tipo de aniversário que a lista dos não-convidados é gigante, fogos são proibidos, o DJ não pode tocar Khaled e tem de ser revistado na entrada e na saída.


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Por falar em circo uma fã do grupo mexicano RBD (Rebelde, leia-se com dois R antes, RRebelde) que acampou na frente do Estádio do Pacaembu para conseguir os ingressos para a turnê da banda no Brasil teve os bilhetes queimados pelo ex-marido na cidade Itapevi, na Grande São Paulo.


O homem enviou um vídeo queimando o ticket na boca do fogão e a ameaçou de morte.


Segundo suas palavras:


- Você acabou com a minha vida, agora eu vou acabar com a sua.


É como eu sempre falo:


Es tan mágico cómo todo pasó

En nuestro amor (en nuestro amor)

Nuestro dulce amor


Es tan fácil que ya nada me sorprende

En nuestro amor (en nuestro amor)

Este increíble amor


Todo fue como en un sueño

En nuestro amor todo va sucediendo


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Rei Charles no Reino Unido foi enfim coroado, agora ele é Rei Charles, o rei do xaveco, aquele eternamente embrado por em 1993 fantasiar ser o absorvente da então amante e agora rainha, Camila, nascida Camila Rosamaria Shand, conhecida como Camilla Parker Bowles e agora Camila do Reino Unido, a Rainha Consorte do Reino Unido. Com sorte, será lembrada por ser aquela que o então amante, em 1993, fantasiou em ser o seu absorvente íntimo e provavelmente prometeu um dia tratar ela como rainha, o que de fato cumpriu.


Camila é de fato uma mulher consorte, com sorte, de sorte.


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O comediante Léo Lins está proibido de deixar a cidade de São Paulo onde vive por mais de 10 dias, conforme decisão judicial, por fazer piadas com minorias e deficientes físicos, além de ter um vídeo de um de seus shows removidos pelo YouTube.


A juíza Gina Fonseca Correa disse que as falas do comediante estariam reproduzindo discursos e posicionamentos repudiados atualmente. Ela ainda citou que o humorista abordou temas como minorias, perseguição religiosa, escravidão e pessoas com deficiência.


A magistrada ainda determinou que o Leo Lins não transmita, publique ou mantenha em determinados dispositivos arquivos de "conteúdo depreciativo ou humilhante em razão de raça, cor, etnia, religião, cultura, origem, procedência nacional ou regional, orientação sexual ou de gênero, condição de pessoa com deficiência ou idosa, crianças, adolescentes, mulheres, ou qualquer categoria considerada como minoria ou vulnerável".


Vá Gina, diga-nos o que sobrou para rir, de você já sabemos não ser possível.


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O Google lançou uma inteligência artificial que escreve emails para você ou, como disse um amigo meu:


- Escrevendo mais um email que poderia ser uma reunião.


Logo logo todas aquelas pessoas que tanto fingem trabalhar estarão na rua, um robô se passando por gente é mais eficiente e barato que gente se passando por robô.


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Não é digno de nota nem de lembrança mas quero deixar registrado, fui caminhar e não sei por qual motivo coloquei um chiclete na boca, no meio da caminhada cuspi o chiclete, ele deu meia volta e eu pisei nele.


O karma, ele volta e gruda.


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Assisti o show da Alicia Keys, como pode ser tão vira-lata e ter tanto pedigree ao mesmo tempo?

Ela é simplesmente desumana e como já é de praxe tocando para uma plateia que não merece ela, um monte de robôs suportes de celulares, ou avatares da vida real.


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Também enfim assisti o show do Deicide, aquela banda daquele, o Glen Benton, aquele que prometeu se matar aos 33 anos de idade, idade de Cristo quando morreu, e não cumpriu.


Glen Benton está velho e gordo como um diabo de gravura da idade média.


Pelo menos Jesus fez jus aos seus compromissos e qualquer crucifixo por aí pode provar, morreu saradão.


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E por falar em robôs substituindo gente também vi Kraftwerk e Underworld.


Os tiozinho alemães sempre foram robôs com mais alma que a humanidade, a música fria mais quente de todos os tempos, e o senso melódico deles faz ter fé, eternos.


Já o Karl Hyde do Underworld está com 66 anos e ainda um garotíssimo, deve ser por ter nascido born slippy mesmo, divertidíssimo e tão atemporal quanto o Kraftwerk.


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Hoje morreu a Tina Turner, que perda horrível.


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