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ENSAIO 48: ULYSSES

Atualizado: 31 de jan.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um libro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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29/01/2024


ULYSSES


O que está apenas na sua cabeça também existe.


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I got the poison.

I got the remedy.

I got the pulsating rhytmical remedy.


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O fluxo de consciência é uma linguagem narrativa que tenta entender e expressar o pensamento de um personagem literário através de um monólogo interior ou até mesmo acompanhando as suas ações sob a sua perspectiva, caracterizada por saltos no pensamento (temporais, geográficos, ou até mesmo mais subjetivos como mudanças de humor e estados de espírito) e pela falta de compromisso com a pontuação formal. Ao contrário da narrativa clássica que coloca o personagem na terceira pessoa, no fluxo de consciência o personagem principal conversa diretamente com quem está lendo e este (o leitor) sabe o que se passa na mente do personagem ou ao menos o que ele quer contar porque, afinal de contas, ainda é uma narrativa.


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Quando eu já estava mais enturmado na pista de skate do Parque Ambiental II eu percebia volta e meia a presença de uma menina andando de skate por lá e usando mais equipamento de proteção que um soldado especial no Afeganistão, ela não se aproximava de ninguém e ninguém se aproximava dela.


Chegava de carro com o pai, o pai deixava ela, tentava fazer algumas manobras sem nenhuma intenção de acertar, o pai vinha buscar algumas horas depois e ela ia embora.


Um dia fui lá dar um oi, disse o meu nome e ela disse o dela: Eduardo.

Aí eu gritei para o pessoal: Galera, é um piá.


Todo mundo veio correndo ver a menina de nome Eduardo com cabelos de menina, jeito de menina, pele de menina e roupas de menino tentando parecer menino mas era menino agindo como menina. Era tão menina que alguém pediu a identidade dela para confirmar, ela não tinha e tivemos de acreditar. Eduardo nem gostava de andar de skate, apesar de menino gostava de coisas de menina e não queria saber de bater as canelas ou ralar as mãos, e não iria perder tempo tentando aprender um Ollie Flip se tivesse de se machucar antes.


Eduardo andava de skate porque o pai dizia que ele deveria andar de skate.


De tanto ir lá Eduardo entrou para a turma, afinal não era menina e não feria a primeira regra do Clube do Skate do Bolinha, mas ainda era menina o suficiente e deixando a gente com uma dúvida angustiante: Eduardo pega menino ou menina? Afinal se Eduardo não gostava de coisas de menino, Eduardo também não gostaria de menina.


Na verdade a gente também não gostava de menina mas pensava em menina o tempo todo, coisas de menino.


Na primeira festinha que o Eduardo foi com nós no Largo da Ordem veio a confirmação, achamos ele beijando um menino num canto e começamos a chamar ele de Mônica também, por causa da música do Legião Urbana.


Mas aí outro dia em outra festa o Eduardo pegou uma menina e aí o nosso mundo caiu, qual era o problema desse Eduardo?


E aí a gente cantava Eduardo ou Mônica, ele fingia que ficava irritado, as meninas gostavam dele porque ele gostava de pintar as unhas, a gente aprendeu a deixar as meninas pintar as nossas unhas também e então a gente beijava elas também então estava tudo certo.


Ninguém ali gostava de menina, todo mundo beijava menina, o Eduardo beijava menino também, todo mundo voltava para casa feliz.


Mas aí um dia acharam o Eduardo beijando outro carinha e queriam surrar os dois, a gente foi lá e surrou os caras que queriam surrar eles, e o Eduardo ficou chorando como uma menina.


Outra vez o Eduardo beijou a ex namorada de outro carinha e ele e os amigos vieram tentar surrar o Eduardo também, mas nós surramos eles também.


Eduardo dava trabalho igual uma menina, Eduardo não era LGBTetc, Eduardo era apenas Eduardo, que parecia menina, que gostava de coisas de menina, que pegava menina e de vez em quando menino ou vice-versa, que andava de skate mas não podia ficar com as pernas marcadas, porque gostava de coisas de menina e menina é mais inteligente que menino e não perde tempo se arrebentando no cimento igual menino.


Mas ele era da nossa turma e ninguém mexia com ninguém da nossa turma e não interessava se ele era menino que parecia menina, e assim quebramos a regra de que não podia ter menina na turma.


Como era comum nos anos 80 e 90 um dia o Eduardo simplesmente sumiu, provavelmente o pai foi transferido por causa de trabalho e sem celular nem rede social as pessoas saíam das nossas vidas da mesma forma que apareciam, repentinamente. Tomara que ele esteja bem, pegando meninos e meninas e pintando as unhas e ficaria feliz se ele soubesse que ele acertou pelo menos um Ollie na vida, porque como skatista o Eduardo era uma ótima bailarina.


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Já nos anos 2000 e bastante o Renato trabalhava na lavanderia do hospital e por onde era visto estava sempre com um livro ou uma revista embaixo do braço e costumava frequentar todos os setores nas horas de folga e pedir jornais e revistas recém-chegados para ler.


Onde tinha sol e uns minutos de folga, lá estava ele sentado lendo alguma coisa.


Afável, educado, tímido e pidão, assim eu resumiria ele, não era antissocial, longe disso, mas tinha nas letras escritas sua melhor companhia.


Um dia ele me encontrou perto da minha sala, entrou para me cumprimentar e viu um livro em cima da minha mesa. "Ulysses", do escritor irlandês James Joyce, escrito e lançado como uma série entre 1918 e 1920 nos jornais e então como um romance completo com mais de 700 páginas.


Renato perguntou se era bom, eu disse que sim e que era o livro mais difícil que eu já havia lido na vida.


Perguntou o motivo, expliquei de forma resumida que parte do vocabulário era inventado pelo escritor, além da história se passar toda em um único dia e boa parte dentro da cabeça do personagem principal.


Os olhos dele brilharam como nunca e pediu emprestado como era de se esperar.


Dei de presente.


Dois meses depois ele me procurou e falou:


- Terminei o livro, a vida é um sopro na nossa mente e a nossa consciência torna tudo em volta mais complexo ainda. E aí tem a outra pessoa.


É, ele absorveu o livro melhor que eu.



Um pouco ou tanto mais complexo que O Apanhador no Campo de Centeio, Ulysses não trata das confusões de uma mente adolescente mas o fluxo das certezas errôneas que fazem parte da vida adulta.


Inspirado na Odisseia de Homero, divido em três partes e subdividido em outras 18, Ulysses narra os encontros e encontros do itinerante Leopold Bloom em Dublin durante um dia comum, mais precisamente o dia 16 de junho de 1904, experimental cheio de trocadilhos e paródias e de um humor ácido que o levaram a ser considerado uma das maiores obras literárias da história e também um livro difícil, a própria leitura é uma Jornada do Herói enquanto você enfrenta as suas centenas de páginas, você se sente inseguro, incapaz, insuficiente, ignorante e i-alguma-coisa, mas a compensação vem com força perto do final.





Bloom é um homem comum que está vivendo uma jornada dentro da sua cabeça em um único dia, e leva você junto mas não só ele, pois cada parte/capítulo segue um estilo, forma, narrativa e métrica diferentes, e muitos capítulos são narrados por outros personagens, até mesmo anônimos.


Como disse para o Renato, é um livro difícil, mas a jornada compensa, arrisque.


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Quando o Keith Flint morreu em 04 de março de 2019 eu fiquei bastante pensativo sobre o quanto ele e o Prodigy representaram na minha vida e escrevi pra mim algumas linhas naquela semana e guardei, em 2021 completou-se 15 anos dos ataques do PCC na Cidade de São Paulo, duas datas para não se comemorar mas que estão de certa forma intimamente ligadas e então resolvi então escrever mais um pouco sobre, somar e organizar as linhas e uma profusão de datas e coincidências e sentimentos confluindo.


Em um único dia na história da música eletrônica no Brasil três mundos coexistiram e entraram em choque.


O mesmo final de semana mostrou para São Paulo, Brasil e o mundo o poder do crime organizado na maior cidade do nosso país e também representou o fim da maior e mais espontânea manifestação musical underground da história da música eletrônica nacional e por consequência deu início ao congelamento dos eventos culturais da cidade e, por consequência também, do Brasil.


No sábado dia 13 de maio de 2006 ocorreu a sétima edição do Festival Skol Beats quando eles, Prodigy e PCC, foram a atração principal e a ruína do evento (que eu frequentava religiosamente desde a primeira edição em 2000) e para a minha sorte e azar, eu estava lá e vi tudo de perto.


Mas para falar sobre primeiro temos de voltar uma década e meia no tempo até chegar neste dia.


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No começo dos anos 90 parecia que todo mundo estava deprimido, o clipe mais divertido era a música Jeremy do Pearl Jam que no final mostrava um aluno se suicidando na frente de todo mundo e poucos anos depois o suicídio do Kurt Cobain quebrou de vez um conto de fadas que ninguém estava vivendo.


Mas para mim as coisas estavam melhorando, na virada da década eu já tinha mais de um par de tênis, uma turma para chamar de minha, eu era skatista e só pensava em skate e meninas, tinha amigos meninos que pareciam meninas e estava quase perdendo a virgindade.


Eu não sabia que estava quase perdendo a virgindade mas todo virgem sonha todos os dias e o dia inteiro em perder algo que demora tanto para acontecer e depois de acontecer se torna tão repentino quanto perder alguma coisa.


Eu acordava com a certeza que iria perder a virgindade naquele dia até o dia acabar e ir dormir com a certeza que perderia no dia seguinte.


Mas entre a minha vida caufieldiana no interior do sul do Brasil e a distopia Grunge no hemisfério norte existiam os Cybermanos.



O Movimento Cybermano surgiu no início da mesma década e dominou São Paulo por cerca de 15 anos.


Pobres da periferia, sendo a maioria na Zona Leste da cidade e que tinham como referência máxima o grupo britânico Prodigy e o visual do vocalista Keith Flint (e claro, do Maxim Reality também): Cabelos moicanos estranhos e coloridos, máscaras industriais, lentes de contato, maquiagem, piercings, roupas coloridas, coturnos e ofensa maior, alegria de viver.


Os cybermanos não chutavam lata de lixo na rua e nem mexiam com trabalhador no ponto de ônibus às seis da manhã no final da festa, eram uma legião de Coringas pacíficos, palhaços sem circo, uma versão paz e amor dos bate-bolas cariocas e que apesar de carregarem a má fama que todo pobre colorido carrega e de serem odiados por punks, skinheads, skatistas, rappers e roqueiros, os cybermanos não faziam nada além de dançar e agitar nos próprios eventos, não tinham dinheiro para se drogar e muito menos pagar ingresso e arrumar briga nos shows dos outros, economizavam o ano inteiro e gastavam tudo nas entradas sempre caras dos festivais de música eletrônica.


Foram os responsáveis não só pela origem mas também pelo sucesso e longevidade de todas as raves, clubes e festivais de vanguarda surgidos na capital. Onde tinha cybermano era certeza de fila demorada, apareciam aos milhares com suas mochilas e todos eles eram ostensivamente revistados em todo santo evento onde apareciam.


Vindos da periferia nos horários em que as suas áreas ainda tinham transporte público e só conseguindo ir embora nos horários quando enfim o mesmo transporte voltava a circular, em cada festival todo cybermano vivia uma jornada de 24 horas de vida pelo menos e trazia junto um kit de sobrevivência: Comida, água, papel higiênico, escova e pasta de dentes, óculos, maquiagem para dar um retoque no visual, tinta colorida e sabonete para retocar o moicano e dar um jeito de manter a coisa toda em pé. E um casaquinho, porque cybermano raiz sempre dormia na rua, em ponto de ônibus, nos parques e praças e embaixo das marquises de concreto. E na segunda feira de manhã já estava de pé esperando o mesmo transporte público, seja qual e para onde fosse, para ir trabalhar.


E na mochila também muitos CDs e DVDs pra vender. Eu comprava todos, nas saídas dos festivais ou nas galerias ou eventos de rua eles eram os meus traficantes de mídia favoritos.


Pontuais e compromissados, os caras me falavam "ano que vem aqui, nessa mesma hora, só chegar" e no ano que vem no mesmo local e na mesma hora eu chegava e lá estavam eles e aí era só sorrisos e abraços e mais uns pila em CDs e DVDs piratas.


Sets de programas de rádio da BBC de Londres e da Energia FM de SP, sets gravados ao vivo nas boates e clubes da cidade, sets dos amigos e muito antes do santo YouTube vídeos ripados de câmeras VHS com filmagens de festas e clubes.


Meu primeiro contato com eles foi naquele abençoado Free Jazz de 97, a minha primeira vez em São Paulo e quando a abençoada Diane Charlemagne cantou no Brasil e meu segundo contato foi no amaldiçoado mas exorcizado Close-Up Festival de 99, aquele que não rolou em 98 por causa de um parafuso, mas no dia 15 de maio de 1999 estávamos lá, o turista aqui e mais 20 mil cybermanos com nossos ingressos "gratuitos" e no palco Arnaldo Antunes, Otto, Roni Size, Dynamite MC, Dj Marky e Prodigy.


É muito, mas muito difícil, descrever em palavras como foi esta noite, apenas foi.


A sensação de caos controlado de ver um artista e o seu público no auge é simplesmente indescritível.


Como acontece em qualquer cena underground a cultura cybermano era alinhadíssima com a cultura raver original que inspirou o movimento realizando até mesmo e nos mesmos dias versões piratas locais dos eventos londrinos, usando o mesmo nome e imitando a decoração original e sem os organizadores originais sequer terem notícia sobre, uma versão camelódromo live action mas com artistas locais originais e sistemas de som que não ficavam devendo em peso e qualidade ao primeiro mundo.


Mas também existia o crime organizado.


No início da década de 90 também, mais precisamente no dia 31 de agosto de 1993, oito presos fundaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) dentro da Casa de Custódia de Taubaté em São Paulo com o objetivo declarado de combater a opressão dentro do sistema prisional paulista e vingar a morte dos 111 presos no Massacre do Carandiru ocorrido um ano antes, no dia 2 de outubro de 1992.


E então, 15 anos depois da origem de ambos e involuntariamente essas duas culturas se chocaram e os cybermanos conheceram o pior de ambos os mundos, no dia 12 de maio de 2006 o PCC resolveu bater de frente com a segurança pública do Estado de São Paulo e uma das consequências foi a extinção de toda uma cultura e como era de se esperar o impacto dessa data reflete até hoje no calendário cultural da cidade e do país, mesmo em outras cidades e outros estilos musicais.


Mas também existia eu, segue a cronologia.


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No dia 11 de maio de 2006 o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo decidiu transferir 765 presos do PCC para as penitenciárias de segurança máxima de Presidente Venceslau e Presidente Bernardes como forma de tentar desmantelar uma rebelião que, segundo a investigação mostrava, acontecia em agosto do mesmo ano em todos os presídios do estado.


E no dia seguinte, uma sexta-feira, lá estava eu felizão da vida chegando cedinho na cidade para a edição do Skol Beats 2006 que aconteceria no sábado, até sair do aeroporto e começar a perceber pela quantidade absurda de policiais e viaturas nas ruas já nos poucos metros que separam o Aeroporto de Congonhas e o Hotel Íbis na frente que o problema estava só começando.


Ao chegar no hotel as recepcionistas estavam perguntando e anotando o que cada hóspede faria na cidade e quando chegou a minha vez, a resposta de uma delas para mim foi seca:


- Acho que vão cancelar viu, tá pipocando tiroteio na cidade toda.


Ao invés de passear pela cidade na sexta à noite decidi obviamente ficar pelo hotel e no sábado, sem notícias de cancelamento do festival, fui para o sambódromo bater canela no Drum and Bass e dar uma respirada até ficar sem ar no show do Prodigy, enfim pela segunda vez no país e razão de ser de toda aquela festa estranha com gente esquisita. Um público total estimado em 60 mil pessoas sendo metade formada pela periferia, cerca de 30 mil Keith Flints dando um show de cor e roupas feias e caretas mais ainda.


Às 21 horas o meu amado DJ Patife pega o microfone antes da sua apresentação no palco principal e pede um minuto de silêncio para os mais de 20 policiais mortos apenas na madrugada de sexta para sábado em atentados e execuções comandados pelo PCC e, milagrosamente para os dias de hoje, o minuto de silêncio foi cumprido.


A noite seguiu normal, aquela correria para mijar e voltar correndo mais ainda, comer alguma porcaria e beber o lançamento Pepsi Twist (eu nunca vou perdoar vocês por isso, Skol) e dançar arrotando e gritar pulando e aí o show do Prodigy, novamente insano, simplesmente insano. INSANO. Provavelmente as mesmíssimas 20 mil pessoas do show de 1999 no mesmíssimo lugar e mais uns 30 mil curiosos e novos fãs, todos ensandecidos.


E então mais banheiro químico, mais Drum and Bass, menos Pepsi Twist, muita água, mais banheiro, mais grito e o dia amanheceu com aquele choque de sempre da organização mandando o DJ cortar o som, aquela vaia necessária e aquele formigueiro humano dispersando frustrado e querendo sempre mais.


Os seguranças fazendo cordão humano e nós entendendo o recado e saindo, menos um guerreiro que apareceu na direção contrária no meio da multidão, somente de calças e descalço, parou no meio de todo mundo e gritou chorando:


- ALGUÉM AÍ É DE SÃO BERNARDO DO CAMPO CARALHO???


Ninguém respondeu.


E aí o inferno começava para quem estava saindo no festival, policiais e seguranças gritando "vão direto para casa" ao mesmo tempo em que outros gritavam "os ônibus foram cancelados" e assim os cybermanos, mais de 30 mil pessoas da periferia sem dinheiro pra táxi ou van, ficaram zanzando pelos arredores do sambódromo sem ter para onde ir e nem onde ficar no final de semana mais violento da história de São Paulo, quando a cidade estava, literalmente, pegando fogo.


Mais de 70 presídios em rebelião simultânea e fora deles mais de 50 ônibus e mais agências bancárias e lojas e postos policiais e dos bombeiros foram incendiados, vandalizados e saqueados por ordem do PCC, ordem conhecida hoje como Salve Geral.


E na segunda-feira, 15 de maio, exatamente sete anos da data da primeira apresentação do Prodigy no Brasil, a cidade de São Paulo acordou definitivamente sitiada no meio do caos, lojas fechadas, pessoas trancadas em casa, mais tiroteios, atentados, execuções e explosões. As recepcionistas do hotel chorando às seis da manhã e taxistas negociando se iriam ou não para esta ou aquela região e o Aeroporto de Congonhas parecendo uma sede da polícia militar, completamente cercado por carros e tropas de choque, preparados para o boato de que aeroportos seriam atacados também.


Peguei o voo das sete, cheguei em Florianópolis, tomei o famoso banho gelado para acordar para a minha realidade e fui trabalhar.


E por quase mais uma semana São Paulo viu outras dezenas de ônibus serem incendiados, dezenas de ataques e atentados, dezenas de policiais assassinados e executados e centenas de civis mortos e executados por policiais e grupos de extermínio, uma guerra particular insana e aparentemente sem sentido para quem vê de fora, mas completamente compreensível para quem vive a realidade dos presídios ou do combate diário ao crime, lembrando claro que compreensível nunca foi, nem nunca vai ser, sinônimo de justificável.





Os atentados do final de semana e as milhares de pessoas perdidas sem transporte público no Anhehmbi foram a deixa perfeita para a elite da cidade taxar os cybermanos de arruaceiros e cúmplices dos atentados, aproveitando este momento para estabelecer um jogo de pressão sobre o poder público e as secretarias de cultura do estado e da cidade para seguidas vezes tentar cancelar ou diminuir a frequência de festivais e shows nas áreas nobres ou parcialmente residenciais como o Jockey Club, Interlagos, Morumbi e até o Sambódromo do Anhembi.


Na superfície a elite queria o sossego justo em suas áreas residenciais e o crime organizado lutava por justas melhores condições prisionais, embaixo das máscaras de um lado os abastados queriam sequestrar a vida cultural e urbana da cidade para si e de outro os abastados do crime faziam todos de refém, e a periferia ficou cada vez mais sem ter para onde ir e cada vez menos sem ter para onde fugir.


Como diz o ditado, seja lá qual for o preço, os pobres sempre pagam em dobro.


E assim no mesmo final de semana em que o Skol Beats garantiu o status de maior festival de música eletrônica do mundo foi quando eles perderam o espaço do Sambódromo do Anhembi, selando o destino do projeto.


Quem é produtor de eventos em São Paulo em qualquer nível sabe, existe uma regra não escrita limitando estes espaços para apenas três ou quatro shows anuais, fazendo o calendário da cidade ser disputado na base do tapa e muito dinheiro de mão em mão para ser realizado em datas nem sempre viáveis artisticamente ou comercialmente, criando um efeito cascata e encarecendo toda a produção e tirando a cidade do roteiro de muitos artistas e produtores culturais estrangeiros, além da já péssima e mundialmente reconhecida burocracia e claro, beneficiando sempre e somente artistas populares entre a classe média pra cima, criando uma literal camarotização do acesso à cultura e a gentrificação do público dos festivais.


E quando São Paulo não consegue trazer para o país determinado artista ou festival, outras capitais do Brasil e da América Latina ficam de fora também.


Como a edição do Skol Beats de 2007 já estava com o contrato fechado a empresa começou o plano de redução de danos da sua imagem transferindo e realizando o festival durante dois dias no Campo de Marte, sob o pretexto de tornar mais confortável e seguro (tradução: isolar os cybemanos na noite de sábado) mas com o objetivo claro de encarecer a própria ideia e cancelar ela depois. A diferença de tratamento era visível em cima dos menos claros de pele e invisíveis sociais, na sexta-feira tudo tranquilo mas na noite de sábado o policiamento foi triplicado e arrastões da própria polícia foram feitos a partir das sete da manhã para expulsar todo mundo ao redor da área externa do festival, não interessando se a pessoa estivesse esperando um ônibus, um amigo ou apenas descansando antes de ir embora de vez.


E em 2008 veio o prego no caixão: Com a desculpa de criar um evento democrático (é incrível como o termo "democrático" pode ser usado pra manipular todo tipo de falcatrua) todo o Skol Beats 2008 aconteceu em apenas três tendas e a tenda Marky & Friends foi cancelada sem motivo algum justificável, com artistas escolhidos pelo público em um fórum no site do festival. Era mais uma tentativa clara de afastar os pobres pagadores de ingresso e abraçar o público top da capital e de outras cidades. Não deu muito certo, a malacada foi em peso nas lan houses da periferia e conseguiram emplacar no line up o Dj Marky e a banda Pendulum.


Mas era um caminho sem volta, foi a morte da cor, do direito de ir e vir, da alegria e da diversidade da música eletrônica em São Paulo e no Brasil, e assim mais um movimento espontâneo da periferia foi sufocado.


Os cybermanos economizavam o ano inteiro para pagar um ingresso e sustentavam um festival onde das milhares de pessoas presentes pelo menos dez mil lotavam e contornavam a tenda Movement (depois renomeada como Marky & Friends) onde cabiam no máximo cinco mil pessoas, fazendo toda e qualquer outra tenda e o palco principal parecerem secundários, não interessando quem estivesse se apresentando por lá.


Era na tenda Movement/Marky & Friends que você via e ouvia gente gritando, chorando, gargalhando e cantando e cantarolando até ficar rouco músicas com samplers de Calhambeque na voz do Roberto Carlos por cima das guitarras de Angel of Death do Slayer AO MESMO TEMPO.


A noite do Prodigy de 2006 foi a única noite inclusive onde o palco principal (mas durante apenas no show deles) ficou mais lotado que a tenda do Drum and Bass.


Música de malaco, música de pobre, música de preto acelerado, bate-panela, supostamente impossível de dançar.


Os ataques do PCC e a extinção dos eventos e festivais de música eletrônica urbanos e underground em São Paulo não significaram apenas o marco da violência do crime organizado e o fim de uma era, significaram também a destruição do tecido social. E esta destruição passa pela forma da música e da cultura da periferia que está sendo produzida e consumida atualmente no país, foi-se o peito estufado e orgulhoso de quem nunca deveu nada pra ninguém e restou apenas a insolência de quem não produz nada de positivo.


É um erro falar sobre cor na história da música (ela pertence ao espírito humano), mas a história dos negros no ocidente nos deu o Blues, o Jazz, o Reggae, o Funk, a House, o Hip Hop, o Jungle e o Drum and Bass e a nossa MPB e cunhou a maior prova do poder da resiliência humana, a capacidade de transformar a dor e a morte em alegria e expressão máxima de viver, a música em si.


Mas agora a elite, que sempre tanto se esforçou para marginalizar toda a periferia como sinônimo de bandidagem generalizada, passou a consumir e dar valor ao único produto como consequência direta desta marginalização: O Funk Nacional, violência disfarçada na forma de música e dança. Não basta ser visto apenas como marginal, agora o preto da periferia só é aceito enquanto vive e reforça o mesmo estereótipo que aprisiona ele, um estilo que assim como o Hip Hop já foi uma expressão de dança, denúncia, alegria e até romance e hoje praticamente só entrega uma cultura de vangloriação e propaganda do crime organizado, do banditismo e do estupro cuja única utilidade é embaralhar a mente de jovens e embalar a bunda de tiktokers de classe média alta entediadas, representantes máximas da maior #trend de todas: a hipocrisia social.


E desde então a música eletrônica no Brasil (que já foi transgressora um dia e salvo alguns respiros também elitistas como o Sonar e Dekmantel) passou a ser refém do conformismo consumista e da uniformização sonora, de roupas, costumes e pensamento (ou melhor, ausência de), sobrando apenas o uso e abuso do termo underground para disfarçar festas, eventos e festivais idênticos como pano de fundo para selfies, stories, sunsets, camarotes, bebidas superfaturadas e drogas ruins. Sempre o mesmo público, as mesmas pessoas, os mesmos artistas, os mesmos patrocinadores e os mesmos clubes.


A sociedade brasileira nunca percebeu, e nunca vai perceber, o quanto depende da periferia não só como a força de trabalho e empreendedora constante que ergue um país, mas também como força e termômetro cultural do que rola de interessante no resto do mundo.


Este é o verdadeiro underground, pobres sem acesso tendo acesso antes de você.


O único efeito prático direto e visível da ação da polícia nos atentados de 2006 em São Paulo foi espalhar e consolidar o PCC em outros estados e cidades do país, pois como todo mundo sabe não adianta nada transferir bandido de presídio em presídio se estes lugares não passam de escritórios de chefões do crime organizado, protegidos pela segurança estatal.


A primeira vez que eu me senti velho foi quando contei para um amigo meu sobre esta noite e me senti igual aqueles tiozões fãs do Led Zeppelin falando o mesmo quando eu era criança e adolescente e logo pensei que este é o pior sentimento quando se trata de música eletrônica, um estilo que por si só não deveria viver de nostalgia e até o nome parece inspirar sempre olhar em frente.


Keith Flint e os cybermanos e a cultura raver entraram para a memória cultural como a primeira geração da história da humanidade que pode falar abertamente e de peito estufado "no meu tempo era melhor" e ser a mais pura verdade.


Não é nostalgia do passado, é angústia do presente.


Keith Flint se suicidou no dia 04 de março de 2019 e eu tenho o entendimento de jamais se perguntar ou tentar entender os motivos pelo qual uma pessoa comete suicídio.


Mas não é gratuito e nem à toa que o segundo disco do Prodigy de 1994 se chame "Music for the Jilted Generation" (Música Para a Geração Vazia), a geração nascida na farsa do amor livre e sem consequências do movimento hippie do início dos anos 70, a qual o próprio Keith fez parte. Não à toa também o primeiro single da banda ainda em 1991 era o sampler da frase "Charlie says always tell your mummy before you go off somewhere" da tenebrosa série comercial informativa para crianças "Charlie Says" do início dos anos 70 na TV aberta inglesa.


Agora temos os filhos da geração vazia vivendo um vácuo afetivo, intelectual e emocional em escala global, uma geração que antes de qualquer problema já se acostumou a terceirizar a culpa de qualquer sentimento de frustração ou inadequação.


A mesma geração, e classe, acostumada a postar imagem de soro no hospital e fingir depressão no setembro amarelo para ganhar atenção nas redes sociais e o ano inteiro a se fazer de pobre no WhatsApp e de rica no Instagram, a não quebrar mais as regras mas apenas criar regras para os outros, antes perdida e agora incapaz de se encontrar, registrando tudo e não lembrando de nada, com tudo para mostrar e absolutamente nada para contar, foi-se a geração sem futuro, estamos chegando na era das gerações sem passado.


Pessoas, sentimentos, valores e ideologias viraram hashtags.


Se Kurt Cobain foi o Ian Curtis dos anos 90, Keith Flint foi o John Lydon da minha geração, o sentimento no future se manteve mas Prodigy era especial porque a sua plateia era especial também, e Keith Flint era especial porque conseguiu da forma mais estranha, maravilhosa e espontânea possível, criar e influenciar uma legião de pessoas especiais como ele. Como os cybermanos.


Não existe indiferença quando a música fala de verdade.


No meu tempo, definitivamente, era melhor.



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Outra frase do Renato que ficou para sempre comigo: a cabeça dos outros é terreno que ninguém passeia.


Muita coisa pode acontecer em um dia, muito pode se passar em uma noite, tudo pode acontecer e se passar em nossos pensamentos, o que está em nossa mente também existe.


Que o digam Kurt Cobain, Holden Caulfield, Eduardo, Leopold Bloom, Keith Flint e as minhas tentativas de correlacionar mundos tão diferentes, capoeiristas que pulam em rodas de facas, dentistas que desistem de tudo para tocar violino pelas ruas.


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Por falar em surras quero tocar neste tema de novo, a Síndrome da Lutinha e porque teve uma época em que eu apanhava todos os dias, e era feliz.


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Cápsulas do tempo.


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Li em algum lugar que a faixa de horário onde as pessoas mais acessam o Instagram no Brasil é de segunda à sexta entre nove horas da manhã e três horas da tarde.


Consigo imaginar até o comportamento:


  • Nove da manhã: o chefe ainda não chegou.

  • Entre nove da manhã e três da tarde: o chefe não está olhando.

  • Três horas da tarde: meu deus preciso terminar isto antes de ir embora.


A famosa mentalidade de CLT que sonha com reajuste salarial todos os anos.


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Parem as máquinas, o filho de Suzane von Richthofen nasceu hoje no mesmo dia de nascimento de Daniel Cravinhos, o seu o ex-namorado, aquele que fez o trabalho sujo que a madame não se prestou a fazer. Olha, se Deus existe eu não sei, mas o diabo tá fazendo a festa neste planeta hein.


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