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ENSAIO 52: SAPATÊNIS

Atualizado: 24 de mar.




Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um libro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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20/03/2024


SAPATÊNIS


Not Great, Not Terrible


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Você já sabe, o Chorão não sabe fazer poesia, mas que se foda, ele odeia gente chique e ele não usa sapato.


Mas que se foda.


Um tanto quanto radical, viver no oito ou oitenta cobra um preço alto na vida (e como já comentamos, foi o caso dele) mas talvez ele esteja certo, talvez o problema seja viver no meio-termo, not great, not terrible.


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Cerca de um século após os pitagóricos a Grécia vivia o seu auge político-filosófico representado pelos conterrâneos Aristóteles, Sócrates e Platão, e cujas aulas, diálogos e debates criaram as bases da política ocidental.


Em termos gerais, de forma bem simplista e resumida os pensadores gregos, ao menos Aristóteles e Platão, concordaram existir seis formas de governo sendo destas três formas puras e, respectivamente, três formas impuras, degradadas, degeneradas ou ainda deturpações das três anteriores, a saber:


Formas de governo puras:


- Monarquia, o governo de um só.

- Aristocracia, o governo dos melhores.

- Politeia ou República, o governo de muitos.


Formas de governos impuras:


- Tirania, o governo de um só ilimitadamente.

- Oligarquia, o governo de poucos sobre muitos.

- Democracia, o governo de todos, ou ao menos, da maioria.


Não cabe mais falar mais sobre o que é ou como deveria ser a democracia, todos nós já percebemos que, assim como a ética e a moral, religião e o gosto musical (e se o feijão deve ir por cima, ao lado ou abaixo do arroz) cada eleitor no Brasil já assumiu para si qual é o seu ideal de estado democrático de forma tão pessoal e irrestrita (leia-se ditatorial) a ponto de não ser mais possível nos dias de hoje debater sobre as falhas deste sistema.


A ironia é esta: a pessoalidade na interpretação de uma forma de governo é a primeira falha do mesmo.


Séculos depois da era de Aristóteles e Platão, o também grego e historiador Políbio manteve a mesma percepção mas equiparou a Democracia positivamente com a República (ou República Democrática) e criou o termo !Oclocracia" para definir a sua forma degenerada, onde o estado democrático é tomado pela irracionalidade da população e cada indivíduo passa a ser o tirano da liberdade e do direito de expressão do próximo.


Ao contrário dos aristocratas (do grego "aristos" ou "excelente", e "kratos", "regra" ou "governo") eu inventei um termo para me referir a pessoas as quais eu quero manter distância: Os Ariscocratas (do grego "ariskós" ou "arisco", "fujão", eu que inventei junto com a palavra), aqueles que governam apenas para si mesmos e fogem ao menor sinal de responsabilidade.


São pessoas perigosas, algo amargas e definitivamente sem graça.


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Nós já conversamos algo sobre russos e algo sobre suas vidas um tanto quanto anedóticas.


Se brasileiros cavalgam nas metáforas e os britânicos pedalam nas ironias, os russos se atropelam nas anedotas e além daquela do caldeirão no inferno outra das minhas favoritas, e também pelos motivos errados, está em uma cena da série Chernobyl, sobre o acidente na usina de mesmo nome em 25 de Abril de 1986.


Quando a medição de radiação mostra o valor de 3,6 Roentgen, o responsável pela usina no momento (o personagem Anatoly Dyatlov, exatamente o mesmo técnico cuja supervisão e decisões causaram o acidente real), responde apenas:


- Not great, not terrible.


Sim, ele responde assim em inglês mesmo, uma escolha realmente inteligente e engraçada do realizadores da série foi não usar o famoso, cartunesco e caricatural russo falando inglês com sotaque russo que tanto foi moda no cinema norteamericano nas décadas da guerra fria.


Completamente perdido em um viés entre preguiça, burocracia, politicagem, pavor e esperança, o ariscocrata Anatoly resume com esta frase a confissão de que está pronto para sair correndo se outra pessoa assim gritar, e não ajuda nada o fato de que ele e todos os camaradas usam um uniforme mais parecido com padeiros de redes de supermercado, e se não correrem todos vão assar não metaforicamente.


Na verdade todos ali sabiam que os 3,6 Roentgen representavam o valor de radiação de um raio-X mas os técnicos presentes por sua vez tinham ciência (leia com ironia) que este era o valor de referência máxima do medidor da usina e, no momento da explosão, o valor estimado foi de 15.000 Roentgen (o equivalente a 400 bombas de Hiroshima e Nagasaki juntas), espalhando uma fumaça de Iodo-131 e Césio-137 e chegando até a Suécia em menos de dois dias, a 1.100 quilômetros do local da usina.


Não consegui confirmar se este diálogo realmente ocorreu mas esta é a graça (ou falta dela) das anedotas russas, o que é verdade vira anedota, o que é anedota vira verdade.


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Um pouco além das anedotas a geopolítica na minha opinião não é nada além de um novo tipo de humor usado para equilibrar ou desestabilizar uma relação diplomática.


Por vezes é escrachada como Nikita Khrushchev pedindo um beijo na boca do Richard Nixon, ou extremamente irônica como Winston Churchill fazendo o V de vitória invertido ao voltar da França ainda no início da Segunda Guerra Mundial ou de uma acidez corrosiva como Adlai Stevenson II avisando para o embaixador russo Valerian Zorin não esperar pela tradução durante a crise dos mísseis de Cuba ou ainda uma mistura de tudo somando stand up comedy, comédia pastelão e tapa de luva (meias no caso, como veremos) em uma única cena mas cuja origem e legado são de tempos, literalmente e novamente por aqui, bíblicos.


Entre os árabes (principalmente os muçulmanos) e algumas comunidades judaicas (e diferentemente do chinelismo da minha avó mas com igual efeito) os sapatos são considerados objetos impuros, entrar na casa de uma pessoa usando-os ou em qualquer ocasião mostrar a sola do sapato é um sinal de desrespeito, e atirar eles na direção de uma pessoa é, literalmente, uma declaração de guerra.


Está lá no Velho Testamento, em uma linha dentro de dois salmos distantemente separados e levemente diferentes, os salmos 60 e 108.


Na linha 8 do primeiro salmo citado:


- Moabe é minha bacia de lavar; sobre Edom lançarei minha sandália; gritarei de alegria sobre a Filístia.


E na linha 9 do segundo:


- Moabe é minha bacia de lavar; sobre Edom lançarei meu sapato; sobre a Filístia eu triunfarei.


Linhas que (de acordo com o site de estudos bíblicos Apologeta) significam, nesta ordem, um reinado já conquistado e subjugado (Moabe, onde hoje é o sul da Jordânia), um reinado que logo será conquistado (Edom, ou Transjordânia, ao leste do Rio Jordão e também atual Jordânia) e que cuja conquista chegará até a Filístia, região de cinco cidades ao redor de onde está atualmente a famigerada Faixa de Gaza, território palestino entre o Estado de Israel e o Mar Mediterrâneo.


Esta frase trata de forma resumida a frustração e lamento do Rei Davi em sua guerra contra o Reinado dos Edomitas.


O ato de ter um lugar lavar as mãos é uma metáfora para um território já ocupado e que não oferece mais resistência em torno de bens tão escassos quanto a água e a paz (fácil de entender se você considerar a aridez de toda a região narrada nas páginas bíblicas, escrita por um deus que ainda não conhecia os rios da Europa nem muito menos o Mississipi nos Estados Unidos ou o nosso Rio Amazonas) e o ato de lançar os sapatos metaforiza sobre o desprezo em relação e tão logo domínio ao/de outro povo.


No mesmo período em que Petrov nos salvou e Chernobyl quase nos lascou, Ronald Reagan foi duas vezes seguidas presidente dos Estados Unidos e em ambos os governos seu vice foi George Herbert Walker Bush, o George Bush pai, eleito presidente em 1989 e perdendo a reeleição para William Jefferson Clinton, o Bill Clinton, que após dois governos foi sucedido por George Walker Bush, o George Bush filho, aquele que ficou marcado (e reeleito) por prometer acabar com o terrorismo islâmico no mundo.


Mas além de não ter sido lá bem sucedido na proposta e um mês antes de terminar o seu segundo governo, George Bush filho sofreu um atentado no mínimo insólito, protagonizando involuntariamente uma cena hilária aos olhos de nós no ocidente, mas de implicações um pouco mais sérias no ponto de vista de quem protagonizou.


No dia 14 de Dezembro de 2008 George Bush, o filho, estava em uma conferência para jornalistas no Iraque ao lado do então primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, quando o jornalista iraquiano Muntadhar al-Zaidi tirou os seus sapatos e atirou na direção do então presidente norteamericano, gritando:


- Este é um beijo de despedida do povo iraquiano, seu cachorro.


Gritando logo após estar agindo em favor de “viúvas e órfãos e de todos os mortos no Iraque”.

Se você for procurar o vídeo para assistir (faça-o) recomendo notar três coisas: quão rápido George Bush desvia de ambos os sapatos, quão rápido ele dá um sorrisinho entre esquivar de um sapato e outro, e quão lenta é a sua equipe de segurança, indicando possivelmente o quão o Iraque já estava dominado pelo exército norteamericano e todos ali estavam em um ambiente absolutamente tranquilo e seguro.


Tão rápido quanto a esquiva minutos após Bush filho declarou:


- Não considerei ofensivo, considero este um passo importante e no caminho de um Iraque que se possa sustentar, governar e defender.


O presidente saiu ileso e em poucos dias um jogo de computador baseado no incidente foi lançado na Internet (Throw a Shoe at George Bush: The Game (Sock and Awe)) e Muntadhar então foi detido e logo após a sua prisão milhares de pessoas saíram às ruas do Iraque chamando-o de herói enquanto cerca de 200 advogados se ofereceram para defender o jornalista, que foi representado pelo chefe da Ordem dos Advogados do Iraque no julgamento.


Muntadhar também foi nomeado o terceiro árabe mais poderoso em uma lista de cem por ter “inspirado, influenciado e irritado milhões de pessoas em todo o mundo” e um monumento de um sapato gigante de bronze representando aquele lançado pelo jornalista foi inaugurado na cidade de Tikrit em 27 de janeiro de 2009, e a inscrição abaixo da escultura parafraseia o poeta cristão sírio Rashid Salim al-Khuri:


"A espada, ó Muntazer, jejua até ser quebrada em sangue, minha boca fica em silêncio até que a verdade seja cantada."



Muntadhar foi condenado a três anos de prisão por agredir um chefe de Estado estrangeiro durante uma visita oficial, sendo reduzida para um ano e então solto em 15 de setembro de 2009, após cumprir nove meses e ser liberado por bom comportamento.


Com o perdão das expressões, George Bush foi rápido no gatilho e Muntadhar entrou de sola na história, mas tudo seria muito diferente se fosse um par de sapatênis.


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Se meias brancas já ocuparam canelas de nobres franceses e nobres skatistas paranaenses o mesmo não pode ser dito sobre o tão pouco nobre sapatênis, o calçado conhecido por ser nada funcional.


É sapato mas não combina com terno, é tênis mas não serve para correr.


Começou a ser fabricado e comercializado no final do século XX e a ter mais destaque no início do século XXI principalmente no Brasil e como via de regra traz solado fino sintético levemente amortecido e corpo em couro, nobuk, camurça ou lona, brutalmente endurecido.


Um calçado de duas cores que não combinam, adaptado a descumprir o seu duplo propósito e desconfortável como um sorriso amarelo e que deveria acompanhar manual de instruções e uma caixa de Band-Aid dentro.


Um tanto ou mais desesperador que a possibilidade de morrer virgem é a possibilidade de talvez, em um momento ou fase da sua vida, você tenha de usar sapatênis e continuar com cara de virgem, o objeto mais controverso na geopolítica sexual, uma verdadeira guerra fria de variáveis dependentes dos olhos da mulher quando te vê usando um.


E uma parcela grande dos homens sofre silenciosamente com isto, pode ser na adolescência ou quando está se formando, quando chega nos 30 ou perto dos 40 lá vem os conselhos:


Você vai ficar mais bonito, dizem.

Você vai parecer mais respeitável, comentam.


Você vai parecer mais maduro, tentam te convencer.

Você vai causar uma boa impressão, insistem.


Você vai parecer mais velho, se for jovem.

Você vai parecer mais jovem, se for velho.


E claro, as mulheres vão olhar para você.


Você pode ser visto como um jovem se tornando adulto de futuro ou um adulto tentando ser mais jovem e também ser percebido como emergente ou um perdedor, culpa da tentativa de unir o tradicionalismo e a seriedade do sapato social com o conforto e a informalidade do tênis.


Existem poucas situações sociais/funcionais onde ele se encaixa, todas humanamente constrangedoras: o happy hour, a festa de fim de ano da firma, batizado de criança, velório, casamento (velório com bolo) e a balada que ninguém sabe a letra da música mas cantam do mesmo jeito, situações sociais as quais nem sempre se pode evitar ou fugir, mas na hora de ir embora você pode ao menos apressar o passo sem olhar para trás.


Menos se estiver chovendo, além da pouca funcionalidade social o sapatênis não serve para dias de chuva, parece ter sido projetado, modelado e fabricado para (tais quais as situações sociais acima) criar constrangimentos.


Todo proprietário de um possui o "ueba" ou o "uopa" fixo no vocabulário, e todos eles (não interessando onde você os conheceu e se relacionou) parecem sempre colega de trabalho, geralmente funcionário público.


Mesmo em casa eles parecem ter uma mesa igual a do trabalho, um computador que precisa ser formatado, adesivo das eleições e greves passadas meio arrancados mas que não descolam de jeito nenhum, e uma sequência de portas-retrato com aquela fotinho do casamento, a fotinho do filho vestido de pokemón, a foto da única viagem para Miami na vida e a gaveta de comida cheia de barrinhas de cereal, frutas secas já úmidas e grudentas, chocolate, e talheres.


Sei de pelo menos um caso de um sapatenisiano (acabei de inventar também) que comia um ovo cozido todos os dias pontualmente às 17 horas em sua sala de trabalho, a qual dividia com outros três colegas.


O sapatênis é uma espécie de Macguffin em uma lenda de uma espada presa em alguma pedra que nunca se soltará, só indo lá e sentir na pele o quão desnecessário é e eu creio que se todos nós homens passamos por alguma jornada do herói em nossas vidas lá no abismo, se você tirou a lama dos pés você viu, você estava calçando um par de sapatênis.


Você só se torna um herói e volta a ver a luz do sol depois de se desfazer dele.


Uma coisa curiosa sobre é o eterno estado de "acabei de sair da caixa" que ele apresenta, de longe parece feio e de perto parece que está longe e mesmo velho ainda parece novo mas isto não melhora a situação, pois um sapatênis novo ainda é uma cena do inferno.


Não sei se é o material, se é a postura e o andar de quem usa mas sempre parece impecavelmente novo e limpo e é algo tão baixo, tão rasteiro, tão tosco e tão feio que nem por obrigação você ganha de presente.


Você ganha par de meias, gravata, camisa polo, perfume do Boticário, CD do Guns 'n' Roses, CD do Charlie Brown Jr, você ganha até vale-presente, mas ninguém arrisca te dar um par de sapatênis, você pode tentar lembrar mas não vai conseguir pois em nenhum aniversário ou formatura, nenhum amigo secreto ou embaixo do pinheiro de natal alguém deu ou deixou um para outro alguém.


Se você conhece ou é o seu caso, por favor, vá embora daqui agora.


Quem usa sapatênis parece viver um eterno parcelamento de prazos curtos e preços longos, aquela expressão no olhar de quem comprou algo parcelado em 12X e que estragou antes de pagar a terceira parcela, é um ar de quem quase chegou lá mas não aceita dar dois passos para trás para poder dar um salto verdadeiro para frente, um clima meio entre juros do cartão de crédito e cheque especial.


Tem limite mas não tem cacife, tem saldo mas não tem cartão gold.


Inclusive se por acaso alguém pisa sem querer no sapatênis alheio pede desculpas como se tivesse arranhado o carro da pessoa e rola da parte dessa um certo silêncio desconfortável como quem diz: Ainda estou pagando.


Precedido de "ueba" ou "uopa".


Uma lembrança bem vívida dos anos 90 é que se você brigou na rua você lembra de todas as marcas das bicudas e pontapés que você já tomou, você lembra a dor de tomar um Reebok no saco, um Nike Air Max na cara, um Mad Rats nas costelas e claro, dos coturnos dos policiais onde eles conseguiram te alcançar, mas nunca vi alguém apanhar de outro alguém usando sapatênis, você calça e imediatamente se torna ruim de briga, eu absolutamente nunca tomei nem nunca vi nenhum sapatênis dar bicuda em ninguém.


Você nem precisar dar rasteira nele, ele cai sozinho assim como a testosterona dele cai 30% só por calçar um e de fato, todas as pessoas que ouvi dizer "deixa disso" na vida eu olhei para os pés delas e lá estava ele, a vergonha bicolor.


Outra lembrança dos anos 90, e outra lembrança das mulheres dos anos 90 e no interior do Paraná, é que todas elas ouviam Legião Urbana.


Pensa numa tortura, e aí você mesmo decide se torturar e ouvir Legião Urbana também, e aí você descobre que o Renato Russo ouve The Smiths e aí você começa a ouvir The Smiths também e aí você tenta convencer os seus amigos que Legião Urbana e The smiths são bons mas todos eles ainda são virgens e viciados em Heavy Metal mas você já superou esta fase, você já perdeu a virgindade e tudo piorou, agora você só pensa naquilo, seus amigos estão com inveja de você e você logo descobre que some girls are bigger than others e então você ouve pela primeira e única vez na vida a definição de um vendedor de discos sobre The Smiths: Rock de Sapatênis.


Rock de sapatênis, eu não vou discordar, Morrissey pareci mesmo usar sapatênis, talvez um modelo descolado e exclusivo, e algo no topete e nos olhos e nas letras das músicas dele pareciam indicar isso:



And if a double-decker bus

Crashes into us

To die by your side

Is such a heavenly way to die


And if a ten ton truck

Kills the both of us

To die by your side

Well, the pleasure, the privilege is mine



Imagina você ser um policial rodoviário e ter de recolher um par de sapatênis cheio de sangue na beira da estrada, there is a lembrança that never goes out.


Morrissey era tão encrenqueiro e polêmico quanto Chorão, talvez até um pouco mais corajoso e ironicamente punk, não são muitos na história da música capazes de declarar que gostariam de espancar a primeira-ministra Margaret Thatcher e depois cantar um pedido de desculpas parecendo mais afirmar que faria tudo de novo:



Sweetness, sweetness I was only joking

When I said I'd like to smash every tooth

In your head

Sweetness, sweetness I was only joking

When I said by rights you should be

Bludgeoned in your bed


And now I know how Joan of Arc felt

Now I know how Joan of Arc felt

As the flames rose to her Roman nose

And her walkman started to melt



A jornalista Julian Stringer definiu Morrissey como um homem com vários traços contraditórios, um anti-astro comum da classe trabalhadora mas viciado em ser o centro das atenções, um homem bom capaz de dizer as coisas mais desagradáveis ​​sobre outras pessoas, um homem tímido mas também um narcisista ultrajante.


Assexuado como todo anti-capitalista, anti-capitalista como todo assexuado, milionário pró-classe trabalhadora, anti-elite e anti-instituição, visto como esquerdista por direitistas e vice-versa, Morrissey é um refusenik típico, um discordian profissional, britânico anti-monarquista, e que ataca verbalmente tudo e todos e processa quem faz o mesmo com ele.


Na minha reducionista opinião, Morrissey tinha a personalidade bicolor de um sapatênis.


Eu diria até mesmo que o sapatênis não é só um objeto, ele reflete a essência de quem usa, é um estado de espírito, veja por exemplo o Ryan Gosling.


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Ryan Gosling é o homem da vez, agora em pleno 2024 todas as mulheres querem o Ryan Gosling etodos os homens querem ser Ryan Gosling.


Mas qualquer olhar mais atento percebe certas incongruências.


Primeiro, ele é canadense, uma espécie de Estados Unidos de sapatênis.


O seu primeiro papel como protagonista foi no filme The Believer de 2001, baseado na história real de Dan Burros, um membro do Partido Nazista Americano e da filial de Nova York da Ku Klux Klan e que morreu por suicídio após ser revelado como judeu por um repórter do The New York.


Depois Ryan estrelou o filme Lars and the Real Girl em 2007 vivendo o papel de Lars, um jovem de bom coração mas socialmente desajeitado em um relacionamento romântico porém assexuado com uma boneca sexual anatomicamente uma Real Doll chamada Bianca e dez anos depois ele (o Ryan) parecia estar na mesma apenas pagando mais caro pois no filme Blade Runner 2049 de 2017 interpretou K (abreviação de número de série, KD6-3.7), um replicante Nexus-9 empregado do Departamento de Polícia de Los Angeles como um blade runner, caçador de outros replicantes desonestos, e quando chega em casa a sua companhia é Joi, uma namorada-holograma vivida pela atriz Ana de Armas.


Se K é um boneco assexuado, uma IA projetada parece ser o suficiente para uma vida de casado.


Seis anos depois e as coisas na vida de Ryan Gosling pioraram, Ryan agora faz sucesso interpretando Ken, uma espécie de K desempregado e surfista apaixonado por uma loira sem vagina e pés chatos, ambos com problemas de autoestima e Ken ainda concorrendo com dezenas de outros bonecos e todos se chamando Ken também.


Começou a carreira como um neonazista judeu e naquele que é possivelmente o seu auge interpreta um boneco ariano apaixonado por uma boneca que segue perfeitamente o ideal ariano nazista e que destruiu a autoestima de milhões e milhões de mulheres durante mais de seis décadas e agora fará o mesmo disfarçada de empoderamento feminino.


Ryan Gosling definitivamente smells like sapatênis spirit.


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O homem de sapatênis é isto, um colega de trabalho que ouve Legião Urbana e The Smiths, provavelmente transa com uma boneca, dorme de conchinha com ela e quando as coisas da vida se complicam se limita a dizer "not great, not terrible".


Os seus relacionamentos estão not great, not terrible.

Os seus joelhos estão not great, not terrible.


O seu condicionamento físico está not great, not terrible.

A sua vida? Not great, not terrible.


Ele não se atrasa mas também não faz hora extra, not great, not terrible.

Não broxa mas também não dá a segunda, not great, not terrible.



Não podemos deixar passar a versão feminina, a rasteirinha, nascida princesinha da mamãe mas que descobriu os horrores da realidade quando aos 18 anos teve de pegar o primeiro ônibus interbairros com ar condicionado e outra pessoa sentou do lado dela e viu todas as amigas de infância casar enquanto ela ainda não tinha par de dança na valsa de formatura em contabilidade, e após prestar concurso público nível médio todos os seus futuros pretendentes eram versões masculinas do poodle que ela usa como acessório de passeio no shopping center.


Mas o tempo passou e não à toa hoje ela é casada com um sapatenisiano e eles vivem uma história de amargar, ele conheceu esta garota e resolveu casar mas tudo o que ela quer o pai dela dá, incluindo a retocada semanal na sobrancelha estilo logo da Nike e o tão sonhado par de peitos feito do mesmíssimo material da sola do sapatênis do marido, e para ele só resta tentar agradar ela comprando em 12 vezes uma TV de plasma no fim do ano no supermercado equilibrando no carrinho porque ele não fala tudoquelagostadiscutá e enquanto eles esperam a menina colocar uma fita de presente ela mexe no celular.


Mas ele não reage, no auge da revolta anti-sistema no máximo rouba docinhos de alguma festa ou bate boca com o caixa do bar para não pagar 10% de gorjeta obrigatória do garçom após ficar horas com o braço levantado tentando chamar quando todos sabem, e principalmente ele, garçons mão são obrigados a atender ninguém de sapatênis.


Não sai no soco mas também não pede desculpas, não é passivo mas tampouco se impõe, sabe o que é pretérito imperfeito e jamais erra a crase, incluindo às que eu esqueci neste texto.


Está em todos os grupos de Whatsapp não porque quer, mas porque não tem coragem de sair de nenhum, e culpa internamente todos pela própria improdutividade, como qualquer tio do zap.


No trabalho sempre chega e vai embora no horário exato, com sua postura ariscocrata e andar burocrático e em qualquer conflito social sugere como solução a criação de uma nova lei ou que todos deveriam fazer uma nova votação.


Não à toa a marca mais famosa de sapatênis no Brasil é a Democrata Calçados.



E mais, um homem de sapatênis jamais teria coragem de jogar os seus em alguém pois se jogar os sapatos é uma ofensa em certas culturas e registrada até na bíblia, jogar um par de sapatênis com toda certeza causaria uma guerra mundial e o apocalipse ao mesmo tempo, uma forma impura de sapato em todas as religiões e governos, uma criação herética, arredia, modorrenta e radioativa.


Sapatênis, o verdadeiro MAD geopolítico assim como a bomba atômica, pode até ter mas não pode usar, um edomita sem uma bacia para lavar as mãos, um russo sentado em uma sala de controle de uma usina nuclear distraído, o ariscocrata dos sapatos.



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Chorão e Morrissey eram parecidos, Chorão era anedótico e muito cabeçudo e Morrissey era irônico e muito chorão, e ambos de forma inconsciente te dão um ótimo conselho: Pode gostar das letras, pode até cantar em voz alta, pode até acreditar no que canta mas só não pode levar muito a sério, só os loucos sabem e that's how people grown up.


Também é possível escrever um ensaio inteiro só com letras do Morrissey e vamos fazer, mas este papo de todo me lembrou que, por incrível que pareça, existe algo pior que um par de sapatênis: o coturno de um policial.


Mas antes ainda eu lembrei da única pessoa proprietária de um sapatênis que eu gostei na vida, o Bira. Grande Bira.


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Cápsulas do tempo.


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Perguntei para um amigo meu se ele estava aprendendo algum instrumento musical e ele disse que sim, saxofone, mas o gato dele pulou em cima e quebrou e ele vai ter de arrumar.


Nome do gato: Jazz.


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Moradores da Vila Mariana, na zona sul de São Paulo estão discutindo se proíbem a passagem dos famosos e tradicionais carros de pamonha pelo bairro, incomodados com o barulho e transtornos no trânsito, incluindo o uso não autorizado de vagas para carros de clientes dos estabelecimentos comerciais da região.


Espero que a solução seja pacífica, por muito menos os astecas sacrificavam os filhos por causa de milho.


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Em Florianópolis funcionários da empresa de coleta de lixo estão fazendo greve e sofrendo ameaça do sindicato dos trabalhadores caso decidam voltar ao trabalho.


Na mesma semana um caminhão da empresa terceirizada que está cobrindo o trabalho dos grevistas foi incendiado por criminosos, muito provavelmente a mando do mesmo sindicato.


A prefeitura paga cerca de 400 reais por tonelada de lixo recolhido para a empresa dos grevistas através de licitação e 200 reais para a empresa terceirizada.


O caminhão queimado deu um prejuízo de quase um milhão de reais que provavelmente será pago pela prefeitura, no caso você com os seus impostos, os mesmos impostos que pagam o dobro pela coleta de lixo porque você não pode contratar uma empresa para fazer o serviço no seu bairro, pela metade do preço.


Uma observação nada engraçada sobre lixo, como já falamos antes, é que ele não desaparece quando você joga fora, apenas levam ele para bem longe dos seus olhos e assim você pode continuar na ilusão de que tudo está bem apenas porque você não está vendo, esta é a democracia.


A conta é simples, sindicado é máfia, o poder público é um lixo que ninguém coleta e todos eles usam sapatênis, certeza.


Um bom governo não deveria ser nada muito diferente de um carro de pamonha que também coleta o seu lixo, ele passa na sua rua e se você não precisa dele, ele segue em frente.


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Mas tudo bem, hoje começou o verão de novo, o meu verão, o meu mundo está em paz novamente.


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