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ENSAIO 54: BOPE

Atualizado: 11 de mai.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um libro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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07/05/2024


BOPE


Não vai subir ninguém, mas também não vai descer.


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Três vezes em que trolei policiais, e três vezes em que há algo muito errado com a sociedade.


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O microondas surgiu nos Estados Unidos no final da Segunda Guerra Mundial quando um engenheiro de nome Perry Spencer percebeu que um chocolate dentro do seu bolso derreteu quando ele se aproximou de um aparelho de radar que emitia, isso mesmo, microondas.


Curioso com a situação, Spencer passou a colocar alimentos dentro de um tubo de magnétron (responsável por produzir a radiação eletromagnética) e percebeu que eles estouravam porque eram cozidos de dentro para fora.


O próximo passo foi colocar este tubo, e os alimentos, dentro de uma caixa metálica que impedia a saída das microondas geradas e o passo seguinte foi vender a patente da sua criação para a empresa que ele trabalhava, a Raytheon, hoje RTX Corporation, uma das maiores empresas de defesa militar nos EUA.


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Um dia estava eu e dois amigos meus comendo cachorro quente ou pastel em uma lanchonete, os dois estavam sentados um ao lado do outro e de frente para mim, e em algum momento olhei para eles e ambos estavam olhando na mesma direção, assustados e sem piscar, olhei para trás e era apenas uma viatura nova da polícia militar passando.


Algo está muito errado com uma sociedade quando pessoas que não fizeram absolutamente nada de errado sentem medo ao verem uma viatura policial se aproximando.


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Eu tenho uma relação de amor e ódio com policiais, na verdade nem um e nem outro (not great, not terrible), eu é que não vou amar policiais e não digo que odeio porque não quero apanhar mais.


Só quem já tomou sabe, a lembrança de um tapa de policial é igual ressaca de vinho ruim, não interessa se o puliça for gente boa e te pagar x-salada na rodoviária depois e mesmo quando a língua portuguesa insiste que você leva um tapa ao invés de tomar, quando é um tapa de policial você toma, e engole em seco.


Tomar um chute de PM então faz você esquecer o seu nome nesta vida e lembrar o seu sobrenome de uma reencarnação anterior.


Quem já brigou na rua conhece decorado todas marcas e todos os modelos de sapatos e tênis e todo o potencial de quebrar o seu nariz se o chute for na sua cara ou afinar sua voz quando acertam os seus testículos ou fazer você uivar quando a bicuda é nas costas e acerta aquela Faixa de Gaza entre o seu ânus e o saco.


All Star, Nike, Reebok, Mizuno, Aiwa, Mad Rats, Vans e não raramente uma chuteira da Pênalti, mas nada chega nem próximo de um coturno de policial, você lembra o seu sobrenome de duzentos anos atrás porque o coturno do agente da lei carrega todos os espíritos de quem ele chutou em uma só voz, unidos em um único limbo de dor.


Estou sendo prolixo para evitar palavrões e só de lembrar vem junto a famosa cólica do arrependimento e me parece assustador é saber que algumas pessoas gostam (pelo menos quando é na cabeça/canela/costas/saco de outro) e coturno por coturno, chute por chute, o BOPE (Batalhão de Operações Especiais) é o rei do BDSM: além de tapas, socos e pontapés são especialistas em afogada, enforcada, chicotada, cuspida e enrabada.


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Quando eu assisti Tropa de Elite no cinema em 2007 eu entrei na sala sentindo culpa, eu já havia assistido ao filme duas vezes em casa em uma cópia pirata em DVD e morrendo de medo de ser descoberto e preso por receptação de pirataria.


Nem sei se existia este crime na época mas o DVD era passado de mão em mão como se fosse um quilo de cocaína e não ironicamente era exatamente esta a propaganda anti-pirataria rodando automaticamente antes do filme começar.


E apesar de ser a minha terceira vez assistindo o impacto do filme se manteve e foi potencializado com um bizarro adicional: os aplausos na plateia.


É raro ver gente aplaudir em cinema, mas até onde eu soube no país inteiro nas sesssões de Tropa de Elite as pessoas aplaudiram nos melhores momentos.


Os melhores momentos: adolescente com a cara cheia de sangue da barriga de um bandido morto, adolescente sendo torturado até ficar sem ar em um saco plástico, miliciano sendo executado com tiro na cabeça, bandido sendo executado com tiro no rosto, namorada de bandido sendo torturada até ficar sem ar em um saco plástico, outro bandido sendo executado com tiro no rosto, fim.


Ouvi até mesmo alguns gritos de torcida e comemoração durante estas cenas e após os créditos percebi alguns sorrisos e olhares vidrados, carregados de adrenalina e euforia.


Nós vivemos em um país tão violento e onde a violência é tão naturalizada que quando você lê, ouve ou assiste sobre policiais especializados e os termos "Operações Especiais" ou "Força Tática" você não pensa em investigadores analisando a cena do crime ou policiais treinados invadindo cativeiros de rapel ou qualquer coisa válida cinematograficamente.


Você apenas comenta ou diz para você mesmo "estes já entram matando" ou "estes batem primeiro e prendem depois".


Um país tão violento onde as pessoas cansadas de violência aplaudem cenas de violência.


Ao contrário dos outros policiais, o oficial típico do BOPE sabe contar até dez mesmo em situações de combate e o salário ainda é pequeno, então eles continuam não muito afeitos ao diálogo, uma vida resumida a ganhar pouco e subir morro todos os dias para prender e matar gente que ganha pouco e sobe o morro todos os dias.


Deve dar a maior raiva, parceiro.


Como disse um conhecido meu sonhando entrar na corporação:


- Você ganha pouco mas pelo menos pode bater nos outros, né?


Na provavelmente cena mais escabrosa do filme um acusado de ser informante da polícia é queimado vivo pelos traficantes preso dentro de uma pilha de pneus, ato conhecido no estado do Rio de Janeiro como microondas, lembrando que tudo de pior nesta vida parece encontrar o seu apelido no Rio de Janeiro.


Esta cena também foi aplaudida, talvez por todos já estarem movidos pelo gatilho do gene de plebeu romano antes adormecido dentro de cada um e agora plenamente ativo e difuso em qualquer cena de violência.


Algo está muito errado com uma sociedade que aplaude violência policial e comemora a existência de uma polícia cujo símbolo é uma caveira e a viatura é chamada de caveirão.



E uma sociedade onde o diretor do filme precisa mudar de país para não correr risco de vida por ter feito um filme.


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Eu não sei se você já reparou, mas depois do filme todo mundo usa "caveira" no nome na tentativa de ser levado a sério de alguma forma, grupo de Whatsapp não sei o quê caveira, polpa de açaí caveira, caveira sport wear, caveira futebol clube, até Uber usa caveira, sabe deus por qual motivação mas está sempre lá o adesivão de caveira, meio BOPE, meio Justiceiro da Marvel.


Chamar alguém de caveira é elogiar a coragem e a macheza da pessoa, ou é caveira ou cavêra, ou kvra, kvêra, até mesmo k-vera.


Só funerária deveria ter moral para usar este codinome e ainda poder usar slogans como: Caveira, você ainda vai ser um dia.


Por isso eu também tenho a fantasia de chegar em qualquer cemitério de qualquer cidade e ir visitar algum túmulo que já esteja sendo visitado no momento, cumprimentar quem estiver ali com aquele aceno de cabeça meio resignado, meio aliviado (not great, not terrible), sem emitir som e então dizer em voz baixa olhando para frente:


- Esse é caveira.


Por mim aliás o José Padilha voltaria para o brasil filmar Robocop 2 e o Tropa de Elite 3 juntos e ao mesmo tempo em uma superprodução com o nome de ROBOBOPE, cujo enredo seria Wagner Moura após um tiroteio sendo submetido à várias cirurgias reparadoras e retornando como o Capitão Renascimento, o robô policial carioca, mata antes e pergunta o nome depois.


Ou talvez uma versão no mundo invertido politicamente correta chamada Trompete de Elite, onde todas as armas se transformariam em buzinas e as buzinas em armas e a única opção de troca de tiros entre bandidos e policiais seria na base do fóm-fóm e as discussões seriam no tom (risos) "atira que eu buzino", "se eu fosse você eu buzinava", ou "vou buzinar na sua cara".


O crime organizado compraria vuvuzela no mercado negro e o BOPE invadiria a favela com trompetes e trombones e um trio elétrico chamado Cornetão.


E o Capitão Nascimento seria chamado de Regente Nascimento em busca do literalmente fanfarrão que o substituiria e a ordem seria sempre:


- NINGUÉM DORME, NINGUÉM DORME, NÃO VAI DORMIR NINGUÉM!


Ou quem sabe ainda uma versão religiosa chamada Trombeta de Elite pois a piada é obrigatória, você acha ser capaz e ter força mas os únicos com condições reais de lidar com o dia do juízo final são o BOPE e a sua turma.


O Caveirão é o único carro adaptado pois enxofre, chão rachando e chuva de fogo ele tira de letra e o lance é o seguinte: Deus e o BOPE sabem qual é a sua e sabem que você não tem lá muita convicção da sua conversão interior e mesmo assim correrá em direção ao elevador central do céu crente (ops) de que vai poder apertar o botão de subir porque o paraíso te espera.


Aí você ouvirá sons de trombetas e verá uma placa escrita “Paraíso – Não atravesse” e o Querubim Nascimento usando uma farda preta gritando:


- NINGUÉM SOBE, NINGUÉM SOBE, NÃO VAI SUBIR NINGUÉM!


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Por falar em buzinas e trombetas uma vez eu estava esperando o sinal abrir na frente de um estacionamento quando olhei para a direita e vi um policial gordinho tirando o maior ronco dentro de uma van da Polícia Militar.


Buzinei, ele acordou, o sinal abriu, eu fui embora.


Anos antes no exato mesmo estacionamento eu deixei o meu carro aberto com a minha carteira dentro no auge da estupidez contaminada pela ideologia florianopolitana da Ilha da Magia e magicamente cinco minutos depois ela já havia sido furtada.


Fiz um boletim de ocorrência e dois dias depois, dia 31 de dezembro, cometi a mesmíssima estupidez na frente de um mercadinho de bairro e tive a minha carteira com um boletim de ocorrência de furto de carteira dentro dela furtada novamente.


Fiz outro boletim de ocorrência, fui para casa, tomei um banho, vesti a roupa de virada de ano novo e, sem lenço nem documento e sem carteira peguei o carro e fui para Balnerário Camboriú.


Chegando lá havia uma blitz da polícia militar na principal avenida de acesso e percebi que estava sem carteira, sem documento, sem boletim de ocorrência e sem vergonha, torcendo para não cair na triagem dos PMs.


O policial que acompanhava a fazia apenas os gestos "pode passar" ou "vá para o acostamento" aleatoriamente carro sim/carro não, dois carros sim/um carro não, um carro sim/dois carros não e quando chegou a minha vez ele fez o gesto de pare com as mãos no exato segundo em que outro policial chamou ele, quando ele olhou para mim novamente eu saquei o turista perdido dentro de mim e perguntei em voz alta:


- AMIGO, COMO QUE EU FAÇO PARA CHEGAR NA AVENIDA BRASIL?


O amigo PM sacou o juramento de servir a comunidade de dentro do coração dele e respondeu em voz alta também:


- OPA, É SÓ VOCÊ SEGUIR EM FRENTE E DUAS SINALEIRAS NA FRENTE VOCÊ PASSA A RÓTULA E ENTRA PELA DIREITA, JÁ É A AVENIDA BRASIL ALI.


E eu sacando o brasileirão somos todos brasileiros não é mesmo, respondi, ainda em voz alta:


- OBRIGADO MEU AMIGO, BOM TRABALHO, FELIZ ANO-NOVO!


Uma virada de ano em que ninguém pede os seus documentos é uma virada de ano boa de se lembrar.


Anos depois estava eu passando a ponte entre a região continental e a ilha dirigindo e mandando áudios pelo celular quando um carro da nossa tão presente PM apareceu repentinamente do meu lado, emparelhou, e o mais macho dos policiais deu dois tapas na porta da viatura gritou para mim:


- LARGA ESSA MERDA DE CELULAR!


Por instinto ativei o meu lado mais macho e criativo possível e respondi:


- MEU PAI TÁ NO HOSPITAL!


A viatura acelerou, o PM fez um gesto de "ah vá" e desapareceram velozmente.


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Não é muito possível ter uma boa relação com policiais e pior, eu tenho certeza de que policiais e taxistas são exatamente as mesmas pessoas e usam os mesmos carros.


É só você olhar na rua, tem viatura da polícia e táxi passando o tempo todo mas se você precisar da polícia começa a passar só taxista.


Se você precisar de um táxi repentinamente os taxistas somem e começa a passar só viatura policial.


De alguma forma eles se transmutam no exato oposto da sua necessidade no momento, você só vai achar um policial e/ou um taxista quando eles estiverem atrás de você, aí eles vão te emparedar, gritar com você e te ultrapassar pela direita ou tudo ao mesmo tempo.


E por isso só de birra, eu tenho um sonho ou fetiche para ficar no clima de hematomas contabilizados: rodar de carro durante a noite em qualquer capital do Brasil até achar uma destas batidas policias com os PMs cheios das espingardas apontando e revistando a molecada com as mãos na parede, parar o meu carro, chamar (Ô), dar aquela buzinadinha bem filha da puta (PÃM-PÃM), abaixar o vidro e perguntar, em voz alta:


- Ô, (PÃM-PÃM), ONDÉQUEFICAOMACDONALDS?


Ou talvez emparelhar em qualquer carrão do BOPE parado no sinal vermelho, de preferência o caveirão, e ficar encarando eles até um deles olhar de volta para mim, sorrir para ele e perguntar, em voz baixa:


- E aí, queceisvãoaprontarhoje?


Ou então, em voz alta:


- E AÍ, QUALÉADANIGHT?


E rezar para eles se transformarem repentinamente em taxistas.


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Algumas semanas atrás (estamos em maio de 2024 aqui) ocorreu mais uma edição do festival Lollapalooza, festival com mais de 30 anos de história a qual no início foi o auge da contracultura nos Estados Unidos e hoje é representante máximo do conformismo de cabelos coloridos, aquela geração nascida livre e hoje escrava da necessidade de forçar regra para os outros, e o ponto mais alto (leia-se baixo) dos shows deste ano foi a presença de um tal de Oruam, nascido livre mas filho de um presidiário.


Na sua música mais famosa (leia-se "música" com todas as aspas que você for capaz de imaginar) Oruam narra um passeio com a sua pistola Glock numa certa putaria num tal de Complexo.


Ele deveria ter complexo de cantar coisas assim mas parece ter orgulho e errado ele não está, com seus mais de oito milhões de seguidores no Instagram, o errado entre os errados está cem por cento certo.



No ponto mais alto (leia-se mais baixo) da sua apresentação o cantor (leia-se "cantor" com todas as aspas que você for capaz de imaginar) ele pediu a soltura do seu pai preso desde 1996, usando uma camiseta com o rosto do mesmo escrito LIBERDADE embaixo (assim, em capslock) e aproveitou a deixa para incitando para a plateia fazer sinal de pistolinha para cima, o qual foi atendido por boa parte da galera.


Mesmo após três anos preso o pai de Oruam conseguiu engravidar uma mulher e por ele no mundo.


E quem é o pai de Oruam?


Um tal de Marcinho VP, um dos maiores traficantes da história do Complexo do Alemão, conjunto de favelas na Zona Norte da capital do Estado do Rio de Janeiro, e condenado a 44 anos de prisão por tráfico de drogas e dezenas de homicídos, chefe do Comando Vermelho e amigo próximo de outro bandido conhecido mundialmente, Fernandinho Beira-Mar.


Marcinho VP mora em uma cela com seis metros quadrados, com direito a três refeições e duas horas de banho de sol por dia.


Marcinho VP está com a vitamina D em dia e você aí com apenas meia hora de almoço diariamente nos fundos da loja embaixo de uma luz de led.


Marcinho VP mesmo preso ainda comanda o tráfico, transa e põe filhos no mundo, que fazem sucesso cantando sobre crimes iguais aos cometidos pelo pai, para então pedir a liberdade dele em um festival que deveria celebrar a música e a paz.


Mas tem mais, Oruam também é sobrinho do Elias Pereira da silva, conhecido como Elias Maluco, condenado a outras tantas décadas de prisão por ter matado outras tantas dezenas de pessoas diretamente e outras ainda em atentados pela Cidade do Rio de Janeiro e reconhecido informalmente como o inventor do microondas.


Não o aparelho, mas aquela pilha de pneus para queimar pessoas dentro que você viu, e talvez tenha aplaudido, no filme Tropa de Elite.


Algo está muito errado com uma sociedade quando um traficante e assassino condenado vive melhor que mais da metade de população honesta do Brasil e pessoas aplaudem (e fazem pistolinha para cima) a presença de bandidos em festivais.


Que país maluco, Elias, não sobe ninguém mas também não deixam a gente descer.



E por falar em buzinadinha, você sabe qual a semelhança entre o nazismo e o trânsito no Brasil?


Eu te conto.


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Cápsula do tempo.


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Dia primeiro de maio fez 30 anos da morte do Ayrton Senna e a minha lembrança deste dia é que bateram na porta do meu quarto para me acordar e me avisar e daí eu perguntei se iria passar ou não Os Simpsons na TV e voltei a dormir.


Fica aqui registrado: 01/05/1994, 30 anos do dia que não passou Simpsons na Rede Globo por causa da morte do Ayrton Senna.


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