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ENSAIO 55: STUKA

Atualizado: 16 de mai.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um libro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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16/05/2024


STUKA


Três acidentes, três fatores, uma conclusão.


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Ao contrário do microondas (que nasceu para ser radar militar mas o destino deixou ele na sua cozinha guerreando contra a sua saúde) a invenção da Stuka atendeu exatamente o seu propósito desde o início: apavorar.


O Junkers Ju 87 Sturzkampfflugzeug (em alemão "avião de de caça de mergulho") ou apenas Stuka foi um (você já leu mas vou repetir) avião de caça de mergulho projetado pelo engenheiro nazista Hermann Pohlmann, onde ao lado dos trens de pouso eram montadas sirenes de ar comprimido acionadas por hélices apelidadas de Trombetas de Jericó (literalmente as trombetas do apocalipse) e que se tornaram um símbolo de propaganda do poder aéreo alemão e das vitórias alemãs durante as Blitzkrieg sobre Londres na Segunda Guerra Mundial.


Antes de soltar as bombas estas pequenas hélices do Junkers Ju 87 aumentavam o seu som conforme o avião mergulhava no ar e ganhava velocidade, emitindo uma sirene que mesmo sem você ter vivenciado é possível imaginar quão aterrorizante era.


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Certa vez eu estava completamente bêbado, admito, e saímos da festa eu, o André e o Tiago, o carro era meu e eu estava dirigindo.


Em um dos cruzamentos no caminho de volta o sinal estava amarelo piscando, o famoso sinal “cada um por si” no código de trânsito brasileiro. E assim foi, sem pensar muito cruzei a rua e de repente o carro parou, ou eu parei, ou o tempo parou e aí o Andre falou:


- Você bateu o carro.


E eu:


- Hã?


E ele:


- Você.bateu.o.carro.


Olhei para o outro lado e vi uma mulher de branco do meu lado, como se o volante do meu carro fosse na esquerda e ela estivesse no banco do carona.


Lentamente ela se afastou e comecei a compreender a situação, eu e o namorado dela havíamos batido, eu atravessei a rua reto, ele percebeu a tempo, virou o volante e batemos lateralmente, sem prejuízos físicos de nenhuma parte.


Mas muito prejuízo material, saí do carro, ambas as laterais destruídas.


Fui cambaleando até o carro do cara e a tal mulher de branco me encarando, por reflexo ou falta dele me aproximei da janela, me apoiei e quando ia falar algo entre um pedido de desculpas ou xingar olhei as mãos dela.


Totalmente esbranquiçadas, e escorrendo.


Minha mente via sangue, tentava ver sangue mas era um líquido pastoso branco, aproximei mais a cabeça por uma curiosidade mórbida e então percebi: Um sundae.


Um sundae desses do Mcdonalds todo espremido nas mãos dela, e escorrendo.


Olhei nos olhos dela e pude ver o ódio em sua forma plena, também não era sangue, era sundae, literalmente sundae nos olhos e visivelmente o maior prejuízo da noite.



Em outro momento, absolutamente sóbrio, o sinal abriu e sinalizei mudança para a faixa da esquerda, o babaca que vinha atrás acelerou para não deixar, mas não levou.


Acelerei e venci, mudei.


O enfezadinho foi na pista da direita, acelerou e emparelhou o carro com o meu e começou a me xingar, mas ele não percebeu que a pista da esquerda estava livre, a da direita não.

Meu único gesto possível foi apontar o dedinho como quem diz "olha, um passarinho" mas foi tarde demais, o Joselito bateu no carro da frente, que bateu no da frente e provavelmente em mais outro carro na frente.


Se existe um som da vingança é este, e ver carros engavetados e amassados em fila é algo tão feio quanto rir da desgraça dos outros, mas eu ri.



Em outro momento ainda, sóbrio e entendiado, consegui presenciar uma cena de dominó humano em uma avenida que acabou relativamente bem.


O caminhoneiro fechou o motorista que fechou o motoqueiro que estava ultrapassando pela direita.


O motoqueiro ficou puto e ultrapassou o motorista pela esquerda e chutou o retrovisor do carro e motorista se assustou jogando o carro para a direita até o acostamento quase atropelando um ciclista.


O ciclista se assustou subindo na calçada atropelando um pedestre e este de raiva deu um soco de volta.


Motorista, ciclista e pedestre provavelmente ficaram brigando e enquanto percebi o caminhoneiro seguindo a minha criatividade foi junto e imaginei ele chegando em casa a tempo de comer a pizza ainda quente que a sua esposa pediu que o motoqueiro entregou segundos antes.


É este tipo de momento que me faz perceber o quanto Ayrton Senna ainda é o maior ídolo no país, ultrapassagens pela direita, por cima do canteiro, calçada ou gramado, acelerar na curva e ainda xingar quem ultrapassou, nada mais brasileiro, a nossa esquizofrenia social motorizada: caminhão se comporta como motoboy, motoboy se comporta como ciclista, ciclista se comporta como carro, carro se comporta como pedestre e o pedestre age como se estivesse em uma passarela.


Mas qual ou quais fatores determinam este comportamento?


Seria a estrutura?


Eu lembro de ter lido ainda no fim da adolescência quando o eurotunel ficou pronto, com seus quase 51 quilômetros de extensão e destes quase 40 quilômetros subaquáticos onde o ponto mais baixo se encontra 75 metros abaixo do fundo do mar, e os engenheiros ingleses e franceses comemoraram um tanto resignados um erro de menos de dois centímetros na sua finalização no ponto de encontro, prontamente resolvido com uma camada de espuma móvel e tinta plástica e lembro já morando em Florianópolis quando foi finalizada a faixa elevada ao entrar na ilha, uma ponte de no máximo 300 metros de comprimento e cinco metros de altura, sendo o metro final uma super-mega-híper radical queda onde, se você arriscar passar sem pisar no freio, irá capotar.


Este tipo de desafio diário patrocinado pelo Detran, o ingresso pago anualmente pelo direito de poder se aventurar nos buracos e rampas do X-Games da vida real.


Seria a cultura?


A cultura de carro como status social, o rico ganha um quando passa no vestibular, o pobre parcela quando se forma, o orgulho de entrar sozinho em um automóvel e o prazer de dirigir menos de dois quilômetros (e demorar mais estacionando) apenas para comprar pão, traindo a expectativa que tínhamos em 1969 de ter carros voadores no futuro de 2019 e hoje no ano de 2024, cinco anos depois do futuro, temos engarrafamento até de patinetes.


Seria o bode?


É, o bode expiatório, esta santa mania tão brasileira de culpar sempre os outros.


E agora com essa placa nova que não diz mais o estado e a cidade todos nós podemos apenas admitir sermos brasileiros, não existe mais o paulista filho da puta, o gaúcho do caralho, o só podia ser carioca, o manezinho desgraçado e nem o paranaense, gostei desta ideia de placas unificadas, agora o brasileiro vai poder xingar o outro motorista apenas de brasileiro mesmo e além de aprender a usar o pisca-pisca vai ter de aprender a usar o espelho.


A única certeza no nosso trânsito é ela, a minha, a sua, a nossa, a maldição do cheira-o-dedo, a buzina.


Se o Trompete de Elite se tornar uma realidade pode vir Regente Nascimento, nós somos armados com um verdadeiro arsenal sonoro: bí, bibí, bíííí, bibíííí, bííííbí, bííííbíííí, bí-bí, bíííí-bíííí, bí-bí-bí, bí-bí-bííííí, bí-bíííí-bí, bí-bíííí-bí, bííííííííííííííííí, bí, bomchibomchibombombombí, bomchibomchibombombombííííí.



Irrita só de ler né, mas pense da seguinte forma: você vive em um planeta estranho acostumado a preservar quem não deveria ser preservado.


Eu explico, quando você lê uma placa na frente de um elevador onde está escrito "ANTES DE ENTRAR NO ELEVADOR CERTIFIQUE-SE DE QUE O MESMO SE ENCONTRA NESTE ANDAR" meus parabéns, você deve ser preservado, mas você já faz isto por você mesmo, afinal o tipo de pessoa incapaz de olhar onde pisa também não perde tempo lendo avisos de segurança, o mesmo tipo acostumado a entrar no elevador e apertar várias vezes o botão do andar escolhido achando que o elevador irá mais rápido desta forma, o mesmo tipo de pessoa especialista em buzinar tentando apressar quem estiver na frente, buzina antes de ultrapassar, buzina depois de ultrapassar, buzina até mesmo tentando pedir para o outro não buzinar.



A buzina do brasileiro me faz defender a proibição das armas no Brasil, o argumento de que todos nós nos mataríamos no trânsito parece ser válido.


Sou defensor irrestrito da liberdade, incluindo o direito de ter armas embora eu (conhecendo a mim mesmo e o brasileiro como ele é) não pretendo ter uma, acho complicado ter arma em um país onde se você for gentil com o motorista da frente vai tomar buzinada do motorista de trás e vivemos em um mundo estranho onde pessoas precisam ser avisadas para olhar onde pisam e até buzinas podem ser usadas como armas e se armas fossem buzinas, os brasileiros já são armados com verdadeiras stukas.



Nós brasileiros somos amáveis, cordiais, gentis, sorridentes e solidários até você deixar nós dirigirmos.


Nós gostamos é de apavorar.



Mas ok, você venceu a polícia, você venceu o trânsito e agora você vai para uma balada.

Isso mesmo, ba-la-da.


E chegando lá você vai sentir saudades de policial e motoboy.


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