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ENSAIO 56: SEXTOU

Atualizado: 20 de mai.



Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um libro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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20/05/2024


SEXTOU


Bora? Não, por favor não.


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Ser adulto é falar com um amigo pela internet por meses e um dia combinar de ver ele na semana seguinte, você diz estar disponível na terça e na quarta, e o seu amigo prefere a terça-feira.


Combinado: ele prefere terça, você pode terça, fechou.


Chega terça-feira e o seu amigo fura por algum motivo e não interessa qual seja ele não falará o motivo real, o pai dele foi parar no hospital mas ele acha que você não vai acreditar então diz ter sido um trabalho de última hora.


Como um trabalho urgente é sempre uma desculpa padrão, você de fato não acredita.

Ele pergunta se pode ser no dia seguinte e você diz não só de birra, mesmo que ainda tenha a quarta disponível.


Vamo aí, diz ele.

Não rola, diz você.


E aí você pensa se ao menos ele pudesse ter inventado uma desculpa melhor como o pai ter ido para o hospital ou coisa parecida.


E assim mais meses irão se passar até a próxima tentativa e provavelmente ambos estarão disponíveis mas será a vez dele embirrar pois você não acreditou nele na última vez, igual criança.


E então vocês continuam conversando normalmente todos os dias do ano como se fossem vizinhos de janela, apesar de parecer mais uma espécie de isolamento social causado pelo excesso de relacionamento online.


Você conversa com a pessoa todos os dias e quando você tem a oportunidade de ver ela ao vivo você sempre tem a impressão, mesmo de forma inconsciente, de que você vai ter outro compromisso ou convite melhor afinal você já se falam todos os dias, mesmo sem se ver, e quando você esbarra ela por aí vem um misto de saudades com falta de assunto.


O problema talvez não seja a falta de vontade de ver o seu amigo, e não necessariamente a internet parece ser uma opção melhor, ela apenas permitiu todos nós nos tocarmos quão ruim são boa parte dos eventos e compromissos sociais e por isso nos tornamos máquinas de desistir e inventar desculpas.


Ah, os compromissos sociais.


Existem certas passagens da vida, certas situações e certos eventos que parecem ter sido inventados para você repensar a sua condição humana na Terra.


A minha lista completa de "vá mas não me chame" e “favor não insistir” inclui:


- sushi, tem cheiro de velório.

- velório, tem cheiro de sushi.

- casamento, igual velório, mas com bolo.

- batizado, igual velório, mas com bolo e criança chorando.

- missa, igual batizado, mas sem bolo.

- formatura, igual todos os eventos acima, e bêbados.

- protesto na rua, todos acima, e apanhando da polícia.

- praia, todos acima e ainda cheiro de suor e areia no cu.

- curso de origami, já me convidaram para isso e não sei dizer qual o motivo, mas me ofendi.

- day party, a soma de todos os anteriores, e dependendo da festa tem até origami.


Mas tudo piora quando chega a sexta-feira e a síndrome de sextou e pior ainda quando vem junto com ele, o verão.


Pior que sextou somente sextou no verão.


Ah, o verão.


Verão é sempre bom?


É, para quem não nasceu com eterna cara de turista e pele com atitudes de albino.

Mas as noites de verão são boas.


Aliás o meu mundo ideal teria dias de inverno e noites de verão.


Mulherada encasacada com nariz vermelho de manhã e de shortinho de noite, eu amo mulher com frio, eu amo mulher de shortinho.


Se for shortinho e com frio melhor ainda, resfriada, espirrando e de shortinho.

Ou correndo de salto alto, de shortinho e com o nariz escorrendo.


Ou com frio e... Enfim, verão é mais ou menos bom para mim, um saco de dia e ótimo de noite.


Verão de noite tem mais balada, e balada é sempre bom.

Será?


A lista é praticamente infinita, mas grosso modo existem quatro tipos de baladas:


A balada onde ninguém sabe a letra mas todos fingem saber.

A balada onde todo mundo sabe a letra e ainda sentem orgulho disso.

A balada onde ninguém perguntou nada para você.

A balada onde ninguém sabe o que está fazendo ali.


Estas baladas são o suprasumo (até que enfim consegui usar esta palavra) da síndrome do sextou, e não interessa o quanto você insista e tente ir de novo, no fim você sempre vai se perguntar e pensar (mesmo sem admitir) se tomar buzinada e bater o carro no trânsito ou apanhar da polícia teria sido menos irritante e doloroso.


E se nós brasileiros lidamos com a política na base da batucada e com trânsito na base da buzinada, quando é hora da batucada e buzinada junto nada mais importa, a coisa pega fogo e não há extintor que apague, segue.


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Na balada onde ninguém sabe a letra mas todos fingem saber pode apostar, você sempre será, por toda a sua vida, convidado para ir em um lugar assim, geralmente por algum amigo casado tentando recuperar a alegria de viver ou solteiro desesperado para casar, e sempre mudará apenas a forma de tentar te convencer a ir.


Quando você é novo vão argumentar que lá tem um monte de gente solteira para te divertir.

Quando você envelhece vão argumentar que lá tem um monte de gente solteira para te divertir.

Quando você casar vão argumentar que lá tem um monte de gente solteira para te divertir.


Se você não casar vão argumentar que lá tem um monte de gente solteira para te divertir.

Se você se separar vão argumentar que lá tem um monte de gente solteira para te divertir.

Se você se aposentar vão argumentar que lá tem um monte de gente solteira para te divertir.


E o que você vai encontrar lá?


Um monte de gente solteira querendo estar casada e um monte de gente casada querendo estar solteira, mulheres de saltinho de cinco centímetros, not great e not terrible e homens de sapatênis.


E não vai ser nada divertido, uma eterna valsa onde casadas cobiçam solteiros cobiçando solteiras cobiçando casados cobiçando e secando barris de chopp, um belo resumo prático e social das piores passagens da bílbia e do exercício faustiano da monogamia.


E a trilha sonora é obviamente a pior possível formada basicamente pelo quadrilátero do inferno, a esquadrilha do tédio e das músicas de karaokê Beatles (é, Beatles), Rolling Stones, Credence Clearwater Revival e U2.


Mas e onde entra o fato de não saberem nada e fingirem saber?


Primeiro, se soubessem de algo não estariam ali e segundo olhe para os lados e note como este ambiente é o triunfo das bandas cover, todo mundo sabe o refrão (mas só o refrão) mas divertido fica quando você percebe a engolida clássica de sílabas durante o resto da música.


Exemplo:


(letra)


Sónorrow norrow? Norei

Sónorrow norrow? Notei

I KNOW (todo mundo acerta!!)

Sónorrow notou noteiii


(refrão)


ÁÁÁÁÁ WANNA NÔU, RÉVI YOU ÉVAAA SIIII THE RAIN (de novo minha gente!!)

ÁÁÁÁÁ WANNA NÔU, RÉVI YOU ÉVAAA SIIII THE RAIN


Sónorrow notou? Noteiiiiiiii


No meio desta angústia o seu amigo que te convidou grita no seu ouvido:


- Não tá curtindo não??? TA CHEIO DE SOLTEIRA AÍ MEU, NÃO GOSTA DE MULHER É, VIROU VIADO???


Não pense você que para por aí porque sempre chega o momento dos clássicos nacionais e tome Jota Quest, Legião Urbana, Kid Abelha.


Alguém da banda sempre se passa no álcool e resolve tocar algo mais "de atitude" e aí você vai engolir um Rappa e um Charlie Brown nervoso. Aquele seu amigo casado vai chutar a sua canela (de sapatênis), gritar o refrão no seu ouvido e sorrir o mesmo sorriso confuso que ele te deu no dia do seu casamento (o dele, você ainda é solteiro).


Enquanto isto as esposas perdem a linha, os outros maridos derrubam cerveja, as solteiras se abraçam, os solteiros vomitam e não obstante (não obstante!) antes do fim é a hora do bis, a cartada final, o harakiri musical, a buchada de bode melódica, do agora ou nunca, Meu Erro, dos Paralamas do Sucesso.


Nesta hora as pessoas ao seu redor erram também a letra em português sem vergonha nenhuma, praticamente uma inversão de valores esfregando na nossa cara o softpower do establishment desta gente americanizada como a gente, que anda de bike, vai para night atrás de um sex affair e termina em casa dando like nas redes sociais em plena madrugada.


As danças são as mesmas desde os tempos da formatura do pessoal, uma mão assim, o pezinho assim, dança amooorr.


Como bem disse um amigo meu, não é rock nem blues, é música de happy hour para usar camisa polo, tomar chopp quente e treinar o sorriso amarelo.


O perfil das bandas nestas baladas tem pelo menos um calvo não assumido, um funcionário de banco, um funcionário público e, se tiver instrumentista de sopro na banda, é provável que ele já tenha dois filhos.


O perfil de casal geralmente tem na ponta da língua a frase "é a nossa música amor!" quando toca aquela do Lulu Santos e, crentes de que a música foi feitas para eles de fato, ainda olham para o vocalista da banda na esperança dele dedicar a música para o casal.


Ela escolhe a roupa dele e ele não escolhe a dela mas quando ela está pronta ele diz:


- Esta saia não!


A mesmíssima saia que faz ele olhar a bunda de outra quando a esposa se distrai.


Ele trai ela com uma colega de trabalho e ela tem um cachorro a quem chama de "amor verdadeiro" ou de "filho" dependendo da época do mês e da fase do relacionamento.


Toda quarta ele tem futebol na TV, toda quinta futebol com os amigos, toda sexta ele está cansado.


Toda segunda ela tem psicossomatoteramedêoutravidapeuta, todos os dias novela, todo sábado manicure e todo domingo clube da luluzinha.


Nas terças ela trai o marido com o melhor amigo dele.


Ah, sempre tem gente de aniversário neste tipo de balada, como se o mundo precisasse ser lembrado disso e sim, todo aniversariante pensa que o vocalista da banda foi informado e vai cantar parabéns na hora certa.


Dresscode:


Homens - Camisa xadrez-família, calça jeans bom moço, sapatênis casual friday.


Mulheres - Blusa de algum tecido comportado, saia estilo "tem um cérebro por trás desse corpinho" super comportada e sapato de salto de altura comportada.


O extintor de incêndio sempre fica atrás do palco onde está a banda e caberá ao baixista buscar em caso de fogo pois em festa com banda cover a culpa é sempre do baixista.


E se a festa pegar fogo porque não tem alvará?


Come on baby light my fire.


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A balada onde todo mundo sabe a letra e ainda sentem orgulho disso é facílima de perceber de longe , a cada minuto tem algum "lalalala" ou "teteretê" ou ainda, com grande esforço dos envolvidos, todas as vogais e mais de três consoantes no refrão como "lalelele tubitubi lilólu".


O resto da letra é alguma coisa com "amor" ou "volta para mim" ou "te quero" ou ainda "pega no meu que eu pego no seu" ou algo mais forçado estilo "foi muito rápido e doeu".


Se o tipo de letra descomplica no conceito a dança chega a ser um verdadeiro ritual de iniciação nas coreografias, um inferno onde para cada lalala tem dois gestos de braço, uma quebrada de mão, uma batida de bunda e alguma expressão facial frustrante com dedinho na boca ou virada de olhos.


E quando tudo já está muito além do tolerável sempre aparece alguma desgraçada ou algum infeliz e grita qualquer coisa com "do chão!" ou "para cima!" no fim da frase e lá se vão todos derramando cerveja, se queimando com cigarro, pisando no dedão dos outros e ainda por cima sorrindo.


E aí você passar por uma menina desesperada tentando falar mais alto que o som da festa e as pessoas cantando junto:


- Eu to aquiiii, perto de onde estão vendendo cervejaaaa, do lado de um grupo de regata amareeeeelaaaa onde tem aquelas meninas distribuindo viseira e a bateria do meu celular está acabã


Nos shows parecem tocar apenas uma música com duração média de três horas, o tempo do show de cada artista do estilo.


E qual o estilo? Não tem como definir, é um mistério. Alguns anos atrás você diria "isto é sertanejo", "isto é axé", "isto é pagode" e "isto é techno", mas não mais.


Criou-se um ser híbrido mutante indefinido com roupas caras, cantando letras de corno e coreografias alucinantes por cima de algo embalado com sanfona, batucada, refrão repetitivo, mais sanfona e mais batucada.


E cada híbrido gera um filho mais híbrido ainda, por exemplo: batida de funk com voz de sertanejo por cima.


Ou cantora de axé com batida de techno.

Ou Techno com solo de guitarra.


Eu costumo chamar este tipo de música de "música de engarrafamento", "música de feriado" ou "música de vizinho" porque uma hora ou outra no trânsito ou quando você puder dormir até mais tarde ou quando você abrir a sua janela ele estará lá, Gusttavo Lima e você.


Eu tive um vizinho que era o próprio mensageiro do demônio, em toda e qualquer festa ou feriado religioso ele abria o porta malas do carro, ligava o CD player no volume máximo e dê-lhe pão com linguiça ao som de algo parecendo mais a entrada do inferno.


O perfil de artista musical aqui é variado o suficiente para irritar qualquer vitrinista de loja de shopping (pode ser banda, pode ser DJ, pode ser banda com DJ, pode ser DJ com banda) e o perfil de casal nesta balada está sempre feliz e sempre comemorando pois eles se conheceram em uma balada idêntica tempos atrás e começaram a namorar dias depois, terminaram semanas depois, voltaram dias depois e assim sucessivamente como personagens de alguma letra da Claudinha, logo eles sempre possuem motivos pra comemorar, seja a "volta" ou a "fase boa do namoro" ou o fato de terem brigado durante a tarde toda mas fizeram as pazes pouco antes do show. E vão brigar novamente antes de ir embora e beijar outras pessoas que servirão de munição para as brigas das semanas seguintes.


No caminho do banheiro ele beija outras três, enquanto ele vai no banheiro ela troca telefone com outros cinco e beija (de olhos abertos) o mais insistente.


Mas o que há de ser isso perto da certeza do destino e o brilho nos olhos quando eles lembram como descobriram que possuem o mesmo ascendente astrológico e torcem para o mesmo time de futebol?


Dresscode:


Homens - Camiseta fitness, bermuda de reveillon, chinelo.


Mulheres - Regata tapa silicone, qualquer coisa enfiada na bunda, salto alto ou chinelo e calos, muitos calos nos pés.


Ninguém sabe onde fica o extintor de incêndio neste tipo de festa, na hora da correria o que parece um extintor é jato de sprite e quem parece bombeiro é na verdade fantasia, o extintor de verdade está sendo usado como banquinho na barraca de cerveja e o bombeiro de plantão está comendo alguém.


E se a festa pegar fogo porque não tem alvará?


Corre pra cá?

NÃÃÃOOO


Corre pra lá?

NÃÃÃOOO


Olhaolhaolhaolhaolhaoalvará olhaoalvará olhaoalvará o alvaráááá.


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A balada onde ninguém perguntou nada para você, você conhece, você já foi em uma, você já tentou ir até mais vezes e ninguém quer saber os seus motivos, porque ninguém perguntou nada para você.


Cada foto da noite anterior faz você pensar "essa balada foi top e eu perdi" e daí você vai novamente e se engana de novo.


E quando você vê as fotos da festa modorrenta que você foi você pensa "onde estavam todas essas pessoas sorridentes destas fotos?" e pensa ter sido distração sua e vai de novo.

Aí você chega lá e lá estão elas, as pessoas, batendo fotos.


Se não fosse pela música e pela bebida em nada seria diferente, do estacionamento a decoração, de uma loja maçônica.


Economicamente a festa é o triunfo do capitalismo brasileiro: pagar caro em algo barato para demonstrar status.


Vodca com cheiro de desodorante old school em copo de acrílico decorado.

Preço, meio salário mínimo.


E por essas todo mundo lá tem cara de "ninguém perguntou nada a você", a mesmíssima expressão de "eu to pagando".


Pagando carros parcelados, smartphones parcelados, relacionamentos parcelados, eles parecem épicos, semideuses e eternos, mas são apenas top mesmo.



Todo mundo é maior que todo mundo, o copo deles é maior que o seu e não tente, nunca, se enturmar, sabe por quê?


Porque ninguém perguntou nada a você oras.


Freudianamente quando esta gente vê um sofá imediatamente fica de pé em cima, uma demonstração de rompimento com a autoridade paterna e entrada na vida adulta.


E a música?


Toca música eletrônica, este balaio de gatos tão amplo quanto estilos de heavy metal.


Mas nas festas do tipo que ninguém te perguntou nada toca aquela música eletrônica oscilandoi entre a tortura mais aguda a trilha mais insossa, uma serve para você não perder tempo perguntando nada para ninguém e a outra serve para você não perguntar nada para ninguém porque ninguém, eu disse ninguém, te perguntou nada.


De um extremo ao outro uma parece trilha de festa de condomínio e a outra parece som de fundo da reunião do condomínio.


De cada 100 pessoas nessa balada:


30 saem pra fumar e não voltam mais.

30 ficam a noite toda tentando arrumar droga sem gastar.

30 ficam a noite toda tentando arrumar uma pulseira para o backstage para arrumar marido empreiteiro que paga champanhe.


Dois são amigos dos amigos dos amigos que conhecem o Dj que está tocando mas não gostam de musica eletrônica e oito são homens que não pegam ninguém e fingem sair para dançar e escutar musica.


O perfil de DJ nestas festas se apresenta como DJ por hobby pois ele tem um emprego sério que ele trata como hobby também, geralmente colunista, dono de loja de shopping, publicitário ou freelancer de alguma coisa muito legal na teoria. Ou até mesmo filho de colunista, filho de dono de loja de shopping, filho de publicitário ou filho freelancer ops, filho de freelancer.


E antes que eu me esqueça, ele se veste como se vivesse em uma vitrine de uma loja sem espelhos.


O perfil de casal nesta balada se olha como se não tivessem nada para perguntar um para o outro e ai de quem tomar a iniciativa.


Alías, por falar em perfil, mesmo de frente eles parecem estar sempre de lado, olhando levemente para cima, estilo aquelas fotos de coletâneas ou playlists onde está escrito "O MELHOR DE".


Eles são semideuses, semipessoas, semifelizes, semiindependentes.


Todas as outras mulheres da festa são ex dele, um verdadeiro bonobo de camisa regata e ela também não fica atrás, embora "beijar bêbada não conta néam".

Inclusive eles moram juntos, no bairro instagram.


Dresscode:


Homens - Alguma coisa de ouro ou imitando ouro, camisa mostrando o colo dos seios (é, dos seios), calça com alguma coisa de ouro ou imitando ouro, tênis igual aos dos vídeos de rap.

A marca da grife tem de aparecer na foto.


Mulheres - Alguma coisa de ouro ou imitando ouro e qualquer roupa e salto do tipo que ela julgaria se as outras usassem.


Em ambos os casos o símbolo da grife tem de aparecer na foto.


Mas quando eles se encontram, os tops e as tops parecem se merecer embora o acessório mais essencial para um homem neste tipo de ambiente é ter uma máquina de jato de areia em casa, quando a mulher que ele chamou para sair chegar lá é só dar um banho de pressão nela até sair tudo:


Tintura de cabelo, dois sabonetes, dois shampoos, um condicionador, máscara capilar, creme alisador, cinco hidratantes, vinte e sete produtos de maquiagem diferentes, extensão capilar, cílios de perna de barata, sobrancelha na régua modelo logo da nike ou taturana da selva, loção bronzeadora e protetor solar, loção corporal, perfume, perfume para cabelo, perfume para o corpo, perfume íntimo, serum não sei o quê, lente de contato, lente nos dentes, cinta elástica, roupa que afina e esconde aqui e modela e empina ali, unha de zé do caixão ou freddy krueger, silicone, aromatizante, estabilizante, espessante, conservante, corante, edulcorante, acidulante, antioxidante, umectante e pronto, o que sobrar é a mulher que ele chamou pra sair.


Elas dão um show, empre tunadas usando todos os acessórios químicos e tecnológicos possíveis, sempre enceradas, lustradas, paramentadas com aerofólio, para-choque, escapamento, subwoofer, uns neons na cara, um verdadeiro showroom na superfície mas basicamente um chevette tunado, inclusive emocionalmente.


Tão recauchutadas emocionalmente que você é capaz de traçar toda a bibliografia do Freud a partir das suas tatuagens:


Borboleta

Gnomo

Cogumelo

Coruja

Leão

Lobo

Caveira

Caveira Mexicana

Símbolo Feminista

Torre Eiffel entre os seios

Cobrinha entre os seios

Cobrinha em volta do braço

Cobrinha na costela

Cobrinha na cobrinha por cima da cobrinha

Aquela mão idiota contra mal-olhado

Apanhador de Sonhos

Chave vintage

Mandala

Coração


E claro, o horror dos horrores, o salmo bíblico em lugares não previstos na bíblia.


Os homens não ficam longe embora tudo trata-se apenas da falta de originalidade e de tentar provar masculinidade e escancarar a falta dela:


Tribal

Carpa

Dragão

Arame farpado

Beija-Flor

Andorinha

Âncora

Farol


Quando o xaveco funciona (sim, xaveco) os tops e as tops se casam a primeira atitude é criar um perfil no Instagram para o filho, que será monitorado pela mamãe.


O extintor neste tipo de festa geralmente é pintado de uma cor para combinar com o ambiente, se algo acontecer as pessoas, todas tops, jogarão champanhe para apagar as faíscas da bebida que pisca.


E se a festa pegar fogo porque não tem alvará?

Todos pularão na piscina e será TOP.


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A balada onde ninguém sabe o que está fazendo ali é bem simples, se ninguém sabe o que está fazendo ali é porque essa é uma balada alternativa.


E o que faz uma balada ser alternativa? Mais simples ainda: ela é a soma exata das três baladas anteriores.

Por isso a confusão com o termo "alternativo" ou "underground", palavras tão mal usadas quanto "light" e "diet".


Décadas atrás a balada alternativa também era chamada de GLS de Gays, Lésbicas e Simpatizantes, que eram chamados de gays enrustidos tanto por quem não simpatizava quanto por quem era gay ou lésbica. Com o tempo os simpatizantes foram excluídos mas o número de opções aumentou bastante e hoje você pode ser um LGBTQQICAAPF2K+ de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queer, Questionando, Intersexuais, Curioso, Assexuais, Aliados, Pansexuais, Polissexuais, Familiares, 2-espíritos e Kink. Quanto mais tentam se destacar mais ressentidos se tornam, são coloridos por fora e cinzas por dentro.


Mas apesar do espírito monocromático espiritual a balada alternativa é definitivamente diversificada e representa o sincretismo, a globalização, uma paella humana: os que não sabem as letras das músicas, os que sabem, os casados que queriam estar solteiros, os solteiros que queriam estar casados, os que batem foto e vão embora, os que não batem foto nunca, os héteros que queriam ser gays e os gays que queriam ser mais gays ainda, heterofóbicos escandalosos e homofóbicos disfarçados, héteros poligâmicos e homossexuais católicos, lésbicas de novela e lésbicas de colégio, os virgens que sonham com lésbicas que sonham com homens casados, os bissexuais incompreendidos por todos, os cultos de balcão, vegetarianos fumantes e praticantes de yôga alcoólatras, comunistas com cartão de crédito e capitalistas com mensagens na camiseta, góticos coloridos e emos deprimidos, o revoltado com roupa de grife rasgada, a revoltada com piercing de touro e mais importante: os camaleões de festa.


Eles são incríveis, usam sapato na balada alternativa um mas tênis surrado na balada alternativa dois ou salto alto na balada um e sapatilha velha na balada dois.


O sorriso acompanha o calçado, na um estão sempre alegres, na dois o sorriso é igual pós cirurgia do siso.


O clima é de velório com som alto no início, comício com som alto e álcool no meio, e protesto com som alto, álcool, gritaria e vômito no fim.

E drogas ruins.


Discutem política transando sem camisinha e denunciam como assediadores as pessoas que eles mesmos assediaram.


Quando não vai ninguém em uma balada alternativa ou underground todo mundo comenta como faz tempo que ninguém aparece por lá e quando enche todo mundo fala como faz tempo que está assim cheio e insuportável.


Dresscode: imite os outros ao seu redor ou vão te perguntar a noite toda porque você usa apenas jeans e camiseta.


O perfil de DJ e o perfil de casal nas festas alternativas é o mesmo em essência: quanto mais descabelados mais legais eles parecem ser.


Nem sempre dá certo.


E se a festa pegar fogo porque não tem alvará?

Gente, que BAD, pensa num calorão daqueles e todo este glitter derretendo.


Se você encontrar alguém assumidamente alternativo (light? diet?) em uma das três baladas anteriores pode acreditar: ele não vai te olhar nos olhos e se olhar estará escrito na retina "eu te mato se você contar para alguém".


Assim é o sextou no Brasil, uma grande balada segregada rançosa e cheia de si, onde apenas cem metros longe de onde você está já é outro mundo com outros códigos e outras infinitas futilidades.


Pode ser divertido agora, mas em algum momento você vai ter de aprender a amar as segundas-feiras e dar mais valor para as músicas que só você ouve, sozinho, no seu canto.



Se você gosta realmente de música você já chorou, riu, gozou, brigou e lembrou e sentiu saudades ouvindo pelo menos uma. Às vezes uma mesma música já testemunhou tudo isto e mais ainda, tudo ao mesmo tempo. Uma música fazer você sentir ter sido feito pra ela é muito mais justo e humano que se apropriar dela e dizer que ela parece ter sido feita pra você.


Eu simplesmente tenho medo, pavor, angústia de gente que não tem uma música favorita, um livro especial, um filme que não esquece e digo mais, as melhores pessoas que passaram pela minha vida tem muito mais que isto: lembram quando ouviram uma música pela primeira vez ou quando escutaram um album por horas, dias e meses sem enjoar, sabem dizer porque aquele livro é tão importante e podem ficar horas falando sobre isso ou aquela cena daquele filme.


As pessoas mais legais do mundo inclusive não têm apenas uma música, um filme, um livro, tem vários.


Sua vó não te dizia que você é o que come?


Você é também o que ouve, lê, assiste e muito mais ainda: Você é também o que deixa de ouvir, de ler e de assistir.


E frequentar.


Aliás, por falar em xaveco, lembrei de uma história muito legal e outras nem tanto sobre o tema, mas todas com uma solução, a carta Chorão, esta mesma, ele mesmo, segue.


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