ENSAIO 85: MARILYN MONROE
- LFMontag

- 2 de set.
- 6 min de leitura
Atualizado: 4 de set.

Foto: Montag
Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.
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03/09/2025
MARILYN MONROE
Toda insônia infantil será perdoada.
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Em 1955 o escritor John Steinbeck escreveu uma carta para Marilyn Monroe pedindo uma foto de si mesma autografada, supostamente para o seu sobrinho por afinidade, Jon Atkinson, então com 17 anos.
A referida carta é a seguinte:
Dear Marilyn:
In my whole experience I have never known anyone to ask for an autograph for himself.
It is always for a child or an ancient aunt, which gets very tiresome, as you know better than I.
It is therefore, with a certain nausea that I tell you that I have a nephew-in-law who lives in Austin, Texas, whose name is Jon Atkinson.
He has his foot in the door of puberty., but that is only one of his problems. You are the other.
I know that you are not made of celestial ether, but he doesn't.
A suggestion that you have normal functions would shock him deeply and I'm not going to be the one to tell him.
On a recent trip to Texas, my wife made the fatal error of telling Jon that I had met you.
He doesn't really believe it, but his respect for me has gone up even for lying about it.
Now, I get asked for all kinds of silly favors, so I have no hesitation in asking one of you.
Would you send him, in my care, a picture of yourself, perhaps in pensive, girlish mood, inscribed to him by name and indicating that you are aware of his existence.
He is already your slave.
This would make him mine.
If you will do this, I will send you a guest key to the ladies entrance of Fort Knox and, furthermore, I will like you very much.
Yours sincerely,
John Steinbeck
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Insônia é algo tão desgraçado que a mitologia grega sequer toca no assunto de forma direta ou possui alguma representação, não existe deusa da insônia com asas e chifres, rabo de cavalo e cabeça de bode, três pernas e cabelos de serpente, nada, no máximo algumas passagens em algumas tragédias onde alguns personagens dizem não conseguir dormir pois alguns deuses negaram o descanso como forma de castigo.
Temos Hypnos (ou Somnus, em Roma), o deus do sono, filho de Nix (a Noite) e irmão gêmeo de Tânato (a Morte), representado como uma figura serena capaz de adormecer homens e deuses, e Morfeu, o deus dos sonhos, mas nada de Insomnus.
E antes da virada do século (já podemos falar assim por aqui), nem toda casa tinha TV colorida, e se tivesse nem todos os filmes eram coloridos e, depois da meia-noite, absolutamente nada era indicado para crianças, fossem elas insones ou não: em um canal era filme de máfia e bandido, no outro era o Fausto Silva pintando peitos femininos com tinta guache, no outro era filme de terror e no outro ainda uma mistura de filme de máfia e bandido, violência, peitos de fora e terror.

Por exemplo, no filme de 1973 do diretor Arnaldo Jabor, Toda Nudez Será Castigada (baseado na peça teatral de Nelson Rodrigues em 1965), Herculano é um viúvo rico e conservador, dominado pelo luto e pela culpa, vivendo sob a influência do irmão, Patrício, representando o moralismo e a rigidez religiosa e seu filho, Serginho, adolescente ressentido e controlador, e que ainda deseja ver o pai preso à memória da mãe morta.
Essa estrutura familiar se rompe quando Herculano conhece Geni, uma prostituta de origem humilde e cuja sensualidade direta e sincera contrasta com a hipocrisia dominante na casa da família.
Seduzido e ao mesmo tempo atormentado pelo relacionamento, Herculano se envolve com ela mesmo com as pressões contrárias de Patrício e rejeição de Serginho e Geni, apesar de sua vida marginalizada, revela-se frágil, desejando aceitação e amor; sendo condenada pela sociedade ao redor, transformando-a em símbolo de pecado e degradação, aumentando os conflitos familiares, com Serginho vendo em Geni uma ameaça à muito suposta pureza da casa, e Patrício alimentando o discurso de que além do desejo, toda nudez, será castigada.
Quando Herculano resolve se casar com Geni uma série de conflitos causa até mesmo a prisão de Serginho por uma briga de bar (quando é estuprado por um ladrão boliviano, a ponto de precisar ser operado) e então trama caminha escalando para a tragédia: Herculano, dividido entre paixão e culpa, se deixa corroer pelo ambiente moralista e opressor; Geni é destruída pelo julgamento, pela rejeição e por ter se tornado bode expiatório das frustrações familiares; e Serginho e Patrício triunfam no abismo ao reafirmar o poder da moral repressiva ao custo da ruína afetiva de Herculano e da morte simbólica de Geni.
Como em praticamente todas as outras peças de Nelson Rodrigues, o final não liberta mas traz a constatação de que o desejo sufocado pela hipocrisia, conduz inevitavelmente à destruição.
Depois de ser libertado, Serginho torna-se amante de Geni para vingar-se do pai, vingança breve pois Geni se suicida, deixando uma fita gravada narrando toda a história, e Serginho foge com o ladrão boliviano que o estuprou.
Isso definitivamente era muito para uma criança insone, mas nada pior que ter a sua primeira decepção amorosa ainda na primeira infância, e justo com a Marilyn Monroe.
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O roteiro pessoal era o de sempre: aos seis ou sete anos de idade eu esperava todo mundo dormir, voltava pra sala e ligava a TV.
Nem sempre ela aparecia, mas quando aparecia ela era só minha, em preto e branco, sorrido e cantarolando, se exibindo e sorrindo mais.
No filme Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot), de 1959, dirigido por Billy Wilder, dois músicos durante a Lei Seca nos Estados Unidos, Joe (o ator Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon), presenciam um massacre da máfia em Chicago e para fugir dos criminosos se disfarçam de mulheres, entrando para uma banda feminina que está viajando para a Flórida.
Na viagem, Joe se aproxima da cantora Sugar Kane (Marilyn Monroe), que sonha em casar com um milionário (mas sempre acaba se envolvendo com homens errados), e conquista sua amizade e mais tarde assume também um segundo disfarce de milionário para seduzi-la.
Enquanto isso Jerry, ainda disfarçado de mulher, chama a atenção de um verdadeiro milionário, Osgood Fielding III (o ator Joe E. Brown), que apaixonado começa a segui-lo de forma insistente e o clímax acontece quando a máfia descobre os dois e tenta capturá-los.

Após perseguições e confusões, eles conseguem escapar com a ajuda de Osgood, que leva Jerry para seu iate e, na cena final, Sugar decide ficar com Joe mesmo sabendo agora do seu disfarce e um Jerry desesperado de vestido e peruca tenta explicar que não pode se casar, listando várias razões (seguidamente rejeitadas por Osgood), até cansar e revelar ser um homem.
Sem se assustar, Osgood responde calmamente com a frase icônica:
- Ninguém é perfeito.
Encerrando assim o filme com um toque de ousadia e ambiguidade históricas no cinema.
E no filme inteiro apenas uma certeza, Marilyn Monroe em preto e branco.
Quanto mais quente melhor, quanto mais aparecia e quanto mais reprisava em preto e branco, mais eu me apaixonava.
Mas em uma dessas noites de insônia mirim ela apareceu colorida em outro filme e meu mundo ruiu, eu podia jurar que ela era monocromática na vida real e seria assim para sempre.
Podia jurar também que um dia me casaria com uma mulher em preto e branco e eu, sendo um pai tristemente colorido, nossos filhos seriam mestiços em Technicolor.
Mas não, Marylin era colorida, como todas as outras mulheres.
Que decepção.
Freud não teve tempo de analisar isso, mas com toda certeza chamaria de “O tabu do amor monocromático”.
Em um mundo de filtros digitais e corantes artificiais, uma mulher em preto e branco ainda tem seu charme.
E se toda nudez será castigada, toda insônia infantil será perdoada.

Mas mulheres coloridas foi fácil de lidar, de tirar o sono mesmo foi descobrir que um brasileiro muito querido de todos nós causou a Primeira Guerra Mundial.
Mas antes ainda quero falar de uma conspiração mundial envolvendo enfermeiras, múmias, presépios, psicólogas e dentistas.
E Iron Maiden.
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Em tempo, sessenta anos depois de sua secretária ter digitado e enviado, a carta de John Steinbeck foi leiloada por 3.500 dólares durante a venda do espólio do professor de atuação de Marilyn, Lee Strasberg.
Marilyn, que tinha sido casada com o escritor e dramaturgo Arthur Miller, parece ter guardado o pedido bem-humorado de Steinbeck até sua morte prematura em 1962.
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Cápsula indesejadas saltitantes do tempo.
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Ethan Zuckerman pediu desculpas.
Na década de 90 Ethan escreveu o código que introduziu os anúncios em pop-up no mundo online, como uma forma de exibir anúncios separadamente do conteúdo, acreditando que seria uma experiência melhor para os anunciantes e os usuários ao mesmo tempo, sem poluir as páginas (nem um Cavalo de Troia carregaria tanta ironia).
Anos depois reconheceu arrependido o quanto os pop-ups mudaram a maneira como as pessoas interagiam com a web.
Em suas palavras:
At the end of the day, the business model that got us funded was advertising. The model we ended up with was advertising, and we ended up creating one of the most hated tools in the advertiser’s toolkit: the pop-up ad. I wrote the code to launch the window and run an ad in it. I’m sorry. Our intentions were good.
Ele se desculpou em 2014 mas eu só soube disso hoje cedo e também não me interessa, leve estes 11 anos de rancor retroativo, pois eu não te perdoo, Ethan.
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