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ENSAIO 86: IRON MAIDEN

  • Foto do escritor: LFMontag
    LFMontag
  • 2 de set.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 16 de set.

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Foto: Montag


Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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16/09/2025


IRON MAIDEN


Uma conspiração de enfermeiras, múmias, psicólogas e dentistas.


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O trauma geracional acontece quando experiências dolorosas vivenciadas (pessoais ou coletivas) continuam ecoando nas gerações seguintes, mesmo que estas muitas vezes não tenham nem mesmo conhecimento sobre os acontecimentos anteriores diretamente.


Isso ocorre tanto em famílias quanto em grupos sociais maiores onde marcas deixadas por violência doméstica, guerras, escravidão, pobreza ou perseguições raciais, étnicas e religiosas permanecem latentes e o sofrimento, nesse caso, não desaparecem com o tempo e se manifestam de formas sutis diárias ou rompantes de reatividade explícita.


O processo de transmissão ocorre de diferentes maneiras com padrões nocivos de comportamento e relacionamento aprendidos dentro do grupo, valores baseados no medo ou na desconfiança e reações emocionais intensas a situações que lembram o trauma original; estudos de epigenética inclusive sugerem que experiências traumáticas podem alterar a forma como certos genes se expressam, reforçando ainda mais a presença desse legado no corpo e mente dos descendentes, uma espécie de sofrimento herdado por procuração.


Na prática o trauma geracional ajuda a explicar os motivos pelos quais muitas famílias ou comunidades vivem e revivem ciclos de violência, ansiedade e reatividade sem motivações ou explicações claras no presente; pequenas atitudes, comportamentos rígidos e repetitivos, dores antigas e reações desproporcionais enraizadas em histórias de sofrimento coletivo que dificultam o rompimento destes padrões.


Um exemplo curioso dessa relação entre frustração, raiva e expressão simbólica pode ser visto na história do brinquedo Jibba Jabber, lançado pela empresa Ertl nos anos 1990; ao ser chacoalhado pelo pescoço o boneco emitia um som semelhante a alguém sendo estrangulado, e com a popularidade logo perceberam que muitas crianças descarregavam nele a sua fúria contra os pais, professores ou autoridade em geral, uma forma inconsciente de externalizar tensões ou reflexos de um possível trauma geracional e, apesar das tentativas posteriores da empresa de transformar o marketing em conscientização contra a violência infantil, a proposta não funcionou e o brinquedo acabou descontinuado.


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SOMENTE LIVRO.


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Em 1985 inflação atacava por todos os lados mas eu era criança e não estava nem aí, eu só queria saber de múmias e caveiras, pedi uns 3.000 dinheiros de dia das crianças e me dei o disco Powerslave do Iron Maiden de presente.


Eu estava há umas duas semanas indo naquela loja ficar olhando aquela capa: um funeral egípcio, colorido, umas múmias mal encaradas e todo mundo muito bem vestido.


Não sei explicar o que senti quando ouvi pela primeira vez, só sei que era bom, pelo menos para uma criança solitária parecia perfeito e eu amava aquela capa, ficava o dia todo olhando o encarte com os caras da banda dentro de uma sala com o sarcófago da múmia, ela querendo sair, e a Dona Morte atrás fazendo sombra e pronta para pegar todo mundo de surpresa.


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Bom, como a morte já fazia parte da minha vida, me identifiquei.


Quando viva minha mãe era enfermeira e atendia as pessoas nas casas delas também, então ela estava sempre cheia de estojos e gases e seringas para lá e para cá; e quando ela morreu ficou tudo numa caixa que eu mexia de vez em quando sem propósito nenhum, até o Iron Maiden aparecer na minha vida.


Agora tudo fazia sentido, pegava meus soldadinhos de guerra GI Joe/Comandos em Ação, enrolava eles em gaze, colocava dentro dos estojos e fazia enterros atrás de enterros.


Nunca morreu tanto soldado de plástico na história do mundo quanto nessa época, aproveitava o embalo e pegava Jesus, Maria e José da caixa do presépio do natal para dar um ar religioso no negócio, somando uns cavalinhos, un cabritinhos, um burrinhos e três reis magos e as luzinhas coloridas completavam o clima.


E obviamente todo funeral tocava Iron Maiden.


Tinha estojo com soldado morto pela casa toda, uns eu conservei no congelador, outros embaixo da cama e os soldados mais famosos enterrei no quintal mesmo, com a ajuda não muito útil do meu cachorro, que tentava resgatar alguns ou

apenas pisotear o velório todo.


Óbvio que ninguém na minha família gostava dessa cena além de mim e do meu cachorro então resolveram me levar numa psicóloga, quando as coisas começaram a ficar interessantes e, pela primeira vez na minha vida, aprendi a negociar.


A sutileza era zero, a psicóloga perguntava sem freio nem pudor:


- Você pensa em morte o tempo todo né, por causa da morte da sua mãe né.


E eu:


- Sim.


E ela:


- Você tem trauma né, você viu a tua mãe morta né, por isso você é triste né.


E eu:


- Uhum.


E ela:


- Você tem medo de morrer né, por isso você enterra seus amiguinhos né.


E eu:


- Aham.


Para cada sim, uhum e aham respondido ela me dava uma bala ou chocolate, se a pergunta era mais escabrosa e a resposta tanto quanto eu ganhava até brinquedo.


Quanto mais tristeza e medo eu demonstrava, mais doce ganhava, talvez fosse essa a psicologia infantil nos anos 80, eu fazia a psicóloga triste, ela me fazia feliz.


A doutora dos sacos de doces, literalmente me ensinou a chorar para ganhar as coisas, como se isso fosse necessário para uma criança e todos os doces fossem da marca Pavlov, fez de mim um cão farejador de doces e traumas, por pura incapacidade de ouvir uma criança de verdade antes de perguntar qualquer coisa cuja resposta já parecesse pronta.


Mas eu não estava lá para julgar nem compreender, eu era apenas uma criança e tudo tratava-se basicamente de uma espécie de livre mercado da psicologia: Eu dizia o que ela queria ouvir, eu ganhava doce; ela mantinha o emprego dela e eu

ganhava brinquedo.


Eu não pensava na minha mãe, eu apenas gostava da capa daquele disco, que culpa tenho eu se o destino me deixou de herança estojos de metal e gazes que serviram perfeitamente para enterros de soldados de brinquedo?


Mas a psicóloga não queria ouvir isso e no fundo eu estava mais tratando ela que ela cuidando de mim.


Fosse instinto maternal, fosse pena, compreensão ou solteirice, ela pedia para sempre ficar mais tempo comigo além do regularmente pago de uma sessão e no auge da fantástica fábrica de traumas infantis (e possivelmente estimulado pelo excesso de açúcar no sangue) disse que meu maior desejo era ver a minha mãe morta na capa de um disco do Iron Maiden, como uma múmia famosa.


E então levei o tal disco para ela ver.


Lembro dela não querer segurar a capa nas mãos e de dizer algo parecido como:


- Você sabe que eles não têm deus no coração né.


E eu:


- Aham.


“Concorde sempre e os doces virão” era tudo o que o meu coração dizia.


Nunca menti tanto a minha vida pelas melhores das piores intenções e nunca ninguém fingiu tanto acreditar em mim pelas melhores das piores motivações.


Por sorte ela custava caro, minha madrinha não podia pagar, essa tortura açucarada imposta durou poucos meses e pude voltar em paz para os meus velórios ecumênicos egípcios, cristãos, metaleiros.


Se meus traumas originais foram resolvidos eu duvido, mas criaram outro: medo de dentista, tanto doce e chocolate de psicóloga me deram as primeiras cáries.


E no dentista ninguém te dá chocolate em troca se você chora.


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Hoje vejo esse episódio como uma conspiração de enfermeiras, múmias, psicólogas e dentistas; morte, assombrações, terapias inócuas e obturações, e de fato quando todo mundo tinha Xuxa Hits em casa, as minhas memórias infantis mais alegres eram estar sozinho encarando uma capa de esfinges ouvindo um cabeludo de franja gritar sobre segunda guerra, guerra fria, honra, vingança, espionagem, faraós e marinheiros.


E assim os anos começaram a passar mais rápido, de uma criança insone para um adolescente perturbado e metaleiro sem saber a hora de dormir.


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SOMENTE LIVRO.


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Mas mal saberia eu que aquele gordinho querido que me alegrava na infância depois das onze e meia da noite me tirou o sono de vez quando descobri ter sido ele o responsável pela primeira grande guerra.


Mas espera, antes eu quero falar do dia mais triste da história da humanidade.


Mas podemos falar sobre a invenção do amor também.

E um pouco sobre lobos.


E que os ursos, provavelmente, descobriram o fogo.

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Cápsulas de Conteúdos Caninos Saltitantes do Tempo.


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Uma senhorita chamada Babi Palomas, de 24 anos e natural de Pindamonhangaba (SP), viralizou nas redes sociais ao revelar ter perdido clientes após descobrirem sua vida dupla: de manhã levava cães para longos passeios mas à noite trabalhava online como criadora de conteúdo adulto voltado para o público masculino, o que segundo ela lhe garantia independência financeira.


Dog walker de dia, doggy style de noite.


Tudo mudou quando uma cliente descobriu sua atividade paralela, a dona de um bulldog francês chamado Trumpinho cancelou imediatamente o serviço, alegando desconforto com sua vida online e para Babi a experiência foi dolorosa, pois sentiu que todo o amor e dedicação pelos cães foram ignorados em função do preconceito contra sua outra ocupação.


Eu apenas pensei que se uma pessoa tem um cachorro chamado Trumpinho, ela também tem vida dupla.


Make Dog Walker Porn Again.


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Por falar em doguinhos, os comentários na internet são sempre uma loteria, geralmente garantia de azia e enxaqueca mas alguns momentos alegram o dia.


Por exemplo, um portal mostrou um vídeo da primeira experiência de um dachshund brasileiro que imigrou com a dona para o Canadá e vendo a neve pela primeira vez, literalmente pulando de alegria.


O primeiro comentário era de uma mulher que escreveu:


- Gostou tanto que já se adaptou e virou um mini-canguru.


Mas outra mulher respondeu:


- Mas cangurus são na Austrália.


Ela não se abalou e replicou:


- Ai verdade, me empolguei com os pulos dele e confundi.


A internet precisa desse tipo de fofura e humildade, mas na verdade isso não esconde o fato de que na Austrália existem cerca de 36,5 milhões de cangurus, enquanto a população do Uruguai é de aproximadamente 3,42 milhões de pessoas.


Se cangurus australianos invadirem o Uruguai, cada cidadão uruguaio terá de lutar contra pelo menos 10 cangurus.


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Morreu o Hermeto Pascoal, o céu todo agora é um instrumento, e todos os anjos sacolejarão.


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