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ENSAIO 88: JÔ SOARES

  • Foto do escritor: LFMontag
    LFMontag
  • 6 de out.
  • 16 min de leitura

Atualizado: 22 de out.

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Foto: Montag


Se você está aqui pela primeira vez este ensaio faz parte de um livro sendo escrito em tempo real seguindo a narrativa do fluxo de consciência, se te interessar acompanhar o processo comece pelo primeiro.



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22/10/2025


JÔ SOARES


Precisamos falar sobre sanduíches, e mais mentiras que atravessam séculos.


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Não basta ter medo do alemão do sabão, quando eu era criança eu ficava acordado para ver uma figura muito querida da nossa história e mal sabia eu que o mesmo cara, depois de tirar o meu sono na infância, também tiraria pelo resto da vida por ter sido ele o grande causador da Primeira Guerra Mundial.


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A primeira vez que eu entrei em uma loja da Subway eu pedi: pão parmesão e orégano, recheio BTM (salame, pepperoni e presunto), queijo prato, adicional de queijo cheddar (sem tostar o pão por favor), alface e tomate, molho parmesão e molho chipotle e pimenta calabresa.


Uma única vez eu mudei de ideia e pedi um de almôndegas que invariavelmente teria de ser esquentado e depois me vi comendo um pão seco com carne e molho vermelho e queijo derretendo, e mesmo que estivesse comendo sozinho em casa (não estava) a cena seria (foi) desagradável e o gosto não compensou.


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O nome Gabriel tem origem hebraica e significa “força de deus” ou “homem de deus”, derivado de Gavri’el e formado pela junção de "Gever" (homem, guerreiro) e "El" (deus) e aparece na bíblia na figura do Arcanjo Gabriel (anjo de hierarquia superior, encarregado de missões especiais delegadas diretamente pelo criador), mensageiro divino que anuncia importantes revelações (como o nascimento de Jesus a Maria) e aparece pela primeira vez numa menção no Livro de Daniel, na bíblia hebraica, para quem esclarece o significado profético das suas visões.


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Em algumas tradições é tido como a personificação do espírito santo e em outras como anjo da morte.


No judaísmo, ele é o príncipe do fogo que destrói as cidades decadentes de Sodoma e Gomorra pois ele é anjo de esperança e da misericórdia mas também guerreiro e, quando necessário, o anjo da vingança; na religião cristã é o anunciador da vinda palavra, que anuncia a encarnação do verbo divino e traz a justiça e a verdade, mas também o amor e a fraternidade; e no islamismo é ninguém menos que o espírito repleto de fé quem dita as palavras do alcorão a Maomé.


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Se colegas de trabalho são transtornos ambulantes com suas gavetas de comida, ovos cozidos, marmitas requentadas e copinhos de café, os simples sanduíches podem causar encrenca até fora da terra.


⁠John Young foi o astronauta mais tempo de serviço na história da NASA e desde seu primeiro voo, em 1965, passou 835 horas no espaço e também caminhou na Lua, uma carreira quase descarrilada por causa de um sanduíche.⁠


Uma quantidade, perdoe o termo, astronômica de tempo e dinheiro é investida para alimentar os astronautas da NASA, uma comida não necessariamente saborosa mas segura, e no espaço comida segura significa ser compacta pois em um ambiente fechado e sem gravidade, partículas de comida são um risco, podendo danificar equipamentos ou serem inaladas acidentalmente.⁠


Mas John Young não estava pensando nisso em 23 de março de 1965, quando aceitou de presente um sanduíche de carne enlatada de seu colega (o famoso e brincalhão Wally Schirra), guardou dentro do traje espacial e embarcou na espaçonave para a missão Gemini 3, que duraria quase cinco horas, em sua primeira viagem ao espaço.


Durante uma pausa em órbita tirou o sanduíche do bolso e deu uma mordida, soltando migalhas que poderiam ser perigosas para os equipamentos da nave, e a NASA não curtiu a brincadeira, as migalhas foram recolhidas e aspiradas e Young levou uma bronca mas não foi punido formalmente.


Tudo correu bem pelo menos até o congresso saber do acontecido e a NASA teve de prestar esclarecimentos sobre o incidente, com o astronauta recebendo uma repreensão formal e a agência passando a proibir alimentos soltos em missões e, ao que consta, até mesmo revistando os futuros astronautas das missões seguintes.


Apesar do puxão de orelha, Young continuou com uma carreira gloriosa, sendo o primeiro a voar em seis missões espaciais, comandante da missão Apollo 16 e depois da primeira missão do ônibus espacial Columbia em 1981.


Não tão gloriosa quanto a vida de Sissi ou o passado da Argentina mas ao menos não tão desastrado quanto o sanduíche do Jô e o anjo da morte Gavrilo, not great, not terrible.


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Como todo país que já foi uma grande nação um dia, a Argentina tem um passado glorioso e muitas vezes obscuro, fazendo dos argentinos grandes contadores de histórias, causos e fofocas, as quais mesmo sem comprovação merecem ser contadas.


Uma delas consta em uma versão alternativa da terra prometida na bíblia aos judeus, e diz que os mesmos não poderiam ou deveriam voltar para Israel mas sim procurar outra terra para morar e povoar, sendo algumas dessas opções a Uganda, uma suposta compra do estado de Utah nos Estados Unidos e a região da patagônia argentina, e se verdade isso diz muito sobre o poder do país no início do século passado.


Outra fofoca relata sobre o maravilhoso prédio Otto Wuff em Buenos Aires, na esquina das ruas Belgrano e Peru, conhecido por nunca ter sido ocupado pelas sua motivações originais: embaixada do Império Austro-Húngaro.


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Sissi, ou Elisabeth da Baviera, foi imperatriz da Áustria e rainha da Hungria, nascida em 24 de dezembro de 1837 e casando-se aos 16 anos com o imperador Francisco José I da Áustria, tornando-se uma das mulheres mais poderosas de seu tempo.


Conhecida por sua beleza, inteligência e espírito livre, Sissi destoava do ambiente rígido da corte de Viena, obcecada por manter a forma física e por cuidados estéticos.


Fazia exercícios diários, seguia uma dieta rigorosa e tinha cabelos que chegavam aos pés; mas também sofria com melancolia e rebeldia contra as regras imperiais, eternizada duplamente como um símbolo de elegância e tragédia, viajava constantemente, buscava liberdade e contato com o povo e teve uma vida marcada por perdas familiares e solidão.


Construído entre 1912 e 1914, o edifício Otto Wulff pertence ao movimento arquitetônico Jugendstil – corrente do modernismo característica dos países germânicos, mas também tem traços dos estilos neogótico e renascentista, perceptíveis na grandiosidade da fachada com estátuas de cinco metros de altura, chamadas de atlantes, ou colunas em forma de homens.


As estátuas representam os trabalhadores da obra com traços aborígenes e crioulos mas três delas mostram feições europeias: uma personifica o arquiteto dinamarquês Morten F. Rönnow, outra o empresário Otto Wulff e a terceira seria uma homenagem à empresa construtora, de origem holandesa.


A construção foi resultado da sociedade entre o empresário alemão Otto Wulff e Nicolás Mihanovich, cônsul do então Império Austro-Húngaro, embora o edifício jamais tenha abrigado a referida delegação.


O prédio ainda possui ainda duas torres terminando em uma cúpula cada, encerradas em duas agulhas; uma delas possui um sol em seu extremo enquanto a outra leva uma coroa, e por esse motivo existe a teoria de que representam o imperador Francisco José e sua esposa, bem como a própria aliança entre Áustria e Hungria, e uma das piadas locais é que as colunas humanas foram feitas para segurar as frescuras da imperatriz, incluindo a recusa em pisar em solo e pisos argentinos, obrigando as comitivas a estender tapetes do porto até o prédio e construir segundos e terceiros andares para ela entrar sem passar pelo térreo e coisas desse nível, frescuras tais que segundo consta (fofoca-se) atrasaram os projetos, construção e conclusão da obra.


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Em 1898, Sissi foi assassinada em Genebra, esfaqueada por um anarquista italiano chamado Luigi Lucheni (em um ataque não planejado diretamente contra ela) e com o fim do Império Austro-Húngaro após a primeira guerra o edifício Otto Wulff ficou décadas vazio, e atualmente possui uma loja da Starbucks no térreo e nos pisos superiores está dividido em 56 unidades com oficinas comerciais e profissionais, principalmente escritórios de arquitetura.


Dependendo da localidade e loja os menus das unidades da rede Starbucks variam mas em geral os sanduíches do Starbucks incluem opções como baguettes, ciabattas e focaccias e também wraps e, especificamente nesta loja no Otto Wuff, você pode sentar nesta esquina olhando a Manzana de las Luces duas quadras ao lado, a primeira região iluminada da história da cidade e tudo isso em cima de dezenas, senão centenas, de túneis subterrâneos com suas lendas reais maravilhosas, assustadoras e um tanto escabrosas que fazem da história de Buenos Aires um grandioso e estranho legado mundial.


Tão grandioso e estranho quanto aquele episódio causado por um sanduíche de esquina e o mundo nunca mais foi o mesmo e sim, por culpa do Jô Soares.


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Moritz Schiller não estava interessado em criar um estado judaico na Bósnia, era apenas um comerciante judeu operando uma mercearia na esquina da Appel Quay com a rua Franz Josef, nomeada em homenagem ao Francisco José I, esposo de Sissi e tio-avô do arquiduque Francisco Ferdinando, o herdeiro presuntivo do trono, ou seja, o próximo imperador se Francisco falecesse.


Gavrilo Princip nasceu doente no remoto vilarejo de Obljaj perto de Bosansko Grahovo (que parece ser longe também), provavelmente em 25 de julho de 1894, o segundo dos nove filhos de seus pais, seis dos quais morreram na infância.


A mãe de Princip, Marija, queria batizá-lo com o nome de seu falecido irmão, Špiro, mas Gavrilo foi insistência de um padre ortodoxo local, cujo conselho de dar ao bebê o nome do Arcanjo Gabriel o ajudaria a sobreviver; e seus pais eram agricultores pobres vivendo das pequenas terras que possuíam e frequentemente oprimidos pelos seus proprietários muçulmanos.


Apesar da oposição inicial do pai, pois precisava de um pastor para guardar as ovelhas, Princip começou a frequentar a escola primária em 1903 aos nove anos e aos 13 mudou-se para Sarajevo onde seu irmão mais velho, Jovan, pretendia matriculá-lo na Academia Militar Austro-Húngara mas mudou de ideia depois de ouvir um conselho de um lojista a não fazer de seu irmão mais novo "um carrasco de seu próprio povo", e Gavrilo foi matriculado na Escola de Comerciantes.


Após a anexação da região pelo império austro-húngaro em 1908, a Bósnia, tal como os outros estados eslavos do sul sob domínio imperial, buscava a separação e independência e como resultado surgiram vários grupos de estudantes interessados ​​em movimentos como o nacionalismo romântico, o niilismo ou o anti-imperialismo, assim como as escritas e livros socialistas, anarquistas e comunistas.


Em 1911 Gavrilo se formou na quarta série e se juntou à Jovem Bosnia, uma sociedade com membros dos três principais grupos étnicos bósnios buscando a libertação do domínio austro-húngaro e a unificação de todos os eslavos do sul em uma nação comum; alguns acreditavam que o recém independente Reino da Sérvia, como parte ainda livre, era obrigado a ajudar a unificar os povos e como as autoridades locais proibiram os estudantes de formar organizações e clubes, Princip e outros membros da sociedade reuniram-se em segredo.


Durante seus encontros, discutiam literatura, ética e política e em 1913 (após o sucesso inesperado dos sérvios na guerra contra os otomanos) o governador militar austríaco da Bósnia, Oskar Potiorek, declarou estado de emergência: dissolveu o parlamento, impôs o regime marcial e proibiu todos os serviços públicos, culturais e culturais sérvios.


Gavrilo viu de seu amigo Nedeljko Cabrinovic um recorte de jornal anunciando a visita do arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa Sofia à Bósnia em junho, quando decidiu liderar um grupo de assassinos e atacar o arquiduque durante sua passagem oficial em Sarajevo e a Mão Negra (sociedade secreta com ligações à inteligência militar sérvia) forneceu armas e treino aos conspiradores antes de facilitar a sua reentrada no país, com cada um deles carregando duas bombas amarradas na cintura, além de revólveres, munições e uma garrafa de cianeto nos bolsos.


Às 10h10 da manhã do dia 8 de junho de 1914 o carro de Francisco Ferdinando se aproximou e Cabrinovic jogou sua bomba, ricocheteando na capota dobrada do conversível e caindo na rua.


O detonador cronometrado da bomba fez com que ela explodisse sob o próximo carro, colocando-o fora de ação mas ainda assim ferindo dezenas de pessoas.


Chegando à Câmara Municipal para uma recepção agendada, Francisco Ferdinando interrompeu o discurso de boas-vindas preparado pelo Presidente da Câmara local para protestar:


- Senhor Presidente da Câmara, vim aqui de visita e sou recebido com bombas, é ultrajante.


Francisco e Sofia desistiram do programa planejado em favor de visitar os feridos do bombardeio no hospital e ao sair o conde Harrach posicionou-se no estribo esquerdo do carro para proteger o arquiduque de qualquer ataque vindo do lado do rio na rua.


Depois de saber que a primeira tentativa de assassinato não teve sucesso, Princip decidiu mudar-se para uma posição em frente a uma loja de alimentos próxima no Starbucks digo, Subway não, Schiller, para comer um sanduíche e, quando o motorista do arquiduque seguiu sua rota o governador Potiorek (que dividia o terceiro veículo com o casal imperial) pediu para o motorista parar, pois ele estava indo na direção errada e ao tentar engatar a marcha à ré o destino acidentalmente desligou o motor perto de onde Gavrilo estava, que se aproximou do estribo do carro e atirou em Francisco Ferdinando e Sofia à queima-roupa, a primeira bala ferindo o arquiduque na veia jugular e a segunda causando um ferimento abdominal na duquesa.


Logo após acertar o casal Gavrilo tentou atirar em si mesmo, mas foi imediatamente apreendido e preso e em seu julgamento afirmou que sua intenção era matar o governador Potiorek, e não Sofia.


Porra Gavrilo, tua mãe não te deu esse nome para você bancar o anjo da morte.


Além de ser um dos episódios mais estudados e comentados da história das guerras e geopolítica mundial, também existem trabalhos acadêmicos e até mesmo vídeos no YouTube comentando e mostrando receitas imaginando qual sanduíche Gavrilo teria comido, com ingredientes comuns locais e da época, sanduíche este que nunca foi comido porque na verdade sequer existiu.


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José Eugênio Soares, conhecido como Jô Soares ou nosso querido Jô, nasceu em 16 de janeiro de 1938 na cidade de Rio de Janeiro e desde jovem demonstrou interesse pelas artes e pelo humor, ingressando no mundo do entretenimento ainda na década de 1950, quando iniciou sua carreira como ator e roteirista na televisão brasileira, destacando-se pelo talento multifacetado e pelo humor refinado e a sua inteligência e criatividade logo o tornaram uma das figuras mais admiradas da cultura nacional.


Ao longo das décadas seguintes, Jô se consolidou como um dos maiores humoristas, escritores e entrevistadores do Brasil; foi autor e protagonista de programas marcantes como “A Família Trapo” na TV Record e “Viva o Gordo” na Rede globo e o programa de entrevistas "Jô Soares Onze e Meia" no SBT (que eu sempre esperava e nunca começava onze e meia mas muito mais tarde) além de roteirista e diretor.


Sua versatilidade também se manifestou na literatura, com livros de sucesso como “O Xangô de Baker Street” e “Assassinatos na Academia Brasileira de Letras”, onde revelou sua habilidade como romancista e após o SBT o também programa de entrevistas “Programa do Jô” na Rede Globo o consolidou em um dos entrevistadores mais respeitados do país, combinando humor, erudição e empatia.


Entre outras curiosidades, Jô foi motoqueiro e a banda do seu programa na Globo, o Sexteto do Jô, era formada por uma turma maravilhosa: O pianista e maestro Osmar Barutti, o baterista e percussionista Miltinho, o guitarrista Tomati, o saxofonista e flautista Derico Sciotti, o trompetista Chico Oliveira e o sensacional (e de inesquecível gargalhada) baixista Bira, que provavelmente nunca teve problemas em cagar fora de casa.


Ao longo de sua vida, Jô Soares contribuiu profundamente para o humor, o jornalismo e a cultura brasileira, sendo lembrado não apenas pela irreverência mas também pela inteligência e sensibilidade com que tratava as pessoas e os temas que abordava, e faleceu em 5 de agosto de 2022, deixando um legado duradouro na história da comunicação e do entretenimento no Brasil.


Em toda a sua vida e desde jovem Jô viveu e estrelou em todos os tipos de aparelho de televisão que você pode imaginar, as CRT preto e branco dos anos 50 e coloridas nos anos 60 e 70, as famosas tubão de projeção traseira dos anos 80; as de plasma dos anos 90 e então as LCD dos anos 2000; LED e OLED em 2010 e mesmo após se aposentar em 2018 e falecer em 2022 ainda foi reprisado e seu rosto e humor apareceram também nas mais recentes QLED, Mini LED, MicroLED e 8K.


Jô fez e viu a história acontecer ao vivo, em preto e branco e a cores, e como todo bom gordinho gostava de uma boa comida, costumava cozinhar para os amigos e entendia do que comia e bebia mas, ao que tudo consta, nunca abriu um restaurante próprio (nem franquia da Subway ou Starbucks) e ainda assim 10 anos antes da sua morte, entrou estranhamente para a história por ter causado a primeira guerra.


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O sanduíche recebeu esse nome no século 18 em homenagem a John Montagu, o quarto Conde de Sandwich, que tinha o hábito de pedir a sua carne entre duas fatias de pão torrado para que pudesse almoçar jogando cartas ou em sua mesa de trabalho e simplesmente não há evidências de que sanduíches fizessem parte dos cardápios bósnios em 1914.


No documentário Days That Shook The World, de 2003 e exibido pela BBC, especialmente no episódio duplo "The Assassination of Archduke Ferdinand/The Death of Hitler", o narrador deixa claro:


After the failure of the bombing and Cabrinovic's arrest, they are now in a state of nervous confusion.


Of all of them, Gavrilo Princip has the most to consider, he is the driving force behind the gang and his special bond with Cabrinovic weighs upon his mind.


Although his friend did not succeed in killing the Archduke, at least he made the attempt, while Princip simply stood by.


Pondering his fate and the failed plan, Princip wanders off to buy a sandwich.


No livro "O Homem que Matou Getúlio Vargas", Jô Soares mistura personagens fictícios historicamente reais (tornando o seu texto uma estória dentro da história) e narra a trajetória de Dimitri Borja Korozec, filho de pai sérvio e mãe brasileira.


Dimitri seria um moço como outro qualquer se não fosse alguns detalhes: seu pai, anarquista ferrenho e membro de uma sociedade secreta, exerceu enorme influência sobre o filho o qual, anos mais tarde, filia-se a uma organização terrorista chamada Mão Negra, e tinha tudo para receber o certificado de Honra ao Mérito no cursinho para terroristas, não fossem dois problemas: ele possuía seis dedos em cada mão e era um desastre em pessoa.


Ainda assim ele foi escalado para matar Francisco Ferdinando e quando chegou quase à esquina do cais, bem em frente à Mercearia Schiller, choca-se com um rapaz que acaba de sair da loja comendo um sanduíche e o reconhece: Gavrilo Princip.


Fingindo surpresa, ele pergunta:


— Gavrilo! Há quanto tempo! Que fazes por aqui?


Gavrilo responde seco:


— Estou comendo um sanduíche.


E Dimitri retruca:


— Isso eu sei. Não me trates como criança.


Eles ficam em silêncio enquanto Gavrilo termina de comer, tira um lenço sujo do bolso para limpar as mãos e, quando abre o casaco para guardar o lenço, Dimitri vê uma pistola Browning enfiada no cós da calça.


Os dois seguem caminhos diferentes, andando em direções opostas, Dimitri Borja Korozec volta para seu ponto de emboscada no beco, esperando que Francisco Ferdinando continue com o restante de sua agenda, e Gavrilo Princip vai ao encontro de seu destino.


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Além de supostas pesquisas e receitas, em toda a internet existem comentários de pessoas, avós, filhos e netos, que contam com certo grau de certeza terem ouvido sobre o sanduíche de Gavrilo em suas juventudes e adolescências, nas salas de aula sobre a primeira guerra nos anos 60, 70, 80 e 90, e isso nos diz duas coisas a respeito: o próprio Jô pode ter ouvido isso na escola e apenas replicou em seu livro; e mitos nascem do nada, se tornando verdade na boca de quem replica, porque de acordo com escritor e historiador Mike Dash, as referências mais antigas registradas e documentadas são o documentário da BBC e o livro do Jô Soares e na verdade existe pelo menos um documento que alega justamente o contrário, os registros originais do julgamento do próprio Gavrilo Princip (publicados em servo-croata por Vojislav Bogicevic em 1954), e estudado por Gaius Trifkovic (especialista bósnio na Primeira Guerra Mundial e membro da equipe do Axis History Forum) que relata:


Princip apenas disse que estava nas proximidades da “ponte Latina” quando o carro passou.


Um certo Mihajlo Pusara, que conversava com Princip momentos antes do assassinato, também não menciona Princip comendo; o mesmo ocorre com Smail Spahovic, o guarda que se atirou sobre Princip antes que ele pudesse disparar o terceiro tiro.


Especialmente interessante para nós é o depoimento de um certo Milan Drnic, que na época estava em frente à porta do Schiller’s; a cerca de 6 passos de Princip e o viu claramente segurando sua Browning antes de esvaziá-la contra o arquiduque e a duquesa.


Nenhum sanduíche aqui também.


Maldito Jô Soares, causou uma guerra mundial antes mesmo de nascer, casualmente oferecendo uma pausa para um sanduíche inexistente para um jovem bósnio revoltado e esfomeado, dando oportunidade para ele coincidentemente estar justo na frente do Subway/Starbucks/Schiller na exata hora que o burro do motorista entrou na rua errada, deu a ré com o Francisco Ferdinando e esposa atrás e dar um tiro fatal que mudaria a história da humanidade.


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E eu me sentindo mal por ter mudado meu trajeto uma única vez por causa de um Subway de almôndegas e uma mentirinha sobre embalagens de alumínio.


E por falar novamente em culpa, é hora de falar novamente de algumase.

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Em tempo, é realmente discutível se a atitude de Gavrilo foi o grande estopim da Primeira Guerra Mundial, guerras mundiais são conhecidas por serem a soma de vários conflitos surgindo ao mesmo tempo e sendo disputados por grandes alianças por dezenas de motivações e causas, mas de fato o assassinato de Francisco Ferdinando foi a causa mais emblemática e propagada nos jornais.


Ao que percebemos não foi uma causalidade do momento, Gavrilo pensou em uma posição para assassinar o arquiduque em sua viagem de volta e assim o fez, provavelmente de estômago vazio, mas culpar o Jô continua na minha mente sendo a opção mais divertida.


No capítulo que justifica o título do livro, Dimitri Borja Korozec chega ao Brasil durante o governo Vargas e é contratado para matar o presidente, mas tudo dá novamente errado, ou talvez certo pois no momento em que Getúlio se suicida, o disparo coincide com as ações de Dimitri, fazendo parecer que ele foi o autor do tiro.


As autoridades e a imprensa o acusam de ser o assassino, e ele acaba preso, tornando-se famoso por um crime que não cometeu — uma ironia que resume sua vida de fracassos transformados em mal-entendidos e ironicamente realizado por ter feito algo que, de fato, não fez.


Jô Soares era genial.


Não se sabe se o Jô sabia ter sido o causador da primeira guerra, mas ainda existe uma possibilidade da gente descobrir, estou trabalhando nisso.


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Cápsulas de minha boca é um túmulo trocadas metanólicas do tempo.


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Uma jovem na cidade de Conceição em Minas Gerais foi presa após montar página de fofoca e extorquir moradores da região para não publicar informações íntimas dos mesmos.


Anielly Sousa cobrava entre 200 (pequenos delitos) a 500 (chifres e amantes fixas) reais para não divulgar as fofocas quentíssimas e os moradores desesperados se mobilizaram para descobrir quem era a pessoa por trás do perfil e então denunciar à polícia, que prontamente atendeu pois se existe uma instituição no Brasil cheia amantes e cornos e esqueletos no armário (e em outros lugares) é a nossa polícia.


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E por falar em esqueleto um homem argentino apareceu no próprio funeral, deixando os parentes sem entender de quem era o corpo que estavam enterrando.


O jovem de 22 anos, que não teve o nome revelado, estava em uma bebedeira de vários dias em Alderetes quando sua família o identificou erroneamente pelas roupas e características físicas e dado como morto, atropelado por um caminhão de cana-de-açúcar.


Eu não descobri quem era o morto de fato, e sei que você não vai tentar procurar também, e o Jô não tem nenhuma relação desta vez, mas seria uma ótima ideia para um livro dele.


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Ah, e muitas pessoas morreram por causa de metanol misturados nas bebidas vendidas nos bares e então prenderam uma quadrilha em São Paulo por adulterar os lotes com álcool de posto de combustível.


Mas o etanol automotivo não tem metanol, mas o posto de combustível (ou o fornecedor dele) adulterava o etanol adicionando metanol, e foi assim que o etanol adulterado com metanol chegou na vodka adulterada com etanol e metanol e um monte de gente morreu.


Jô Soares não escreveria algo assim, esta ideia está mais para o Caco Barcellos.


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